LIVRO I - BUSCA

Capítulo seis

As sirenes continuavam soando, todos estavam olhando na direção de onde tinha vindo o barulho, e James se aproximou lentamente dos monitores.

- O que está acontecendo aí, meus jovens? Cambio. - veio a voz de Dumbledore pelo rádio.

Nenhum dos presentes pareceu ouvir a pergunta que foi feita.

- Peter?... - James murmurou, o som sendo abafado pelo barulho das sirenes.

- Peter? - Lily repetiu a pergunta, a voz soando confusa. - Mas... James, o capacete dele está quebrado. - ela apertou Harry entre os braços.

Eles se entreolharam, e Remus prendeu a respiração. Sirius olhava fixamente pra frente. De seus lábios secos apenas uma palavra:

- Infectado?...

Harry prendeu a respiração, suas mãos apertando o cobertor ao redor de si, uma sensação ruim na boca do estômago.

Lily estava mais à frente e olhava com seriedade, o rosto contraído num misto de mágoa e desespero.

- Peter? - ela perguntou, sua voz soando quebrada conforme ela parecia segurar o choro. - Peter, responda... Por que disseram que você não levou as informações?

A voz do farmacêutico ecoou na sala, misturando-se ao barulho ensurdecedor das sirenes, as mãos de James tremiam.

- Lily, você pode abrir a porta? - Lily deu um passo pra trás, olhos fixos. Peter continuou, parecia implorar. - Lily, que brincadeira é essa, não está vendo que eu estou aqui? Me ajude! - James se postara ao lado da esposa, ambos em silêncio. - Pessoal, por favor. - a voz de Peter estava chorosa.

Lily olhou para os lados, parecendo desnorteada, Harry se remexeu em seu colo, começando a ficar agitado. Ela engoliu em seco.

- Vou desligar os alarmes. - ela falou e saiu do campo de visão, parecendo transtornada.

- Por favor, eu não posso digitar a senha. - Peter murmurou. - Minhas mãos...

Remus levou as mãos a boca, parecendo enjoado, e desviou o olhar. James estava chorando, dizendo:

- Não, Peter, nós... Nós não podemos, Peter. Você está doente.

- Mas!... Mas vocês podem me curar, me ajudem! - ele parecia histérico. - SIRIUS! SIRIUS, POR FAVOR! Me ajude, ME AJUDE! Ajude o seu companheiro, me salve, me salve... SIRIUS! - não obtendo nenhuma resposta, Peter continuou, chorando e falando baixo agora. - Remus... Rem... Por favor, Rem, você sabe como dói, me ajude... Me ajude, por favor... Eu estou morrendo, Remus, me ajude... - soluçou, voltando a esbravejar. - SEU DESGRAÇADO FILHO DE UMA PUTA, ME AJUDE! VOCÊS TODOS! TUDO QUE EU FIZ POR VOCÊS... TUDO O QUE EU... AH, POR FAVOR, EU VOU MORRER, EU VOU... Pessoal...

- Respondam, o que está acontecendo? Cambio. - a voz de Dumbledore soava alarmada, não mais que as faces dos jovens. Os rostos deles mostravam sofrimento, o choro e os gritos de Peter, misturados com o barulho ensurdecedor das sirenes tomando o ambiente completamente. Sirius balançou a cabeça, olhando em direção à porta.

- VOCÊ! VOCÊ, SEU RATO SUJO, COMO TEM CORAGEM? - ele gritou, sua voz carregada de ódio, os gritos de Peter diminuindo. - Você nos entregou para Voldemort, não foi, seu monstro? Você o informou de tudo, esperou até nós confiarmos em você... - Sirius estava tremendo, a cabeça baixa impossibilitando a visão de sua expressão.

- Peter. - a voz de James estava entrecortada e rouca. - Peter, por quê?

De repente as sirenes cessaram.

Um riso baixo emergiu, transformando-se numa risada cruel. Todos tinham uma expressão de confusão na face.

- Vocês não sabem o que estão fazendo, não há como lutar contra a genialidade do Lorde. - a voz de Peter ecoou no local assustadoramente silencioso. - Vocês são patéticos!

Os três homens se sobressaltaram repentinamente, soltando sons inarticulados e olhando estáticos para os monitores, como se tivessem tomado um susto.

- Voldemort! - James gritou, e antes que os dois amigos tivessem uma reação, ele saiu esbaforido da sala de confinamento. - Lily, volte agora! Corra para a sala de confinamento! Tenho que ativar as travas mecânicas das portas!

Vários gritos e urros distantes começaram a ser ouvidos pelos auto-falantes dos monitores.

- Y-J-K-W... - Peter começou a recitar em voz alta.

- PETER, NÃO! - Remus gritou, num ofego. Terror e ultraje deformando as expressões normalmente sempre calmas

Os gritos estavam cada vez mais próximos, e agora vinham acompanhados com baques surdos, como se centenas de calcanhares estivessem pisoteando ferozmente o chão, numa correria.

- 7-2-L-5. - o homem de cabelos loiros continuou a recitar com a voz firme. - Faça as honras, Lorde.

O som seco de metal se chocando foi ouvido, anunciando que as travas mecânicas tinham sido acionadas. Os rostos de Sirius e Remus relaxaram um milímetro, para depois serem transfigurados em duas expressões gêmeas de terror. Algo novo aconteceu diante dos monitores, e os dois homens que estavam estáticos pareceram acordar nesse momento.

- As armas! - Sirius gritou e saiu do campo de visão.

O barulho de outra explosão estremeceu a imagem, e Remus girou sobre os calcanhares, voltando para o rádio. O choro de Harry irrompeu, fazendo o médico se encolher.

- Estamos sendo invadidos, senhor! - sua voz estava trêmula, bem como suas mãos. - V-Voldemort está aqui! Isso não é um teste! Cambio! - sons de tiro e urros começaram a se misturar ao choro da criança, Remus tinha uma expressão de horror no rosto.

- Fiquem todos na sala de confinamento e ativem o sistema de emergência! Vou mandar todas as tropas agora! Cambio! - a voz de Dumbledore soou firme, como o comandante que ele era.

- Entendido. Cambio desligo. - Remus soltou o microfone de qualquer jeito sobre a mesa e saiu correndo do campo de visão. - Voltem para a sala de confinamento! Dumbledore está mandando as tropas! - ele gritou em meio aos outros gritos, sua voz sobrepondo-se ao barulho que tomava o local.

- Lily, corra! Leve Harry! - James gritou, urros animalescos sendo ouvidos antes de mais sons de tiros.

Podia-se ouvir sons metálicos de objetos sendo jogados no chão, vidros sendo quebrados e pisoteados.

- JAMES! NÃO! - o grito de Lily foi alto e rouco, como se algo tivesse se rompido. O choro da criança agora era desesperado.

- Saia do caminho, sua tola! - uma voz áspera falou firmemente, não era um grito, mas conseguia se sobrepor às outras.

- NÃO! - Sirius gritou ao mesmo tempo que Lily, as vozes de ambos mesclando-se em terror. - SEU FILHO DA PUTA! - gritou novamente, e o estrondo de algo grande caindo no chão foi ouvido. - REMUS! - ele gritou e uma sucessão de tiros ininterruptos foram ouvidos, juntamente com o som de metal ricocheteando e estilhaços de vidros voando e chocando-se contra as paredes.

- SIRIUS! CORRE!

Após esse grito um vulto passou voando pela porta da sala de confinamento, caindo de costas no chão. Era Remus com Harry nos braços, levando todo o impacto da queda nas costas para proteger a criança. Harry chorava enlouquecidamente com um corte na testa.

Meio segundo depois Sirius entrava pela mesma porta, na mão direita tinha uma escopeta e na esquerda uma pistola automática. Com uma rapidez admirável, ele usou o cotovelo direito para afastar a porta da parede oposta, fazendo-a se fechar com um pontapé firme, travando-a com o cano da pistola logo em seguida.

- Puta que pariu! - Sirius falou, respirando pesadamente. Remus ainda estava no chão, balançando Harry no colo, enquanto pressionava sua mão na testa ensanguentada do bebê, sussurrando em seu ouvido.

Um golpe pesado na porta fez Sirius pular para longe. Vários golpes acompanhados de urros selvagens na porta e nas paredes eram ouvidos. Eles olhavam trêmulos para as paredes de vidro da sala. O biólogo tinha um olhar de profundo nojo no rosto.

Harry ficou tenso ao reconhecer infectados do tipo A do outro lado. Eles já pareciam estar há um longo tempo sob efeito do vírus, pois o estado de decomposição dos corpos era avançado. Um homem jovem exibia uma abertura na cabeça que deixava exposta parte de seu crânio, a pele em volta dilacerada e cheia de pus. Uma mulher próxima ele, num uniforme de garçonete destruído, tinha a perna com uma fratura exposta, gritava estridentemente e arranhava o vidro, uma baba branca escorrendo de sua boca destruída, seu maxilar esquerdo completamente exposto.

Havia muitos deles, Harry concluiu, observando dois senhores de aparência idosa junto a um homem alto se jogarem com fúria contra o vidro, um emaranhado frenético e pustulento de mãos atrás deles, todo lutando desesperadamente para chegar ao alimento.

Aquilo, aquele momento em que eles se juntavam, acotovelando-se, tropeçando e urrando era o pior para Harry. Porque ele se lembrava de multidões com essa exata aparência que tivera que exterminar, das faces que reconhecia entre eles, e ele não podia deixar de compará-los a seu próprio povo, disperso nas bases distantes, sofrendo com fome e falta de recursos, vivendo sob o temor de ser infectado no dia seguinte.

- O sistema de emergência, Sirius! - Remus falou apressadamente. - Dumbledore mandou ativar o sistema de emergência!

Sirius colocou a escopeta sobre a mesa e voltou-se para o armário de ferro que tinha na sala, a pistola bem segura em sua mão. Digitou a senha e abriu a porta pesada. Dentro do armário, tinha uma lanterna, água e comida enlatada, além de um pequeno painel eletrônico.

Sem um segundo de hesitação, ele digitou uma outra senha no painel e teclou enter. Um botão vermelho acendeu-se do lado direito, barras de progresso começaram a piscar e mudar de cor, aumentando o nível. Poucos segundos depois, as barras verdes ficaram vermelhas e um bip agudo foi ouvido.

Uma menina com a face coberta de bolhas de infecção encarou a câmera repentinamente, e Harry sentiu seu coração se apertar.

Sem nem um olhar para as paredes onde zumbis se aglomeravam, Sirius apertou o botão. Uma grande explosão estremeceu o local com força tamanha que a câmera rolou, caindo no chão e piscando algumas vezes, antes das luzes se apagarem.

Harry sentiu um espasmo atingir seu corpo quando o som da explosão emergiu, abafando todos os outros sons. Só o que se ouvia era o cair dos escombros, como se você estivesse cego no meio de uma chuva de meteoros. A sensação era horrível.

Após alguns segundos um som estridente começou a se distinguir em meio aos estrondos, e Harry identificou seu próprio choro de bebê, gritando pequenas palavras difíceis de se entender.

Tudo estava escuro e ouvia-se o sussurrar de Remus:

- Está tudo bem, Harry. Passou... Passou... Shh... - ele sussurrava as palavras para o bebê desconsolado.

- Muni, dodói! - Harry gritou entre soluços.

- Eu sei que está dodói. Já vai passar, Harry. - o médico falou num tom doce. - Sirius, pega uma lanterna e me ajude aqui com ele.

Passos foram ouvidos, um arrastar de móveis e uma luz se acendeu. A câmera estava caída no chão, atrás de uma barra metálica que parecia um das pernas de um tripé, e dada a inclinação da perna, não dava para discernir nada além de um dos cantos vazios da sala. Percebia-se a iluminação, mas não dava para ver nada além.

- O ruim desse sistema é isso, desliga a luz. - a voz de Sirius soava exasperada.

- Já que existem as lanternas, eu dou razão a quem decidiu redirecionar a energia para outros lugares nesse momento. Poupando a energia que as lâmpadas consomem, temos mais duzentos por cento de tempo de uso dos geradores. Foi uma decisão inteligente. - Remus ponderou. - Você poderia me dar o kit de primeiros socorros?

- Claro. - ele respondeu.

- Sirius, entre em contato com Hogwarts enquanto eu cuido do Harry. - Remus falou. Agora o bebê apenas resmungava.

- Certo. - Sirius falou e ouviu-se o som do rádio sendo ligado. - Aqui é a base G.H. Ordem da Fênix buscando contato, cambio.

- Aqui é base Hogwarts, Dumbledore falando. Estávamos esperando contato. Cambio. - veio a resposta sem demora.

- O sistema de emergência foi ativado, senhor. Solicitamos orientação. Cambio. - Sirius falou.

- Qual a situação da base? Cambio.

- Podemos ver pouco sem luz, senhor, mas parece que a tropa inimiga foi neutralizada. Cambio. - ele respondeu.

- Correto, soldado. Houve alguma baixa? Cambio. - veio a pergunta do outro lado.

Sirius demorou alguns segundos para responder. Podia-se ouvir o som de sua respiração pesada, vindo em ofegos. Um suspiro trêmulo foi ouvido no ambiente antes da resposta.

- Sim. - sua voz saiu num sussurro muito baixo e rouco, ele pigarreou e continuou. - James e Lily Potter caíram, senhor. - a voz de Sirius quebrou nessa parte. - Cambio. - ele falou tremulamente e fungou.

- Entendo, soldado.- Dumbledore ficou em silêncio por um tempo, como se estivesse absorvendo a notícia. - Como está o bebê? Cambio.

Sirius pigarreou novamente e respondeu, com a voz um pouco mais firme.

- Ele está bem. Só tem um corte superficial na testa. Cambio.

- Correto. Como estão as provisões de comida e bebida no confinamento? Cambio. - Dumbledore perguntou.

- Pelo que vi, é suficiente para uma semana. Cambio. - Sirius respondeu.

- Tentaremos chegar aí antes disso, mas minha experiência me diz que Voldemort não deixou o caminho até vocês desimpedido. Minha previsão otimista é chegarmos aí com tropas e tratores para a remoção de escombros em três dias. Cambio.

- Três dias? - Sirius praticamente gritou. - Senhor. - ele adicionou rapidamente. - Cambio.

- Essa é minha previsão otimista, Sirius. Não posso garantir a chegada antes disso, nem mesmo dar a certeza de um prazo após esse período, mas chegaremos, isso posso garantir. Cambio. - Dumbledore respondeu

- Entendido, senhor. Cambio. - Sirius suspirou cansadamente.

- Caso haja alguma alteração não hesite em nos contatar novamente. Cambio desligo.

Por alguns instantes tudo permaneceu quieto, exceto pelos pequenos resmungos de Harry.

- Não podemos esperar todo esse tempo, Sirius. - Remus falou em voz baixa. - Não sem o neutralizante.

Sirius ficou um tempo calado, parecia que não tinha escutado. Subitamente a voz rouca dele sussurrou:

- Eu sei, Moony. Eu sei...

Harry olhava atentamente para a TV, nervoso por não poder ver nada que acontecia, mas adivinhando as expressões nos rostos dos dois homens que estavam trancados.

Um barulho de algo sendo arrastado foi ouvido no ambiente.

- Harry pegou no sono, coitadinho... O estresse foi tanto. - Remus falou lentamente.

- Como você está? - Sirius perguntou com a voz cheia de preocupação.

- Eu estou bem por enquanto. - ele respondeu cansadamente. - Eu deveria ter trazido aqui pra dentro os trajes que usei quando saí. - Remus falou com a voz abafada, soltando uma longa expiração pela boca.

- Claro, você ia passar com Harry no colo pelo meio de dezenas de zumbis enlouquecidos e trazer o traje. Realmente, Moony, por que você não trouxe o traje? - Sirius falou num tom afetado que, caso a situação fosse outra, pareceria que era brincadeira.

- Eu sei, eu sei... Mas é difícil não pensar em tudo que deveríamos ter feito. Em tudo que poderia ter sido diferente e... - a voz de Remus quebrou e ele fungou. - Agora Lily e James... - ele não terminou a frase, sua voz estava trêmula, a respiração pesada.

- Moony... - Sirius sussurrou com a voz também trêmula. Ouviu-se o som de algo sendo arrastado novamente, logo após alguns soluços. - Eles não deveriam ter morrido assim... - ele falou, a voz saindo abafada.

- Eles não mereciam ter morrido de jeito nenhum. - Remus respondeu com a voz também abafada.

Por alguns minutos só foram ouvidos na sala sons de soluços, respiração pesada e suspiros trêmulos, acompanhado ora por um fungar, ora por um gemido de dor. Eles pranteavam a morte de seus amigos.

Harry olhava para a imagem do canto da sala, e com o nível de adrenalina diminuindo seu corpo começou a sentir o aperto no peito causado pela morte dos pais. Ele nunca tinha chorado pela morte deles. Já tinha chorado por estar só, ser um órfão num mundo decadente, mas agora que ele sabia como tudo acontecera, um peso de vergonha começou a se alojar em seu estômago.

Ele não chegara a realmente conhecer os pais, não tinha nenhuma memória consciente deles, então sempre pensou mais em seu lado da história. Nunca tivera a oportunidade de entender realmente como seus pais morreram, e agora que ele sabia, um sabor amargo vinha à sua garganta e lágrimas involuntárias deslizavam por seu rosto.

Novamente ouviu-se o som de algo ser arrastado pelo chão, seguido por passos.

- Quer água, Moony?

- Sim, Padfoot, por favor. - Remus respondeu com a voz rouca.

- Seria ótimo se a gente pudesse sair daqui para procurar neutralizante nos escombros. - Sirius falou em voz baixa.

- Sim, seria, mas as probabilidades de ter algum vidro inteiro no meio de todo esse concreto destruído são mínimas. De toda sorte estamos trancados aqui. Você sabe que quando ativamos o sistema de emergência fomos trancados aqui, e só Dumbledore ou alguém de confiança dele tem a senha para abrir. - Remus falou. Sua voz parecia resignada.

- Certo. - Sirius falou. - Quer comer alguma coisa?

- Não, não estou com fome. Obrigado. - Remus respondeu.

- Eu estou morrendo de fome. Meu corpo está pedindo a gritos a energia que gastei lutando.

- Tudo bem. Enquanto você come vou te revisar. - Remus falou.

Alguns sons de portas sendo abertas e de móveis sendo arrastados foram ouvidos. Alguns minutos depois Sirius falou:

- Você revisou Harry, está me revisando, mas quem te revisará? Você está bem? - sua voz era preocupada.

Remus deu um sorriso leve.

- Não preciso ser revisado. - ele falou suavemente.

- Mas a queda sobre suas costas foi muito forte, quando você terminar vou dar uma olhada.

- Não precisa. Sério. - ele falou mais firmemente e o outro rapaz não respondeu. - Sirius. - Remus falou cuidadosamente.

- Sim?

- Você lembra do procedimento número 21? - Sirius não respondeu novamente. Remus respirou profundamente antes de continuar. - Lembra sim. - um suspiro foi ouvido. - Sirius, precisamos...

- Nada disso! - Sirius quase gritou. - Não precisamos de nada! Assunto acabado.

- Sirius, só temos mais ou menos quatro horas até minha próxima crise. Temos que...

- NÃO TEMOS QUE NADA! - Sirius gritou dessa vez. - Eu vou te amarrar! Não vou permitir isso!

- Sirius... - a voz de Remus estava ainda mais cansada.

- Não vamos ter essa conversa novamente, você está me ouvindo? - a voz de Sirius mostrava que ele não aceitava opinião contrário.

Um suspiro foi ouvido novamente e tudo foi silêncio por um bom tempo.

O cenho de Harry franziu profundamente. Como ele não tinha pensado nisso antes? O procedimento 21era obrigatório em situações como aquela. Seu pulso acelerou e ele sentiu os olhos lacrimejarem novamente.

Após alguns minutos um resmungo infantil foi ouvido.

- Ei, Harry! Você está com fome? - a voz gentil de Remus foi ouvida.

- Anram. - o bebê respondeu.

- Eu vou fazer um pouco de leite pra você. - ele falou. Após alguns minutos de barulhos de coisas sendo movimentadas Remus disse: - Aqui, pequeno. Bebe.

Passaram alguns minutos em silêncio.

- Ele está dormindo novamente? - Sirius perguntou com surpresa em sua voz.

- Sim. Eu coloquei no leite um sedativo leve para ele permanecer dormindo nas próximas doze horas. - Remus respondeu.

- Senta aqui. - Sirius falou.

Alguns passos foram ouvidos, logo após o som inconfundível de vários beijos.

O tempo passava arrastado, mas Harry não desgrudava os olhos da tela. Em alguns momentos se ouvia o som de uma respiração mais forte, em outros ouvia-se sons de beijos e sussurros muito baixos que ele não conseguia discernir.

Muito tempo depois a voz resignada de Remus falou:

- É melhor você me amarrar agora, Sirius.

- Certo. - a voz de Sirius estava tensa. - Sente no chão e encoste-se do lado do armário, é o único ponto tão resistente quanto as paredes da sala.

Um suspiro resignado foi ouvido, depois podia se perceber sons de movimentação por alguns minutos.

- Aperte mais, Sirius. - Remus falou.

- Se eu apertar mais vai te machucar. - ele respondeu.

- Se você não apertar os nós a ponto de me machucar enquanto eu estou consciente, não vai servir para nada no meio da crise. - Sirius não respondeu e alguns gemidos abafados de dor foram ouvidos. - Isso. Assim está melhor. - ele falou com a voz tensa, em ofegos.

Mais sons de beijos foram ouvidos, depois o silêncio. Agora era somente esperar pela tempestade.

Alguns minutos depois começaram a ser ouvidos sons de ofegos pela sala que iam aumentando de intensidade gradativamente.

- Moony, você precisa de alguma coisa? - Sirius perguntou em voz baixa.

- Preciso que você me prometa que vai se manter afastado, Sirius. Aconteça o que... - um som de uma respiração agonizante foi ouvido, como se Remus estivesse lutando para puxar ar para os pulmões. - Aconteça o que acontecer. Me prometa, Sirius. Não importa o que você veja ou que eu faça, mantenha-se afastado durante a crise. - a voz dele estava trêmula.

- Moony...

- Prometa! Por favor, Sirius! - podia se ouvir os dentes de Remus batendo um no outro.

- Eu prometo. - a voz de Sirius era quase inaudível.

Remus emitiu um som como se estivesse vomitando.

- Moony! - Sirius gritou e ouviu-se uma movimentação.

- Lembre-se... Do que você acabou... De prometer! - Remus conseguiu falar antes de soltar um brado horrendo, como um animal sentindo muita dor.

- Oh, Deus... - Sirius falou tremulamente.

Vários gritos seguiram-se ao primeiro, porém com o passar dos minutos eles mudaram de tom, deixando de ser urros de dor para se transformarem em rosnados raivosos. Baques surdos começaram a ser ouvidos, e as preces de Sirius em meio aos gritos de Remus soavam sufocadas.

- Deus, não, por favor, a cabeça não.

Harry olhava para a tela que mostrava o canto da sala com o coração acelerado, somente podia ter uma idéia da movimentação por causa dos sons e da tremulação da luz da lanterna. Ele queria adiantar a fita para não precisar ouvir aquela sinfonia horrenda, mas não conseguia nem se mover.

A fita sofreu vários cortes e no que pareciam ser horas depois os gritos começaram a diminuir de volume e os baques cessaram, ficando apenas um ofegar ruidoso e apressado. Depois, silêncio absoluto.

Sons de passos foram ouvidos, portas e recipientes metálicos foram manuseados rapidamente, tilintando.

- Acorda, Moony. - a voz de Sirius era gentil e chorosa. Ele estava rouco, como se fosse sua própria voz a que ecoara pelo cômodo mal iluminado - Acorda. Bebe isso, vai te fazer bem. - Remus gemeu de dor. - Sua cabeça está machucada. Eu vou te desamarrar para limpar o sangue e colocar um curativo.

- Nã... - a voz de Remus quebrou, estava fraca e muito rouca. - Não, Sirius... Não me desamarre. - Ele tossiu. - A próxima crise não vai demorar sem os medicamentos. Não podemos baixar a guarda.

Depois de alguns segundos de silêncio Sirius falou:

- Certo. Vou tentar limpar sem te desamarrar.

Houve movimentação pela sala, e depois de um tempo ouviu-se a voz de Remus perguntando baixo:

- Quanto tempo durou essa crise?

- Pouco mais de oito horas. - Sirius respondeu e fungou.

- Não temos nem duas horas para a próxima... - Remus falou em voz baixa. - Sirius, cada crise tende a ser mais violenta que a anterior.

- Eu sei. - Sirius falou sem entonação a voz.- ...Está frio. Remus, você está com frio? - antes que Remus respondesse o outro continuou. - Vai demorar um pouco até eles chegarem, se quiser eu te dou meu casaco e...

- Sirius... Se for necessário, você vai ter que...

- Não! Não fale nisso, ok? Você vai passar os dois dias que faltam para a Ordem chegar aqui amarrado. Ponto.

Ouviu-se um suspiro pesado.

- Harry vai acordar daqui a umas cinco horas. - a voz do homem de cabelos castanhos permanecia baixa. - No meio de uma crise.

Sirius não respondeu.

As duas horas de espera não foram longas para Harry, pois a crise começava lentamente, a angústia acompanhando cada fase. Primeiro, os sons da respiração de Remus iam ficando pesados, depois vinha o ofegar trêmulo e os gemidos de dor contidos pelo médico, em seguida os urros e os baques da crise em seu ápice, e Harry o sentia destruindo a si mesmo aos poucos.

Após um baque assustadoramente violento que fez Harry pular no sofá, o choro dele criança explodiu e se mesclou com os urros de Remus, transformando-se em um único e terrível som que para Harry, era a desesperança.

O choro era assustado, e entre os urros de Remus e os gritos de medo da criança, podia-se ouvir a voz de Sirius, trêmula e instável, falando:

- Está tudo bem, Harry, tudo bem. Shhh... Moony está doente, só isso. Vai passar logo, não chora. Shh... - Sirius começou a soluçar enquanto repetia chorando, tentando acalmar o bebê. - Vai passar logo, pequeno.

Harry já estivera em inúmeras batalhas contra zumbis, mas nunca presenciara uma situação tão terrível e desesperadora quanto aquela. Ele não conseguia nem imaginar o quão destruído Sirius se sentia, o som do choro de seu padrinho misturado ao dele bebê dando-lhe uma amostra do tamanho da dor que ele passava no momento.

Depois de alguns minutos o choro do bebê passou, mas os urros de Remus não diminuíram, pelo contrário, estavam mais altos e violentos.

Quando os urros começaram a se transformar em rosnados e os baques começaram a diminuir de intensidade, os sons dos soluços e gemidos de Sirius foram os que preencheram o ambiente.

Harry estava chorando também, tentando se impedir de pensar no desfecho da situação, mas seu coração apertado ignorando o impedimento.

Ele não pode morrer, ele pensou, tão absorvido pelas cenas que estava assistindo que não conseguia pensar claramente, seus dedos tremendo quando retirou a fita do aparelho. Colocou a fita seguinte e sentou-se para continuar a assistir.

O som do choro de Sirius tinha cessado, apenas sussurros eram ouvidos.

- Me diz o que fazer, amor, me diz... - a voz rouca de Sirius tinha um timbre de alarme.

- Sirius, você pode limpar o sangue, passar o remédio que for, mas não vai adiantar. - a voz de Remus estava ainda mais rouca que a de Sirius, o som de sua respiração era irregular. - Sirius... - ele tossiu. - Diga, tem mais corda no armário?

- Não, só tinha essa. - ele respondeu lentamente.

- Elas não vão resistir a mais uma crise. Você sabe.

- Não, Remus, vamos dar um jeito. - a voz de Sirius estava alterada.

- Sirius, olhe para mim. Você sabe que essas cordas não vão resistir. Não ceda ao desespero, Sirius. - ele falou com voz gentil.

- Eu não estou cedendo ao desespero. Você que já não quer ter esperanças. - Sirius rebateu agressivamente. O som de movimentação e algo se arrastando foi ouvido. - Quanto tempo o sedativo de Harry vai durar?

- Dez horas. - Remus respondeu. - E não mude de assunto, não podemos mudar de assunto.

- Eu tenho uma opinião e você tem outra. Não haverá discussão. - o tom da voz de Sirius era intransigente.

- Soldado Black. - Remus falou firmemente, e um ofego foi ouvido. - Eu te ordeno, como seu superior em comando, que você execute o procedimento número 21 em mim. Imediatamente. Sua desobediência será tida como traição direta à Ordem da Fênix.

Harry arfou no sofá, chocado. Ele fora treinado pela Ordem e sabia que, em situação de emergência, o soldado mais antigo era o superior. Provavelmente Remus tinha mais tempo na Ordem. Ele não sabia que a equipe médica também tinha passado por aquele treinamento.

O treinamento era exigente de tal forma que algumas pessoas chamavam de lavagem cerebral. Dumbledore costumava dizer que para lidar com zumbis era necessária uma fidelidade semelhante, e para tal os soldados eram treinados arduamente até adquirirem uma eficiência em cumprir ordem similar a de um zumbi. Isso também fazia a quantidade de traidores ser consideravelmente menor.

- Foda-se a Ordem! - Sirius gritou. - Foda-se a Ordem, foda-se! EU NÃO VOU TE MATAR!

"Procedimento 21 - Numa situação de urgência onde um infectado oferecer risco iminente à integridade de inocentes, é obrigação de todo membro da Ordem da Fênix executar o infectado antes que esse risco se torne emergente. Não existem exceções para esse procedimento." Harry recitou mentalmente o procedimento que tinha de ser memorizado por todos os integrantes da Ordem da Fênix.

O grito de seu padrinho tocou Harry profundamente. Mais uma vez ele percebia quão grande era o amor que Sirius sentia por Remus, a ponto de resistir a execução de uma ordem direta. Ele já estivera em batalhas e sabia como era difícil lutar contra uma programação cerebral tão forte. Negar-se a uma Ordem direta de um superior em comando era muito difícil. Harry já tentara fazer isso uma vez, tremores percorreram seu corpo e uma sensação incômoda parecendo dor instalara-se em sua cabeça, porém em seu momento ele lutara e não executara aquela criança infectada.

- Sirius... Você precisa fazer isso. - a voz de Remus era urgente. - Se eu me soltar na próxima crise, não somente você estará em perigo, mas Harry também. Lembre-se do menino!

- Eu posso te segurar, Moony, sei lá, criar alguma barreira. - ele falava rapidamente, sons de passos ecoando pela sala.

- Você sabe que isso não vai funcionar durante uma crise, Sirius. - Remus soava exausto. - Se você for mordido por mim, pode ser que permaneça com vida mesmo infectado, mas Harry não sobreviveria. Ele é uma criança pequena, indefesa. - ele fungou.

- Não... - ele respondeu com voz chorosa.

- Sirius... Dói tanto... - Remus também tinha a voz chorosa. - Cada vez que eu acordo de uma crise tenho medo de abrir os olhos e... - ele fungou. - ...ver o quão machucado estou, de estar faltando alguma parte de meu corpo. Sem contar no... - soluçou. - ... terror que é pensar que posso abrir os olhos e ver que machuquei um de vocês... Sirius...

- Oh, Deus... - Sirius gemia e soluçava, sua voz saindo abafada. - Por quê?

- Sirius, essa não... - ele engoliu em seco. - Essa não seria minha última crise. Se eu acordar e ver que machuquei você ou Harry será pior que a morte pra mim. Eu já estou condenado.

- Não diz isso, por favor, não diz... - Sirius chorava tentando impedir Remus de falar.

- Se eu não morrer lentamente como um zumbi, uma concha sem alma... Repleta de... - ele tossiu. - ...fome e selvageria, vou morrer porque meus órgãos internos já foram terrivelmente danificados. - ele fungou mais uma vez. - Você e Harry não, vocês estão saudáveis, têm toda a vida pela frente. Precisam lutar, terminar com essa guerra horrenda. O mundo precisa de Harry.

O pranto de Sirius ecoava no ambiente.

- Remus... Eu te amo tanto... Tanto... Por que você me pede algo assim?

- Eu prefiro mil vezes morrer através de gesto de piedade seu, que morrer como um fantoche nas mãos de Voldemort. - a voz de Remus estava chorosa, porém firme. - Tem que ser agora, Sirius, antes que outra crise comece, senão será tarde demais para todos nós.

Uma movimentação seguida do som de metal batendo foi ouvido.

- Meu amor... - a voz rasposa de Sirius estava sussurrante. - Remus...

Primeiro uma expiração profunda foi ouvida, depois um beijo, seguido de vários outros.

- Eu vou te amar para sempre. - Remus falou em voz baixa, um murmúrio.

Um tiro foi ouvido.

Depois o silêncio.

Harry sentiu um calafrio sacudir seu corpo com aquele som, uma lágrima furtiva deslizava por seu rosto e ele nem notava, os olhos vidrados na TV, olhando para o silêncio agustiante que preenchia aquela sala de confinamento.

Vários cortes foram seguidos, alguns mostravam longos minutos de silêncio, em outros apareciam apenas poucos momentos que eram preenchidos pela imagem do canto da sala parcialmente iluminado pela luz de uma lanterna. Até que por fim veio a escuridão para acompanhar o silêncio sepulcral. Harry pensou que provavelmente as pilhas da lanterna acabaram. Ou então Sirius preferia ficar às escuras. Não dava para se saber ao certo.

Não se podia precisar quanto tempo tinha passado naquela escuridão e silêncio quando alguns baques distantes foram ouvidos. Um estrondo ribombou pelo local e um pequeno facho de luz surgiu de algum lugar à esquerda do vídeo, mostrando mais uma vez o canto da sala de confinamento em penumbras.

- Tem alguém aí? - uma voz masculina grave ecoou na distância. Os baques aumentaram de volume, seguidos pelo som de passos pesados.

- Aqui! Estamos aqui! Na sala de confinamento! Nós... Nós estamos aqui. - a voz de Sirius estava rouca, mas forte, fazendo-se ouvir. Os passos soaram mais apressados, aproximando-se pouco a pouco, junto com o som de pedras e metal sendo arrastados, rolando.

- Soldado, vamos precisar usar o trator para remover as pedras. Chegaremos aí logo. - foi gritado ao longe.

E depois novamente silêncio.

- Harry... - o biólogo estava chorando novamente. O menino balbucilou alguma coisa ininteligível, Sirius soluçou. - Vai ficar tudo bem agora, vai dar tudo certo. - a voz quebrada de Sirius ecoou mais uma vez. - ...Me desculpe, Harry... Mas eu não posso mais.

Um clique de arma sendo carregada.

Outro tiro.

E a imagem se apagou.

Harry permaneceu mais um tempo olhando fixamente para frente, as lágrimas queimando como fogo por seu rosto, os lábios pressionados firmemente, fitando o vazio azul da tela que mostrava a fita rebobinando. Quando o vídeo fez o clique avisando que a fita podia ser retirada ele piscou, sem sair completamente do letargo causado pelas cenas que acabara de assistir e ouvir. Secou as lágrimas com a manga da camisa, as marcas de suas unhas nas palmas das mãos.

Levantou-se e tirou a fita do vídeo, deixando a sala.

Estava escuro.

FIM DO LIVRO I


N/A: Desculpem o atraso na atualização. Acabamos nos atrapalhando com os prazos.
Sobre o final tristinho, só posso dizer que berradores e Avadas devem ser destinados a Mrs. B. W., porque o plot desse livro é dela. *esconde-se atrás da cadeira*
Como somos autoras boazinhas, estamos preparando uma continuação HarryxDraco que será o Livro II, então, se vocês curtiram essa parte e gostam de Drarry, aguardem e confiem, em breve começaremos a publicar o segundo livro por aqui mesmo. ;)
Deixem reviews e ficaremos felizes. :*