ABORRECIMENTOS E SAUDADES

Uma comédia romântica assumidamente feminista e sadomasoquista

Por Vane

"Saint Seiya" pertence a Masami Kurumada, Toei Animation, Shueisha e Akita Shoten.

Capítulo 7



Shaina respondeu a pergunta prontamente:

- Marin e Asterion.

Camus sentia-se mais surpreso ainda agora:

- Eles? Eu nunca teria imaginado.

- Nem eu. Ainda não sei como foi que isso aconteceu. O Mestre Shion não me deu maiores detalhes. Mas assim que eu encontrar um dos dois, vou perguntar como foi que eles caíram nessa.

- Não deveria estar mais preocupada em oferecer sua solidariedade a eles? - Camus indagou, e em sua voz havia uma nota reprobatória.

- Está querendo dizer que não sou solidária? - Shaina rebateu, inclinando-se ameaçadoramente em direção ao cavaleiro.

- Não, esqueça - Camus respondeu cansado, erguendo as mãos em sinal de paz.

A amazona fitou-o por alguns segundos. Depois, num tom que misturava a rispidez que queria dirigir a Camus e a preocupação que sentia pelos amigos, ela afirmou:

- É claro que eu sou solidária a ambos. A última coisa que eu desejaria a eles seria um problema igual ao nosso. Fico imaginando como eles devem estar se sentindo agora.

- Deve ser uma situação difícil para eles - Camus supôs pensativo.

- Não "deve ser"; é difícil mesmo - Shaina corrigiu-o ácida. - Se é ruim para nós, por que para eles seria diferente? Tenho certeza de que os dois estão se sentindo muito mal agora. Eles precisam de apoio nesse momento delicado. Eu quero ver os dois e dizer a eles que lamento o que aconteceu. Não posso ficar calada, sabendo que eles se tornaram vítimas de...

A guerreira se interrompeu ao ouvir um par de vozes conhecidas.

Camus e ela instintivamente olharam na direção da entrada do campo de treinamento, procurando os donos daquelas vozes. Poucos segundos depois, viram um casal passar diante do portão aberto.

Asterion e Marin caminhavam lentamente, de braços dados, conversando e rindo tranquilos.

Perplexos, Shaina e Camus trocaram olhares. Quando os outros dois guerreiros já iam saindo de seu campo de visão, a amazona de Ofiúco chamou-os:

- Marin! Asterion! Venham aqui!

Eles recuaram alguns passos, olharam para Shaina e adentraram juntos a quadra onde Camus e ela se encontravam. Continuavam de braços dados. O cavaleiro de Cães de Caça sorria serenamente. Não era possível ver a expressão facial de Marin, mas a vibração de seu cosmo demonstrava o contentamento que sua máscara ocultava.

Os recém-chegados cumprimentaram Shaina e Camus alegremente. Asterion perguntou:

- Vocês já souberam da grande novidade?

- Que vocês dois também vão se casar? - Shaina quis confirmar.

- Sim. Então você já sabia - o cavaleiro constatou contente.

- É, disso eu sabia. O que eu não sabia era que vocês estavam assim, tão felizes e saltitantes - Shaina admitiu, sem disfarçar seu sarcasmo.

- Estamos felizes, mas ainda não estamos saltitantes - comentou Marin bem humorada.

- Podemos ficar saltitantes a partir de agora, não é, benzinho? - Asterion perguntou.

- Claro, chuchu - Marin respondeu.

E juntos os dois começaram a dar pulinhos, rindo como crianças.

Shaina e Camus lentamente se voltaram um para o outro, entreolhando-se com espanto.

- Pronto, Shaina. Agora sim você pode dizer com toda a razão que estamos não somente felizes, como também saltitantes - Asterion disse assim que Marin e ele suspenderam seus pulos.

Shaina encarou o casal incrédula.

- Por que essa felicidade toda? - ela inquiriu.

- Porque vamos nos casar - Marin respondeu, sem dissimular sua surpresa por ter de esclarecer o que lhe parecia tão óbvio.

- Porque em breve eu serei oficialmente o chuchuzinho dela, e ela será o meu benzinho - Asterion acrescentou, olhando afetuosamente para sua noiva.

O casal expressava seu deslumbramento abertamente. Camus, educado para conter e evitar sentimentos, sentia-se profundamente constrangido pelos dois colegas, a ponto de mal ter coragem de fitá-los. Shaina, por sua vez, já se havia recuperado do impacto inicial. Ela perguntou mordaz:

- Então, Marin, você está contente por se tornar o benzinho do Asterion, não é?

- Sim - Marin reiterou, assentindo animada.

- Mas que coisa... - Shaina continuou, num tom falsamente casual e verdadeiramente ferino. - Eu poderia jurar que o seu chuchuzinho era o Aiolia...

O sorriso de Asterion se desfez, e no olhar que ele dirigiu a Shaina misturavam-se o embaraço e o desapontamento.

Um boquiaberto Camus também fitou a amazona de Ofiúco.

Marin rompeu o silêncio que se instalara no grupo, declarando com dignidade:

- Você está desatualizada. A prova disso é que eu vou me casar com Asterion, não com Aiolia.

- Só porque você será obrigada - Shaina argumentou desafiadora. - Se não fosse por essa nova lei, e se você tivesse a oportunidade de escolher, aposto que...

Marin não deixou que Shaina continuasse, pois alteou a voz e retrucou calmamente:

- Se eu fosse você, não faria nenhuma aposta, porque o risco de perdê-la seria imenso. Eu tive sim a oportunidade de escolher. Fiz minha escolha nessa última madrugada, quando eu decidi não ir embora da casa de Asterion e não recolocar minha máscara, mesmo sabendo que o dia iria clarear e ele poderia ver o meu rosto quando acordasse. Isto é o suficiente para você? Ou você também precisa que eu explique o que eu fui fazer à noite na casa de Asterion?

Camus jamais havia presenciado uma situação tão constrangedora como aquela em seus 24 anos de vida. Pensou em correr para bem longe dali, mas receou parecer ridículo. Por isso obrigou-se a permanecer onde estava, paralisado pela vergonha.

Asterion sentiu-se desconcertado ao ouvir Marin relatar aquelas intimidades, mas admitia que a atitude dela era necessária naquele momento. Sorriu-lhe compreensivo.

Shaina emudeceu. Tentou pensar em alguma resposta cortante, porém fracassou.

- É melhor irmos agora - Marin disse a seu noivo.

- Sim, querida, vamos - Asterion concordou.

Eles se despediram educadamente de Camus e friamente de Shaina. Enquanto se afastavam, voltaram a conversar animadamente.

Depois de ver o casal se retirar da quadra, Camus deu as costas a Shaina e disse secamente:

- Eu gostaria de reiniciar meu treino. Sozinho.

Ainda sob o efeito da reação de Marin, Shaina não conseguiu soar tão imponente como de costume ao dizer:

- Está bem, eu vou embora.

A amazona se foi, e Camus suspirou aliviado.

- = - = - = - = - = - = -

Após o almoço, Camus subiu ao templo de Shion.

O Mestre do Santuário recebeu o jovem gentilmente. Alegrou-se ao saber que os médicos consideraram Camus totalmente recuperado de seus recentes problemas de saúde.

- Agora que você está bem, eu acho que terei que incomodá-lo um pouco - Shion disse um tanto sem jeito.

- O senhor precisa de algo? - Camus indagou solícito.

- Sim - Shion confirmou. - Você deve se lembrar de que o dia de seu casamento está próximo.

- Oh... é verdade - Camus concordou, baixando os olhos.

Pela primeira vez desde que soubera que teria de se casar com Shaina, o cavaleiro de Aquário sentiu-se tentado a perguntar a Shion se haveria algum modo de se evitar aquela união.

Apesar do péssimo tratamento que a amazona de Ofiúco vinha lhe dispensando, Camus não sentia raiva dela. Acreditava firmemente que o comportamento rude da guerreira era fruto de sua aflição por ver-se obrigada a se casar contra a vontade. Todavia, a atitude de Shaina diante de Marin e Asterion causara-lhe a pior das impressões.

Para Camus, estava muito claro que sua noiva agira movida por um intenso despeito. Antes da chegada dos outros dois guerreiros de prata, ela afirmara ser amiga deles e dissera que iria expressar sua solidariedade assim que os encontrasse. Ao descobrir que tanto o cavaleiro de Cães de Caça quanto a amazona de Águia estavam felizes por seu futuro casamento, ela os atacara com palavras venenosas. "Ela não suportou vê-los tão alegres e unidos. Desprezou-os apenas porque eles não se sentiam revoltados como ela", Camus deduziu.

Agora ele tinha dúvidas sobre o caráter da mulher a quem teria de se unir legalmente dentro de poucos dias.

- Filho, você parece um pouco preocupado - Shion observou.

"Este seria um bom momento para perguntar ao Mestre se existe alguma chande de se evitar esse casamento. Mas não posso fazer isso", Camus pensou. "Não quero que ninguém pense que pretendo me rebelar contra a vontade de Athena."

- Eu estou bem, Mestre - ele conseguiu dizer, esperando soar convincente.

Shion mirou-o em silêncio por alguns segundos e disse:

- Que bom. Então eu já posso contar com sua ajuda para os preparativos do casamento, certo?

- Certo.

- Ótimo. Como Shaina terá que se mudar para a casa de Aquário, já está na hora de ela conhecer seu futuro lar. Quero marcar uma espécie de visita guiada; você mostrará a ela todos os cômodos de seu templo, e eu acompanharei vocês dois. Gostaria que fizéssemos isso amanhã, começando às 8h. Está bom assim?

- Sim, Mestre.

- Você também precisa separar um quarto para ela.

- Não será melhor deixar que ela mesma escolha um dos quartos vagos amanhã? - Camus propôs.

- Sim, filho, é uma excelente ideia - Shion concordou. - Depois de amanhã, se não houver imprevistos, eu providenciarei para que os pertences de Shaina comecem a ser levados para a casa de Aquário. Por isso, seria bom que amanhã vocês dois decidissem como e onde ela poderá guardar seus objetos.

O rapaz assentiu.

Shion assegurou:

- Não se preocupe: vocês dois não precisarão ficar a sós. Eu mesmo me encarregarei de coordenar a reorganização e adaptação de sua casa para que você possa receber Shaina. Nenhum dos dois terá que se aborrecer com compras, mudanças e todas essas trivialidades. - Um tanto constrangido, acrescentou: - Vocês só precisarão ficar a sós depois do casamento.

Camus interpretou mal as últimas palavras de Shion e encarou-o com espanto. O Mestre apressou-se em esclarecer:

- A sós, mas em quartos separados, é claro.

A expressão do cavaleiro de Aquário se suavizou.

"Agora preciso tocar num problema mais delicado", Shion pensou hesitante. "Não sei como resolvê-lo. Shaina já me disse que não aceitaria fazer isso sob hipótese alguma. Se Camus também se recusar, provavelmente eu mesmo terei que tomar uma decisão e obrigar um deles a ceder. Mas isso é algo tão pessoal... Eu odiaria ter que impor esse tipo de mudança a qualquer um dos dois", ele lamentou.

Inspirou profundamente e disse:

- Camus, há uma questão muito importante que continua pendente até agora. Vou lhe fazer uma pergunta; se você não puder me dar uma resposta imediata, eu permitirei que você reflita um pouco sobre o assunto, contanto que prometa me dar sua resposta definitiva em no máximo dois dias. Está bem?

- Sim - Camus aquiesceu, olhando para Shion em expectativa.

- É sobre... a troca de sobrenome - Shion começou cauteloso. - Não sei se você está ciente disso, mas nosso Código Civil determina que, durante o casamento, um dos cônjuges precisa obrigatoriamente adotar o sobrenome do outro. Compreendo que não é fácil abdicar de seu próprio nome, mas... você estaria disposto a fazê-lo?

Para o imenso alívio do ex-cavaleiro, Camus respondeu prontamente:

- Sim, Mestre. Eu adotarei o sobrenome dela.

- Que bom, meu filho! - Shion exclamou contente.

Pensou em felicitar Camus com um abraço. Porém, conhecendo as dificuldades que o jovem tinha para lidar com demonstrações de emoção, ele se refreou. Optou por expressar-se com palavras:

- Camus, por favor, acredite em mim quando eu digo que lamento tudo isso. E saiba que eu me sinto orgulhoso por haver entre nós uma pessoa tão desprendida como você. Tenho certeza de que, graças ao seu altruísmo e à sua resignação, cedo ou tarde você será fartamente recompensado pelos deuses.

O jovem cavaleiro teria preferido que Shion não lhe tivesse dito aquilo. Baixou a cabeça, sentindo uma leve perturbação. Resistia em confessar isto a si mesmo, mas a realidade era que as palavras de Shion o deixaram vagamente melancólico por algum motivo. Talvez elas simplesmente tivessem trazido à tona uma melancolia que jazia oculta dentro dele.

Numa voz contida e baixa, Camus explicou:

- Eu o agradeço, Mestre, mas não espero recompensas por nada do que eu faço.

- Melhor ainda, filho - Shion insistiu. - Os deuses se alegram com isso, eu tenho certeza.

Sem querer argumentar, Camus se levantou e pediu a permissão do mais velho para se retirar e voltar aos treinos. Shion despediu-se dele, reiterando que iria visitá-lo no dia seguinte, em companhia de Shaina.

Depois que o cavaleiro de Aquário partiu, Shion entrou numa sala que lhe fazia as vezes de escritório. Retirou sua máscara e caminhou até o bebedouro, enchendo um copo com água. Aproximou-se de uma janela e bebericou o líquido aos poucos, enquanto sentia os raios de sol incidindo sobre sua pele delicada.

Estava muito satisfeito com as atitudes de Camus.

Era certo que o rapaz havia lhe mentido ao negar que Shaina fora a responsável pela abrupta piora em seu estado de saúde, dias antes. Não havia testemunhas que pudessem contradizer o cavaleiro; logo, Shion não tivera como obter provas de nada. Contara apenas com deduções lógicas e com a intuição, além da inabilidade de Camus para contar mentiras. Mas apesar disso, Shion não estava decepcionado. Sentia que a intenção do cavaleiro fora boa, e isto bastava.

Estava mais tranquilo agora que Camus havia aceitado abdicar de seu sobrenome sem oferecer resistência. "O que teria acontecido se eu tivesse sido obrigado a usar minha autoridade para resolver essa questão?", Shion se perguntou.

A resposta lhe veio facilmente: Camus teria sido sacrificado. "Nessa história toda, Camus é o único inocente; não tem culpa da animosidade entre Athena e Shaina. Mas Shaina é quem mais sofre com esse casamento imposto. Eu não teria coragem de também impor a ela uma troca de sobrenome. Eu teria que contar com a capacidade de Camus de aceitar contrariedades com resignação."

Naturalmente, Athena poderia intervir a qualquer instante, ordenando que Shaina adotasse o nome de Camus. Contudo, a deusa estava viajando a negócios e, antes de partir, confiara a Shion toda a responsabilidade sobre a realização do matrimônio do cavaleiro e da amazona. Logo, ele tinha o controle da situação.

Shion recebera com grande satisfação a notícia de que sua jovem deusa somente retornaria ao Santuário dias após a cerimônia de casamento de seus guerreiros. Embora ela não lhe tivesse dito nada abertamente, ele compreendera o real objetivo dela: com sua oportuna ausência, ela certamente pretendia evitar que o evento se tornasse ainda mais tenso e constrangedor do que já seria.

"Ela vai aprender... já está aprendendo, eu posso senti-lo", Shion pensou, com um misto de otimismo e orgulho paternal. "É preciso ter muita paciência com Athena, porque a imaturidade e a péssima educação que ela recebeu ainda têm uma forte influência sobre seus atos. Não desistirei de reeducá-la. Sei que ela se tornará uma pessoa cada vez melhor e mais justa."

O ex-cavaleiro esperava que Shaina e Camus pudessem se beneficiar dos progressos que Athena fizesse. Para ele, era só uma questão de tempo até que a deusa se arrependesse da nova norma que criara e os libertasse da obrigação de permanecer juntos. Mas ele gostaria de saber quanto tempo exatamente seria necessário para que isto ocorresse.

- = - = - = - = - = - = -

Enquanto caminhava rumo à mesma quadra na qual havia treinado antes do almoço, Camus passou diante de um campo onde pôde ver Marin e Asterion treinando juntos. Acelerou seus passos, a fim de evitar que os dois o vissem. Ainda se sentia constrangido pelo que ocorrera durante a manhã.

Ele se sabia inocente; não fora ele quem desrespeitara o casal. Porém, o fato de ter presenciado toda a situação fazia com que ele se sentisse desconfortável ante a perspectiva de ter de falar aos cavaleiros de prata novamente.

Após reentrar na quadra, Camus encostou o portão, tentando deixar claro que queria ficar só. Ele sabia que não poderia impedir a entrada de terceiros, uma vez que as áreas de treinamento eram de uso público. Mas um portão encostado era bem menos convidativo; era como um pedido silencioso para que as pessoas ficassem longe dele. "Acredito que Shaina infelizmente ignoraria esse detalhe. Espero que ela não volte aqui. Não quero passar de novo por outra situação como aquela", Camus pensou severo.

Algumas horas haviam se passado desde que o compromisso entre Asterion e Marin deixara de ser uma inesperada novidade. Camus já conseguia dizer a si mesmo que não deveria ter ficado tão surpreso ao receber a notícia. Afinal, ele sabia o que o cavaleiro de Cães de Caça pensava sobre o casamento. Descobrira suas opiniões durante a única sessão de treino em conjunto que os dois fizeram, no ano anterior.

- = - = - = - = - = - = -

- Você aceitou um convite para treinar com alguém? Não acredito! - surpreendeu-se Milo, que fora à Casa de Aquário para devolver um livro a Camus. - Quem foi o herói ou heroína que conseguiu essa façanha?

- Não exagere - Camus respondeu enfadado, enquanto colocava o livro devolvido numa estante. - A pessoa com quem vou treinar é Asterion de Cães de Caça.

- Hahahaha, só podia ser! Ninguém jamais recusa os convites do Asterion. Até os eremitas como o Shaka e você aceitam treinar com ele - Milo observou jocoso.

Camus não perguntou o porquê de ninguém recusar os convites de Asterion, pois era mais do que óbvio: quem não gostaria de testar suas habilidades enfrentando o único servo de Athena que sabia ler pensamentos? Uma experiência como esta seria enriquecedora para qualquer cavaleiro.

No dia seguinte, Camus e Asterion chegaram pontualmente ao campo de treinamento que o segundo havia indicado em seu convite.

O cavaleiro de Aquário teve uma leve decepção ao descobrir que Asterion não pretendia fazer uso de seu poder especial durante toda a sessão, mas apenas durante parte dela. A intenção original de Camus era pôr-se à prova por várias horas e verificar sua real capacidade de fazer frente a alguém que podia adivinhar-lhe os movimentos. No entanto, concluiu que seria egoísta de sua parte esperar que tudo ocorresse segundo suas expectativas. Afinal, Asterion certamente também desejava pôr-se à prova ao enfrentar um cavaleiro de ouro sem tentar ler sua mente, e não seria justo negar-lhe esta oportunidade.

Após uma hora e meia de exercícios, os dois jovens fizeram uma pausa para descanso. Sentaram-se num banco de cimento e começaram a conversar sobre assuntos gerais do Santuário.

Como Asterion pareceu-lhe uma pessoa bastante flexível e receptiva, Camus decidiu perguntar-lhe o que ele sabia da Proposta 230012, com a esperança de obter mais algum apoio para a causa que defendia.

- Respeito quem apoia essa proposta, mas eu sou contra - Asterion respondeu educado, porém sem rodeios.

Camus surpreendeu-se um pouco. Supondo que o cavaleiro de prata estivesse desinformado, ele insistiu:

- Mas você sabe qual é o teor da proposta?

- Sei sim - Asterion confirmou. - Ela tem duas versões. Na primeira, que eu sei que é a preferida pelos que apoiam esse movimento, todo tipo de relacionamento amoroso se torna proibido. Na segunda, só os casamentos são extintos. Eu acho ambas muito ruins - ele disse, e em sua voz havia uma amistosa convicção.

- Por que você as acha ruins? - Camus inquiriu cauteloso, receando tornar-se inconveniente por sua insistência naquele assunto. - Ambas as versões nos incentivam a voltar nossas atenções exclusivamente para nossa deusa. Isto não é bom?

- É claro que é bom, mas se ela mesma não nos proíbe de casar, é porque isso não deve ser ruim para um cavaleiro - Asterion argumentou. Sua expressão se tornou mais tensa e sua voz adquiriu uma suave nuance crítica enquanto ele dizia: - Vocês que defendem essa proposta deveriam ter um pouco mais de consideração para com os colegas. Se Athena aprovar essa ideia de vocês, muitos serão prejudicados. Eu serei um deles. Nunca conheci meus pais biológicos. Passei uma boa parte da minha infância num orfanato e ninguém me adotou. Quando surgiu uma pessoa interessada, foi um cavaleiro que só queria um discípulo, não um filho. O casamento seria a minha última chance de conseguir ter uma família. Eu não quero que tirem isso de mim.

Camus desviou o olhar de Asterion e redarguiu austero:

- Devemos colocar os interesses do Santuário acima de toda e qualquer aspiração particular.

- Está bem, Camus - Asterion respondeu com um suspiro. - Você tem a sua opinião; eu tenho a minha.

Camus pensou em explicar que o que ele dissera não fora uma mera opinião; tratava-se de um fato. Entretanto, percebendo que o cavaleiro de prata não desejava iniciar uma discussão, e sendo ele mesmo avesso a atritos, preferiu apenas sugerir que eles retomassem os treinos.

- = - = - = - = - = - = -

Nas poucas vezes em que Camus reencontrara Asterion depois daquele dia, os dois trocaram apenas breves palavras. Asterion sempre se mostrava amigável. Isto levava Camus a crer que ele não guardava qualquer espécie de ressentimento, muito embora tivesse acusado os defensores da Proposta 230012 de terem pouca consideração para com os colegas.

"Agora ele conseguiu o que tanto desejava. Terá sua família", Camus pensou. "E eu, que nunca achei que um cavaleiro devesse alimentar este tipo de esperança, também terei uma família. Eu, que continuo acreditando na importância da Proposta 230012, farei exatamente aquilo que a proposta visa eliminar do Santuário."

Percebeu que começava a sentir pena de si mesmo. Repreendeu-se imediatamente. A autocomiseração não era um sentimento apropriado a um cavaleiro. Ele precisava manter-se frio como sempre.

"O que eu devo fazer é solicitar a retirada de minha assinatura da proposta, porque eu não mudei minha forma de pensar, mas terei que mudar meu estado civil. Minha assinatura não pode constar simultaneamente de dois documentos que se contradizem", o jovem concluiu, tendo em mente sua futura certidão de casamento.

- = - = - = - = - = - = -

Shaina encontrou o campo de treinamento em que Asterion e Marin treinavam. Um tanto embaraçada, mas sem titubear, ela se aproximou do casal.

Marin e Asterion interromperam seus exercícios ao perceberem a aproximação de Shaina. O cavaleiro então caminhou ao encontro à recém-chegada. Sua noiva permaneceu onde estava; não fez menção de acompanhá-lo.

- Oi, Shaina.

A voz e o semblante afáveis de Asterion só fizeram aumentar o embaraço da guerreira de Ofiúco. Queria libertar-se desta sensação desagradável o quanto antes, e só havia um meio de fazê-lo: revelar de imediato o motivo que a levara até ali. Assim, Shaina disse contrita:

- Oi, Asterion. Vim aqui para me desculpar pelo que eu disse hoje de manhã. Eu fui muito estúpida com você e com a Marin.

- Está tudo bem, Shaina. Não vamos mais pensar nisso - disse Asterion, tranquilo.

A facilidade com que foi desculpada pelo cavaleiro intensificou o constrangimento e o remorso que Shaina sentia. Ela sentiu necessidade de ressaltar:

- Eu estou sinceramente arrependida do que fiz. Se você quiser comprovar isso, pode ler meus pensamentos agora mesmo.

- Eu leio pensamentos quando preciso enfrentar inimigos, e você não é minha inimiga - Asterion retorquiu sorrindo. - Não preciso comprovar nada. Sei que você não teria vindo aqui para dizer mentiras.

Shaina sentiu-se mais leve ao ver que Asterion acreditava nela e a tinha perdoado. Olhou por sobre os ombros dele. Marin estava parada, de pé, a alguns metros de distância.

- Agora vou falar com Marin - ela anunciou.

- Quer que eu vá junto ou prefere que eu espere aqui?

- Fique aqui - Shaina decidiu, enquanto se encaminhava ao local onde a outra amazona se encontrava.

Logo as duas guerreiras acenaram para Asterion, permitindo que ele se juntasse a elas. O diálogo entre elas também fora breve e Shaina também obtivera o perdão de Marin sem qualquer dificuldade.

O casal convidou Shaina a permanecer ali, para que os três realizassem uma sessão de treino em conjunto. A guerreira de Ofiúco declinou o convite e se despediu em seguida. Sentia-se muito melhor agora que havia consertado seu erro. Ao mesmo tempo, achava a felicidade de seus amigos perturbadora, e por isso preferia evitar a companhia deles por enquanto.

- = - = - = - = - = - = -

Mais tarde, Shaina foi avisada de que Shion desejava vê-la novamente. O Mestre do Santuário informou-a sobre a visita guiada à Casa de Aquário que deveria ocorrer no dia seguinte.

- Precisa ser amanhã mesmo? - Shaina indagou, descontente com a notícia.

- Sim, filha. Falta pouco para o casamento. Os preparativos serão simples, mas nem por isso devem ser deixados para a última hora. Estamos até um pouco atrasados - Shion observou. Não quis porém comentar que adiara intencionalmente os preparativos para depois da partida de Athena. Julgara que seria melhor começar a cuidar de tudo quando a deusa já estivesse longe do Santuário e, portanto, não pudesse mais intervir nas decisões tomadas.

Shaina apenas deu um resmungo desconexo. O ex-cavaleiro prosseguiu:

- Você poderá escolher o quarto que mais a agradar amanhã. E depois de amanhã os seus pertences começarão a ser levados para a Casa de Aquário. Você naturalmente poderá reter os objetos essenciais em sua atual casa até o dia do casamento. Depois eles também serão levados para a sua nova casa.

Shaina resmungou outra vez.

Procurando animá-la, Shion revelou:

- Ah, lembra-se daquela questão da troca de sobrenome? Não precisa mais se preocupar com isso, porque Camus aceitou fazer a troca.

- Ainda bem - Shaina respondeu secamente. Em seu íntimo, sentiu-se grata a Shion por aquela informação. Agora ela teria um desgosto a menos.

- = - = - = - = - = - = -

Na manhã seguinte, Shaina subiu as escadarias das Casas Zodiacais até parar diante da entrada do décimo primeiro templo. Cruzou os braços e ficou de pé ali, à espera de Shion, quem prometera encontrar-se com ela naquele local.

A amazona era impaciente por natureza, e esta característica se acentuava quando ela se sentia pressionada ou desfavorecida de algum modo. Por isso, incomodou-se ao perceber a demora do Mestre. "Ele já está seis minutos atrasado. Que droga!"

Passados mais quatro minutos, Shaina decidiu não mais esperar e entrou sozinha na Casa de Aquário. Na véspera, Shion lhe pedira reiteradas vezes que ela o esperasse e que não adentrasse o templo sem ele. Para a jovem, ficara muito claro que o Mestre queria estar presente durante a visita para evitar possíveis atritos entre ela e o noivo.

"Como ele se atrasou, não posso fazer nada. Odeio ficar parada esperando pelas pessoas. O Mestre que me perdoe, mas nem para ele eu consigo abrir uma exceção. Espero que ele entenda que ficar aqui dentro discutindo com o bestinha é bem melhor do que ficar parada lá fora inutilmente", Shaina pensou, enquanto caminhava pelo hall de sua futura residência.

Olhando ao seu redor, Shaina pela primeira vez sentiu alguma curiosidade pelo que haveria no interior daquela casa. Durante anos ela a atravessara sem prestar qualquer atenção ao que havia no local. No próprio dia anterior ela passara por ali mais de uma vez, porque tivera de subir até o templo de Shion.

Havia Casas Zodiacais que ela conhecia bem porque mantinha um bom relacionamento com os respectivos guardiões. O habitante da Casa de Aquário porém sempre pertencera a outro grupo: o dos cavaleiros com quem ela pouco falava e pouco se importava. Agora ao menos ela começava a se interessar pelo templo que ele guardava, embora isto se devesse unicamente ao fato de que era ali que ela teria de morar por um período indeterminado.

Depois de passar pelo hall, a amazona chegou ao primeiro de uma série de cinco salões consecutivos. Juntos, eles formavam uma espécie de amplo corredor por onde circulavam os transeuntes que precisavam atravessar a Casa. Baseando-se nas características das outras Casas Zodiacais, Shaina deduziu que a área verdadeiramente habitável do templo consistia nos recintos ocultos pelas portas cerradas que se via à esquerda e à direita de cada salão, além de todo o andar superior.

Sem saber muito bem para onde ir, Shaina optou por tentar encontrar Camus. Guiando-se pela vibração do cosmo do cavaleiro, ela atravessou mais dois salões e por fim localizou o recinto onde o rapaz se encontrava. Como a porta estava aberta, ela entrou sem cerimônias e viu Camus sentado num sofá. Ia dizer algo a ele, porém deteve-se, intrigada.

A postura de Camus era correta, exceto pelo fato de ele estar cabisbaixo. Os olhos fitavam um ponto indefinido; poderia ser o chão, ou a túnica que ele trajava. Suas mãos unidas repousavam sobre seu colo. O cenho levemente franzido e os lábios contraídos davam-lhe um ar de vaga contrariedade. Ou talvez de mágoa. Ou resignação. Uma resignação magoada, talvez? Shaina simplificou a questão pensando no adjetivo "triste".

Também chamou-lhe a atenção o fato de Camus estar visivelmente alheio ao que se passava ao redor dele. Ela estava a poucos passos de distância, não dissimulara seu cosmo de nenhuma forma e a sola de seus sapatos produzia algum ruído. A despeito de tudo isso, ela notou que Camus naquele momento prestava atenção apenas ao que quer que se passasse em sua mente.

Curiosa, Shaina acercou-se mais dele e perguntou:

- O que é que você tem?


Capítulo concluído em 03 de junho de 2009.

NOTAS: Desta vez o suspense durou muito pouco, pois logo vocês descobriram qual era o "casal misterioso" citado no capítulo anterior. E a única pessoa que acertou os nomes dos personagens foi minha irmã, Érika. Considerando-se que moramos na mesma casa e passamos horas conversando sobre fanfics e personagens de Saint Seiya, não é de se admirar que ela tenha adivinhado tudo na primeira tentativa.

A ideia de mostrar um segundo casal nesta história surgiu quando a história já estava em andamento. Compreendi que isto seria útil ao enredo, e por isso fui em frente. O casal em si não é algo novo para mim. Já faz vários anos que eu planejo unir a Marin e o Asterion em algumas de minhas fanfics. O problema é que eu nunca conseguia realizar a estreia oficial deles como um par romântico. Isto acabou acontecendo nesta fic, contrariando meus antigos planos.

Aos leitores que anseiam pelo casamento da Shaina e do Camus, ofereço um pequeno alento: estamos muito, muito perto do "grande dia". Eu mesma estou ansiosa para escrever essa parte, porque ela inaugurará uma nova fase na história.

Como sempre, agradeço todos os meus leitores pelo tempo que dedicam a esta história. Repito os agradecimentos especiais dedicados à Bris (Brighit Sparda), pelas ótimas mensagens que trocamos e por ela ser uma leitora que realmente presta atenção ao que lê. Acrescento um agradecimento especial à Érika, pelos inesperados elogios que ela fez a esta fic recentemente.

Até breve!