VII.

Acordou de mau humor na segunda-feira. Meg Carlson notou logo que algo estava errado, mas nada disse, preferiu observar. Ele realizou suas tarefas maquinalmente. Mal respondia quando alguém lhe dirigia a palavra. Seus pensamentos estavam em outra parte. Vez por outra, olhava para a porta de entrada, sobressaltado quando entrava algum cliente.

Na hora do almoço, ela deixou a mercearia a cargo do marido e de Sam, o outro funcionário. Fez sinal para que ele a seguisse. Ele obedeceu de cara fechada. Não tinha vontade de conversar. Foi perguntando, para acabar logo.

-Algum problema, senhora?

-Isso pergunto eu, Knight. O que está havendo com você?

Ele baixou o olhar. Estava irritado.

-Nada.

Ela ignorou a negativa e prosseguiu como se a resposta tivesse sido outra.

-Está apaixonado pela garota?

-Que garota?

-Não me faça perder tempo. A moça cega, Olivia Dunham.

-Não estou, não. – agora ele negou com veemência.

Meg Carlson olhou-o de viés. Havia uma certa ironia em sua expressão.

-Então não estou entendendo.

-Não quero falar sobre isso. Com ninguém.

-Mas alguma coisa o está incomodando.

Peter respirou fundo e assentiu com a cabeça.

-Acho que ela pode estar gostando de mim e eu não posso permitir que isso aconteça.

A patroa ficou surpresa com a colocação.

-Veja bem, Knight, você pode não querer nada com ela, mas não pode mandar no que ela sente.

-Eu não poderia corresponder aos sentimentos dela.

-Engraçado, eu achei que você era um homem diferente. Vi o seu jeito com ela. Não achei que a deficiência o desencorajasse.

Ele deu um pulo da cadeira. Ficou de pé. Parecia ofendido.

-Como pode achar que eu me importaria ...?

-Bem, é a conclusão mais provável. Ela é linda, gentil e corajosa. Não vejo nenhum defeito nela que possa fazê-lo desistir, além da deficiência, é claro.

-O problema sou eu, senhora.

-Você?

-É. Eu amo outra pessoa. Na verdade, eu fui levado a me aproximar de Olivia pela semelhança entre ela e a mulher que eu amo de verdade.

-Entendo. E por que não estão juntos? Ela não o ama?

Ele teve um olhar desanimado.

-Ela me amava, mas agora sei que me esqueceu.

-Não pode ter certeza.

-Infelizmente, tenho certeza.

-Se não tem volta, então vai ficar sozinho pelo resto da vida, Knight?

-Francamente, não sei. Nunca pensei sob essa ótica.

-Pense, então. Não estou dizendo para ficar com Olivia, mas qual o problema em tentar ser feliz?

-Não seria justo. Ficar com ela só pela semelhança...

-Elas são parecidas na aparência ou no temperamento?

-Mais no aspecto físico. Ollie é mais expansiva, ela confia de cara nas pessoas.

-Ollie?

Ele sorriu pela primeira vez naquele dia.

-Todos a chamam assim. Não significa nada de mais.

-Sei. Ouça uma sugestão, Knight. Por que não se abre com ela? E depois ela decide. Não precisa se privar dela sem saber antes o que ela realmente pensa.

-Talvez a senhora tenha razão.


-Ollie?

-Peter? Que bom que ligou...

-Podemos sair hoje à noite? Quer dizer, você já está melhor?

-Sim, já estou. Não quer jantar aqui em casa? Rachel cozinha bem.

-Eu preciso falar com você ... a sós.

Ela engoliu seco. Teve medo do que viria, mas não deixou que ele percebesse.

-A que horas você me pega?

-Às oito, está bem para você?

-Está. Até mais tarde.

Ele nada disse, apenas desligou.


-Não fique nervosa. Quem garante que ele vai terminar com você?

-Nós não somos namorados, Rachel. De onde tirou essa ideia?

-Mas você está caidinha por ele... Sua vizinha disse que ele é lindo.

-Peter é maravilhoso, mas não é para mim.

-Por quê?

-Eu não saberia explicar, mas é assim que eu sinto.

-Deixe de ser tola. Vou ajudar você a se aprontar.

-Nada disso. Lembra aquela vez que você me pôs em um vestido preto colante e cheia de maquiagem?

-Ficou linda. Os rapazes não tiravam os olhos de você.

-Isso realmente não me serve de nada.


Ele foi para casa mais cedo. Tomou um banho demorado e colocou a melhor sua camisa. Não tinha muita roupa, mas de qualquer forma ela não poderia vê-lo. Ironicamente ela nunca o julgaria pela aparência. Usou a colônia da qual ela gostava. Saiu tranquilo.

A irmã veio abrir a porta. Teve que fingir surpresa. Olivia chegou logo depois. Ele olhou-a com aprovação: estava um vestido curto verde esmeralda e o rosto estava maquiado com suavidade. Ela deixara a irmã arrumá-la mediante a promessa de não exagerar.

-Vamos, Olivia?

-Sim. Eu não me demoro, Rachel.

-Divirta-se, Ollie.

Rufus acompanhou-os com o olhar.


Quando chegaram na calçada, ele chamou um táxi. Lá dentro ele segurou as mãos dela entre as suas. Ela se sentiu segura, com uma sensação boa de calor dentro do peito.