Oi, oi povo! Eis mais um capítulo, aproveitem. ^^
Daniela: Aproveite flor! ^^
Lembre-se, comentar nunca é demais!
Bjs e boa leitura!
Então esteve a ponto de voltar atrás porque, por alguma razão incompreensível, a senhorita Granger não descia correndo para a rua, mas sim voltava para a casa com passo firme.
— Maldita seja sua insolência! — ela gritou, dirigindo-se para a porta — Vou partir sua cara. Primeiro a porta, depois minha criada... e a carrugem. Isto é muito.
Snape se interpôs em seu caminho e protegeu com seu enorme corpo a entrada da casa.
— Não, nem pensar. Não sei e nem me importo com que tipo de jogo está jogando, mas...
— Jogo? — Hermione retrocedeu, plantou as mãos nos quadris e lhe dirigiu um olhar fulminante.
Bom, ao menos parecia fulminante, porque era difícil sabê-lo, entre a enorme asa do chapéu e a débil luz.
O sol não se pôs ainda, mas enormes nuvens cinzas inundavam Paris em densas trevas. ao longe Se ouviu o rugido de um trovão.
— Eu estou jogando? — repetiu ela — É esse valentão de seu lacaio, que segue o exemplo de seu amo, suponho, descarregando sua irritação sobre pessoas inocentes. Sem dúvida pareceu uma brincadeira estupenda atirar daqui o carro, com minha criada dentro, e deixar-me aqui plantada depois de me haver roubado o guarda-chuva.
Girou sobre seus calcanhares e se afastou digna. Se Snape interpretava corretamente aquele discurso, o mordomo tinha espantado à criada da senhorita Granger e ao veículo de aluguel que as tinha levado até ali.
Estava se aproximando uma tempestade. O criado havia levado o guarda-chuva dela e as possibilidades de encontrar uma carruagem livre aquela hora e com aquele tempo eram nulas. Ele sorriu.
—Adeus, senhorita Granger — disse — Que tenha um agradável passeio até sua casa.
—Adeus, lorde Snape — respondeu ela sem voltar a cabeça — Que passe uma agradável noite com suas vacas.
—Que vacas?
Só tentava provocar, pensou o moreno. Era uma penosa tentativa de arrumar as coisas. Dar-se por ofendido significaria que havia sentido a alfinetada. Disse a si mesmo que deveria rir e voltar...com suas vacas.
Mas com alguns passos furiosos se pôs ao seu lado.
— Do que se trata, puritanismo ou de inveja ? — perguntou —. O que é que a incomoda, seu ofício, ou simplesmente que são mais generosamente dotadas?
Hermione continou andando.
—Quando Bertie me contou quanto você paga, pensei que eram os serviços dessas mulheres que são terrivelmente caros — disse sem parar de andar — Mas acabo de compreender que estava enganada. Evidentemente, você paga pelo volume.
—Possivelmente o preço seja exagerado — replicou ele calmamente, enquanto suas mãos ardiam com vontade de sacudi-la — mas eu não sou tão hábil quanto você para pechinchar. Possivelmente, em um futuro próximo, você poderia negociar em meu lugar, neste caso, deveria descrever minhas exigências. O que eu gosto...
—Gosta de grandonas, peitudas e estúpidas — disse a jovem.
—A inteligência não tem tanta importância — replicou ele, reprimindo um terrível desejo de lhe arrancar o chapéu e pisá-lo — Não as contrato para falar de metafísica, mas como você compreende, deveria explicar imediatamente o que eu gosto que façam.
—Sei que gosta que lhe tirem a roupa — disse Hermione — Ou possivelmente que a voltem a pôr. Naquele momento era difícil saber se estavam no princípio ou no final da atuação.
—Eu gosto das duas coisas — replicou, apertando as mandíbulas.
—No momento, recomendo que tente fechar os botões você sozinho — disse Hermione casualmente — Suas calças começaram a amontoar de uma forma muito anti-estética sobre as botas.
Até aquele momento Snape não se deu conta de como estava vestido, ou melhor ...despido. Viu que estava com os punhos da camisa ondeando sobre os pulsos e a camisa propriamente dita revoando ao vento.
Embora as palavras «acanhamento» e «recato» apareciam em seu dicionário, não guardavam nenhuma relação com ele. Por outro lado, e ao contrário de seu caráter, seu traje sempre era impeccablement correct¹. E agora, transitava pelas ruas da cidade mais crítica da França da pior maneira possível.
Subiu-lhe calor pelo pescoço.
—Senhorita Granger, obrigado por advertir-me — disse com sangue-frio. Depois, com o mesmo sangue-frio, enquanto caminhava ao seu lado, desabotoou todos os botões das calças, meteu a camisa para dentro e voltou a abotoar-lhe pausadamente.
A jovem emitiu um ruído irritado. Snape lhe dirigiu um duro olhar. Com o chapéu que usava e a escuridão crescente não podia estar seguro, mas lhe pareceu que tinha ficado vermelha.
— Sente-se bem, senhorita Granger? — perguntou de maneira debochada — É por isso que passou da rua que deveria ter entrado?
Hermione se deteve.
—Passei-me porque não sabia que era por esta rua que tinha que seguir — disse em tom abafado.
Ele sorriu.
—Não sabe voltar para casa?
A castanha se dirigiu para a rua que ele tinha indicado.
—Cuidarei disso.
Snape a seguiu quando dobrou a esquina.
—Simplesmente ia voltar para casa de seu irmão, em plena noite, mas sem ter nem a menor ideia de como chegar. Você é uma cabeça de vento, não?
—Concordo que está escurecendo, mas não se pode dizer que seja plena noite — replicou — Em meu caso, não estou precisamente sozinha, e tampouco se pode dizer que seja uma cabeça de vento quando me acompanha o homem que mais medo inspira em toda Paris. Você é um cavalheiro, Snape. Inclusive encantador — deteve-se em uma rua estreita — Ah, já começo a me orientar. por aqui se sai a rua do Provence, não?
— O que disse? — perguntou em um tom ameaçadoramente baixo.
—Eu disse: "por aqui se sai na..."
—Encantador — repetiu ele, seguindo-a quando dobrou a esquina.
—Sim, aí está — Hermione apertou o passo — Reconheço a luz.
Se essa jovenzinha impertinente fosse um homem, ele com toda certeza teria se assegurado de que sua cabeça tomasse um íntimo contato com aquele poste. Percebeu que seus punhos estavam fechados. Diminuiu o passo e disse a si mesmo que devia voltar para casa. Vamos ver. Jamais levantara a mão para uma mulher. Esse comportamento não só demonstrava uma desprezível falta de autocontrole, mas também covardia. Só os covardes utilizavam armas mortíferas contra os indefesos.
—Não parece haver perigo iminente de que seu infinito perambular pelas ruas de Paris vá provocar incidentes entre o povo — disse Snape com frieza — Acho que posso deixar que prossiga sozinha sua viagem com a consciência tranqüila.
Hermione se deteve, deu a volta e sorriu.
—Compreendo. A rua Provence costuma estar cheia de gente a esta hora e poderá ver um amigo. Será melhor que se vá correndo. Prometo que não direi nenhuma palavra sobre sua galanteria.
Snape deveria ter rido e partido. O fizera milhares de vezes e sabia que era uma das melhores saídas. Quando ele ria de alguém em sua cara, não havia forma de atacar. Aquilo era simplesmente... irritação.
Entretanto, a gargalhada não saía e não podia voltar as costas para ela, que já tinha desaparecido ao dobrar uma esquina.
Precipitou-se atrás dela e a agarrou pelo braço, parando-a em seco.
—Morda a língua e escute — disse vagarosamente — Eu não sou um desses idiotas da alta sociedade que se deixam tirar o sarro por uma metida com uma opinião muito superestimada de sua inteligência. Não me importa se me veem, o que pensem ou o que digam. Não sou cavalheiresco nem encantador, senhorita Granger, e maldita seja sua rabugice!
— E eu não sou uma de suas estúpidas vacas! — espetou ela — Você não me paga para fazer o que quer e não existe lei sobre a terra que me obrigue a fazê-lo. Digo o que me agrada e neste momento o que me agrada é deixá-lo furioso, porque é precisamente o que gosta. Você estragou minha tarde e nada mais me agradaria do que destruir a sua, besta egoísta, malcriado e desprezível! Isso é o que é você!
Deu-lhe um chute no tornoze-lo, e Snape ficou tão atônito que soltou seu braço. Olhou o diminuto pé da jovem, embainhado na bota.
— Ficou louca, Hermione? — disse — Renda-se.
— Abusado idiota! — gritou ela — Como se atreve? — tirou o chapéu e lhe deu um golpe no peito —não lhe dei permissão para me chamar por meu primeiro nome — Voltou a lhe dar um golpe com o chapéu — E não sou nenhuma estupida, pedaço de besta! —aplicou mais alguns golpes com o chapéu.
Snape olhou para baixo completamente desconcertado. Viu uma miúda mulher que tentava bater-lhe com um chapéu. Parecia completamente furiosa. Enquanto fazia cócegas no peito com o ridículo chapéu não parava de tagarelar sobre uma festa e um quadro e a senhora Lestrange e que ele estragara tudo e que ia se arrepender porque Al que se danasse, pois não servia de nada a ninguém e que ia voltar para a Inglaterra para abrir uma loja e leiloar o ícone pelo que conseguiria dez mil libras e que os céus permitisse que ele se engasgasse com isso.
O moreno não sabia ao certo com o que tinha que engasgar-se, salvo com a risada, porque jamais tinha visto nada tão gracioso quanto a senhorita Hermione Granger com um ataque de fúria.
Suas faces estavam rosadas, seus olhos lançavam faíscas da cor de mel e o lustroso cabelo acobredo caía sobre os ombros. Era de um castanho único, tão diferente do seu, que era negro, liso e oleoso; o de Hermione, era uma cascata encaracolada de seda. Umas mechas que se soltaram das presilhas brincavam sobre seu corpete.
E foi então quando ele enlouqueceu.
O casaco verde maçã dela era ajustado ao seu branco pescoço, ressaltando a curva de seus seios. Em comparação com os generosos atributos de Satine, por exemplo, os da senhorita Granger eram insignificantes, mas em proporção com um corpo magro, de ossos delicados e uma cintura que parecia um suspiro, as curvas femininas eram mais que abundantes.
Os dedos masculinos começaram a adormecer e o ventre começou a serpentear com uma onda de calor. O chapéu e suas cócegas o irritavam. Agarrou-o, esmagou-o com as mãos e o atirou ao chão.
—Pare com isso — disse ele — Está começando a me irritar.
— Irritá-lo? — exclamou Hermione —.Acha que isso é irritá-lo? Agora vai se inteirar do que é irritar, seu pedaço de esterco presunçoso!
Retrocedeu e lhe deu um murro no plexo solar.
Foi um bom golpe, e se o tivesse descarregado sobre um homem de constituição menos imponente, esse homem teria cambaleado.
Snape apenas o notou. As gotas de chuva que caíam calmamente sobre sua cabeça causavam o mesmo impacto. Mas a viu fazer uma careta de dor quando estirou a mão. Compreendeu que estava dolorida, teve vontade de rir. Agarrou-lhe a mão e a soltou imediatamente, por medo a esmagar-lhe sem querer.
— Maldita seja! Ao diabo com você! — brandou o moreno — Deixe-me em paz, peste de mulher!
Um vira-lata de ruas que farejava a luz soltou um grunhido e saiu correndo.
A senhorita Granger nem piscou. ficou olhando-o com uma expressão de tristeza o lugar onde tinha golpeado, como se esperasse algo.
Snape não sabia o que era. A única coisa que sabia — e não sabia como o sabia, mas era uma certeza tão inelutável como a tormenta que se abatia sobre, eles — era que ainda não tinha conseguido e que não partiria até que conseguisse.
— Que demônios quer? — ele perguntou de forma mordaz — Que demônios está acontecendo com você?
Hermione não respondeu.
As gotas de chuva dispersas começavam a repicar continuamente sobre a calçada. Umas gontinhas cintilavam no cabelo dela e reluziam em suas faces rosadas. Uma escorreu por seu nariz e escorregou até a comissura dos lábios.
—Maldição — disse o moreno num rosnado baixo.
E sem se importar com o que podia esmagar ou quebrar estendeu suas monstruosas mãos, agarrou-a pela cintura e a levantou até que o rosto dela, úmido e triste, ficou à mesma altura que o seu. E com o mesmo impulso, sem lhe dar tempo de gritar, apertou sua boca dura e dissoluta contra a dela.
Nesse momento os céus se abriram. A chuva caía torrencialmente sobre a cabeça e dois pequenos punhos enluvados o atingiam no peito e nos ombros, mas isso não o preocupava nem um pouco. Era Snape, o lorde Belzebú. Não temia nem a ira da natureza nem a da sociedade civilizada e, certamente, tampouco lhe preocupava a indignação da senhorita Granger.
Encantador? Era um porco libertino, e se ela pensava que ia se livrar simplesmente com alguns tapinhas de seu repugnante beijo, não sabia o que esperava. Seu beijo não tinha nada de encantador nem cavalheiresco. Foi um ataque frontal, desavergonhado, que lhe jogou a cabeça para trás. Durante uns segundos de pânico temeu haver quebrado o pescoço; mas não podia estar morta, porque continuava revolvendo-se e debatendo-se. Apertou com força a cintura da mulher com um braço e com a outra mão segurou firmemente sua cabeça.
Imediatamente ela deixou de debater-se e seus apertados lábios cederam ao ataque com tal brutalidade que Snape cambaleou e se apoiou no poste. Hermione se agarrou a seu pescoço como uma camisa de força.
Madonna mia.
Doce mãe de Jesus, aquela demente estava beijando-o. Sua boca se apertava ansiosamente contra a dele, e essa boca era cálida, suave e fresca como a chuva de primavera. Cheirava a sabão — a sabão de camomila — a lã molhada e a mulher.
As pernas de Snape tremiam. Apoiou-se no poste e afrouxou o esmagador abraço porque os músculos pareciam borracha; mas ela prosseguiu obstinada a ele, enquanto seu corpo magro, delicadamente curvado, deslizava lentamente até que os dedos dos pés se posaram no chão, sem lhe soltar o pescoço. Seu beijo era tão doce e inocentemente ardente quanto o dele era descarado, lascivo e exigente.
Snape se derretia com aquele ardor virginal como se fosse chuva e ele uma coluna de sal.
Durante todos os anos desde que seu pai o tinha mandado a Hogwarts, nenhuma mulher encostara nele a não ser que lhe colocasse dinheiro nas mãos. Ou — como no caso da mulher respeitável que tinha cometido o engano de cortejar há quase oito anos — a menos que assinasse uns papéis que punham nas mãos dela seu corpo, alma e fortuna.
A senhorita Granger o estreitava como se sua vida dependesse disso e o beijava como se o mundo fosse acabar se parasse, sem "a menos que" nem "até que".
Desconcertado e aceso ao mesmo tempo, Snape moveu suas grandes mãos vacilantes pelas costas de Hermione e rodeou com dedos trementes a cintura deliciosamente delicada. Jamais tinha abraçado ninguém como ela, tão encantadoramente magra, flexível, de curvas tão perfeitas Seu peito encolheu, dolorido, e sentiu vontade de chorar.
«Sognavo te diga. »
"sonhei contigo"
«Ti desidero Nelle minha braccia dal primo momento che ti vedi.»
"Desejava-te entre meus braços desde o momento em que te vi."
Em meio da chuva torrencial, impotente, incapaz de controlar sua boca necessitada, suas inquietas mãos, seu coração pulsava com a humilhante verdade.
«Ho bisogno da-te. »
"Necessito-te."
Como se isto último fosse uma atrocidade tão monstruosa que nem sequer o Todo-poderoso, geralmente negligente, pudesse deixar passar, uma rajada de luz rasgou a escuridão, seguida imediatamente de um estrondo que fez tremer a calçada.
Hermione se afastou de repente e deu alguns passos para trás, com a mão na boca.
—Mione — disse o moreno, estendendo o braço para que voltasse—. Cara, eu...
—Não. OH, Meu deus! — retirou o cabelo úmido do rosto — Maldito seja, Snape.
Deu-se a volta e pôs-se a correr.
Hermione Granger era uma moça que enfrentava os fatos, e enquanto corria, com a água escorrendo, as escadas do apartamento de seu irmão, enfrentou-os.
Em primeiro lugar, lançou-se à primeira oportunidade de caçar lorde Snape.
Em segundo lugar, sumiu-se em uma profunda depressão e a seguir, quase imediatamente, havia sentido uma fúria de ciúmes ao ver duas mulheres sentadas em seus joelhos.
Em terceiro lugar, tinha estado a ponto de chorar quando ele falou depreciavelmente de seus atrativos e a chamou de estúpida.
Em quarto lugar, tinha-lhe incitado para que a atacasse.
Em quinto lugar, tinha estado a ponto de asfixiá-lo, exigindo que continuasse com o ataque.
Em sexto lugar, teve que cair um relâmpago para largá-lo.
Quando chegou à porta do apartamento sentiu uma forte tentação de dar cabeçadas contra ela.
—Idiota, idiota, idiota — murmurou enquanto chamava.
Abriu Duffy, que ficou boquiaberto.
—Falhei, Duffy — disse Hermione. Entrou na casa com passo decidido — Onde está minha criada?
—Ai, Meu deus.
O senhor olhou impotente ao seu redor.
—Ou seja, não o trouxe. E não me importo. — Hermione se dirigiu ao quarto de sua avó — Ainda mais, se minha pobre criada pedir ao chofer que a leve diretamente a Calais e que a leve em um barco pelo canal da Mancha, não a culparia.
Bateu delicadamente na porta de Geneviève. Sua avó abriu, ficou olhando-a um longo momento e depois disse, dirigindo-se a Duffy:
—A senhorita Granger precisa de um banho. Que alguém se ocupe disso. Rápido, por favor.
Tomou a neta pelo braço, arrastou-a até o interior do aposento, sentou-a e tirou as botas empapadas.
—Vou a esta festa — disse Hermione, tentando desabotor as fivelas do casaco — Snape pode me fazer de ridícula, se isso for o que quer, mas não me vai destroçar esta noite. Não me importa que toda Paris o tenha visto. Ele é quem deveria sentir-se envergonhado... andando atrás de mim meio nu pela rua. E quando o lembrei que estava meio o nu, o que acha que ele fez?
—Nem posso imaginar, céus.
Geneviève tirou rapidamente as meias de seda. Hermione contou como desabotoou tranqüilamente as calças, e Geneviève não pode conter a risada. A jovem a olhou com o cenho franzido.
—Foi difícil ficar séria, mas isso não foi o pior. O pior foi... — soltou um suspiro — Ai, Geneviève é tão adorável que sinto vontade de beijar aquele nariz grande e pretencioso todo o tempo. Em todos os lugares. É tão frustrante... Decidi não deixar que a fúria me governasse, mas o fiz. Bati nele até que me beijou. E continuei dando golpes até que o fez como é devido. E a verdade, por muito que me custe dizer, que se um raio quase não nos tivesse matado, estaria completamente perdida. Contra um poste. Na rua Provence. E o mais espantoso é que — soltou um gemido — quem dera tivesse acontecido.
—Eu sei, céus, se sei. Pode acreditar — disse Geneviève para tranqüilizá-la tirando o resto dos objetos, já que Hermione não era capaz de fazer nada além de balbuciar e olhar os móveis como uma tola, envolveu-a em uma manta, plantou-a em uma poltrona junto à chaminé e pediu conhaque.
*.*.*.*.*
Meia hora depois que Hermione Granger escapara dele, lorde Dain, impregnado até os ossos e com um chapéu destroçado na mão, entrou sem dizer uma palavra pela porta que se abriu pelo mordomo, todo trêmulo. Sem prestar atenção ao lacaio, Snape atravessou a grandes passos o vestíbulo, subiu as escadas e desceu a outro vestíbulo que levava a seu dormitório. Jogou o chapéu sobre uma poltrona, despojou-se da roupa encharcada, secou-se com uma toalha, pegou outro traje e foi reunir-se com seus convidados.
Ninguém, nem sequer os mais chegados, teve a audácia nem estavam o suficientemente bêbados para lhe pedir que contasse por onde tinha andado. Snape raramente se incomodava em explicar seus atos. Não prestava contas a ninguém. Só disse que tinha fome, que ia sair para jantar e que eram livres para fazer o que quisessem. Todos menos Granger, que era incapaz de nada além de respirar —algo que fazia com grande ruído—, acompanharam-o a um restaurante do Palais Royal, dali foram ao Vingt-Huit e descobriram que o tinham fechado aquele mesmo dia. Como nenhum outro local oferecia a variedade daquele estabelecimento, o grupo se dividiu em grupos menores e cada qual foi em busca de seu entretenimento preferido. Severus foi a um antro de jogo com suas duas... vacas, Pettigrew e sua respectiva vaca.
Snape partiu às três da manhã, sozinho, e ficou perambulando pela rua. O passeio o levou até a casa de madame Greengrass, justo quando começavam a sair os convidados. ficou sob uma árvore, afastado da débil luz de um poste, e observou.
Estava ali pensativo há quase vinte minutos quando viu sair Riddle, com Hermione Granger ao braço. Conversavam e riam.
Ela não usava um ridículo chapéu, e sim um penteado diabólico, ainda mais absurdo. Do lato da cabeça brotavam cachos e coques brilhantes dos que saíam pérolas e plumas ondeantes. Na opinião do moreno era estúpido. Por isso teria gostado de arrancar as pérolas, as plumas e as presilhas... e ver o sedoso véu acastanhado ondeando sobre os ombros de Hermione... brancos, deslumbrantes à luz do poste.
Muito branco e deslumbrante, notou com irritação. As mangas do vestido azul prateado dela nem sequer cobriam os ombros.
Começavam no cotovelo, tampando todo o braço a partir daí e deixando descaradamente descoberto o que deveria ter estado sob a mira de qualquer babão de Paris. Na festa todos os homens tinham examinado de perto aquela brancura. E enquanto isso, ele, o príncipe das Trevas, como todos lhe consideravam, estava fora, espreitando na escuridão.
Não se sentia especialmente satânico naquele momento. Para dizer a humilhante verdade, sentia-se como um menino morto de fome com o nariz grudado no vidro de uma confeitaria. Viu-a subir na carruagem. A porta se fechou e o veículo se afastou pesadamente. Embora não houvesse ninguém que pudesse lhe ouvir ou lhe ver, Snape riu para si mesmo. Riu muito aquela noite, mas não pôde afugentar a verdade a base de risadas. Sabia que Hermione era um problema, como toda mulher respeitável. "Esposa ou amante, não importa", havia dito a seus amigos em mais de uma ocasião. "Assim que deixa que uma dama o agarre, transforma-se em proprietário de um imóvel cheio de conflitos, em que os arrendatários estão em contínua revolta e em que não pára de pôr dinheiro e mão de obra. E tudo isso pelo privilégio ocasional, dependendo de seu capricho, de obter o que poderia dar qualquer uma por alguns xelins."
Desejava-a, sim, mas não era precisamente a primeira vez em sua vida que uma mulher da classe inaceitável tinha excitado sua luxúria. Desejava-a, mas sempre era consciente da armadilha lamacenta em que lhe fariam cair essas mulheres, porque tinham nascido e as tinham educado com esse fim.
E a odiosa verdade era que ele se colocou totalmente nisso e, enganando a si mesmo, convenceu-se do contrário ou de que se o tinha feito não tinha nada que temer, porque não existia abismo suficientemente profundo nem pântano suficientemente denso para lhe reter.
Então, o que o retém aqui? Perguntou-se. Que força o arrastou até aqui para ficar olhando como um imbecil, como um cachorro louco, diante de uma casa, só porque ela estava ali? E que correntes o atavam ali, esperando vê-la embora apenas por uns segundos?
Uma carícia. Um beijo.
É repugnante, disse-se.
E assim era, mas era a verdade, e detestou Hermione mil vezes por aquela verdade. Teria que havê-la obrigado a sair da carruagem, pensou, deveria ter arrancado todas aquelas bobagens de seu cabelo, ter conseguido o que queria e depois partido, rindo tranqüilamente, como o monstro sem consciência que era.
O que ou quem havia ali para impedir? Incontáveis aristocratas corruptos que o fizeram antes da Revolução. E inclusive naquele momento, quem o culparia? Todos sabiam quem era. Diriam que era culpa dela por haver interposto em seu caminho. A lei não vingaria sua honra. Deixaria-o nas mãos de Alonso Granger... a ponta de pistola e a vinte passos.
Com um sorriso lúgubre Snape saiu de seu tenebroso esconderijo e andou devagar pela rua. Estava preso, mas já o tinha estado antes, recordou. Já tinha estado assim, magoado e solitário, porque não o deixavam entrar. Mas por fim ele sempre ganhava. Fez com que seus inimigos da escola o respeitasse e inveja-lo. Havia devolvido a seu pai, multiplicadas por dez, todas e cada uma das humilhações às que tinha sido submetido. converteu-se no pior pesadelo nesta vida para aquele velho filho da puta e, era de esperar, também em sua mais cruel tortura.
Mesmo Lucretia, que o levara como um cachorro amestrado durante seis espantosos meses, tinha passado todos e cada um dos momentos de sua vida esfregando por seu bonito nariz as conseqüências. Certo que Snape não viu, mas um homem não pode ver as coisas como é devido quando uma mulher está cravando as garras e o reduzindo a farrapos.
Nesse momento via com clareza: um dia do verão de 1820, e outro funeral, quase um ano depois do de seu pai. Nesta ocasião era Lucius Malfoy quem estava dentro do brilhante ataúde com montões de flores em cima. Morto na pavimentação do pátio de uma estalagem no transcurso de uma briga por uma puta. Depois do funeral, Lucretia, a maior das cinco irmãs menores de Malfoy, fez um à parte com o moreno para lhe agradecer por ter vindo de Paris para estar presente. Seu pobre irmão o tinha em grande estima, disse, secando-se valentemente uma lágrima. Posou sua mão sobre a dele e a seguir, ruborizada, retirou-a rapidamente.
—Sim, rosinha ruborizada —murmurou Snape cinicamente—. O fez muito bem.
E assim foi, porque com essa carícia Lucretia o enganou. Atraiu a seu mundo, à boa sociedade, que ele tinha aprendido a fugir há anos porque, só com um olhar dela, uma jovem dama ficava com o rosto cinzento e saia correndo. As únicas garotas que tinham dançado com ele eram as irmãs de seus amigos, como uma desagradável obrigação da que se livravam com a maior rapidez possível.
Mas não foi assim com Luretia. Não podia dançar por que estava de luto, mas podia falar, e bem que o fez, e lhe admirava como se fosse seu príncipe encantado, ou até sir Galahad.
Ao cabo de quatro meses permitiu Snape que tivesse entre suas mãos a enluvada mão da dama durante vinte segundos. Demorou outros dois meses para beijá-la. No roseiral da casa de seu tio, o cavalheiro andante plantou um casto beijo na bochecha de sua dama.
Quase no mesmo momento, como obedecendo a um sinal, saiu correndo e chiando de entre os arbustos um bando de mulheres: a mãe, a tia, as irmãs. Quando se deu conta, já estava encerrado no despacho com o tio de Lucretia, que lhe ordenava severamente que declarasse suas intenções. Ingênuo, como um cão apaixonado, declarou que eram honradas.
Imediatamente lhe puseram uma pluma na mão e um enorme montão de documentos ante ele, e lhe ordenaram que os assinasse.
Ainda não sabia como nem de onde tinha tirado a força de ânimo para lê-los primeiro. Possivelmente fora por ter ouvido duas ordens seguidas e não estar acostumado a obedecer nenhuma. Pela razão que fosse, deixou a pluma e os leu. Descobriu que em troca do privilégio de casar-se com sua rosinha ruborizada, ele teria que pagar todas as dívidas de seu falecido irmão, assim como as de sua tia, seu tio, sua mãe e as suas próprias, "agora e sempre, até que a morte nos separe, amém". Snape chegou à conclusão de que era um investimento muito arriscado e assim o fez saber.
Recordaram-o que tinha comprometido uma inocente jovem de boa família.
—Pois atirem em mim —replicou.
E partiu.
Ninguém tentou acertá-lo com um tiro. Umas semanas mais tarde, já em Paris, inteirou-se de que Lucretia se casou com lorde Ignatius Prewett.
Prewett era um libertino de sessenta e cinco anos que aparentava noventa, usava ruge, colecionava cartas obscenas e beliscava e batia em toda faxineira o suficientemente tola para ficar ao alcance de suas mãos paralisadas. Não esperavam que sobrevivesse a noite de nupcias, mas não só sobreviveu como conseguiu deixar grávida sua jovem esposa, e continuou fazendo-o a bom ritmo. Assim que libertava uma criatura Lucretia já tinha a seguinte dentro.
Snape estava imaginando em detalhes seu antigo amor nos braços de seu marido borrado, paralisado, suarento e velho, e saboreava aqueles detalhes quando repicaram os sinos do Notre Dame ao longe. deu-se conta de que soavam muito longínquas e estava na rue do Rivoli, onde vivia e aonde já deveria ter chegado. Então compreendeu que se equivocou de rua, inclusive de bairro. Desconcertado, seu olhar recaiu sobre um poste conhecido.
Seu ânimo, aliviado pelas imagens do purgatório terrestre de Lucretia, voltou a afundar-se e lhe arrastou em corpo, mente e alma até o pântano.
"Me acaricie. Me abrace. Me beije."
Dobrou a esquina e entrou na estreita rua escura em que os muros vazios, sem janelas, viam mas não diziam nada. Apertou a testa contra a fria pedra e suportou, porque não tinha outra opção. Não podia deter o que se retorcia e doía em seu interior.
"Necessito-te."
Os lábios de Hermione presos aos seus... suas mãos agarrando-o. Era cálida, suave, e tinha sabor de chuva, e que doce, que insuportavelmente doce, acreditara por um momento que ela desejava estar entre seus braços.
Acreditara naquele momento e queria continuar acreditando, e detestava a si mesmo pelo que desejava e a ela por fazer que o desejasse.
Apertando as mandíbulas, Snape se endireitou e seguiu seu caminho, agüentando, dizendo a sai mesmo que Hermione o pagaria. Todos pagavam. Ao seu devido tempo.
1- Impecavelmente correto.
