Capítulo 7: Pare de fazer papel de idiota
Uma parte sua estava satisfeita. A outra parte estava o amaldiçoando em voz alta e em palavras nada bonitas.
Quando Ikki acordou naquela cama, com os dois nus ao seu lado, os observou por um tempo indeterminado, até que uma vontade súbita de se socar o fez levantar. Quase havia caído na cama por causa da dor de cabeça da ressaca que o atingiu assim que pôs os pés no chão.
Foi para seu quarto, vestiu-se apressado, separou algumas coisas em uma mala pequena e pegou uma aspirina a engolindo junto com o café sem gosto do dia anterior. Tirou o carro da garagem e saiu sem rumo pelas ruas da cidade. Não passava das oito da manhã e a ressaca incomodava sua vista.
Ele se proibira mentalmente de ficar remoendo aquele assunto. Era um idiota e ponto final, não tinha o que discutir. Ao menos não havia feito nada com Shun... Isto é, não havia mesmo o possuído. Era a única coisa que o deixava aliviado.
Entrou novamente no mesmo motel da última vez. Jogou-se na cama e dormiu mais algumas horas, desejando que a ressaca passasse.
Morar em um motel era patético, pensou quando acordou horas depois. Era patético e deprimente. Que inútil. Acabou passando o dia trocando os canais da TV, entediado, até o anoitecer. Cogitou contratar alguma garota, mas não estava com cabeça para aquilo e isso era um péssimo sinal. Escovou os dentes e lavou o rosto sem se encarar no espelho, não queria ter um acesso de raiva e acabar o quebrando. Despenteou mais ainda os cabelos com a mão e decidiu trocar de roupa e sair para beber algo.
Dirigiu até um bar que havia ido fazia um tempo. Não se lembrava se fora acompanhado, mas logo que entrou e deu uma geral no ambiente, recordou de ter ido uma vez com os outros cavaleiros de bronze, depois de Shun muito insistir. Lembrar-se do irmão lhe deu um embrulho no estômago, mas antes que pensasse qualquer coisa, caminhou até o balcão para pedir um whisky.
– Seu traidorzinho de merda!
Ikki ouviu o som de algo sendo jogado longe e se virou na direção daquela voz, a reconhecendo de imediato.
– Hyoga? – estranhou a presença do outro. Ele não deveria estar com Shun?
O viu se aproximar a passos vacilantes, com uma expressão zangada no rosto. Olhou de relance e percebeu que o loiro havia jogado um taco de bilhar e quase quebrara uma das janelas do estabelecimento. Afastou-se do balcão e adotou uma expressão neutra, cruzando os braços.
– Eu deveria quebrar a tua cara! – o bar inteiro olhava o escândalo que o loiro fazia enquanto se aproximava. – Seu grande filho da puta, como pôde roubar a pessoa que EU AMO?
Ikki prosseguiu com sua expressão de neutralidade, mesmo com sua mente a mil pela constatação de que Hyoga sabia o que havia acontecido, provavelmente por Shun ter dito algo. Do jeito que o irmão era, iria acabar se deixando levar por um sentimento de culpa, mas não esperava que realmente contasse ao namorado que... Céus! Será que ele tinha contado tudo?
– Em primeiro lugar, você está mais bêbado que adolescente durante o carnaval. Em segundo lugar, nem se eu tivesse matado o seu cachorro você conseguiria me dar um soco na cara e isso supondo que você estivesse sóbrio. – finalizou com um sorriso de deboche.
Hyoga parou a sua frente, se apoiando em uma cadeira próxima, sua face se avermelhando de raiva. O barman já ia tirando copos e garrafas perto dos dois, mais preocupado com o patrimônio do lugar do que com aquela briga. Ikki olhou para ele rapidamente e pediu o whisky que pretendia beber quando entrara.
Ser ignorado só fez com que Hyoga ficasse mais zangado. Serrou os punhos e Ikki pôde sentir o deslocamento de ar quando o loiro veio em sua direção. Somente inclinou a cabeça para o outro lado e Hyoga acabou tropeçando em seus próprios pés, não caindo por ter se apoiado no balcão. Ikki daria risada se não fosse tão patético.
– Pare de fazer papel de idiota...
– Ah sim, isso eu realmente faço! Papel de corno enquanto vocês se divertem! – Hyoga o interrompeu ainda apoiado no balcão. – Você não tem vergonha?
– Cala a boca, não lhe devo explicações. – agora era ele quem se sentia zangado. – Não sabe nem que porra tá falando.
– Ah, vamos entrar em detalhes? Por favor, todo mundo aqui para ouvir as putarias! – zombou dele abrindo os braços e falando alto. Os clientes no estabelecimento permaneciam parados onde estavam, os observando.
– Já mandei você calar a boca, russo! – se Hyoga revelasse do que exatamente estavam falando para aqueles desconhecidos, o mandaria novamente para Hades sem passagem de volta.
– Fazer você faz, falar sobre isso não? Você é um traidor! Aliás, você é o de menos, na verdade, eu deveria ir para aquela porra daquele apartamento e... – Hyoga não pôde continuar, pois Ikki já o segurava pela gola da camisa antes que pudesse ter piscado.
– Você pensa muito bem em como vai completar essa frase, pode ser a última que você fala na sua vida – apontou o dedo.
Hyoga o encarou confuso, ainda com raiva. Engoliu seco, não por medo, mas por ter pensado direito que ele estava falando de Shun. Sentiu ódio de si por realmente pensar em como ia terminar aquela frase como Ikki impusera. O moreno o soltou ao ver que um segurança se aproximava dos dois e Hyoga permaneceu com os punhos serrados enquanto o homem pediu para que agissem com calma ou seriam expulsos.
Hyoga, bêbado e sem raciocinar, virou-se para o segurança com olhar atravessado.
– Oras e você, o que... – sentiu um dos braços de Ikki rodear seus ombros e retesou o corpo em reflexo.
– Meu primo não está muito bem, já estamos indo. – disse o mais velho ao segurança com um meio sorriso falso.
– Eu não acabei de falar... – sentiu o gosto de bile lhe subir a garganta, o que o fez se calar imediatamente e colocar a mão na boca. Ikki pegou o whisky, tomou rapidamente e, deixou o dinheiro no balcão, direcionando Hyoga para a saída.
– Hey! Seu primo ai não vai sair sem pagar! – o barman parecia zangado pela bagunça que os dois tinham feito.
Ikki jogou algumas notas, sem se importar.
– Fique com o troco.
Hyoga se desvencilhou dos braços de Ikki assim que saíram e apoiou-se em uma parede, enquanto se obrigava a não vomitar.
– Vai! Sai gritando pra todo mundo mesmo, seu imbecil. Se você tem que falar comigo, então fale, não dê showzinho em público!
Hyoga lhe lançou um olhar zangado e cuspiu no chão para tirar aquele gosto amargo da boca, antes de falar:
– Não tem o direito de dizer nada. O que quer que tenha acontecido, ele ainda é seu irm... – não pôde continuar, pois sentiu o gosto amargo na boca novamente e dessa vez não conseguiu segurar.
Ikki olhou para o outro lado, onde seu carro estava estacionado. Não dava pra continuar daquele jeito. Cruzou os braços irritado e, dando uma olhadela em Hyoga, suspirou cansado.
– Vamos, eu te levo pra casa.
– Não quero a sua carona, tenho carro. – vasculhou os bolsos deixando a chave cair.
– Puta que pariu, vem logo. Você pode ser um imbecil, mas tem gente que ficaria triste se você se estourasse em algum poste. Anda. – empurrou-o novamente. – E se vomitar no meu carro, te faço limpar com a língua!
O caminho foi preenchido com puro silêncio. Hyoga ainda estava bravo, mas sempre que pensava em dizer algo, sentia que poderia vomitar. Sua vista embaçada o incomodava, teria uma bela ressaca depois...
Ikki pensou em ligar para Shun, mas não queria falar com ele e sentia que precisava arrancar de Hyoga o que havia acontecido. Não que o loiro estivesse mesmo em condições de falar.
Ao subirem ao apartamento – Hyoga raivoso dizendo que não o queria lá e Ikki debochando que ele não conseguiria abrir a porta sem ajuda – Hyoga sentiu aquele gosto amargo novamente e saiu em disparada até o banheiro. Ikki trancou a porta da sala dando um tempo até ir atrás dele.
– Isso tudo é amor pelo meu irmão ou é porque não sabe perder? – provocou se recostando no batente da porta, enquanto o loiro abraçava a privada.
– Você é um idiota. – recebeu em resposta.
– Vai, vomita. – Ikki respondeu cruzando os braços ao vê-lo ficar pálido. – Não podemos negar que temos algo em comum...
Hyoga limpou a boca após vomitar e o encarou sem dizer nada. Ikki colocou as mãos nos bolsos e ia continuar a falar quando foi interrompido.
– Não pode estar falando sério, ele é seu ir...
– Eu sei muito bem quem ele é. Acha que é fácil? Me arrependo de poucas coisas nessa vida, de quase nada na verdade, mas isso... Acha que penso que é tudo maravilhoso? Eu não sou idiota, Hyoga! Sei o tamanho da burrada que fiz. – o russo o encarou sem dizer nada. Ikki desviou o olhar. – Bem, agora que está a salvo, vou embora.
O loiro deu um sorriso de lado e se levantou, sentindo uma leve tontura e a cabeça pesada. Abriu a torneira para escovar os dentes e viu de soslaio que Ikki estava indo para a sala.
– Fica ai. – falou sem se importar.
– Você tá bêbado mesmo. Eu aconselho que deixe uma aspirina do lado da cama para quando você acordar. – Ikki prosseguiu a caminhada em direção à porta.
– Estou bêbado sim, mas ainda penso: sua modesta mala ainda tá no carro, você provavelmente vai para algum hotel ou motel barato, jamais voltaria para o apartamento... – Ikki tentou falar, mas ele continuou, enquanto saia do banheiro ainda trocando as pernas. - E, foi você mesmo quem disse "não podemos negar que temos algo em comum".
– Eu me viro. – respondeu ignorando a última parte.
– Dorme logo nesse sofá, porra, não vou te comer no meio da noite!
Ikki riu.
– Ah, não, meu medo é você tentar me dar um poderoso soco como o de agora há pouco. Aterrorizante.
Hyoga fechou a gaveta e segurou a aspirina enquanto mostrava o dedo do meio para ele. Ikki rolou os olhos diante da infantilidade. Observou o loiro com dificuldade de andar em linha reta pegar um travesseiro e um cobertor e jogar para ele, em seguida pegando uma camisa e uma calça qualquer fazendo o mesmo. Enquanto isso Ikki permanecia imóvel, estranhando o quanto era surreal estar ali depois de tudo.
Suspirou quando o loiro bateu a porta do quarto e olhou para o sofá pensativo. "Ah, tanto faz, vai que o maluco engasga com o próprio vômito? Não que eu me importe, de qualquer maneira...". Jogou as coisas no sofá, foi ao banheiro e se trocou. Ligou a televisão.
Ikki trocava os canais sem prestar a mínima atenção a nada do que estava passando. Desligou depois de dez minutos e jogou o controle de qualquer jeito no sofá, em seguida passando as mãos pelos cabelos nervoso. O que evitara o dia todo acabou acontecendo, como ele temia. Começou a pensar em Shun. O motivo de tudo... Não, o motivo mesmo era a sua imensa estupidez. A sua, não a do irmão. Ele era realmente muito estúpido para simplesmente ter feito as coisas que havia feito. Em que mundo se aproveitar do seu próprio irmão e depois ainda começar um ménage com ele e com seu namorado, era uma boa ideia?
Já começava a questionar se seu problema não era ser como eles. Quer dizer, desejar um homem e acabar se aproveitando daqueles que estavam por perto...
Não. Seu caso não era esse. Ele realmente gostava de mulheres. Homens não despertavam nada nele. A explicação deveria ser outra e algo lhe dizia que ele não queria saber. O que ele precisava fazer era se afastar de Shun, daquele apartamento, de tudo! Covardia? Talvez sim, mas ele nunca era o seu normal quando o assunto era o irmão mesmo, então pouco importava. Ficaria ali por aquela noite e depois voltaria para o motel. Pegaria o resto de suas coisas, não era justo ficar entre os dois. Não queria admitir, mas Hyoga amava Shun, ele teria alguém...
Iria pegar suas coisas no meio da semana, pois sabia que Shun não estaria em casa o dia todo, por causa de suas tarefas.
O mais difícil seria se afastar dele por um bom tempo. Ou talvez fosse melhor para o irmão, que não voltasse nunca mais.
