As you wish
For kingdom come
The one to know all the answers
You think you dwell in wisdoms sea
Still sweet ignorance is the key
To a poet's paradise
Challenge the Riddler and you will see...
- Nightwish
"Boa noite," disse Lúcio cordialmente quando Belatriz entrou no salão comunal da Sonserina. Ele levou o punho até a boca e ficou o mordendo enquanto a observava se aproximar, então afastou o punho e falou: "Você demorou no banheiro."
Narcisa seguiu o olhar de Lúcio e viu os botões da calça da irmã abertos; um pedaço ínfimo da calcinha aparecendo. Mas, sem fugir do seu comportamento indiferente, Belatriz fechou a calça lançando um olhar inexpressivo a Lúcio. Havia nele aquela expressão contemplativa e um sorriso meio depravado que Narcisa gostava, mas só quando estava sendo dirigido a ela.
Belatriz sentou-se no braço da poltrona em que Snape estava afundado. Ele recolheu lentamente o cotovelo que ficara apoiado perto da perna dela, erguendo apenas um pouco os olhos. Lúcio começou a falar sobre o andamento das investigações do Ministério para Macnair e Dolohov, mas Narcisa não conseguiu prestar atenção – continuava fitando Belatriz. As pessoas podiam não saber, não perceber, mas Belatriz tinha algo a dizer.
Quando crianças, Narcisa se dava melhor com Belatriz que com Andrômeda, não só porque Andrômeda fosse um tanto agoniada e sua aflição exagerada irritasse, mas porque era muito mais fácil lidar com Belatriz. Belatriz não criava caso quando Narcisa desaparecia com suas fitas de cabelo, mais tarde também não ligou quando Narcisa abarcou seus sutiãs até quando eles mostraram-se apertados e incômodos, e ela passou a usar os de Andrômeda, mas esta fizera um barulho danado por causa disso. Andrômeda se tocava por qualquer besteirinha; na idade dos treze ou quatorze anos foi quase impossível conviver com ela, porque sua sensibilidade parecia ter aflorado de uma forma tal que até mesmo a dedetização mensal da casa a fazia chorar por pena dos insetos. Belatriz raramente chorava (melhor dizer que lagrimava), e quase sempre era por motivos que todos desconheciam. Mas, apesar de tudo, Narcisa se dava bem com Belatriz porque a conhecia. E agora mesmo ela estava escondendo uma coisa.
"Você quer nos contar algo, Belatriz?" Perguntou Narcisa com sua voz melodiosa que dava nos nervos de Lúcio. Todos pararam de falar e olharam de Narcisa para Belatriz, como se ambas tivessem gritado de repente.
Belatriz piscou lentamente. "Não."
"Pense melhor," Narcisa sentiu a mão de Lúcio deslizar em sua coxa, a apertando, e então ela se deu conta de que estava se alterando.
"Sim, ela tem uma coisa para lhe contar, Narcisa," murmurou Lúcio no ouvido de Narcisa, mas alto o suficiente para que todos em volta dele escutassem. "Porque é que vocês duas não sobem e conversam lá em cima? Acho que é particular."
Uma sombra cobriu os olhos de Belatriz, algo que Narcisa há muito tempo não via no rosto da irmã e que era um sinal de perigo. Insegurança. Belatriz encarou Lúcio abertamente, e aquele sorriso pervertido voltou novamente ao rosto dele. De repente o modo como eles se olhavam começou a significar muita coisa para Narcisa. Eles tinham um segredo, Belatriz e Lúcio.
"Sim," fez ela, perguntando-se que diabos estava acontecendo – o que ela tinha perdido? "Vamos lá para cima."
Belatriz não disse nada, apenas levantou e foi seguindo para a escada. Narcisa foi atrás. Lúcio e Belatriz. Um segredo. Belatriz. A criatura mais assexuada que Narcisa conhecia, a qual todos os seus amigos apontavam como uma aberração e ridicularizavam suas roupas cafonas três números mais largas porque elas acentuavam sua magreza e a deixavam parecendo a versão feminina do guitarrista d'As Esquisitonas, aquela garota insossa que odiava perfumes, brincos, pulseiras e que jamais tivera uma reação absolutamente normal para a idade, que nunca sequer ingerira álcool ou possuíra um biquíni, aquela garota tinha um segredo com seu namorado, Lúcio Malfoy. Lúcio Malfoy.
Para Narcisa isso era como chegar em casa, se olhar no espelho e ver que tudo aquilo que você achava que era – e que as pessoas diziam que você era – não passava de uma máscara bonitinha e bem forjada que haviam colocado em você sem pedir sua opinião antes, e você tinha aceitado porque, afinal, era uma máscara bonitinha, oras. Isso era como abrir o livro de Geografia e ver que agora eles tinham invertido as posições dos mapas, que a Europa não estava mais no centro e a Groelândia não parecia mais tão grande quanto antes. Era como esperar o pôr-do-sol e ver o crepúsculo.
Não tinha a ver com o fato de eles se olharem. Era um segredo, pombas! Um segredo pode ligar as pessoas, torná-las cúmplices, aproximá-las, um segredo pode abrir uma amizade. Quando você compartilha um segredo com alguém, essa pessoa vai fazer coisas pensando nesse segredo, em guardá-lo ou não, mas você já está na vida dela, de qualquer forma. Um segredo é uma maneira inteligente e maliciosa de se entrar na vida de outra pessoa, e por isso Narcisa estava tão aturdida.
Ela não gostava de Lúcio. Todos achavam que ela gostava, mas acontecera uma coisa, um dia, enquanto ela o olhava, sentado na carteira da frente na aula de Transfiguração, batendo a ponta do lápis silenciosamente no livro. Enquanto ele estava ali, quieto e desatento, Narcisa o assistiu se transformar. Os pelos da nuca dele deixaram de ser macios. O pescoço dele parou de emanar o cheiro masculino, suas mãos já não eram tão limpas e bonitas, e seus ombros ganharam uma proporção meio grotesca. Narcisa olhou para os lados, procurando desesperadamente seu namorado. Mas ele havia ido embora para sempre. Ela nunca mais o viu nos corredores, nem nos jardins ou no Salão Principal durante as refeições, e ela teve de aceitar aquele outro garoto que começou a se transformar em sua frente durante uma aula de Transfiguração, porque as pessoas achavam que ele era Lúcio, e talvez elas estivessem certas. Elas sempre estavam, não era uma boa idéia discutir com elas.
Narcisa se deu conta de que já estava no quarto. Belatriz tinha deitado em sua cama, deixando a metade das pernas de fora e balançando suavemente os pés, de forma que as solas dos tênis atritassem de leve no chão, fazendo um barulhinho incomodo.
"Sabe o que nós estávamos fazendo?" Narcisa perguntou, sentando-se na cama, o joelho perto da cabeça de Belatriz. "A Lista. É uma coisa muito importante, mas nós não terminamos."
"Porque eu estava com metade das fichas," disse Belatriz, olhando para o teto.
"Porque você estava com metade das fichas."
Belatriz permaneceu imóvel e muda, como se tivesse morrido enquanto olhava para o teto.
"Nós estávamos todos lá em baixo, pondo os nomes em ordem, cada linhagem, porque ele precisa começar. Ele quer começar," Narcisa esperou Belatriz ter alguma reação. Mas ela não iria ter, porque não sabia como era... "Você sabe como é quando ele quer algo, Belatriz?"
Os olhos de Belatriz se moveram. Narcisa desviou o olhar porque teve medo que Belatriz começasse a mudar também, como acontecera com Lúcio. Mas sabia que aquela garota deitada em sua cama já não era sua irmã. Belatriz havia falado brevemente com ela durante o jantar, e depois algo acontecera, alguma coisa que liquidara de vez com a última parte dela que ainda restava – porque Belatriz vinha desaparecendo a cada momento desde os doze ou treze anos de idade – e então aquela garota de membros frágeis e olhar catastrófico tinha surgido em seu lugar, sentado com eles lá em baixo e agora estava em sua cama, respirando pela boca aberta.
"Lamento," murmurou Belatriz, a voz rouca como se fosse chorar ou morrer de fato.
"Eu não lamento," Narcisa se viu confessando, mas somente porque Belatriz estava sendo ela mesma, e era mais um gesto de reciprocidade e consolo que outra coisa.
"Você nunca quis falar disso."
Narcisa encostou-se nos travesseiros. "Eu não lamentei no momento, não lamentei antes, nem depois, nem agora, eu só lamento não ter sido real."
"Foi real," havia uma nota de profunda seriedade na voz de Belatriz.
"Você sabe como é amar uma pessoa, Belatriz?"
Belatriz balançou a cabeça.
"É como saber todas as questões da prova, no mesmo instante em que você se senta no banco da escola. É como ter certeza de que tudo vai dar certo para você pelo resto de sua vida. Você vai dar certo. Durante a sua vida você vai ter a sensação de vencedora." Narcisa fechou os olhos. "Amar é isso."
Belatriz tocou no joelho da irmã. "Você vai amar outra pessoa."
Narcisa abriu os olhos e aproximou o rosto de Belatriz. "Não, nunca. Ponha isso na cabeça, sua tonta. Nunca," ela estava lagrimando. Não queria isso, mas não podia impedir. "Eu fui para a cama com um homem, Belatriz. Mas não era qualquer homem, era ele. Eu gostava dele, porque ele dizia coisas que eu passei a vida toda esperando ouvir. Eram coisas inteligentes, revolucionárias, e ficou claro para mim que um dia o nome dele seria conhecido e temido. Está tudo se realizando agora, Belatriz. E você sabe como é ir para a cama com alguém que você gosta? Não é real. É isso que você pensa na hora: que não é de verdade. Porque não tem dor, não tem dificuldade, não tem falhas, é tudo muito claro, confortável e suave. Lamento apenas por isso, por não ter sido real."
Belatriz não disse nada, e Narcisa já esperava que fosse assim mesmo. "Onde é que você estava?"
"Com Sirius."
"Humm," fez Narcisa, e ficou um pouco ouvindo a própria respiração. O quarto estava vazio, porque as outras garotas com quem o dividia estavam todas lá em baixo, de modo que o silêncio quase causava sono. "Suas aulas."
"Não."
Narcisa se sentou novamente. "Não foi para ter aulas que você foi se encontrar com ele?"
"Foi. Não houve aula. Não houve nada."
"Como assim?" Narcisa ficou tensa.
"Ele sabe," murmurou Belatriz, fechando os olhos como se sentisse uma dor maior do que a ocasião exigia. "Ele roubou uma ficha, eu não pude fazer nada. Ele é... ele é maior do que eu... você sabe disso..."
"Você o quê? Não pôde fazer nada?" Narcisa inclinou-se por cima de Belatriz, e quando a garota abriu os olhos, ela a fitou com raiva. "Tom Riddle deu a você quase metade dos poderes dele. Ninguém, nenhum de nós consegue sequer fazer uma lagarta mudar de cor sem usar a varinha, mas Sirius pegou uma mísera ficha e você não pôde fazer nada?"
Belatriz virou a cabeça para o outro lado. "Eu já lhe disse. Os poderes funcionam com estímulo."
"A morte é estímulo suficiente para você?" Perguntou Narcisa, não acreditando no que estava ouvindo. "Ele vai matar você, Belatriz." Mas Narcisa sabia que não era verdade. Belatriz tinha uma puta sorte, porque Tom Riddle simplesmente ia com a cara dela e deixava passar todas as burradas que ela fazia.
"Eu não ligo para a morte."
"DANE-SE! Mas eu ligo para isso tudo, eu quero que dê certo!"
"Você quer que vocês dois dêem certo," Belatriz tossiu. "Está tudo sob controle."
"Sob controle. Sim. É como você gosta de manter as coisas. Mas hoje você não pôde controlar a situação."
A cabeça de Belatriz girou suavemente na cama para olhá-la de ponta-cabeça.
"Você não pode continuar," disse Narcisa. "Tom Riddle não aceita pessoas fracas."
"Narcisa," disse Belatriz, franzindo o cenho, e um músculo acima da sobrancelha de Narcisa se contraiu involuntariamente. "Sabe por que foi que ele me deu poderes? Porque eu não o subestimo. Ele sabe o que estive fazendo hoje. Você não sabe, mas você acha que pode julgar..."
"Você nos traiu."
"... e se ainda estou viva é porque ele não se incomoda com isso," Belatriz piscou e olhou para baixo, para a própria blusa. "Vou até ele agora, veja bem, porque é o que você acha que devo fazer, não é?"
Narcisa afastou-se de Belatriz como se ela tivesse atirado um sapato em sua direção.
"Eu vou até ele," repetiu Belatriz. "É isso que deve ser feito."
"É."
A porta do dormitório abriu-se a uma da manhã.
Pedro saiu por ela, andou pelos corredores, desceu até o salão comunal e olhou por toda sua extensão.
De onde estavam, Sirius, Lupin e Tiago conseguiam vê-lo de costas. Então Pedro saiu pelo buraco do retrato e sumiu pelos corredores do castelo.
"Merda," disse Tiago.
"Que horas são?" Perguntou Lupin a ele.
"Quase três."
"Ele não entrou," disse Sirius.
Estavam atrás da sebe, nos jardins da casa vizinha a de Tom Riddle, e nada, nem mesmo um gato, havia se aproximado da rua durante o tempo em que estiveram ali. Se Pedro realmente havia entrado, fora como animago e pelo esgoto. Tiago se esgueirou para o lado na direção dos portões. Sirius e Lupin o seguiram. Eles forçaram de leve as grades e o portão abriu com um rangido feio. Tiago virou-se e olhou-os de modo curioso.
A Mansão Riddle ficava no final da rua e era escura, grande e os jardins cheiravam a esterco e adubo úmido. Uma fonte inutilizada e enferrujada no meio dele dava a sensação de que ninguém se aproximava da casa há mais de séculos, o que não fazia sentido, porque os Riddle haviam morrido há apenas alguns dias. Havia uma pequena casa a uns vinte metros da fonte, as luzes acesas, ruído de televisão vazando pela janela, e Sirius achou que teria sido muito fácil se infiltrar na casa. Se ela não estivesse toda vedada por cordões de isolamento.
"Merda," repetiu Tiago. "Qual era a necessidade disso? Me digam."
"Rabicho precisava ver com os próprios olhos," murmurou Lupin. "Você sabe como ele é esquisito."
"Eu sei de uma coisa: ele não está aí dentro."
"Ele pode ter se perdido," disse Sirius, e teve a impressão de ouvir Tiago rindo.
Haviam acompanhado Pedro até Hogsmeade, uma sombra minúscula correndo pela vila, e o tempo todo eles o seguiram sem o perder de vista. Então, a uns dez quilômetros de Little Hangleton, Lupin pediu para que parassem. Era fácil para um rato, um cão e um cervo correr durante meia hora, mas não para um humano. Por algum tempo, Sirius desejou que fosse lua cheia. Eles pararam por dez minutos e nunca mais conseguiram seguir Pedro. Tinham a esperança de que o pegassem na rua da Mansão Riddle, mas isso não aconteceu. No entanto, se ele não estava lá dentro, onde mais poderia estar?
"Vocês já pararam para pensar," disse Tiago, "que ele nunca agiu assim?"
Eles correram depressa para os fundos da casa.
"Quero dizer," continuou ele, "ele nunca se interessou pelos herdeiros de Salazar Slytherin."
A porta dos fundos não estava vedada. Eles a abriram com um feitiço, e Sirius ouviu uma voz murmurar "você arrombou uma casa" em sua cabeça.
Ora, fique na sua.
Você está virando um marginal, Black. Fugiu de casa e agora arrombou uma casa.
E daí? Alguém ia arrombá-la um dia.
Tiago colidiu com o balcão enquanto atravessavam a cozinha no escuro. Panelas e facas caíram no chão, produzindo um estardalhaço que os fez congelar por no mínimo cinco minutos. Eles saíram da cozinha e entraram num corredor comprido que parecia não ter fim, então se acharam num aposento que tinha tudo para ser uma sala de jantar. Sirius ergueu a varinha um pouco, e à luz que emanava de sua ponta eles viram traços no chão. Desenhos que coincidiam exatamente com o formato de três corpos. A mesa estava posta, com restos de comida grudada nos pratos e as bordas das taças embaçadas e engorduradas. Uma cesta de frutas empoeiradas enfeitava-a. Não havia sangue, não havia fedor de carne podre, e, mesmo assim, Sirius sentiu náuseas.
"Vamos nos dividir e procurar Rabicho," disse Lupin com a voz engatada, porém firme e calma. "Não toquem em nada."
Tom tinha dezenove anos, mas aparentava ser uns cinco anos mais velho. Os cabelos escuros eram curtos e havia um pequeno redemoinho na parte de trás de sua cabeça. Seu pescoço era delgado e incrivelmente pálido, aparecendo pela gola da blusa, e ele falava com uma voz que parecia um tanto etérea.
"Olá, Bela," disse ele quando ela entrou, sem a olhar.
Encontrava-se abaixado no chão, e este estava alagado. A água fazia a luz dos archotes refletir em seus sapatos e em seus olhos. A imagem de uma garotinha com cabelos de um loiro pêssego passava na superfície da água como um filminho. Ela estava olhando para o lado como se falasse com alguém.
"Veja só," disse Tom, apontando o enorme rosto da garota sob seus pés. "Ela vai fazer parte do meu futuro."
Belatriz olhou-a novamente. Não podia ter mais que dez anos. Seus olhos castanhos e enormes eram adornados por cílios ruivos longos o bastante para formarem uma graciosa curva sobre as pálpebras. Quando virou a cabeça de repente na outra direção, como se tivessem chamado seu nome, seus cachos grossos sacudiram. Ela não sabia como uma menininha daquele tipo ia poder fazer parte do futuro de Tom algum dia.
"Tom," disse Belatriz. "Sobre seu plano... ele corre o risco de dar errado..."
"Há muito tempo desejo falar com você, Belatriz," disse ele enquanto a imagem da garotinha desaparecia na água.
"Comigo? Por quê?"
"Por causa de meu pai," ele inclinou a cabeça.
"Nunca conheci seu pai..."
"Água?"
"O quê?"
Ele inclinou a cabeça. "Quer um pouco de água?"
"Não, obrigada."
"Um bombom?" Ele estava sorrindo.
"O quê?"
"Gosta de sua vida?"
Belatriz olhou para os cantos escuros do esconderijo. Estavam sozinhos. A vida de Tom agora resumia-se a pular de esconderijo em esconderijo. Era uma pergunta que até fazia sentido.
"Acho que sim. Respiro normalmente."
"Mas ela significa mais do que isso," disse Tom Riddle, "não é?"
Ela deu de ombros.
"Você se imagina com as mesmas pessoas daqui a cinqüenta anos?" Perguntou ele.
"Tom..."
Ele balançou a cabeça à maneira de um padre no confessionário. "Que alternativas você tem?"
Ela suspirou: "Tom, não vim aqui para discutir meu futuro."
"Isso não significa que não podemos fazê-lo, Bela," ele arqueou as sobrancelhas, e uma expressão de inocência suavizou seu rosto esquelético. "Tenho interesse em você. Satisfaça minha curiosidade. Responda, por favor."
"Talvez eu me torne contadora em Gringotes," disse ela.
"É mesmo?"
"Por que não?"
"Por que não trabalhar para uma grande associação?" Perguntou. "Uma sociedade."
"É verdade," disse ela.
"Já pensou nisso, Bela?"
"Belatriz," ela odiava a forma como ele pronunciava seu nome, mas sem saber bem porquê. "Já pensei nisso."
"Mas você prefere sua dependência."
"É por aí," Belatriz enfiou as mãos no bolso do casaco e caminhou para mais perto dele, e os olhos brilhantes de Tom ficaram fixos nela. "Tom," ela insistiu, "peguei os pergami..."
"Você conhece a parábola dos três talentos, não?"
Ela fez que sim.
"Aqueles que acumulam riquezas ou se recusam a se servir de seus dons não são 'nem quentes nem frios', e por isso Deus os vomitará."
"Conheço a parábola, Tom."
"E então?" Ele ficou de pé quando Belatriz parou em sua frente. "Uma pessoa que vira as costas para a própria vocação não é quente nem fria."
De perto, a pele dele parecia feita de gesso por mãos muito precisas. "E se essa pessoa não tiver certeza de ter encontrado a própria vocação?"
Ele sacudiu os ombros.
"Tom, se a gente pudesse conversar sobre..."
"Acho que você recebeu o dom da fúria, Bela. É verdade. Eu a vejo em você."
"Quando?"
"Você já se apaixonou?" Ele se inclinou para a frente.
"O que isso tem a ver com..."
"Já?"
"Não."
"Você está apaixonada agora," ele perscrutou seu rosto. "Eu nunca me apaixonei. Nunca me apaixonei, nunca andei de mãos dadas nem andei pela praia com uma mulher, nem conversei sobre... assuntos domésticos – quem vai cozinhar, quem vai lavar a louça esta noite, será que vamos achar alguém para concertar a máquina de lavar? Nunca vivi essas experiências e às vezes, à noite, fico pensando nisso," ele mordeu o lábio inferior por um instante. "Mas acho que todos sonhamos com vidas diferentes. Todos queremos viver mil existências diferentes durante nosso tempo aqui na terra. Mas não podemos, não é?"
"Não," disse ela. "Não podemos."
"Perguntei sobre suas aspirações futuras porque acho que você é capaz de deixar sua marca. Está entendendo?"
"Não."
Ele deu um sorriso triste. "A maioria das pessoas passam seu tempo na terra sem se distinguir umas das outras. Vivem num desespero tranqüilo, esse tipo de coisa. Elas nascem, vivem por algum tempo, com todas as suas paixões, morrem. Mal se nota sua existência. Belatriz, existem bilhões de pessoas assim – dezenas de bilhões – ao longo da história que viveram sem deixar sua marca, que poderiam muito bem nem ter nascido."
Belatriz sorriu de leve. "Essas pessoas de quem você fala talvez não concordem com isso."
"Tenho certeza de que não concordam," ele abriu um sorriso largo e se inclinou para Belatriz como se fosse lhe contar um segredo. "Mas quem se importa?"
"Tom, o que você precisa saber é que eu..."
"Você tem o potencial de uma pessoa marcante. Você poderia ser lembrada por muito tempo depois de sua morte. Pense no significado disso, ainda mais nos tempos de hoje, onde tudo é descartável. Pense nisso."
"E se eu não tiver a menor vontade de ser 'uma pessoa marcante'?"
Por um instante, o reflexo do fogo nos archotes escondeu seus olhos. "Talvez você não tenha escolha. Talvez você seja forçada a se tornar uma dessas pessoas, quer queira, quer não," disse ele, sacudindo os ombros.
"Por quem?" Perguntou ela.
Ele sorriu. "Por mim não vai ser."
"Tom," falou ela, "eu peguei os pergaminhos, como você disse para que fizéssemos, mas então aconteceu uma coisa. Um deles foi parar em mãos erradas, acho que isso vai prejudicar as coisas."
Ele suspirou. "Quando eu era criança, fui atacado por um enxame de vespas rajadas de amarelo. Eu estava andando à beira de um lago e não faço idéia de onde elas surgiram. A certa altura, porém, como uma miragem, elas me envolveram naquela enorme nuvem preta e amarela. Eu mal conseguia ver meus pais no campo, mas tive vontade de gritar-lhes que estava tudo bem. Estava tudo ótimo. Mas aí as abelhas começaram a me picar. Mil agulhas penetravam minha carne e sugavam meu sangue, e a dor era tão excruciante que chegava a ser orgástica," ele olhou para Belatriz no momento em que uma gota de suor escorreu por sua testa e parou no nariz. "Eu tinha onze anos e tive meu primeiro orgasmo, ali mesmo, enquanto mil vespas sugavam meu sangue."
Belatriz teve uma ligeira vontade de desviar os olhos.
"Você já foi picada alguma vez?"
Ela deu de ombros.
Houve então um silêncio que durou vários minutos. Tom Riddle, de frente para ela, olhava-a como se estivesse perguntando como ela ficaria cortada em pedacinhos num prato de porcelana branca, e que talhares escolher entre os que estavam à sua disposição.
Ela se esforçou para sustentar o olhar, sabendo que ele recusaria falar sobre qualquer outra coisa que ela falasse naquela hora.
Quando ele falou, ela não viu seus lábios se mexendo. Só viu depois, ao se lembrar da cena.
"Você pode tirar o cabelo dos meus olhos, Belatriz?"
Belatriz ergueu a mão e empurrou para trás as mechas que apontavam na direção dos olhos dele como ganchos. Ele aproximou as narinas da pele nua entre a mão enluvada dela e a manga de sua camisa e cheirou ruidosamente.
Ela retirou a mão.
"Quero que você entenda uma coisa," disse Tom. "Quero que você entenda que existem escolhas. Você pode fazer a escolha certa ou a escolha errada, mas terá que escolher. Nem todas as pessoas que você gosta podem continuar a viver."
Belatriz tentou manter um pouco de saliva na boca. Há alguns minutos atrás ela gostaria que aquelas abelhas o tivessem matado. Agora ela gostaria de tocar mais uma vez nele.
Tom afastou-se e fez um gesto abarcando o chão. Na superfície da água via-se um quarto escuro e banhado por uma claridade noturna opaca. Um garoto estava abaixado num canto, segurando uma carta, e o pergaminho era tão fino que as letras transpareciam por ele. Atrás do garoto havia prateleiras cheias de retratos, livros, objetos estranhos, tão estranhos quanto o quarto em si. Mas Belatriz prestou atenção no garoto. Apenas nos olhos dele. Ela não sabia o que estava escrito na carta que ele lia, mas ao terminar de lê-la, Sirius a largou lentamente sobre a cama e se afastou, tão pálido que parecia ter perdido a alma.
"Acho que ele descobriu o segredo de meu pai," disse Tom.
