Capítulo 07 - O Feiticeiro
Sua consciência estava oscilando.
Harry se lembrava de ter sido levado da cela novamente, mas quando acordou, estava no meio do ato com três homens. Eles não se incomodaram com o fato de ele acordar, assim como não pareciam incomodados de fazer sexo com alguém inconsciente, e, de alguma forma, Harry tinha certeza que não eram os primeiros a tocá-lo naquele dia. Foi levado para uma mulher e depois para um homem, que lhe causou inúmeras queimaduras e a dor o levou à inconsciência novamente. Depois disso havia várias cenas perdidas, mas nada contínuo, até o teto de pedra, o cheiro de incenso, a sensação de magia e o conforto.
Ele estava bem.
Realmente bem. Nada doía, não se sentia febril ou doente, não se sentia cansado ou com fome ou com frio. Estava deitado em uma cama com um cheiro agradável, mas não familiar, vestido com roupas limpas e aquecido.
- Procure não se mexer muito, não é bom acelerar a corrente sanguínea.
Harry virou a cabeça devagar em direção à voz. Um homem, alto, magro, velho, mas com traços bonitos, estava parado entre um caldeirão e uma pequena estante espremidos entre a cama em que Harry estava e a grade em que podia ver o corredor e o vão que levava ao térreo mais além.
Ainda estava naquele lugar terrível.
- Draco... - Harry resmungou, sua voz saindo com dificuldade.
- Vou cuidar de você primeiro, mas ele está estável. - o homem respondeu, ríspido.
- Quem é você? - perguntou, começando a se sentar, mas o homem fez um ruído impaciente, indo até ele e o forçando a deitar de novo.
- Sabe essa coleira no seu pescoço? - ele perguntou, irritado – Ela serve para impedir que você faça magia. Isso significa também que nada mágico passa por ela dentro do seu corpo. Eu te dei poções para beber, sua vida depende de que elas funcionem da maneira que devem funcionar. Se seu sangue se agita, aumenta a circulação, aumenta o poder mágico da poção, ela é detectada pela coleira, você morre. Então fique quieto. - ele observou os olhos verdes se arregalarem e o garoto parar de respirar – E calmo. Tem o mesmo efeito. Eu estou cuidando de você, é só fazer o que eu digo. - ele deu um pequeno sorriso e disse em uma voz mais baixa, quase confidente – Confie, Potter.
- Você sabe quem eu sou? - Harry perguntou, tentando não se alterar nem se mexer.
- Sou bruxo, não sou idiota e te examinei, o que significa que vi a cicatriz. - ele olhou atentamente para o garoto – Mas recomendo que continue mantendo isso em segredo. Vão te matar se descobrirem a estupidez que fizeram ao trazer Harry Potter para esse lugar.
- Pensei que, falando com a pessoa certa, isso poderia me tirar daqui. - Harry disse, calmo.
- Em primeiro lugar, você nunca conseguiria chegar perto da pessoa certa, tampouco saber quem é a pessoa certa. E te libertariam por que? Para que você pudesse voltar para a Inglaterra, avisar o Ministério, criar uma coação internacional e persegui-los para acabar com o esquema de tráfico de pessoas que está deixando tanta gente milionário? - ele riu e balançou a cabeça, voltando a atenção para sua poção.
- Como você sabe tanto sobre esse lugar?
- Já estou aqui há tempo demais. - o garoto abriu a boca para fazer outra pergunta, mas o bruxo se antecipou – Não sei quanto tempo, mas muito tempo. Vi gerações passarem por aqui. Por isso gosto tanto das crianças, ver elas crescerem me dá uma noção mais exata de que algo está mudando. Guus fez bem em me avisar sobre você.
- Como conseguiu me trazer para cá? Os guardas...
- Eu tenho certos privilégios com os guardas.
- Como não usar uma coleira. - Harry disse, áspero, e o homem sorriu para ele.
- Os guardas também ficam doentes e esse não é o tipo de trabalho que tem um bom seguro saúde.
Ele voltou para perto da cama com um pote da poção que estivera preparando nas mãos e ofereceu para Harry beber. O garoto hesitou por um minuto, mas então refletiu que estivera entregue àquele homem há um tempo incalculável. Não havia sentido em oferecer resistência agora. Bebeu a poção devagar e, quase imediatamente, sentiu ondas de sono o envolverem e voltou à abençoada inconsciência.
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Harry acordou com a mesma sensação de conforto que antes. Estava no mesmo lugar, mas agora não havia a presença da magia. Era tão bom ter sentindo a magia fluindo em seu corpo e à volta dele como antes. Parecia que fazia eras que não fazia mágica, que não sentia seu próprio poder. Ele mesmo não tinha percebido aquela ausência até ter magia por perto, e isso lhe daria no que pensar depois que soubesse mais sobre o que tinha acontecido.
Havia silêncio ao redor. Harry se tocou, vagarosamente: as pernas, o ventre e o peito, o pescoço no qual ainda sentia a coleira fria, o rosto, a cabeça. Não havia machucados, nem dor de pancadas, algumas cicatrizes novas, mas nenhuma marca ou ferida evidente.
- Você está inteiro de novo. - ele reconheceu a voz imediatamente.
- Eu posso me sentar? - Harry perguntou, incerto, e aceitou a risada como um sim.
Sentou-se na cama um pouco mais alta que a da cela em que ficava com Draco e olhou atentamente à volta. Era uma cela, como a outra, mas diferente. Havia cor, nas roupas penduradas, nos vidros da estante, nos sapatos alinhados em um canto, na fumaça que subia do fogo mágico, nas luzes dentro do caldeirão. O homem não era tão velho quanto ele tivera impressão no início, talvez 40 anos, talvez menos, seu semblante – agora atento a ele – parecia pesar, como se ele tivesse sido envelhecido.
- É esse lugar. Ele faz isso com a gente. - ele respondeu, claramente lendo seus pensamentos, e Harry não tinha nenhuma defesa quanto a isso – Mas minha vida fora daqui não me levaria a um destino muito diferente.
Harry não sabia se devia conversar, falar amenidades. Queria saber tanto do passado do homem tanto queria relembrar o próprio passado. Isso só tornava aquele lugar mais surreal, mais prisão. Ele não sabia se ele o poderia ajudar em mais alguma coisa. Privilégios com os guardas, ele disse. Talvez isso fosse útil, mas nada garantia que algo ali – privilégios, roupas, magia – poderia se estender a Harry.
- Não podem. Mas, sim, eu ainda posso te ajudar.
- Como? - Harry perguntou, sentando-se mais encolhido. Ele simplesmente não conseguia confiar.
- Ainda não sei. Preciso ver seu companheiro primeiro, mas tenho algumas ideias em mente. E isso tem a ver com o preço.
- Sim. - Harry engoliu em seco – Guus me disse que tudo tem um preço. - ele hesitou por um momento – Obrigado, aliás.
- Aceito seus agradecimentos como cortesia. - o homem sorriu e o olhou longamente – Você é puro, Harry Potter. Durante horas eu li sua mente adormecida. Tanto sofrimento e tanto amor. Você não devia estar aqui, não pelo que fez, mas pelo que é. Esse lugar vai te sujar, vai te deixar amargo, vai fazer seus pesadelos virarem realidade e toda a dor que você carrega vai te enlouquecer. Isso se você não morrer.
- Não é como se eu tivesse escolha, não é mesmo? - Harry perguntou, amargo.
- Não. Mas há formas de amenizar um pouco o estrago. Ou te aproximar de alguém que possa fazer algo realmente efetivo por você. - ele observou o garoto por mais alguns segundos e acrescentou – Mas tudo isso a longo prazo, você ainda tem um caminho de muita dor, e a esperança pode te sufocar aqui. Não pense em lutar e ser livre, pense em ter menos dor e mais permissões, e, quando notar, estará livre.
- Você não está livre.
O homem sorriu e sentou-se no chão, perto da porta, acendendo um cachimbo longo. Pitou algumas vezes e depois respondeu.
- Eu tinha um conceito de liberdade diferente do seu quando vim parar aqui. No fim, acredito que hoje estou melhor aqui dentro do que fora da gaiola. - seus olhos castanhos brilharam amarelados – Mas isso não significa que eu não sofri.
Harry abriu a boca para perguntar como ele veio parar ali quando um som alto de aparatação o interrompeu. Um dos guardas surgiu no meio do aposento, depositando Draco no chão, inconsciente. Harry correu para ampará-lo, afastando-o do homem, verificando seu estado. E quando ergueu os olhos, se dando conta de que não ouvira o homem desaparatar, imaginando que ele estaria de pé a sua frente, ameaçando levar um dos dois novamente, se surpreendeu com o que viu.
O bruxo que o tratou estava de pé, o cachimbo abandonado no chão em que estivera sentado, e o guarda o beijava. Ele não parecia estar sendo forçado a isso de nenhuma forma, ao contrário, havia mais envolvimento naquele beijo do que Harry poderia um dia pensar em ver naquele lugar. Tanto que, quando o homem o soltou e desaparatou, Harry ainda o encarava surpreso.
- Deixe que eu cuido dele. - o homem se ajoelhou ao seu lado, tocando o corpo de Draco – Hum.
- O que foi? - Harry perguntou, preocupado.
- As feridas dele seriam mais fáceis de curar com feitiços, mas não posso lançar feitiços fortes em vocês devido à coleira. Vou utilizar poções, mas vai demorar um pouco mais. - ele olhou sério os olhos verdes – Espero termos esse tempo.
Harry o observou erguer o loiro nos braços com certa facilidade, mesmo sem magia, e colocá-lo de bruços sobre a cama. Sentando-se sobre um banquinho baixo, o bruxo se colocou a limpar suas feridas, enquanto, sob o comando de sua varinha, o caldeirão voltava a ser aceso e ingredientes voavam pelo quarto, incrementando a poção.
O garoto sentou-se no chão, em um canto, e decidiu não intervir. Não via como poderia ajudar e, apesar de toda a sua preocupação com Draco, era melhor sair do caminho e deixar o bruxo trabalhar.
Em poucos minutos, tudo o que havia na cela era o ruido da poção borbulhando. O fogo exalava um calor agradável pelo ambiente e os olhos verdes pesavam, sentindo o cansaço dominar seu corpo novamente. Sentiu-se despertar, só percebendo então que estava cabeceando, quando o bruxo se ajoelhou ao seu lado, o cobrindo com um cobertor e lhe oferecendo um travesseiro.
- Descanse enquanto pode, Harry Potter. Está seguro aqui.
E Harry acreditou, ao menos por aqueles segundos.
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Harry despertou, incomodado com a posição desconfortável em que dormira. Sentou-se no chão, a coberta deslizou pelo seu corpo e ele percebeu que a cela estava fria novamente. Despertou de vez, acomodando-se sentado contra a parede, e olhou à volta.
Em frente a ele, também sentando no chão, o bruxo fumava seu cachimbo em silêncio. O caldeirão havia desaparecido e com ele o calor e a luz do fogo. Harry supôs que o homem não poderia mantê-lo aceso o tempo todo, para não chamar atenção ou por outro motivo qualquer, mas devia haver um motivo pois era muito mais confortável com ele ali.
- Os guardas me mantém em segredo, assim como o fato de eu fazer magia. - ele respondeu aos pensamentos de Harry – Eu sirvo a eles, mas não deixo de ser um prisioneiro.
Harry concordou com a cabeça, esfregando os olhos. Tinha muitas perguntas que queria fazer, mas estava com fome e frio demais, e seus olhos haviam registrado a figura adormecida de Draco sobre a cama e uma centelha de preocupação se acendeu em sua mente. Ele tinha mais em que pensar além de suas curiosidades sobre o bruxo.
- Ele está bem. - o homem se levantou – Está respondendo bem ao tratamento, deve acordar a qualquer momento.
Ele foi até uma estante ao lado e pegou uma muda de roupas, levando-a até Harry, em uma indicação para que se vestisse. Não eram muito diferentes das vestes que lhe deram quando chegou ali, mas Harry estava grato por ter algo para cobrir o corpo. O bruxo agitou a varinha e fez duas vasilhas surgirem, uma com água limpa e outra com comida, do mesmo tipo que lhe serviam na cela, mas em maior quantidade, estava quente e havia um pedaço de pão.
- Eu tenho alguns privilégios, como disse. - lhe ofereceu uma colher – Coma.
- Obrigado. - Harry começou a comer, se dando conta então do quanto estava faminto.
Quando terminou, os utensílios desapareceram e ele voltou a encarar o bruxo.
- Você tem um nome? - perguntou, sério. Agora tinha como pensar em suas curiosidades.
- Eu prefiro não dizer. - o homem sorriu ao ver Harry franzir o senho – Entenda, eu sou um fantasma do sistema. Ninguém deve saber que eu existo, ninguém deve saber o que eu faço, mas eu faço parte disso aqui. - ele fez um gesto amplo em direção às grades e ao corredor vazio do lado de fora da cela.
- Eu não entendo. - Harry disse, tentando incentivá-lo a falar mais.
O homem respirou fundo e o encarou em silêncio por algum tempo.
- Eu era um banido. - como Harry não expressou nenhuma reação à palavra, o homem explicou – Um bastardo em uma família de puro sangues. Não sei que nome vocês dão a isso na Inglaterra. Minha mãe era uma trouxa que trabalhava na recepção de um hotel, meu pai um patriarca puro que um dia cruzou o caminho dela. Eu nasci bruxo, minha mãe me rejeitava por isso, a família do meu pai nunca me aceitou, eu sai de casa com 12 anos. Nunca estudei, aprendi a fazer magia por necessidade.
Ele colocou mais fumo no cachimbo e tragou algumas vezes.
- Aos 14 anos eu já me prostituía, para trouxas e para bruxos. Aos 20 me pegaram e trouxeram para cá.
- Quantos anos você tem hoje? - Harry perguntou, assustado. O homem deu de ombros.
- Não sei. Quarenta? Quarenta e cinco? Trinta e cinco? Em algum momento eu parei de contar. - ele tragou – Você perde a noção do tempo logo no começo, e não importa que hoje eu consiga ver as crianças crescendo e saber que o tempo passou, eu não sei quantos anos perdi nessa conta.
Harry confirmou com a cabeça, indicando que compreendia.
- Esse lugar era diferente. Para começar, ele existia. Era o prédio de um hotel abandonado. Eu já havia passado na frente dele milhões de vezes, procurando clientes, quando recuperei a consciência podia ver a rua pelas janelas, sabia onde eu estava. Hoje é um prédio subterrâneo, protegido por magia. Não há janelas, e eu suspeito que mudem ele de lugar de tempos em tempos.
- Mas se ele era somente um prédio, os bruxos podiam...
- Os bruxos eram os clientes, no começo. - o homem continuou no mesmo tom – Eles capturavam trouxas, domavam, transformavam em animais sexuados e os vendiam como escravos para homens como meu pai: bruxo, poderoso e que desejava esse tipo de prazer. Havia vários mercados, como chamavam lugares como estes, em várias cidades por toda a Europa. Foi somente depois que a guerra na Inglaterra acabou que surgiu uma outra oportunidade: para que sujar as mãos com trouxas se poderiam escravizar bruxos?
- Como isso tem a ver com Voldemort e a guer... - o homem não deixou Harry terminar a pergunta.
- Ora, você deve saber melhor do que eu, garoto. Você estava lá. O que eu sei é que de um momento para outro ingleses surgiram com caminhões cheios de bruxos, pobre e famintos, dizendo querer fazer qualquer coisa para deixar a Inglaterra. Muitas vezes famílias inteiras que aceitavam vender seus filhos como brinquedo sexual para sangues puros em troca de uma casa para morar e um visto dentro do país.
- O expurgo dos sangue-ruins. - Harry resmungou baixinho, engolindo em seco.
- Sim. E então eles viram que vender bruxos era algo muito mais interessante do que vender trouxas, mas ainda não tinham como obrigá-los a se prostituir como fazem hoje. Essa tecnologia é relativamente nova, surgiu de um ou dois anos para cá. E explodiu o sistema em lucro. Foi então que começaram a arrastar pessoas e trancá-las, como faziam com os trouxas no início. E era tão fácil e tão lucrativo, que mesmo a morte não era mais um problema. É mais fácil lidar com mortos que geram lucros do que com rebeldes.
- Você está falando da coleira? Você não usa...
- Nunca colocaram uma dessas em mim. - o homem tragou e continuou – Quando me trouxeram para cá, pensaram que eu era trouxa. Eu estava trabalhando quando me pegaram, perdi minha varinha no caminho, chegando aqui me surraram, me trancaram e começaram a me levar de um quarto para outro sem mais explicações. Você conhece essa história. Eu nunca tentei resistir, isso era exatamente o que eu fazia do lado de fora desse lugar. Eu sabia me cuidar, sabia como agradar clientes, sabia como me manter vivo. Eu não estava esperando uma explicação, mais tinha certeza que a qualquer momento surgiria uma oportunidade e eu sairia daqui.
O homem riu amargo.
- Bem, isso não aconteceu. A oportunidade surgiu, mas não para sair. Os guardas. Eles são o ponto mais delicado desse sistema. Eles são homens comuns, pobres, mal instruídos, em geral trazidos de longe com família para trabalhar aqui. São carrascos, são eles quem sujam as mãos. Um homem pode sair de casa, beijar seus filhos e sua esposa, vir para o trabalho, cumprir seu turno e voltar para casa com a sensação de merecer o dinheiro que leva no bolso. Mas quando eles realmente precisam desse dinheiro e começam a ver crianças da idade de seus filhos sendo violentadas e mulheres chorando e implorando para que eles não as levem para o próximo estuprador, trabalhar se torna um esforço.
- Eu imaginei que eles concordassem com isso de alguma forma. - Harry disse, enojado.
- Nenhum ser humano concordaria. - o homem o encarou sério durante algum tempo – Os homens que criaram e mantém isso estão longe o suficiente para não precisar ver as atrocidades que o sistema envolve. Eles são ruins, não há gente boa nesse lugar, eu não sou bom, você vai deixar de ser bom se continuar aqui, mas ninguém suporta tanta destruição por tanto tempo. E eu percebi isso.
Harry aguardou o homem tragar em expectativa.
- Eu via os guardas estuprarem prisioneiros chorando. Ouvia conversas sobre esposas que sumiam de casa depois de brigas violentas e sobre filhos que os renegavam ao saber o que faziam. Se tudo começa porque eles precisam do trabalho para viver, o sistema os conduz de forma que eles perdem tudo, e só resta o trabalho na vida deles. Então eles respondem violência com violência e se tornam menos que os seres humanos que eles castigam. Vocês tiveram sorte de nenhum guarda desejar vocês. Eles são piores do que qualquer cliente.
- Eles me bateram.
- Sim, eu sei. Mas isso faz parte do trabalho deles. O que eu estou dizendo é que eles veem pessoas fazendo sexo o dia todo. Eles fornecem pessoas para fazerem sexo com outras. Eles recolhem corpos do chão ainda tremendo pelas sensações do que fizeram, cheirando a sexo. Em algum momento, eles desejam isso também. E um dia eles me desejaram, e isso é algo que você precisa entender: isso era o que eu fazia, o que eu escolhi fazer, antes mesmo de vir para cá.
- Você era garoto de programa.
- Eu era um profissional. Eu olhava para um homem e sabia exatamente onde ele desejava ser tocado. E quando um guarda me pegou pela primeira vez, eu sabia que ele não queria mais ouvir gritos ou choro ou pessoas implorando para pararem e sair daqui. Ele queria a sombra do mundo lá fora. Queria desejo, queria carinho, queria aceitação e queria sentir que ainda havia algo que remetesse ao que ele já teve ou já desejou ter um dia. E eu dei isso a eles. A muitos deles. E eles me tiraram dos quartos de hotéis e me deixaram exclusivamente para eles, porque os grandes do sistema não precisam saber disso, mas eles precisam desse consolo que eu posso lhes dar. Eu lhes dava amor, eles me davam mais comida e roupas. E eu fazia pequenos feitiços sem varinha quando algum prisioneiro os feria, então eles arrumaram uma varinha para mim, e um caldeirão, e quando surgiu a coleira, eles me classificaram como trouxa, para que eu pudesse continuar cuidando deles. E quando eu decidi ajudar as crianças e cuidar de alguns prisioneiros, eles fizeram vista grossa e os trazem para mim, e eu os recompenso com beijos apaixonados depois.
- Eu o admiro por isso. E sou muito grato pelo que fez por nós, mas não sei se eu conseguiria fazer isso.
O homem sorriu de uma forma estranha e terminou de fumar, fazendo o cachimbo desaparecer antes de recomeçar a falar.
- Eu vou lhe explicar uma coisa, senhor Potter, e é importante que você preste atenção e pense nessa possibilidade se quer manter suas esperanças de sair daqui. Porque o sistema é simples, e existe somente duas saídas para pessoas como você: o necrotério ou o leilão.
- Leilão? - Harry perguntou, confuso.
- Sim, o leilão. Vocês entraram aqui criando problemas, então foram colocados na classe mais baixa de pessoas, aquelas oferecidas para quem pode pagar pouco, para quem eles sabem que vai machucá-los, que não se importam se vocês estão vivos ou mortos desde que possam trepar com vocês. Quando vocês saírem daqui, vão para outra cela, alguns níveis acima da que ocupavam, porque eu gostei de você. Vocês estão classificados como pessoas razoáveis, e podem entender com isso que ganharam um selo escrito "bons de cama" na bunda. É isso que eles querem de vocês: que agradem, que trepem e gemam para eles, que façam suas vontades sorrindo, que os satisfaçam e sejam profissionais. É isso que você precisa ser, como eu fui, e por isso eu sobrevivi.
- Eu não... - Harry tentou retrucar, mas o homem o interrompeu novamente.
- Eu sei que a surra que você levou foi exatamente por se recusar a fazer isso, e eu espero sinceramente que já tenha aprendido que é inútil resistir. Entenda: vocês precisam ser bons, precisam ser melhores do que os outros, precisam se destacar e eu já sei exatamente como podem fazer isso. Se vocês conseguirem, vão crescer na cadeia, vão ser preservados, vão ser admirados, vão ser bem tratados. Vão se aproximar dos bruxos que vão pagar somente para olhar para vocês. Até o dia em que haverá um que vai querer ter o capricho de não permitir que mais ninguém olhe para vocês, e vai comprá-los, como se compra um bibelô, e via levá-los para a casa dele. Pronto, vocês estão fora da gaiola. Ai, se vão fugir, se vão se apaixonar pelo comprador de vocês, se vão gostar do que ele tem a oferecer, eu não sei. Não tem como eu prever o quanto o sistema vai ter mudado vocês dois até lá. Só estou mostrando para você o caminho para sair daqui, é o que eu posso fazer.
Harry olhava o homem atônito, sem saber responder àquilo. Não havia como negar que aquele raciocínio tinha lógica e ele reconhecia que era uma possibilidade válida, mas sua mente gritava "NÃO!" ao considerar agir da forma como ele sugeria, rejeitando cada possibilidade de se entregar, de efetivamente se prostituir para, talvez, conseguirem sair dali, de fazer de livre e espontânea vontade aquilo que vinham forçando-o a fazer desde que fora trazido para aquele lugar.
- Harry... - uma voz fraca o tirou do choque e Harry teve que piscar algumas vezes para se forçar a afastar os olhos do homem e encontrar os de Draco abertos, confusos, sonolentos.
- Hey. - Harry sorriu, engatinhando para perto da cama, afastando os cabelos loiros dos olhos e depositando um beijo leve em sua testa – Está tudo bem. Como se sente?
- O senhor pode se sentar. - o bruxo se aproximou, verificando o estado de Draco – Acredito que esteja completamente curado, senhor...
- Malfoy. - Draco respondeu, pigarreando até deixar a voz menos rouca pela falta de uso – Draco Malfoy.
- Interessante. - o homem sorriu de uma forma estranha, olhando de Harry para Draco, e o moreno quase podia adivinhar o que se passava em sua cabeça frente à combinação que ele e o loiro representavam.
- Eu me sinto... bem. - Draco disse, sorrindo para amenizar a preocupação de Harry – Sem dor. Sem mal estar. Não estou nem cansado. Só um pouco de fome.
Harry sorriu e sentou-se ao seu lado quando o bruxo ofereceu água e comida para Draco, o observando enquanto se alimentava com a mesma fúria que Harry havia feito há alguns minutos.
- Vocês são lindos. - Harry se moveu, incomodado, e Draco puxou a coberta sobre as pernas quando o bruxo teceu esse comentário – Vocês sabem disso. Tenho certeza que concordam com meu ponto de vista. E podem estar magros e abatidos, mas são uma combinação muito peculiar. Forte e delicada ao mesmo tempo. Eu creio, senhor Potter, que acabei de encontrar o diferencial que pode tirar vocês dois, juntos, daqui.
- Do que ele está falando? - Draco sussurrou para Harry, preocupado e ansioso.
- Eu preciso conversar com Draco, mas, com todo o respeito, acredito que, assim como eu, ele considere a ideia de se prostituir voluntariamente aqui dentro um tanto... repulsiva.
- Quê? - Draco perguntou, surpreso, encarando um e outro, deixando os utensílios que utilizara para comer de lado para prestar mais atenção àquela conversa.
- Eu lamento, senhor Potter, mas não acredito que seja a melhor escolha que vocês tenham agora. Você entrou aqui sabendo que meus serviços teriam um preço, e agora vocês só tem dois caminhos a seguir: eu posso mandá-los para a mesma cela fedida e pútrida de onde tirei vocês, onde serão estuprados até seus corpos apodrecerem abandonados lá. Ou vocês dois, juntos, me convencem que podem, sim, agir de forma profissional. Então envio os dois para uma cela especial, onde trabalharão dignamente até serem leiloados. Juntos, pois ter vocês dois juntos em uma cama é exatamente o que fará os bruxos mais ricos do mundo caírem aos seus pés.
- Eu... Eu não... - Harry balançou a cabeça em negação, sentindo o aperto desesperado da mão de Draco em seu pulso.
- Não importa o que escolherem, senhores, vocês dois serão meus esta noite. Esse é meu preço. E depois que eu lhes mostrar o que eu quero, me digam se são capazes de fazer isso fora daqui ou não.
-:=:-
NA: E ai eles estão inteiros de novo ^ ^
Agora a fic tem uma pequena virada, vamos para uma outra saga. Esse capítulo contém MUITA informação, espero que tenha respondido algumas questões de vocês, dado um alívio relativo e um folego novo para o que está por vir.
Espero comentários, lógico XD
Até semana que vem, pessoas o/
Beijos
