Part 6: Scary

Se deu um tempo para ver se tinha ouvido direito. Continuou na mesma posição, ainda encarando-a, enquanto esperava o rosto dela ficar rubro. Coisa que não aconteceu.

Esperou pacientemente ele falar. Firmou-se no lugar tentando não mostrar dúvidas ou vergonha. Afinal, por que tinha que corar? Não era uma pergunta muito pessoal. Bem, não seria se não estivesse apaixonada por ele e não estivesse com ciúmes das gêmeas.

- Por que acha que menti? - ele perguntou pausadamente, ainda encarando-a.

- Você disse que só conhecia a Youko-san, e que quando foram fazer a pesquisa com seu pai, você tinha vindo procurar o Gene. - mordeu a língua lembrando do irmão mais velho de Naru.

- Seu irmão perguntou se eu conhecia as Gêmeas Psíquicas, e eu respondi. Mas não perguntaram se eu conhecia as Nakamura pessoalmente. É algo diferente.

- E não são as mesmas?

- Há uma certa diferença entre conhecer a pessoa e a personalidade.

- E tudo aquilo no escritório?

- Cena. Satiko gosta de atuar. E quando usa o apelido, é como se o heterônimo ganhasse vida. Ela muda inteiramente de personalidade e age diferente. Aquela no escritório era a Yoru.

- Mas...

- Vamos deixar algo claro, Mai. - ele disse em tom definitivo. - elas me odeiam e é recíproco. Conheço-as á tempos, sim, e gostaria de não ter conhecido. Só vou resolver esse caso por casa dos meus pais. Estamos entendidos?

Mai ficou calada. Por alguma razão sabia que era mais do que ele contara. Naru nunca se exaltaria daquela forma por simplesmente não gostar de alguém. Nem em seus piores dias de mau-humor.

Sentiu a tristeza vir com força. Sentiu sua expressão cair e o coração apertar. Por mais que o conhecesse, por mais que o tenha aturado todo quele tempo e se mostrado alguem com quem podia contar, o passado de Naru ainda era um incógnito. Um misterioso poço fundo e escuro.

Sentiu os olhos marejarem ao perceber aquilo. Naru não confiava nela.

Viu o rosto de Mai mudar. Viu-a baixar os olhos e escondê-los sob a franja. Agora notara o por que da menina viver reclamando não ter tempo de ir ao cabeleireiro. As madeixas castanhas estavam longas, chegando nos ombros. O que para ela devia ser incômodo, já que não tinha condições de mantê-los.

Fez menção de se levantar, mas ela saiu porta a fora. Ouviu, confuso, os pés da menina chocarem-se com o assoalho, numa corrida, e a porta de seus quarto ser batida bruscamente.

Por mais que tentasse, não conseguia entender o por quê daquilo. Sua mente pragmática não conseguia processar aquelas informações que Mai desencadeava.

Ainda eram muito estranhos aqueles sentimentos que resolvera assumir. Sabia que existiam. Mas ainda custava a acreditar que podia senti-los tão forte e confusamente.

Pensou em se levantar e seguir a assistente, mas Hoshou e Reiko entraram no quarto. O monge ainda estava desnorteado pelo fora que levara de Satiko.

Sentiu sua face endurecer instintivamente á simples visão da segunda gêmea mais velha. Aquela alegria constante de Reiko era enjoativa. Não gostava dela – nem das outras – era fato. E ela sabia mito bem disso, pois gostava de reafirmar toda vez que se encontravam.

Das quatro, a única que poderia pensar em aturar era Aiko. Ela era a única quase normal da família. Mas Aiko fora a primeira a sumir. Infelizmente.

- Oliver, tenho algo pra te contar. - Reiko desfez o sorriso, mas sua aura alegre permaneceu. Era palpável. - é sobre o dia em que Ai-chan sumiu.

- Conte. - não convidou-a a sentar-se. Reiko era um pouco espaçosa quando se tratava de irritá-lo.

- A You-neechan contou como a Ai-chan sumiu. - ela sentou-se na cadeira a frente da mesa. - Mas ela não contou que eu estava no quarto quando ela apareceu.

- Continue. - Noll pediu.

- Bem... eu estava pegando umas coisas pra levar pra Aiko no hospital. Eu estava na orta quando Youko-nee gritou que Ai-chan havia sumido. Já estava com um mau presságio á dias e isso me alarmou ainda mais. Ouvi um suspiro dolorido na cama e quando virei, lá estava ela. Youko-nee entrou e começou a selar o quarto. Eu liguei pra Sati, nesse assunto eu não sou de muita ajuda. Na hora em que liguei ela estava falando com vocês, não é?

- Sim.

- Então... não sabíamos o que fazer. Sati-chan tentava nos instruir mas estávamos apavoradas! Entenda, Aiko estava incorpórea!

- Explique-se.

- Da hora em que ela apareceu, até a hora em que sumiu, se passou apenas vinte minutos. Até quando ela começou a desaparecer, podíamos dar conta. Mas a nee-chan começou a sentir as crianças. Foi quando Aiko parou de respirar e sua presença sumiu por completo, que percebi que tínhamos falhado. Nos desesperamos mais ainda quando começamos a ver através dela. Pode parecer infame a analogia. Mas ela estava tão sólida quanto fumaça.

- O que aconteceu?

- Piscamos. Aiko havia sumido. Se dissolveu como vento.

- Tem idéia dos sinais?

- Não. Sinto muito, Oliver. O que lembro é que ela estava definhando a dias. Tem as presenças e tudo mais que você conhece. Mas, se fosse uma possessão normal, ela não teria ido no primeiro dia?

- Bem pensado. - deliberou um pouco. - você sabe quem será a próxima? Pode sentir?

Finalmente sentiu a aura alegre sumir de vez.

- Vai ter que usar a psicometria na nee-chan, Noll. Ela está tão fraca que não duvido que seja a próxima. Mas temo ela ir antes de mim. Não quero vê-la sumir. Você me entende, não é?

- Mais do que imagina. - pensou concordando. - é só?

- Sabe a velha? Te digo, ela não é tão velha quanto se pensa nem como a Sati deu a entender. É bem jovem. Dou trinta anos. E é tão sanguinária quanto o homem na sala trancada.

- Então já os viu?

- Parece que você também. - percebeu a alegria dela voltando. - quem você viu?

- Naru-bou, você viu o espírito? - bou-san perguntou surpreso.

Não respondeu. Era irritante a mania que elas tinham de contar o que se assava na cabeça dele aos quatro ventos.

Levantou-se, ignorando-os, e parou á frente dos monitores. Observando-os para tentar expulsar os indivíduos da sala. Coisa que não aconteceu.

Prestou atenção nas imagens. Tudo normal. Todos estavam em seus afazeres. Percebeu, com um suspiro, que a câmera no quarto Mai estava desligada. Isso o preocupou. Mesmo que não quisesse ser vista, teria que deixar a câmera ligada. Para sua própria proteção.

- Bou-san. - chamou. - vá ver a Mai. Ela desligou a câmera.

- Ok. - não esperou-o se virar. Sabia que ele não faria.

- Por que você é assim, Oliver? - ouviu Reiko ás suas costas. - por que não pode ser mais amigável? Todos gostam tanto de você!

- Não tem mais nada para fazer? Tipo se enterrar? - perguntou grosso.

- Não, não. Além do mais, eu gosto de falar com você.

- Você gosta é de me encher. - disse mudando a imagem. - todas vocês.

- Ainda com isso? - ela bufou. - faz mais de anos, Noll. Esqueça!

- Sua irmã caiu, Reiko. - disse olhando o monitor e vendo a imagem de Youko estendida no chão. - vá ajudá-la.

- VOCÊ É UM ICEBERG IDIOTA, OLIVER! - ela esbravejou correndo porta afora. - SATI!!!

- Você é que me irrita, Reiko. - sussurrou vendo-as aparecerem na tela.

Deu uma ultima olhada nos monitores e suspirou, se jogando na cadeira. Mai devia se recusar a câmera. Isso era preocupante, tinha que admitir, mas se bou-san estava lá com ela, então não precisaria se alarmar á toa... ou precisava?

Pegou as anotações do depoimento de Youko e começou a lê-las. Esperava que aquilo terminasse logo. Estava cansado, e, pelos próximos dias, muito estressado.

E isso não era bom para ninguém.

------------

Takigawa tinha acabado de sair. Depois de muito insistir, concordou em religar a câmera posta em seu quarto.

O problema era: não lembrava de ter feito isso. Tampouco de ter deitado na cama e dormido. Simplesmente viu-se naquele lugar nenhum que sempre ia quando se envolvia em encrenca. Traduzindo: sempre.

Não se preocupava mais em buscar a fonte daquela luz que iluminada o grande nada. Sabia que era ela a "lâmpada daquele lugar". E sabia o que viria a seguir. Esperou, um pouco impaciente, ele aparecer.

Estava brava com Naru. Fato. Mas não podia descarregar toda essa irritação sobre o pobre irmão gêmeo morto dele, Gene. Ele não tinha culpa alguma do que seu irmão vivo fazia a ela.

- Mai. - ouviu a voz calma e gentil dele. Não era muito diferente da de Oliver, o que os diferenciava era o calor das palavras. - vejo que está brava.

- Há! - bufou. - seu irmão nos arrasta para uma missão suicida e não confia em nós. Ele não confia em mim!

- Ele não diria isso nem a mim, Mai. - afirmou tristonho. - mas só eu sei o quanto ele é afetado delas gêmeas e o quanto está estressado pela gravidade do caso.

- Mas ele não podia confiar em mim, só um pouquinho? Só pra desabafar? Ele disse que contaria. - resmungou.

- É mais complicado do que parece, Mai. É algo que queríamos esquecer. - a seriedade dele a assustou. - Esse segredo que me envolve também.

- Foi tão horrível assim? - viu sua própria raiva se dissipar.

- Bem, foi desagradável e mudou nossa vida. - ele chutou o ar como se tivesse uma pedra ali. - só vim te dizer uma coisa por agora.

- O que? - viu o rosto dele mais próximo.

- Cuidado quando você dorme, Mai. - ele começou a ficar incorpóreo. - Essa casa é mais perigosa do que aparenta.

Acorde! - ouviu da escuridão

-----

Abriu os olhos de repente e deu de cara com um mar azul que a assustou de inicio. Estava tão preocupados e temerosos quanto no sonho.

- Está acordada? - ouviu a voz de seu irmão á seu lado.

- Em parte. - os olhos azuis de Naru deram lugar ao pescoço.

- Ei, Mai! - a voz de bou-san estava cansada e preocupada. - tem certeza que está acordada?

- O que está acontecendo? - perguntou com a voz confusa.

- Está respondido? - o tom de Naru ainda era preocupado.

- Mai! Que susto você nos deu! - ouviu-se som das molas da cama ao lado.

- O que aconteceu, Naru? - perdeu-se na maré azul novamente.

- Você é uma idiota inconsequente. - ele se levantou e se deu conta da posição protetora, e comprometedora, que se encontravam.

Sentou-se desnorteada. Bou-san ofegava na cama ao lado com as mãos sobre o rosto. Naru havia se encostado á porta e a observava com o rosto sério. Foi aí que sua mente brilhou em clareamento quando sentiu o frio e viu a fumaça saindo de sua boca sendo que o aquecedor estava no ultimo.

- Esteve algo aqui? - perguntou retribuindo o olhar.

- Sem condições, Mai. - Hoshou disse. - Você vai ter que dormir com alguém!

- Por quê?

- Havia alguém aqui, Mai. - a voz de Naru se fez ouvir. - E não era uma das meninas.

- Está falando da mulher?

- É muita coisa para um homem só. - Takigawa se levantou e Noll revirou os olhos. - dá licença que preciso respirar.

Viram-no sair arcado. Aquele caso não estava agradando a ninguém. Em especial aquele que o aceitou. Seria muito estressante.

Se encararam em silêncio. Havia muito a ser dito e nada a ser falada.

- O que aconteceu, Naru?

- Depois que Bou-san saiu, você ligou a câmera e caiu. Houve variação de temperatura e a imagem se apagou. Chamei bou-san de volta e entramos. Ele a afastou a muito custo. Cuidado quando você dorme, Mai. Essa casa é mais perigosa do que aparenta. - viu-a se encolher. - o que?

- Gene acabou de me dizer isso. - viu o rosto dele assumir aquela expressão. Aquela que assumia quando se tratava do irmão morto. - cada palavra no mesmo tom.

- O que ele disse exatamente?

- Só isso. E... - ela parou receosa.

- E? - ele se aproximou, parando na frente dela.

- Ne, Naru... O que elas fizeram para merecer seu ódio? - viu-o recuar.

- Ele não contou?

- Não.

- Certo ele. - disse e parou á porta, esperando-a. - vamos para base.

- Pensei que confiasse em mim, Naru – ela choramingou.

- Eu confio, Mai. - disse-lhe ao ouvido. - mas isso é algo que eu queria esquecer.

Arrepiou-se com a proximidade e a ação inesperada do chefe.

Esses episódios estavam se tornando cada vez mais constantes, e percebera isso. Já tinha notado o jeito carinhoso – á moda Naru - que vinha tratando-a. Embora soubesse da mudança que ele tivera, desde que o conhecera, e o jeito que a tratava desde os últimos casos, ainda não se acostumara com aquilo.

Ele afastou o rosto, apenas para olha-la nos olhos. Devia estar vermelha. O rosto queimava intensamente e as palas das mãos suavam a frio.

Iamginava o que viria a seguir.

Os minutos correram depressa. Esperava uma palavra dela, mas não havia nada a ser dito. Viu sua boca se abrir e baixou-se um pouco pra ouvi-la.

E não havia nada mais quebra clima que um acesso de tosse.

- Desculpa. - ela disse sem fôlego.

- Peça a Matsuzaki-san para te dar uma olhada. Aconselho ir ao médico. - saiu pela porta recolocando a mascara de indiferença. A mesma que usava quando estava em ambientes habitados por seres vivos.

- Estou bem, Naru. - ela saiu se escorando. - não se preocupe.

- Você que sabe. - disse andando pelo corredor.

Suspirou, seguindo-o a passos arrastados. Aquele mal-estar todo não podia ser normal. Nunca ficara doente, de repente, antes. Tinha a saúde de ferro.

Sua mente brilhou ao perceber a situação. Não era uma gripe normal.

- Naru. - chamou ouvindo a própria voz sumir pelo corredor.

Virou-se a tempo de vê-la ceder sob o próprio peso. Apressou-se para amara-la.

- O que aconteceu? - Masako apareceu acompanhada de duas das gêmeas.

- Você está bem, Nakamura-san? - Reiko se ajoelhou a seu lado, esperando ajuda-la.

- Naru... - a voz dela continuava fraca. - eu vou ser a próxima...?

- O que? - a surpresa foi geral.

- Me fala! - pegou a mão dele, inconsciente do olhar assassino da Médium. - eu vou ser a próxima?

Viu-o trocar olhares com a ruiva. A expressão chocada deu lugar ao entendimento. Tinha que ficar séria.

- Quanto tempo? - disse mais claramente.

- Não sabemos. - Reiko suspirou. - mas acredito que seja Youko-nee.

- Bem... - Mai se levantou com ajuda de Naru. - então tenho que ajuda ainda mais, certo?

- Não respondeu. O sorriso no rosto da menina era o mesmo que lançava quando disfarçava seu verdadeiro estado.

Não tinha dúvida que Mai seria uma das vítimas.

Não podia permitir isso.


Muito obrigada por esperarem. Sei que estou atrasada mas valeu a pena. Obrigada por lerem ^^