Disclaimer: O anime/mangá "Naruto" não me pertence, ele é de propriedade exclusiva do Masashi Kishimoto.

Warning: Descreve a relação entre duas pessoas do mesmo sexo (MaleXMale).


"O amor faz-nos viver no futuro quando se é novo, no passado quando se é velho; e no céu durante um dia." – Condessa Diane.

Capítulo 7 – Incomplacência

Sasuke se agachou diante de sua mala, ponderando por um momento o que deveria vestir. Com um encolher de ombros e um suspiro irritado, ele pescou uma calça jeans de lavagem escura e uma camiseta simples de malha preta. Interiormente, ele amaldiçoou a falta de um guarda-roupa adequado ou uma cômoda, pois a maioria de suas roupas estava ficando amassadas com o espaço contrito da bagagem. Ele precisaria arranjar um emprego em breve, se quisesse sair do apartamento do seu irmão mais velho.

Ele pegou um estojo com seus artigos de higiene de cima da escrivaninha de madeira branca, olhando em volta para ver se não tinha esquecido nada. Para um quarto infantil, o design era bem arrojado e juvenil. Se não fossem pelos poucos desenhos descoordenados colados numa placa de cortiça na parede e os brinquedos nas prateleiras, ele diria que o dormitório era de um adolescente de 14 a 16 anos. As cores predominantes eram o vermelho, preto e branco; bem sóbrias para um menino da idade de Nagato, embora a combinação lhe conviesse perfeitamente.

Sem pensar muito, ele caminhou pelo corredor com passos tranquilos. A casa silenciosa, enquanto os outros ocupantes dormiam; ou assim acreditava até que uma das portas se abriu. O rapaz deu de cara com o seu irmão mais velho vestido apenas com uma cueca boxer. Os dois se encararam por um instante, confusos, devido à sonolência.

- Bom dia, Sasuke. – Itachi murmurou com a voz rouca pela falta de uso. Seus cabelos longos emaranhados ao redor da sua cabeça e a cara inchada pelo cansaço deu ao caçulo a sensação de estranheza; ele nunca tinha visto o homem tão descomposto como no momento, nem quando eram crianças. Itachi sempre parecia ser tão perfeito e certo aos seus olhos.

- Bom dia. – respondeu automaticamente, antes de continuar o seu caminho até o banheiro. Sem pensar muito, o moreno puxou a camiseta de malha cinza que usou para dormir e começou a puxar seus artigos de higiene do estojo cheio de repartições. A falta de comodidade e espaço próprio lhe incomodou novamente, mesmo sabendo que seria pior se escolhesse morar na casa de um estranho qualquer ou em uma república da escola.

Se ele não fosse tão orgulhoso, não hesitaria em aceitar um canto qualquer no apartamento de Neji Hyuuga, um conhecido da época de escola. No entanto, ele sabia que o homem só ofereceu, porque tinha suas próprias intenções por trás da gentileza educada e velada, e ele não queria se sentir em dívida com ninguém. Especialmente esse tipo de débito.

Neji estava no Ensino Médio, quando Sasuke o conheceu nos corredores da Yokohama Internacional School. Apesar de estudarem em lados opostos no colégio por estarem em séries diferentes, os dois tinham algo em comum: Hinata. A menina era prima mais nova do Hyuuga e colega de classe do Uchiha. No começo, os dois não se engoliam, até serem forçados a trabalhar juntos para um projeto que nortearia o festival de primavera no ginásio daquele ano.

Com o tempo, eles descobriram que a tensão que os envolvia era movida por desconfiança e receio. Ambos tinham muito em comum e, quando perceberam, já estavam se aceitando, aquecendo e admirando em silêncio contemplativo. Nenhum deles sabia dizer exatamente como e quando tudo começou, mas ambos sabiam que parou no exato momento em que Neji se formou e veio para a Califórnia fazer faculdade.

Eles se falaram pouco até Sasuke contar que estava pensando em se mudar para Oakland a fim de se especializar, já que algumas das melhores escolas de arte e design estavam nos EUA e ele receberia ajuda do seu irmão mais velho com um lugar para ficar. Neji se ofereceu para lhe dar um quarto em seu apartamento em North Beach, mas ele se recusou ao perceber as intenções do homem. Não porque ele não achava o Hyuuga atraente, muito pelo contrário, mas porque as coisas mudaram e ele mudou também.

Os dois eram muito parecidos para darem certo. O relacionamento foi bom na adolescência, porque era novo e instigado pela curiosidade, mas o Uchiha sabia que um envolvimento sério necessitava muito mais que apenas hormônios em ebulição e um pequeno afeto. Ambos eram igualmente autoritários e ele perdeu a conta de quantas vezes se chocaram por não saberem ceder. Ele precisava de alguém maleável, mas ao mesmo tempo assertivo, porque se dependesse dele sozinho, o relacionamento se tornaria um embate constante e imperioso.

Ele focou sua atenção no espelho por um instante, puxando algumas mechas de cabelo escuro em dúvida se deveria lavá-lo ou não, antes de caminhar até o chuveiro. Devido ao tempo quente e seco de agosto, a água esquentou rápido.

Sasuke sentiu falta do clima árido da Califórnia, enquanto estava no Japão. Na verdade, foi difícil se acostumar com quase tudo sobre sua nova, mas antiga vida, principalmente quando já tinha se acostumado com certas liberdades do estado norte-americano. Muitas vezes, ele olhou entre seus colegas de classe e sentiu falta da desordem e bagunça de Karin e Suigetsu, que levavam os professores à loucura. Durante os finais de semana, ele sentiu falta das ocasionais festas e algazarras que Itachi e Naruto organizavam.

Ele sentiu falta de Itachi e Naruto a maior parte do tempo também.

Seu irmão podia ser um chato às vezes, mas ele era a sua única companhia na família. O único que o entendia sem julgá-lo. Sua mãe era doce, mas não era exatamente a pessoa que ele procurava para conversar sobre certos assuntos. Demorou alguns meses, até que ele pudesse se adaptar à mudança, sem o apoio do primogênito, mas ele era grato ao mal necessário, quando a presença do homem só o lembrava de Naruto. Os dois estavam sempre tão grudados que era impossível se impedir de associar a imagem de um com outro.

Contendo um sorriso debochado ao se lembrar do Uzumaki, ele esfregou o shampoo no cabelo com mais entusiasmo. Desde que chegara, Sasuke tinha reparado nos olhos claros em sua direção; confusos, intensos e inseguros. Era claro que o homem tinha muito a dizer, mas estava com receio de empurrar as palavras para a boca e colocá-las em voz alta. O porquê, ele não sabia. O mais velho sempre pareceu tão sincero e direto sobre suas emoções. Infelizmente, ele não seria a pessoa a dar o incentivo que o loiro precisava para colocar as cartas em cima da mesa.

Se Naruto quisesse, ele precisaria correr atrás das respostas que ansiava.

Ontem, quando ambos estavam a centímetros de distância, ele sentiu o familiar puxão em seu umbigo. A velha e conhecida sensação que agitava o seu estômago, toda vez que seus olhos se encontravam com os orbes azuis profundos. E, por mais que ele gostasse da atenção torturada do Uzumaki, como uma onda de prazer sádico e vingativo, ele não aceitava a forma como seu corpo se tornava hipersensível à atenção das íris revoltas e das mãos quentes sobre a sua pele, a qual parecia cantarolar em deleite e formigar em antecipação.

Sasuke não entendia; ele já tinha superado essa paixão infantil e nada explicava a excitação absurda que começava a cingir em seu baixo-ventre.

Nem mesmo a aparência do loiro, que envelheceu como se o tempo não tivesse passado, justificava a bobina de desejo que girava como louca em seu interior perturbado; ou as pequenas rugas nos cantos dos olhos brilhantes, que pareciam ainda mais evidentes quando ele sorria, e transformavam seu cérebro numa massa inútil; ou a pele bronzeada ainda parecer firme ao toque, embora não tivesse mais o viço dos 20 e poucos anos.

Sua estrutura magra, ainda era preenchida com músculos firmes. E ele soltou um gemido baixo e miserável ao desenhar a figura masculina em sua mente, enquanto apoiava a testa aquecida na parede fria. A água lavando o resto da espuma de shampoo. Naruto tinha tatuado um sol em espiral que preenchia toda a extensão da barriga plana, a cor escura e vívida do desenho fazendo a tez parecer quase dourada. A tatuagem não estava lá antes; ele lembraria se estivesse, porque nada no mundo o faria perder a forma como a arte parecia viva, quando os ligamentos do abdômen ondulavam com as ações expansivas do Uzumaki.

Sua mão direita automaticamente se mudou para o volume crescente entre suas pernas, para correr os dedos pelo cumprimento semirrígido. Ele fechou os olhos hesitantes e lambeu os lábios com a vontade reprimida de correr a língua pelo corpo amplo do mais velho. Essa sensação não era nova. Com um suspiro inconformado e um soco agressivo na parede à sua frente, ele se mudou para trocar a temperatura da água. Sasuke se recusava a bater uma punheta pensando em Naruto.

O homem parecia estar num relacionamento estável com a mesma mulher há mais de 10 anos e tinha um afilhado que o considerava uma figura paterna. Os três eram quase uma família, e ele se condenaria eternamente se caísse nessa paixão inútil de novo, porque não havia chances do Uzumaki trocar tudo o que tinha por uma simples atração e curiosidade. Afinal, era assim que parecia; que ele não passava de uma aventura na mente fértil e pervertida do loiro.

Com a raiva renovada dentro do seu peito, ele terminou o seu banho e escovou os dentes, antes de sair do banheiro completamente pronto e renovado para começar mais um dia. O cheiro doce de panquecas e café parecia permear todo o corredor, enquanto ele caminhava a passos calmos de volta para o quarto. Sasuke pôs o estojo em cima da mesa e encarou o quadro recém-adquirido inclinado sobre a superfície plana. Apertando os lábios em meio às dúvidas, ele correu os dedos pelo desenho desengonçado que Nagato fizera para presenteá-lo.

Sem saber de o porquê o retrato do menino deixá-lo ligeiramente angustiado, ele virou as costas para ir até a cozinha tomar o café da manhã. Quando ele chegou na sala espaçosa, viu um Itachi seminu ser abraçado por um Naruto igualmente seminu. A ação dos dois o fazendo parar no meio do caminho com o cenho franzido, sem saber ao certo o que estava acontecendo entre eles.

- Eu senti sua falta na cama. – o Uzumaki reclamou audivelmente, distribuindo beijinhos no ombro do Uchiha mais velho.

- Você sentiu o cheiro de comida, essa é a verdade. – o moreno retrucou com um tom divertido, acostumado com a proximidade constante do homem.

A realização tardia que abateu Sasuke naquele momento fê-lo pigarrear, antes que pudesse evitar. Ambos olharam o recém-chegado com níveis diferentes de surpresa e se afastarem como se tivessem se queimado por motivos ainda mais divergentes. As narinas do caçulo ardiam, ao mesmo que sua mandíbula ficou minimamente tensa. Os dois tinham dormido juntos naquela noite e ele deveria ter percebido que seu irmão saiu do quarto de Naruto, se não estivesse tão perdido em divagações sonolentas.

- Bom dia, Sasuke! – o loiro cumprimentou com falsa animação, para minimizar o ar pesado entre eles.

Seu olhar escuro se desviou de Itachi, que o encarava com uma intensidade avassaladora e autoexplicativa – o qual nem se deu o trabalho de entender –, para o Uzumaki. Ele tentou se manter indiferente e neutro, mas era óbvio que sua expressão não deveria ser muito boa, quando a sobrancelha dourada do homem tremeu com leve insegurança e ele coçou a nuca, um pouco perdido.

- Bom dia. – ele respondeu forçosamente, fazendo o possível para ignorar a irritação crescente em seu interior confuso, uma vez que ele não tinha o direito e nem queria se sentir daquela forma. Por algum motivo, ele se lembrou da sensação colérica que o consumia, quando era criança e assistia seu irmão e Naruto brincar e conversar como se ele não existisse.

Sasuke conteve a vontade de chupar o ar com o nariz e fazer um barulho alto de contrariedade.

- Eu vou acordar Nagato. – Naruto declarou, obviamente querendo fugir do clima cada vez mais desconfortável e fazendo o Uchiha mais novo debochar com o pensamento, "Covarde!".

Quando o Uzumaki saiu, lançando um olhar cauteloso por cima do ombro. Sasuke conseguiu soltar a respiração que nem sabia estar segurando. Ele tornou a encarar o seu irmão, que ainda o olhava com aquela expressão intensa e analítica por detrás do balcão que separava a cozinha da sala de estar e jantar. Fingindo ignorar a atenção indesejada do homem, ele se sentou em uma das cadeiras para começar a se servir.

- Sasuke... – Itachi começou, mas ele o interrompeu.

- Não é da minha conta. – sibilou com mau humor perceptível na voz. Ele sabia o motivo de sua raiva, mas estava determinado a ignorar qualquer evidência clara. Ele, ironicamente, não esperou absolutamente nada, quando voltou para os Estados Unidos. Ele não cultivou expectativas e esperanças bobas sobre o que seria reencontrar o seu antigo amor de infância. Mesmo que tivesse imaginado algumas possibilidades, Sasuke nunca desejou que acontecessem.

A única coisa que ansiou de verdade foi que o Uzumaki sofresse a sua perda, como ele sofreu por meses; que o mais velho percebesse que ele não era mais uma criança e tinha crescido para se tornar o homem que era hoje; que se desse conta que ele seguiu em frente, sem aquele sentimento que o corroía como ácido, queimando o seu interior dolorosamente.

Como estava perdido em pensamentos, Sasuke não percebeu o mais velho se caminhar, carregando um bule cheio de água quente para seu chá matinal. Contudo, assim que sentiu a aproximação do outro, o caçulo encarou atentamente os pães dispostos numa cesta, desconhecendo completamente a presença ao seu lado, até o momento em que Itachi decidiu abrir a boca:

- Eu achei que você me disse que não gostava mais do Naruto. – sussurrou, para não atrair a atenção do alvo da conversa.

- E eu não gosto mais dele! – assoviou, querendo matar a conversa enfadonha.

O moreno de cabelos compridos abanou a cabeça positivamente, como se estivesse convencido de algo que não havia percebido antes. Se possível, a ação fez Sasuke ainda mais irritado. Ele estava prestes a se levantar, decidido a comprar seu café da manhã na rua, quando o homem tornou a falar:

- Eu fui conversar com Naruto na noite passada. – murmurou num tom ameno e explicativo, como se comentasse sobre o tempo. – Nós fumamos maconha e dormimos no mesmo quarto, porque eu estava cansado demais para me mover até o meu próprio. – ele encarou o rapaz com um sorriso divertido. – É algo que nós fazemos para relaxar às vezes. – finalizou, fingindo não reparar na forma como o caçulo o encarava; como se hesitasse em acreditar no que estava ouvindo.

E Itachi riu, para complementar o combo surpreendente. Sasuke nunca tinha visto o irmão sorrir daquela maneira.

- Eu não entendo vocês. – conseguiu responder, depois de vários minutos em silêncio. – Ambos agem como se tivessem uma tensão sexual mal resolvida e continuam a atuar como se nada disso existisse. – pescou uma fatia de pão, tentando não esfaqueá-lo, enquanto passava a manteiga. – Quando era criança, achava que eram apenas brincadeiras juvenis, mas pelo que pude perceber essa porcaria continua. – finalmente olhou para o mais velho, não fazendo questão de esconder o olhar contrariado.

- É aí que você se engana, Sasuke. – o outro retorquiu tranquilamente. – Não existe nenhuma tensão sexual mal resolvida entre eu e o Naruto. – a força dos orbes escuros sobre os seus lhe dando a sensação de peso em suas palavras. – Eu e ele já nos resolvemos há anos e, hoje, o flerte é só uma brincadeira. – deu de ombros. – Eu não vou mentir e dizer que não gosto dos galanteios e dos elogios, mas Naruto não é a pessoa que quero. – expôs sem inseguranças para firmar o seu ponto.

A quietude entre eles só foi quebrada com o som eventual de passos infantis correndo pelo corredor e as exclamações indignadas do Uzumaki.

- Você gosta de alguém? – o caçulo timidamente se permitiu perguntar.

- De tudo o que eu te falei, é só nisso que você conseguiu se atentar? – o mais velho perguntou em meio ao riso, fazendo Sasuke corar de raiva e vergonha. – Eu achei que você faria um discurso sobre o uso de drogas.

O caçulo bufou.

- Não é só nisso, é que eu nunca te imaginei gostar de outra pessoa. – rebateu a contragosto. Itachi parecia sempre tão inalcançável, que nada parecia abalá-lo, nem mesmo um sentimento supérfluo como a paixão. Ele não tinha culpa de pensar que seu irmão mais velho parecia mais com uma pedra insípida que um ser humano comum. Afora a percepção aguçada e a sabedoria surpreendente, o homem praticamente não demonstrava grandes emoções. Mesmo os flertes que ele jogava com Naruto pareciam distantes, diferentemente do loiro, que parecia de fato interessado. Por vários anos, ele pensou que o fato do Uzumaki nunca ter admitido um relacionamento com Ino Yamanaka era porque Itachi não enxergava as investidas do outro como algo além de piadas.

Seu irmão parecia ser tão confuso.

- Gostar de alguém como você gostou de Naruto? – questionou como se lesse seus pensamentos. – É complicado explicar, Sasuke, são situações diferentes. – murmurou parecendo perdido em devaneios. – Quando você tiver idade o suficiente, eu explico para você. – debochou com um sorriso carinhoso e bateu os dedos na testa pálida, como ele costumava fazer quando eram mais novos.

Sasuke tentou evitar o beicinho, mas não conseguiu visto como Itachi riu. Ele não teria hesitado em continuar a fazer perguntas, mas Nagato apareceu para tomar seu próprio café da manhã naquele instante, interrompendo-os. Seu cabelo vermelho estava emaranhado ao redor da sua cabeça, e o uniforme parecia abarrotado em seu corpo pequeno. O menino só deu um sorriso e um aceno leve para reconhecer a presença dos mais velhos e começou a se servir.

- Naga-chan, você ainda está uma bagunça. – Naruto chegou, abotoando os punhos da camisa branca e colocando a bainha dentro da calça cinza. – Me dê essa camiseta para que eu possa passá-la. – não esperou uma resposta, para puxar a peça de roupa do tronco infantil.

- Reunião importante? – Itachi perguntou ao ver como o homem estava vestido.

O caçulo continuava a agir como se o loiro não existia, mesmo que o cheiro familiar e cítrico do perfume do outro parecia permear toda a sala como uma dança sensual e dominante, que sobrepujava até o odor das panquecas recém-feitas e do café fresco.

- Sim. – respondeu, voltando para o corredor e voltando alguns minutos depois para beijar a testa do seu afilhado. Nagato sorriu de novo, mas era claro como água que o menino não estava para conversa essa manhã.

- Muito sono? – Itachi perguntou ao garoto depois de um tempo de silêncio. Ele só concordou com a cabeça e piscou lentamente para enfatizar o seu ponto, fazendo os dois homens sorrirem. Um mais contido que outro.

Os dois Uchiha o entendiam no final das contas.

- Sasuke, você sabe dirigir? – Naruto chegou novamente, trovejando aquele tom energético que lhe era tão característico, mesmo naquela hora da manhã. O Uchiha mais velho só levantou uma sobrancelha para a questão, enquanto observava o amigo empurrar a camiseta passada na cabeça vermelha.

- Sei. – respondeu, tentando não pensar no porquê da pergunta.

- Você pode buscar Nagato de novo? – indagou, estendendo a chave do carro para o rapaz, fazendo-o arregalar os olhos em surpresa. – Eu sou um pouco ciumento quando se trata do meu carro, mas confio em você. – continuou, sem perceber como a sua declaração fez seu coração falhar uma batida.

Eram as mesmas demonstrações carregadas de credibilidade que o Uzumaki lhe dava quando eram mais jovens, e que ele acreditou ter perdido no momento em que o loiro o rejeitou e afirmou que ele era novo demais para entender o peso de um relacionamento. Por um instante, ele precisou engolir em seco para não dar vazão ao nostálgico sentimento de calor que o tomava, quando o homem parecia reconhecê-lo como alguém que não era vinculado a Itachi ou Fugaku Uchiha.

- Eu só preciso que você me dê uma carona até o metrô. – pediu, puxando o cabelo ruivo de Nagato para penteá-lo e amarrar em um rabo de cavalo, fazendo o menino se contorcer e protestar em desacordo. – Se você precisar ir a algum lugar ou quiser comprar algo no supermercado, fica mais fácil se tiver com o carro. Sua cama chega essa tarde, ela tem gavetas espaçosas na parte de baixo e você pode guardar as suas coisas ali. Acho que você vai gostar. A cama antiga vai ser retirada por um voluntário do orfanato de São Francisco. Eu só não tenho certeza quando ele vem. – informou, virando-se para o afilhado com um olhar firme. – Eu só amarrei esse cabelo para que você possa comer sem essa coisa na sua cara, moleque teimoso! – resmungou.

O menino soltou um muxoxo e o moreno não sabia o que dizer. Ele só assistiu com consternação surpresa – tentando não pensar muito na bunda apertada delineada perfeitamente pela calça social justa – o homem derrubar café numa caneca grande e tentar amarrar a gravata ao mesmo tempo. Os bíceps ondulando sob a camisa, enquanto ele se movia. Sasuke teve que se impedir de pigarrear novamente; sua garganta arranhando com a secura repentina.

- Deixa eu te ajudar com isso. – Itachi murmurou com impaciência, largando a própria xícara de chá e se levantando para refazer o nó bagunçado da gravata preta e roxa.

- O que seria de mim sem você? – o Uzumaki perguntou, piscando os olhos como uma garota apaixonada, fazendo os dois morenos bufarem ao mesmo tempo. – Credo, vocês dois são muito parecidos. – reclamou do descaso de ambos para com as suas palhaçadas, antes de sorrir e mudar de assunto. – Eu sei que é incômodo não ter seu espaço, Sasuke, mas aos poucos a gente adapta a casa para te acomodar melhor, não se preocupe. – declarou, fazendo o rapaz parar pela terceira vez só naquela manhã. Era como se o mais velho tivesse lido seus pensamentos. – Eu só quero que você se sinta em casa.

Ele encarou Naruto, bebendo a vista do homem como se o visse pela primeira vez. Ele queria morder o lábio inferior em admiração retardada, mas se recusou a ceder ao sentimento. Era como ser criança outra vez e assistir o adolescente entrar na sua casa na Buchanan Street com aquele sorriso de parar o trânsito. Ele desviou o olhar da figura masculina para encarar a chave do carro em sua mão, antes de apertar o objeto entre os dedos. A atitude parecia significar muito mais do que parecia, mas ele estava com medo de dissertar sobre as ações do loiro.

Aquilo tudo estava se tornando perigoso para ele, porque ele tinha certeza que sofreria sozinho outra vez se voltasse a se apaixonar pela mesma pessoa.

- Já que você está com o carro do tou-san, nós podemos tomar sorvete depois da escola, né, tio 'suke? – Nagato perguntou, calando seus pensamentos confusos e depreciativos. Ele piscou lentamente, apagando a imagem mental dolorida que estava começando a criar em sua cabeça e se virou para encarar os olhos inocentes e violáceos do menino.

- Claro, Naga-chan. – respondeu de forma meio distante e automática.

(***)

Sasuke estava um pouco descontente, enquanto dirigia o carro de Naruto. O modelo antigo do Ford era extravagante e extremamente chamativo. Cada vez que eles paravam em um farol, o Uchiha podia sentir os olhares dos pedestres e outros motoristas e sua sobrancelha direita tremia em aflição. E para piorar, a cor vermelha e vibrante não ajudava a minimizar a atenção que o automóvel parecia chamar. Graças aos deuses, o veículo não fazia tanto barulho como o velho Dodge Charger '69, caso o contrario, o Uzumaki poderia se considerar um homem morto.

Apesar dos pesares, ele não conseguia dizer "não", porque o fato de usar algo que era de suma importância para o mais velho parecia intensamente pessoal e íntimo; como se todos eles fossem realmente uma família. Se o loiro estava empenhado em fazê-lo se sentir em casa e incluído, ele estava conseguindo, porque olhar Nagato pelo retrovisor ao mesmo tempo em que ouvia o monólogo do outro homem parecia tão natural como se tivesse acontecido muitas vezes antes dessa primeira vez.

Não era ruim, mas também não necessariamente bom para o seu orgulho.

- Em 200 metros, vire a esquerda na Adeline Street. – disse a voz no GPS com aquele timbre automático e sem emoção, conduzindo-o até Ashby Bart Station.

Naruto poderia ter explicado o caminho, mas como ele estava por conta própria com o carro, ele decidiu ligar o aparelho até que conseguisse decorar algumas ruas principais. Oakland não era uma cidade muito grande e complicada para se entender as linhas de tráfego, o problema é que a maioria das avenidas mais importantes se parecia muito, cheias de espaços abertos muito amplos e poucos pontos de referência.

- Nós estamos chegando! – o Uzumaki anunciou, quando seguiram o caminho indicado. – Já que vocês vão sair depois das aulas – começou remexendo na pasta para pegar a carteira. –, fique com esse dinheiro para comprar o seu sorvete, Naga-chan! – estendeu uma nota de 20 dólares. – Ou você prefere que eu deixe com Sasuke para você não perder?

- Não precisa! – o menino puxou o papel, antes que o padrinho mudasse de ideia. – Eu já sou grande, posso me cuidar sozinho!

O homem apenas bufou em resposta, antes de virar para o moreno.

- Eu só não te pergunto se você precisa de alguma coisa, porque eu sei que você vai me jogar do meu próprio carro. – murmurou com o cenho franzido.

- Ainda bem que você sabe. – ele rebateu com certa impaciência, fazendo o homem revirar os olhos para o mau humor flagrante na sua voz e virar para guardar a carteira na pasta.

Sasuke já tinha aceitado utilizar um automóvel que não era dele, porque era pretencioso e manhoso demais para negar a oportunidade de ser responsável por algo de Naruto.

- Você é extremamente orgulhoso. – Naruto acusou quase fazendo o Uchiha pisar no freio com indignação mortificada.

- Olha quem fala... – ele respondeu secamente.

O loiro só suspirou e apoiou o cotovelo na janela escancarada. Ele atirou um olhar de relance no mais velho e o viu encarar intensamente a paisagem que corria com o carro em movimento, sem se importar em como o vento jogava ainda mais com o cabelo já rebelde. O dia ensolarado parecia fazer os orbes azuis reluzirem, mesmo a certa distância. Se não fosse o ar de resignação que nada lhe condizia, Sasuke teria encontrado a imagem sedutora.

- Eu não estou querendo criticá-lo. – começou num tom forçado e ameno. – Gez, você era mais fácil de lidar quando era criança! – resmungou. – Só estou tentando dizer que você não vai conseguir nada com essa postura. – rebateu e quando percebeu que o rapaz estava prestes a retrucar, continuou. – Seu irmão construiu uma vida aqui, Sasuke, mas você chegou agora. Não vai ser fácil encontrar um emprego bom de primeira, que lhe permita pagar por um apartamento sozinho. Eu sei que você não quer depender de Itachi por muito tempo, mas ser arrogante não vai te ajudar.

O moreno cogitou fingir que Naruto não existia, mas não fazia o seu perfil ouvir tudo calado e pronto. Ele sabia de todas essas possibilidades, mas queria dar uma tentativa a si mesmo, antes de se dar por vencido e recorrer ao irmão mais velho ou aos seus pais. Ele prometeu a si mesmo que faria o impossível para conseguir o que queria e isso incluía se tornar independente.

- Eu vou dar um jeito, não precisa se preocupar. – cortou sem querer continuar a conversa enfadonha. Às vezes, o Uzumaki agia como se fosse um membro da sua família e isso o irritava. Ambos não tinham nenhum nível de parentesco para que o loiro se sentisse no direito de dizer o que ele deveria fazer.

- Mas, eu me preocupo. Você é o irmão bebê do Itachi...

Sasuke apertou o volante do carro para se impedir de gritar. Internamente, ele tentou trancar a voz do outro para impedi-la de penetrar seus ouvidos.

- Eu quero que você consiga fazer as coisas que veio fazer, eu só te peço um pouco mais de paciência e sinceridade. Se você achar que algo está difícil, não hesite em pedir ajuda. – o homem levantou as mãos para o alto, rendendo-se. – Eu não vou te sustentar com uma mesada ou te tratar como uma criança, mas posso te ajudar a procurar por apartamentos mais baratos ou eu posso perguntar se Karin não tem um espaço para você se você se sentir mais à vontade morando com uma amiga. Ela divide um apartamento pequeno com Suigetsu aqui em Oakland, uma vez que São Francisco é absurdamente cara para se viver.

Ele não queria admitir, mas tinha gostado da proposta. O fato de Sasuke ser tão inflexível sobre receber ajuda, é que ele não queria ser tratado diferente, só porque era mais novo e isso só podia reforçar o estereótipo que Naruto parecia nutrir desde a última vez que se viram há quase dez anos. No entanto, a explicação do Uzumaki lhe dera outra perspectiva das coisas e ele mordeu o lábio inferior, enquanto considerava as informações.

- Eu não falo com Karin desde que saí da Califórnia. – admitiu.

Ele deu uma olhada para o retrovisor e viu os olhos violetas de Nagato prestando atenção na conversa com curiosidade, embora não tivesse aberto a boca para expressar absolutamente nada. Internamente, ele agradeceu o silêncio, porque, de alguma forma, ele achava que deveria ter aquela conversa com o mais velho, embora não quisesse.

- Acho que está na hora de mudar isso. – o loiro murmurou com uma voz cada vez mais frustrada. – Ela mora em um condomínio pequeno na 14th Street. O apartamento é uma quitinete minúscula, porque é cômodo só para acomodar duas pessoas. Mas, parece que o conjunto tem apartamentos maiores que são igualmente baratos e vocês podem dividi-lo sem desequilibrar o orçamento de ninguém.

- Você chegou ao seu destino. – a voz do GPS os interrompeu e Sasuke agradeceu mentalmente pela interrupção. A conversa estava progredindo aos poucos e uma hora daria a Naruto a liberdade de perguntar o porquê de ter se afastado dos seus amigos. E ele não estava disposto a contar que Karin não seria como seu irmão, que aceitou sem questionamentos a sua decisão de não saber sobre sua paixão de infância.

Ele saiu da Califórnia sem se despedir e sem exigir manter contato, pois estava determinado a cortar todas as relações com qualquer Uzumaki que tivesse conhecido na vida. Mas, a vida era cheia de surpresas e ele não pensou que Itachi continuaria amigo do loiro depois de tantos anos. Normalmente, as pessoas se afastavam conforme iam envelhecendo, porque se casavam e compravam suas próprias casas em cidades diferentes, até que a correria da vida os impedisse de se lembrar das velhas amizades.

Só que o primogênito Uchiha não se casou e nem Naruto. Ambos decidiram comprar um apartamento juntos, uma vez que não encontraram ninguém com quem quisesse compartilhar uma rotina. Em seu pensamento, ele debochou da declaração do seu irmão mais cedo naquele dia, "nós não temos uma tensão sexual não resolvida". Era óbvio que eles tinham se definido, os dois moravam juntos como um casal em um casamento aberto.

Ele simplesmente não entendia as coisas. Ele não entendia Naruto Uzumaki; não entendia Itachi Uchiha; não entendia Ino Yamanaka.

- Eu acho melhor você ir. – Sasuke determinou com um timbre cansado e cortante. A conversa fora curta, mas lhe deixara com a sensação de que sugara todas as suas energias.

Naruto suspirou, antes de abrir a porta.

- Eu sabia que você ia me jogar para fora do meu próprio carro.