Capítulo VII
Ao pisar dentro do templo, um cheiro de queimado invadiu-lhe as narinas e logo sua atenção foi chamada para a origem deste. Da cozinha vinha uma fumaça e do meio da fumaça surgiu Kanon, vestindo um avental um pouco delicado demais, com uma colher de pau na mão e tossindo.
- Ah, você chegou! Boa noite, maninho.
Saga teria praguejado por ser chamado daquele jeito se não estivesse perplexo com a situação. O que seu irmão estava aprontando? Botando fogo na casa em sua ausência?
- Que diabos aconteceu aqui, Kanon!?
Como uma criança levando bronca da mãe, ele sorriu e respondeu com ar de inocente:
- Um pequeno acidente. Eu estava tentando preparar o jantar para você, mas... receio não ter sido bem sucedido. Por que nunca disseram que cozinhar era mais difícil que batalhar com outro Cavaleiro de Ouro?
Saga não podia acreditar em seus próprios ouvidos. O que o esperaria quando voltasse para casa nos próximos dias? Sequer desejava imaginar.
Sem tecer qualquer comentário, dirigiu-se ao quarto e fechou a porta.
- Ei, espere, manin--... Saga! Você não ficou bravo com isso também, não é? Ora, vamos lá... eu me esforcei!
Mas não obteve qualquer resposta e dando de ombros, voltou para a cozinha, tentando consertar o estrago que havia feito. O cômodo parecia um campo de batalha e Kanon desconfiava de que o irmão ficaria ainda mais furioso quando visse a bagunça.
Tentava – sem sucesso – ocultar os "piores danos" quando ouviu barulho na sala. Rapidamente dirigiu-se até lá, encontrando um Saga perfeitamente vestido com jeans e regata e os cabelos soltos dando um toque rebelde – e irresistível – ao visual. Era quase impossível não contemplar o gêmeo com cobiça.
- O que foi? – perguntou Saga, antipático.
- Você vai sair? – rebateu, inquisidor.
- Claro. Estou faminto e parece que a cozinha está interditada, estou errado?
Kanon não respondeu e sentou-se no sofá, recostando-se nele como se estivesse exausto. Ainda usava o avental que estava manchado com todo tipo de resíduo, mas a colher de pau não o acompanhava mais.
O irmão seguiu até próximo da saída do templo, mas por fim hesitou e voltou-se para ele.
- Quer vir comigo? Duvido que seja capaz de comer sua própria comida, se é que podemos chamá-la assim.
Abrindo um amplo sorriso, Kanon levantou-se do sofá de um salto e correu até o quarto, dizendo antes de adentrá-lo:
- Estarei pronto em dois minutos!
Saga balançou a cabeça e riu. Treze anos não haviam sido suficientes para que seu gêmeo amadurecesse em alguns sentidos.
oOo
Os dois minutos de Kanon na verdade haviam levado cerca de meia hora. Quase impacientemente Saga aguardara, após os cinco primeiros minutos sentando-se no sofá para esperar de forma mais confortável. Quando a espera chegara aos vinte minutos, sua fome já se manifestava de maneira incômoda e ele estava a ponto de se irritar com o irmão. E enfim, Kanon surgira, impecavelmente vestido com uma calça jeans desbotada e uma camiseta escura que contrastava com seus cabelos soltos e brilhosos e que ressaltava os músculos bem definidos. Possuía um ar tão selvagem e descontraído que por um momento Saga se esquecera que estivera prestes a reclamar pelo atraso e apenas o observara, estranhamente quase sem fôlego.
- Estou aprovado, maninho?
À pergunta seguira-se um sorriso e foi o sorriso que fez Saga voltar à realidade. Levantara-se.
- Há algo para ser aprovado aqui? – replicara com um meio sorriso. – Vamos, não quer que eu morra de fome, quer?
- Nunca eu desejaria algo assim, maninho!
E então haviam deixado o templo alegremente, sentindo uma atmosfera que não haviam apreciado até então.
Já distantes do Santuário, pareciam ter sido transportados para outro mundo. Por alguma razão, Kanon estava evitando suas insinuações constrangedoras e ambos conversavam como dois homens de sua idade fariam, provavelmente, como dois bons irmãos fariam. Poderia ser simplesmente um sonho, do qual Saga acordaria para encontrar o gêmeo fitando-o com ar malicioso e palavras proibidas não ditas sendo deixadas no ar. Não importava, contudo. Fosse sonho ou realidade, aquele momento se mostrava mágico, a noite amena parecia perfeita e as preocupações estavam distantes, guardadas em algum lugar.
Sendo guiados por um acordo silencioso, agora alcançavam a região do cais. As águas se agitavam não muito distante e eles teriam se lembrado do Cabo Sunion, de todas aquelas lembranças dolorosas, se houvessem se permitido. Porém, não o fizeram. No meio do caminho, Saga parou e voltou-se para o irmão, interrompendo a conversa animada que travavam.
- Que tal frutos do mar? Os restaurantes do cais são os melhores, há um bom tempo não desfruto desse prazer. – sorriu. – Alguma objeção, maninho?
Usara o termo propositalmente, com ar divertido.
- Absolutamente, Saga de Gêmeos. A menos, é claro, que eles não sirvam um belo vinho do porto.
- Vinho do porto? Oras, mas isso soa tão francês! Até onde sei, quem passa parte do dia próximo a Camus de Aquário sou eu! – riu. – Ficarei um tanto satisfeito com uma bela dose de ouzo¹!
- E quem disse que recusarei o ouzo? Ah, maninho, acho que beberemos até confundir água com vinho branco! Vamos, essa discussão está me deixando um tanto ansioso.
Saga balançou a cabeça, fingindo desaprovar.
- Já vi que terei de me manter sóbreo para carregá-lo de volta ao templo!
- Dever de irmão, certo? – respondeu com aquele olhar travesso, enquanto continuavam seguindo rumo a um dos melhores restaurantes do cais.
Era uma noite mágica e que duraria para sempre.
oOo
Depois de saborearem uma diversidade de mezédes², sempre acompanhados por doses generosas de vinho, ouzo e cerveja, eles enfim pediram o jantar. Já estavam consideravelmente "altos", rindo das coisas mais banais possíveis. Apesar da embriaguez, o clima entre ambos continuava confortável e descontraído. Foram servidos por uma simpática garçonete alta, de longos cabelos loiros impecavelmente presos. Ela parecera fascinada com a semelhança que os fazia quase idênticos.
- Quem você acha que ela achou mais bonito, Saga? – perguntou Kanon debilmente, erguendo a taça. – À nosso primeiro passeio juntos! – brindou.
- Certamente eu, Kanon. Possuo um ar maduro irresistível.
Ambos riram e permaneceram algum tempo em silêncio, enquanto saboreavam a comida.
- Sabe, Saga. – começou Kanon, em tom surpreendentemente sério. – Quando acordei, depois de Athena nos reviver... eu pensei que estivesse no Inferno. Sofrer a penitência dos deuses não me assustou, mas... eu achei tão injusto que tivesse de terminar assim, sem poder me retratar com você.
Saga estava perplexo. Não esperava que aquela conversa fosse se dar daquela maneira, tampouco naquele momento. Encontrou o olhar do gêmeo fixo no seu e a muito custo não desviou.
- Eu me senti da mesma forma, Kanon. Ainda que tenhamos nos encontrado durante a guerra, muita coisa que deveria ter sido dita não foi. – ele fez uma pausa, comendo mais uma porção da comida. – Não havia tempo, não era o momento e não houve oportunidade. Minha vida falsa se foi e eu temi não poder me justificar com você, irmão. Temi que você nunca soubesse que eu não era um inimigo de fato.
- Eu sabia que você não era, Saga. Sempre soube. Eu o odiei, por muito tempo, ou pelo menos acreditei que te odiava. Mas eu simplesmente não queria ser fraco e reconhecer que o amava como não deveria e como não podia evitar. Considerei isso fraqueza. E nutrir ódio me deu forças, mas minhas forças não me levaram a nada se não cometer tolices.
Ele parou, baixou o olhar para o prato, serviu-se de uma pequena porção e esperou até terminar de ingeri-la. Saga bebericava o vinho devagar.
- Eu não posso dizer que sinto muito por ter te amado de forma proibida. Não podia controlar e sei que o mesmo aconteceu com você. O destino quis que assim fosse, do contrário não teria nos separado e nos aproximado daquela maneira, sem que soubéssemos quem éramos e o que éramos. Mas eu sinto muito por ter arquitetado planos malignos, por ter deixado que a ambição envenenasse minha alma. Eu peço perdão pelo mal que lhe causei.
Mais uma vez o silêncio se abateu entre eles. Continuaram a refeição, cada um com seu próprio pensamento, durante um tempo.
- Ambos erramos. Eu também peço perdão pelo mal que lhe causei, por não ter evitado que você sofresse as conseqüências de tudo sozinho.
Eles se encararam e assentiram quase sincronizadamente. E então permaneceram calados até terminarem o jantar.
No íntimo, ambos sentiam-se aliviados. Um peso de anos havia se acumulado e somente aquelas poucas palavras seriam capazes de aliviá-lo. Agora eles sabiam que poderiam construir uma relação novamente e desta vez seria mais fácil, pois não haveria uma barreira separando-os.
Entretanto, um muro ainda se erguia entre os dois. E este muro poderia ser intransponível, se assim o fizessem.
- Kanon... você não falava a sério em todas essas vezes em que insistiu que...
- Sim, eu falava a sério. – interrompeu ele, já sabendo a pergunta. – Eu quero, Saga. Preciso saber. Convivi tempo demais com a dúvida.
- Mas você sabe o quão errado é isso! Olhe para mim, eu sou seu irmão gêmeo! Hoje, penso que... o fato de sermos ambos homens não me impediria. Talvez Milo e Camus, e os outros estejam certos. Não vejo porque estejam errados. Mas nós somos irmãos e é assim que devemos nos amar. Devemos ser uma família.
- Numa família não deve haver mentiras, maninho. E eu não poderei ser sincero se disser que não quero arriscar. Só curiosidade, nada mais. Já sabemos como é o Inferno. Iremos para lá de qualquer forma, algum dia. Isso não me importa. Você me importa. A dúvida me importa. Vamos tentar, sim? Um beijo quem sabe e nada mais. Pode ser o bastante.
Saga sacudiu a cabeça, reprovando e suspirou.
- Não Kanon. Isso eu não posso.
O clima perfeito ameaçava se partir. Eles sentiram isso.
- Não vamos falar nisso agora, certo? Você terá tempo para pensar! Eu não vou desistir. – sorriu, provocante. – Que venha mais ouzo!
E beberam e riram até que a madrugada já ia alta.
O passado estava resolvido. O futuro daria as demais respostas.
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- Pelos deuses, Kan, você vai cair! Está bêbado como Baco!
- Eu não estou bêbado. – disse rindo, com a voz tão enrolada quanto à do irmão. – Agora ande, abra logo essa porta.
- Não há porta! Entre, seu imbecil.
Adentraram o templo aos tropeços e era admirável que houvessem chegado até ali. Com esforço, conseguiram apenas mais uns passos e quase caíram. Saga acabou apoiado em um pilar e Kanon desabou em cima dele.
- Saia de cima de mim, você fede a álcool! – resmungou e riu.
- É você quem fede tanto a álcool que está até sentindo seu próprio bafo!
Continuavam colados, as pernas vacilantes e os corpos apoiados apenas pelo pilar. Os rostos estavam perigosamente próximos.
- Isso será o bastante, maninho. – sussurrou Kanon, seu hálito roçando os lábios do gêmeo como uma brisa cálida.
O templo estava escuro e ele pareceu conseguir enxergar apenas um pouco do rosto, o brilho do olhar e do sorriso. A cabeça girava e ele sentia-se como se sob o efeito de uma hipnose.
A brisa transformou-se num toque suave e o toque suave numa carícia urgente.
Não recusou o beijo.
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Ouzo - aguardente de uva com essência de anis.
Mezédes - são porções de antepastos diversos servidos para acompanhar uma bebida antes das refeições.
Nota: Peço perdões pela demora na atualização! Problemas, falta de inspiração e tempo me bloquearam, mas acho que agora conseguirei concluir a fic! Obrigada pelas reviews – enviem mais se possível – e até o próx. capítulo! xD
