Capítulo 7: Primavera
O inverno chegou e passou por Hogwarts; os alunos deixaram o castelo para os feriados de Natal e Ano Novo e voltaram para mais um período de aula, e a Srta. Haruno continuava em meu laboratório. Eu devia desconfiar, quando aceitei a proposta do Dumbledore, que o desenvolvimento de um antídoto para aquela marca não seria corriqueiro. Nós já havíamos tentado quatro ou cinco composições diferentes, usando magia bruxa, chakra ninja, e os dois combinados, mas nada parecia surtir efeito; e o que mais me deixava indignado era o fato de que todas as poções testadas estavam de acordo com os mais exigentes manuais bruxos. Eu estava a ponto de desistir, mas Severo Snape não era um covarde.
Eu tinha que admitir, entretanto, que a presença dela havia se tornado tão constante que, gradualmente, passara de indesejável a indiferente, começando até a se tornar apreciada. Eu sou um homem, afinal de contas, seria muito estranho se não apreciasse a companhia de uma bela mulher. Mas não era apenas isso. A Srta. Haruno, ou melhor, a Sakura – uma vez que a convivência nos fez rapidamente esquecer das formalidades – tinha o poder de me fazer esquecer dos cabeças-ocas que era obrigado a ensinar cada vez que aparecia com uma nova sugestão para o nosso trabalho. Não, o abominável Morcegão da Sonserina ainda existia, mas perdia sua máscara assim que era encarado por aqueles olhos verdes.
Talvez fora apenas a presença dela o que me acalmara quando Dumbledore me lembrou que o filho de Lílian estaria em Hogwarts no próximo ano letivo. Não era apenas o fato dele ser também o filho do meu maior inimigo do passado, mas a certeza de que, se o Lorde das Trevas estivesse realmente vivo como Dumbledore desconfiava, ele tentaria alguma coisa com o garoto quando ele aparecesse no mundo bruxo, livre das proteções instaladas na sua família trouxa. E dependendo da força com que o Lorde das Trevas voltasse, eu novamente estaria ligado a ele, pois sabia que a Marca Negra estava apenas enfraquecida no meu braço, mas jamais desaparecera totalmente. Mas a presença da Sakura ali, me ajudando a encontrar uma cura para um selo tão semelhante, me dava esperanças de um dia conseguir me livrar da Marca Negra também.
Por várias vezes eu me pegava relembrando das palavras dela naquela tarde em Hogsmeade, imaginando se Lílian havia morrido também acreditando que eu jamais sentira nada por ela. Aquela idéia me entristecia, ao mesmo tempo que fazia crescer uma simpatia pela ninja de cabelos cor-de-rosa que invadira a minha vida. Eu não repetiria com ela o erro que cometi com a Lílian.
A primeira vez que percebi o quanto a Sakura havia se tornado uma presença constante e querida foi no meio de março. Subitamente, a única mulher que sequer havia recebido minha permissão para freqüentar livremente meu laboratório de pesquisas desapareceu de Hogwarts. No primeiro dia eu me preocupei, achando que Sakura poderia estar com algum problema de saúde e fui investigar com a Pomona, mas ela não tinha nenhuma notícia da minha "assistente". Sem outra alternativa, tive que recorrer ao Dumbledore.
- Meu caro Severo – ele começou, com aqueles olhinhos brilhantes e o sorriso malicioso –, nunca imaginei que o veria preocupado com a Srta. Haruno. Sempre pensei que você não apreciava a presença dela na escola.
- Ela se mostrou uma assistente eficiente – me expliquei, sem entender realmente por que sentia aquela necessidade infantil de me explicar. – Eu apenas estranhei a ausência dela no laboratório hoje.
- Ela me pediu para voltar para casa por uns dias – ele respondeu com um ar misterioso, sem elaborar mais a resposta.
- E por que ela ia querer voltar para casa? – repliquei irritado.
Aquele velho onisciente apenas deu uma risadinha.
- Não há nada em Konoha que ela precise para a poção que não tenha aqui em Hogwarts também – me expliquei novamente. Estava começando a me irritar com tantas desculpas não solicitadas, mas que meu inconsciente insistia em inventar.
- Talvez ela estivesse com saudades de casa, Severo – Dumbledore argumentou, oferecendo-me uma xícara de chá.
Eu grunhi uma resposta qualquer e bebi um gole do chá, tentando tirar da minha mente a imagem da Sakura. Saudades de casa? Provavelmente, saudades daquele moleque que a abandonou, que nunca lhe deu o devido respeito. E por que, raios, aquilo me preocupava tanto?
A semana se seguiu com uma queda considerável nos contadores da Grifinória, Lufa-lufa e Corvinal. Não tinha paciência para os cabeças-ocas, e o antídoto que acabava de cozinhar no meu laboratório particular precisava ser testado. Mesmo depois de inúmeras tentativas, eu ainda não tinha conseguido adivinhar como funcionavam as tais folhas de chakra para prová-lo. O tempo estava correndo, e onde estava a minha suposta assistente?
Foi apenas eu me perguntar por ela pela milésima vez, e a porta do laboratório se abriu sem nenhuma cerimônia.
- Onde você esteve? – perguntei, sem nenhuma paciência para conveniências sociais.
Os olhos verdes se arregalaram, assustados, mas depois voltaram ao normal.
- Eu precisei voltar por uns dias – ela respondeu, um tom triste compunha a voz dela. – A primavera chegou, e as cerejeiras tiveram a primeira florada esta semana.
- E o que isso tem a ver com o nosso trabalho? – repliquei, fingindo não me preocupar com as cores apagadas dos olhos dela.
Ela não respondeu imediatamente. Caminhou devagar até a minha bancada, depositando um galho florido com as tais sakuras.
- Nós estamos há quase cinco meses tentando chegar num antídoto, nada do que tentamos funcionou. O Sasuke não vai suportar muito mais tempo.
Uma raiva enlouquecedora começou a crescer dentro de mim, entretanto, foi apenas mirar o rosto apagado da minha assistente, e minha voz saiu apaziguada quando lhe respondi:
- Eu entendo.
Ela veio para o meu lado, sentando-se no banco que sempre usava para me observar trabalhando, e a voz derrotada dela chegou aos meus ouvidos.
- Talvez seja melhor assim. Quem sabe agora eu me livre da prisão dele.
Eu queria responder-lhe que não, que se ela amava aquele rapaz como eu um dia amei a Lílian, ela jamais se libertaria daquilo que chamara de prisão. Entretanto, eu, o mordaz, mal-humorado e cruel mestre de Poções e Diretor da Sonserina, não tive coragem de dizer a verdade aterradora para a mulher que sofria ao meu lado.
- Essas flores... – foi o que consegui responder, inclinando a cabeça em direção às sakuras. – Isso significa que você vai acelerar o processo daquele selo...
Ela apenas assentiu a cabeça.
- Nós ainda temos uma nova versão do antídoto para testar – disse, sério.
Ela assentiu em silêncio; depois, decidida, afirmou:
- É nossa última tentativa. Se não funcionar, eu voltarei do mesmo jeito.
Eu respondi com um gesto silencioso, e observei quando ela começou a trabalhar com seus pergaminhos. Ela pingou uma pequena amostra da poção recém-preparada numa das folhas de chakra, e pelo que talvez fosse a milésima vez, houve uma pequena explosão. Eu já havia aprendido o que aquilo significava: mais uma tentativa frustrada.
- Sakura... – minha voz foi mais rápida que a minha razão, mas não havia como consolá-la. Simplesmente deixei o nome dela morrer no ar.
Ela virou a cabeça para mim e deu mais um daqueles sorrisos tristes.
- Parece que você finalmente se livrará de mim.
- Não – protestei, sem nem pensar no que estava dizendo. – Alguns antídotos só são eficazes depois de algumas horas de repouso. Talvez nós devêssemos esperar até amanhã para uma conclusão tão drástica.
Uma pequena centelha de esperança pareceu surgir nos olhos dela, que logo em seguida desapareceu.
- Obrigada – ela disse simplesmente.
Eu sabia que ela não me agradecia pelos meses que a ajudei a preparar um antídoto. A expressão de entendimento dela me dizia que aquele "obrigada" significava que ela sabia exatamente o que eu estava fazendo, tentando consolá-la de um fato que não tinha consolo, tentando levar um pouco de esperança a um coração que só conhecia a decepção. Ela sabia que havia me transformado. Como a primavera vem para derreter a neve fria do inverno, Sakura Haruno fazia jus ao seu nome e parecia destinada a derreter corações ainda mais gélidos.
Naquele momento eu percebi que, nos quatro meses que a Sakura fez parte da minha vida em Hogwarts, nós nos tornamos cúmplices. Apenas o Dumbledore me entendia tão bem quanto ela, ou talvez ele jamais me entendesse da mesma forma que ela. Nós dois nos unimos por histórias tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas que palavras nunca foram necessárias para conquistar esta compreensão mútua. E foi a idéia de que logo ela não estaria mais em Hogwarts que me fez perceber o quanto eu precisava de alguém, o quanto a solidão estava me deixando cada vez mais sombrio e sarcástico.
- Você devia esperar – eu insisti. – Pelo menos mais um dia.
- Está bem – ela respondeu num suspiro. Seus olhos apagados, sem nenhuma esperança.
Deixando que meu coração guiasse meu corpo, pois apenas isso explicava meus atos seguintes, eu me levantei e parei bem a frente dela, levando uma mão aos antigamente odiados cabelos cor-de-rosa. Ela se encolheu com o toque, não por medo, mas eu percebi que suas bochechas se avermelhavam.
- Sakura, eu... – minha voz falhou, em dúvida, mas eu precisava dizer aquelas palavras. – Eu vou sentir a sua falta.
Ela levantou os olhos verdes assustados para me encarar.
- Nestes últimos meses – continuei –, você iluminou este laboratório. Eu vou sentir falta de uma assistente tão eficiente quanto você.
Eu a senti estremecer, e seus olhos voltaram a fitar o chão.
- Talvez seja melhor assim – ela sussurrou.
Aquelas palavras doeram em mim. Era a primeira vez em anos que eu pensava em alguma outra mulher além de Lílian e não aceitaria ser rejeitado outra vez. Tomei seu rosto em minhas mãos, obrigando-a a levantar os olhos para mim. Eles lacrimejavam, mas não conseguiram me intimidar; sem deixar que ela protestasse, eu a beijei. Assustada, ela não reagiu de início, mas em poucos segundos, senti a língua dela procurando pela minha, e poções e antídotos deixaram de ser a única conexão entre nós.
haruno: primavera
Continua...
