Capítulo 7 - Mentirosa
Acontecera novamente no dia seguinte, quando Hermione estivera estudando na biblioteca, o cartão de aniversário em sua mochila, colocando seus livros usados de volta nas prateleiras.
Ela olhou em volta para ver Malfoy sentado em uma das longas mesas de madeira de carvalho. Observou-o por alguns instantes. Ele olhou para ela por baixo dos cílios prateados, mas seu rosto continuou vazio.
Hermione ainda não entendia por que ele estivera tão ansioso em encontrá-la por uma segunda vez. Não era como se suas atitudes um contra o outro mudaram durante as aulas. Ele ainda riria dela; ela ainda tentaria ignorá-lo.
Mas lá estava ele de novo, sentado ao lado de uma grande pilha de Bruxa Semanal, olhando para o espaço.
Hermione afastou-se das estantes.
- Aqui de novo?
Malfoy olhou para ela, um pequeno sorriso infame nos lábios.
- Eu não preciso estar.
Hermione o encarou. Não era como se estivesse pedindo que ele fosse até o Corujal com ela. Mas apenas suspirou, não querendo começar outra briga.
- Eu não quis dizer isso, estou só surpresa, apenas.
Mas era uma mentira. Sempre soube, seriamente, lá no fundo, que ele estaria lá. Hermione não sabia se estava feliz ou abalada com esse pedaçinho de conhecimento, mas ele estava lá, de qualquer jeito.
Aliás, Hermione tivera que praticamente enxotar Rony e Harry pra longe dela para poder descer para a biblioteca sozinha. Era o mínimo que podia fazer, realmente.
- Por que não usa a Hedwiges dessa vez, Hermione? - Harry perguntara esperançoso, o brilho de ansiosidade inocente transparecendo em sua voz e em seus olhos verdes.
- Ah, eu não poderia - Hermione exclamara - Ela acabou de chegar de um vôo tão longo, sério, está tudo bem - sério. Eu não me importo de ir até lá sozinha.
Nem ao menos ousou olhar para Rony...
- O que você está olhando? - Draco perguntou.
Os olhos de Hermione arregalaram-se e focaram-se mais precisamente em Malfoy. Fora tragada para suas lembranças em instantes.
- O que? Ah. Descupa.
Malfoy olhou para ela de modo engraçado, afastando sua cadeira e ficando de pé. Levantou uma sobrancelha, como se estivesse dizendo 'depois de você'. Hermione balançou a cabeça e passou por ele; ele a seguiu alguns segundos depois.
A noite passou muito parecida com a anterior, Hermione tentando chamar as corujas para levar o cartão, Draco tendo que fazê-lo para ela. Ao final, ele fora embora novamente, logo após a coruja de igreja estar fora de visão.
Hermione observou-o ir, mordendo o lábio, pensando.
Eram quase onze da noite e ela ainda estava acordada.
Sentada na frente do fogo, Bichento em seu colo, os garotos adormecidos nas poltronas, Hermione percebeu que não havia nada para mandar na próxima noite.
Não haviam razões para ir ao Corujal.
Em um gesto frenético, Hermione tentou criar alguma desculpa. Talvez esquecera algo que precisava enviar? Mas desistiu antes de colocar a pena contra o pergaminho.
Deitada sozinha em sua cama naquela noite, enrolada em suas cobertas vermelhas, Hermione ficou pensando sobre sua estranha relação com Malfoy. Depois de anos de maus tratos dele contra ela, Harry, Rony e basicamente todos em Hogwarts, ela podia realmente chamar o constrangedor ritual até o Corujal de uma 'amizade' de dois dias.
Não aquilo. Não agora. Não tão rАpido. Ainda não, de qualquer jeito...
- Cale a boca, Malfoy - Rony disse do outro lado da mesa de Poções, reagindo à conversa privada, porém muito audível, do sonserino. O loiro deu um sorriso maldoso.
- Ora, ora, Weasel, é verdade o que eles dizem sobre o seu pai, não é?
- Apenas nos deixe em paz e volte para os seus amigos acéfalos, entendeu?
Hermione espremeu-se em seu lugar, tentando focar-se na página à sua frente. Era terrivelmente constrangedor ter Rony inclinado sobre seu trabalho para 'incomodar' Malfoy.
- Cuidado com o que diz, Weasel - Draco disse ríspido com sua voz tão fria quanto o gelo, os olhos apertados.
Rony afastou-se rapidamente. Hermione observou, com o canto do olho, enquanto ele jogava a pena contra o pergaminho e olhava irritado para o mesmo.
Hermione queria virar, colocar uma mão em seu braço e dizê-lo para ignorar o idiota. Mas não conseguiu fazê-lo. Não sabia porquê.
Em vez disso, arriscou um olhar para Malfoy.
Ele ainda estava rindo, mas quando os olhos dela caíram sobre ele, o sorriso quebrou. Pedaço por pedaço o brilho malicioso em seu olhar passou de uma chama terrível para um monte de fumaça dentro de um cristal azul.
Os olhos dele encontraram o dela. Não do jeito como costumava olhar, o jeito que fazia Hermione querer rastejar para debaixo da mesa ou o jeito que a fazia querer amaldiçoá-lo. Era um olhar intenso, o que deixou Hermione muito mais feliz quando a classe foi dispensada, alguns minutos depois.
Rony, Harry e Hermione pararam próximos as portas duplas no Hall de Entrada. Ambos os garotos segurando suas vassouras por cima dos ombros, olhando ansiosos para Hermione.
- Você deveria vir, Hermione - Harry disse gentilmente - Seria bom você deixar os livros por um tempo, não é, Rony? - o outro concordou.
Hermione apertou a bandagem azul em sua mochila displicentemente, ignorando a idéia. Rony observou a mão dela com uma expressão vazia. Hermione balançou a cabeça.
- Ah, não posso. Temos o trabalho, certo? História da Magia - a voz dela parecia muito ansiosa. Ela tossiu e falou mais baixo - Além do mais, vocês já deveriam estar lá, praticando; não querem perder amanhã.
Silêncio.
Rony concordou eventualmente, vagarosamente.
- É. É, venha, Harry.
Ele virou e saiu para a tarde quente de outono, sem olhar para trás. Hermione olhou curiosa para ele.
- O que ele tem?
Harry deu de ombros.
- Eu vejo você mais tarde, Hermione.
Ele virou e seguiu Rony, olhando para trás com um sorriso e abanou. Hermione deu um pequeno sorriso e imitou o gestou.
Hermione inclinou-se contra a coluna de pedra do Hall, descansando por alguns segundos depois que os dois garotos haviam ido. Arrumou suas vestes e bateu a ponta do sapato contra o chão.
Correndo uma mão trêmula atráves do cabelo, tentou acalmar a estranha sensação no fundo de seu estômago. A sensação vibrante. A... A...
Assustada, Hermione sentiu um puxão em seu ombro. Virando-se, viu Malfoy, seu dedo enroscado na bandagem azul de sua mochila, apertando-a gentilmente. Seus olhos claros sobre ela, fios loiros caíndo sobre seu rosto.
- Mentirosa - ele disse, mordaz, contudo, havia um quê de admiração em sua voz.
- O que? - Hermione perguntou, olhando em volta para ver se havia alguém os observando.
- Você terminou esse trabalho ontem, Granger. Você mentiu.
Hermione corou. Ele havia visto o pergaminho na biblioteca no dia anterior.
- Bem, eu - ela começou, incerta do que diria. Malfoy sorriu.
- Corujal?
- Ah... certo. Hm. Malfoy. Eu não tenho nada para mandar. Eu... desculpa.
Malfoy arqueou uma sobrancelha.
- É? E se eu tivesse?
- Você tem uma coruja, não tem?
Os olhos de Hermione brilharam com o pequeno sorriso, mais para ela mesma, quando começaram a andar na direção oposta do Salão Principal; Draco ao lado dela.
Ele não respondera sua pergunta. Hermione não esperara que ele o fizesse, de qualquer jeito.
Quase na escadaria em espiral para a torre e alguém chamou o nome de Draco. Ele virou-se e empurrou Hermione, gentilmente, para a direita, a escudando atrás de uma grande estátua de pedra.
- O que foi? - ele perguntou, quase desafiadoramente.
Hermione pode ouvir o tom quase selvagem em sua voz, tão perto de onde ela estava.
- Treino, hm?
- O time de Potter e Weasel está lá.
- Não por muito tempo - disse uma outra voz, impaciente e com um quê de nojo.
Malfoy bufou.
- O que, Draco, você não vem para o treino? Temos uma grande partida amanhã, hm? Queremos colocar aqueles Grifinórios no lugar que merecem.
- Os dizer para cair fora do campo não vai 'colocá-los no lugar que merecem' - Draco riu do grupo de, bem, Hermione podia ouvir pelo menos três vozes, mas era mais provável que o time inteiro estivesse o confrontando.
Alguém bufou alto.
- Está bem, então, Malfoy. Só não nos culpe ou faça um escândalo se perdermos. Não é nossa culpa se alguém vem matando os treinos nos últimos dias.
- Um dia.
- Dois, agora. Vamos, garotos.
Malfoy observou eles irem embora com as mãos na cintura, grunhindo.
Depois de alguns instantes, Hermione esticou a mão e tocou o ombro dele. Malfoy virou sua cabeça rapidamente para ela.
- Você está bem, Draco? - Hermione o encarou.
- Bem - ele disse simplesmente, subindo as escadas.
- Mas você não deveria ir praticar? - Hermione perguntou, o seguindo.
- Você também, Granger? - havia um quê de risada controlada em sua voz. Hermione apenas balançou a cabeça e seguiu.
Deixou sua mochila escorregar para o chão uma vez que alcaçaram o lado de fora da torre. Caindo no chão, sentiu a brisa quente, úmida e saturada de poeira, passar por ela. Draco sentou oposto a ela, dobrando as pernas debaixo de si, escorando a cabeça contra a pedra.
Sentaram em silêncio por alguns instantes.
- Você não relaxa muito, não é?
Malfoy olhou para Hermione.
- Por que diz isso? - ele perguntou, desconfiado.
Hermione deu de ombros.
- É que, entre quadribol, escola e fazer o mal, não parece que você tem tempo para... - ela gesticulou para ele - fazer isso sempre.
Malfoy sorriu e deu de ombros simplesmente, aceitando o fato de que o argumento dela estava correto.
- Por que você acha que devo ir treinar, Granger?
Hermione piscou para ele, as sobrancelhas arqueadas.
- Acha que seus namorados vão me bater até sangrar? Acha que preciso ficar mais forte antes que eles venham até mim?
- Só porque você está amargo por ter sido xingado pelos seus colegas, não significa que pode descontar em mim. Nós não estamos aqui para brigar, estamos aqui para conversar. Já que você não faz isso muito com seus 'amigos'. E, para a sua informação, nem Harry ou Rony são meus namorados.
Malfoy simplesmente deu de ombros, encostando a cabeça contra a pedra.
- Você sabe o que eu amo sobre quadribol? - Hermione começou.
Malfoy riu.
- Obviamente não a parte de voar, você mal consegue ficar numa vassoura.
Ela o ignorou.
- O fato que, quando você está assistindo, nas arquibancadas, sabe? Tudo pode acontecer, a qualquer momento. Um minuto você pode estar olhando a partida em paz e então, de repente, vindo do nada, um artilheiro pode quase arrancar sua cabeça. É tão excitante e imprevisível.
Draco a encarou.
- Essa foi a coisa mais ridícula que eu já ouvi - Hermione corou, mas sorriu - E desde quando você gosta do 'imprevisível'?
Hermione deu de ombros.
- Malfoy, nós nos conhecemos há quantos anos? E quantos deles você usou para me incomodar? Não é como se você soubesse muito sobre mim.
- Você não é imprevisМvel.
- Ah, é? - Hermione inclinou-se para frente, um sorriso em seus lábios, o espelho perfeito do sorriso infame de Malfoy.
Malfoy olhou-a e tentou controlar um sorriso. Deixando a cabeça cair, ele começou a rir. O sorriso de Hermione aumentou. Era tão incrível, aquela risada, como se crescesse de dentro de seu peito e saísse para a noite apenas por sua pequena piada. Nunca o ouvira rir daquele jeito.
- Tudo bem! Tudo bem, Granger! Você pode ser imprevisível se quiser - ele balançou a cabeça, maravilhado com ela.
A conversa passou entre assuntos gerais desde então. Falaram sobre quase tudo que podiam pensar, aquela risada sendo a catapulta que precisavam para tornarem-se um pouco confortáveis um com o outro.
Hermione não conseguia lembrar da última vez que conversava tanto tempo com alguém sem que houvessem interferências do tipo 'você pode fazer minha lição?' ou 'ei, Hermione, olhe o que eu consigo fazer com o Bichento'.
Sabia que Malfoy sentia-se da mesma forma, ao encontrar alguém que conseguia manter uma conversa bastante inteligente.
Havia ficado escuro, Malfoy conjurou uma lanterna para iluminar o chão de pedra. Hermione amarrou a capa em seu pescoço, o frio da noite sobre ela.
- Eu devo ir - Draco disse finalmente, depois de uma longa pausa.
- Hmm? - Hermione abriu os olhos para olhá-lo.
Malfoy correu os dedos entre os cabelos e sorriu.
- Grande partida amanhã.
- Certo.
- Você vai?
- Claro. Eu não perderia ver a Sonserina apanhar de jeito da Grifinória.
- Acha mesmo que vão ganhar? - ele levantou, espanando a sujeira de suas roupas e apagando a lanterna. Seus olhos focaram-se pesadamente nela.
- Sem dúvida.
Malfoy sorriu e começou a descer as escadas.
- Boa sorte.
Malfoy virou-se, no meio do terceiro degrau.
- O que?
Hermione andou até o primeiro degrau da escada de pedra.
- Eu não o verei, obviamente, então... boa sorte.
Draco balançou a cabeça.
- Obrigado, Granger.
E ele desapareceu na escuridão lá embaixo.
