Ritsu ficou parada em seu lugar, seu coração acelerado mas o mundo à sua volta parecia girar em câmera lenta. O que, exatamente, acabara de acontecer? Sua amiga fez o inesperado. 'Assumiu um relacionamento' com ela bem no dia em que ela confessaria seus sentimentos. Mio, a garota tímida e medrosa que não podia falar em público sem ter um surto de tremedeira, desafiando sua própria lógica, tomou uma atitude surpreendente. O que realmente a impulsionou a agir assim? Ritsu queria saber: era apenas para afastar o Toya ou havia algum motivo especial? Saindo de seu devaneio, a garota de cabelos curtos deu o primeiro passo para acabar com suas dúvidas.
"Ei, Mio. Por que você fez isso?"
Mio vira-se para olhar diretamente a outra garota, fazendo seus rostos ficarem a poucos centímetros de distância, e percebe que agora está, não com uma, mas com as duas mãos na cintura de Ritsu. Seu rosto cora profundamente e o rubor é refletido na menina a sua frente.
Ela abruptamente dá um passo para trás e tenta responder, mas toda a confiança de poucos segundos atrás se esvai. A garota de cabelos negros volta ao seu estado tímido e inseguro, e sem saber se está preparada para contar a verdade, tenta, como pode, dar uma resposta coerente.
"B-bem, Ritsu... eu só queria que o Toya parasse de te incomodar."
"Mas..." Ritsu hesitou por um instante antes de fazer a pergunta seguinte "...por que você queria afastá-lo de mim?"
"Nós somos amigas, não é?... eu achei que poderia ajudar de alguma forma. Afinal, você sempre reclama que ele fica te perseguindo."
"Só por isso? Porque somos amigas?"
"Eh?"
"Obrigada, Mio." Ritsu disse com voz fraca e olhos marejados quase a ponto de transbordarem. "Eu acho que... eu vou pra casa agora. Eu tenho que... limpar o meu quarto. Até mais, meninas." Dando uma desculpa qualquer, a garota saiu pela porta da lanchonete com as mãos nos bolsos e cabeça baixa.
Mio sequer conseguiu reagir à repentina mudança de humor de Ritsu. Tudo acontecera tão rápido. Em sua mente ela tentava entender a ordem dos fatos: parecia que tudo estava bem na reunião da banda até que o Toya chegou e começou a falar com Ritsu, então ela mesma se levantou e enfrentou o rapaz, a garota questionou sua ação e quando Mio respondeu, ela simplesmente se despediu e foi embora, chorando. "Será que eu fiz alguma coisa errada?" A menina de cabelos negros se pergunta "será que eu disse algo que não deveria? Ou foi a maneira com que eu agi?" No meio de seus pensamentos ela olha para o chão e vê a caixinha que o menino segurava nas mãos quando chegou. Ela pega o objeto "tenho que devolver isto. A culpa é minha por ele ter deixado cair." Decide que o melhor que tem a fazer é tentar arrumar a bagunça que causou. Primeiro devolveria a caixa para o Toya, ele não deve ter ido muito longe. Depois iria até a casa de Ritsu e falaria com ela. Se despediu das outras meninas explicando o motivo de sua saída e andou em direção à rua.
...
Enquanto caminhava pensava no que diria a Ritsu, teria que se desculpar com a garota, ou seria melhor contar a verdade desde o início? "Contar que estou apaixonada por ela? Talvez possamos ter a chance de tentar um romance, enfrentar todo mundo por um amor proibido, fugir pra bem longe em busca da felicidade... eu preciso escolher outro tipo de livros pra ler. Claro que não seria assim. Afinal, quais são as chances de Ritsu corresponder aos meus sentimentos? Aquela idiota, sempre implicando comigo. Como ela pode ser tão irritante e tão adorável ao mesmo tempo?"
Depois de alguns minutos ela avistou Toya andando a esmo. O chamou e quando ele se virou para ver quem era, ela pode ver seus olhos vermelhos e úmidos.
"O que você quer de mim agora? Não basta ter tirado a minha razão de viver?" Mio recuou ao ouvir isto.
"E-eu sinto muito pelo que aconteceu."
"Desculpas não vão adiantar, mas não importa. E me desculpe também, por ter gritado com você."
"Tudo bem, eu entendo o que você está sentindo."
"Não, Mio-chan. Você não sabe o que é para um cara perder no amor para uma menina." Ele disse enquanto apertava um lenço na mão direita.
Mio baixou os olhos e respirou fundo antes de responder "Bem, Toya... se isso te conforta, Ritsu e eu não estamos namorando."
Ele olhou para ela incrédulo "Por quê? Mio-chan, por que isso então?"
Ela hesitou, mas achou que era melhor pra ele saber a verdade de uma vez por todas "Toya, me desculpe pelo que eu vou dizer, mas... a Ritsu não gosta de você, ela vem tentando te evitar durante todo esse tempo e..."
"Eu sei."
"Sabe?! E mesmo assim..."
"E mesmo assim continuei tentando. Sabe, Mio-chan, eu tinha esperança de que um dia ela entenderia. Você mesma disse, não é? 'quando ela perceber que você gosta dela de verdade' eu acreditei que ela fosse mudar a maneira de pensar sobre mim. Mas ela continuou fugindo de mim. Agora eu aceito a minha derrota, não vou ser um mau perdedor. Vou deixá-la em paz para ser feliz com quem ela quiser." O rapaz ficou de frente para Mio e colocou as mãos sobre os ombros dela. "Mio-chan, eu confio ela a você."
"Eh?" Aquilo pegou a garota de surpresa. "Ele está me pedindo para cuidar dela enquanto ela não encontra alguém para amar, ou para ser essa pessoa?"
"Mio-chan, nós dois a amamos da mesma maneira, mas é em você que ela confia, é você que está do lado dela quando ela precisa..."
"E-eu nunca disse que eu..."
"Não precisa dizer. Eu posso ver em seus olhos."
A menina ficou um pouco envergonhada, mas acabou admitindo.
"Então eu quero que você a faça feliz. Está bem?" Ele tentou sorrir. Um sorriso triste de um derrotado entregando o prêmio ao vencedor.
"Eu não posso."
"Claro que pode. Tenho certeza de que ela está pensando em você agora." Ele tentou encorajar a garota.
"Ela pode até estar pensando em mim, mas não como você imagina." Ele pareceu confuso. "Ela não ficou feliz pelo que eu fiz, ela pareceu... decepcionada comigo, quando eu disse que agi daquela maneira para fazer você desistir dela." Mio foi diminuindo a voz enquanto falava.
"Então você só precisa falar com ela e contar o verdadeiro motivo de você querer me fazer desistir. Algo como 'eliminar um adversário no jogo', não é?" ele riu, o que fez ela se encolher de vergonha.
"Ah! Eu quase ia esquecendo. Eu vim te devolver isto. Você deixou cair." Ela disse estendendo a caixinha para o rapaz.
"Eu não preciso mais disso. Pode jogar fora." Mio ficou surpresa. Ele pegou a caixa e abriu, revelando o seu conteúdo: um anel de noivado.
"E-eu realmente sinto muito."
"Não, Mio-chan. Não precisa se desculpar. Você fez a coisa certa. Agora eu entendo, eu estava tentando força-la a aceitar uma coisa que ela não quer." Ele estendeu o objeto para a garota. "Você pode dar isto a ela se você quiser, como um presente seu."
"Não, Toya. Eu já me decidi. Vou conquistá-la com o meu próprio esforço. E guarde esse anel, um dia você vai encontrar uma menina que mereça recebe-lo."
Ele baixou os olhos, era difícil pensar em entregar aquele anel para qualquer menina que não fosse Ritsu, mas não disse nada.
"Você é um bom rapaz. Deve encontrar uma garota que te ame também. E não se preocupe, eu vou fazer o que você pediu. Vou falar com Ritsu."
"Obrigado, Mio-chan." Ele a abraçou , se despedindo e ambos seguiram seus caminhos.
...
Tsumugi, entendendo a situação de sua amiga baterista, se levanta para sair. Mas não sem antes se desculpar dizendo que tem um compromisso importante e que precisa ir, deixando para trás as duas guitarristas.
Encontrou a garota sentada embaixo de uma árvore em uma praça, com o rosto escondido entre os braços. Sentou ao lado dela e a puxou para um abraço. Ritsu retribuiu, encostando a cabeça no ombro da loira.
"Não tem jeito, Mugi. Pra Mio eu sou só amiga dela, nada mais do que isso."
"Mio-chan só estava confusa por causa do momento, tenho certeza de que ela não te vê só dessa forma."
"Mas você ouviu o que ela disse. Se isso não tivesse acontecido e eu dissesse o que eu sinto por ela, Mio sentiria nojo de mim agora."
"Shhh, não diga algo assim." A loira enxugou uma lágrima no rosto da outra menina. "Apenas deixe as coisas se acalmarem, cedo ou tarde ela virá falar com você."
"Eu não sei o que dizer depois do que aconteceu. Eu tinha tudo planejado, mas agora eu não sei o que fazer."
"Ricchan, você a ama?"
"Claro que eu a amo, Mugi." Ela respondeu olhando nos olhos da amiga. "Eu a amo como minha própria vida."
Mugi sorriu, da maneira de sempre. "Então diga isso a ela e você não vai se arrepender."
...
"Um furacão acabou de passar por aqui? Por que há menos de três minutos estávamos aqui fazendo planos e agora estamos só nós duas." Azusa comentou, boquiaberta. "Yui-senpai! Você está me ouvindo?"
"Hehe... me desculpe, Azunyan, eu não estava prestando atenção." A morena disse depois de tomar uma colherada de sorvete. Sim, ela ainda estava comendo.
"Senpai! Como você pode ficar tão tranquila depois do que aconteceu? Nós devíamos fazer alguma coisa."
"É? Por quê?"
"Como por quê?! Ritsu-senpai está triste com Mio-senpai. Sabe... eu acho que Ritsu-senpai gosta da Mio-senpai."
"Claro que ela gosta. Elas são amigas, Azunyan."
"Não, você não me entendeu. Eu quis dizer que Ritsu-senpai..."
"Mas Mio-chan é uma amiga especial para Ricchan. Minha mãe me contou que quando ela conheceu o meu pai eles se tornaram amigos, mas ele era um amigo especial, então eles se casaram e tiveram eu e Ui. É assim que Mio-chan é para Ricchan: uma amiga especial."
"Ah, você entende afinal ...da sua maneira."
A morena deu um sorriso bobo para a outra menina.
"Então, Yui-senpai, eu acho que nós devemos falar com Mio-senpai e contar para ela."
"Isso não, Azunyan."
"Mas por que não? Elas vão ficar assim e Mio-senpai nem vai saber porque Ritsu-senpai ficou triste com ela."
"Azunyan. Uma coisa é certa e é assim que deve ser: só você pode falar de seus próprios sentimentos para a pessoa que você ama, ninguém mais tem o direito de fazer isso por você. Então, mesmo que demore um pouco, elas vão se entender. Eu tenho certeza de que Ricchan e Mio-chan vão ser sinceras uma com a outra e vão saber o que fazer. Vamos, diga 'ahh'" a menina terminou seu discurso oferecendo um pouco de seu sorvete para Azusa, que aceitou sem pensar.
"Yui-senpai, eu não tinha visto as coisas dessa forma. Acho que não preciso me preocupar, né?" a menina sorriu o que fez a outra retribuir o sorriso. Mas logo mudou de expressão. "Essa não!"
"O que foi, Azunyan?"
"Elas três saíram sem pagar!"
"Oh! Isso é um problema." A morena disse, largando a taça de sorvete, já terminado.
"Nós vamos ter que dividir a conta. Quanto você tem?"
"Hehehe..." A cabeça-de-vento alisou os cabelos exibindo um sorriso idiota.
"Não me diga que você veio pra lanchonete, pediu duas porções de batata frita, um hambúrguer, três refrigerantes e quatro parfaits sem ter dinheiro pra pagar!"
"Desculpe, Azunyan. Eu me esqueci."
A menina menor espalmou a própria testa. "E lá se vai minha mesada."
"Então, Azunyan, você ouviu o que eu disse antes: se você ama alguém você tem que dizer."
"Sim, Yui-senpai. Mas não é hora pra isso"
"E você é a minha amiga especial."
"Eh?!"
