Capítulo VII – Caem as máscaras
O horripilante uivo aproximava-se a cada instante.
Não havia mais luz exceto a que irradiava de dentro do laboratório de Berkana.
Incapaz de mover-se Nanny encarava o corredor escuro da ala dos deficientes que parecia ecoar todas as vozes dos condenados ao Inferno humano.
Aos poucos a silhueta de sua algoz começa a tomar forma na penumbra diante dela. Dois brilhantes e enfurecidos olhos azuis a encaravam. O ar frio e húmido em torno deles era eventualmente sacudido pelas baforadas furiosas que emanavam de suas narinas, criando um rastro de vapor conforme a criatura aproximava-se. Ela parou alguns metros afrente, como um cão de caça, pronto para dar o bote e esperando somente a ordem do caçador.
- Vocês realmente acreditaram que eu caíria numa armadilha tão infantil? - Indagou a voz da psiquiatra, escarnecendo da ingenuidade de suas rivais. - Sinceramente Senhorita Vênus, todo esse tempo convivendo comigo e nada aprendeu. É uma grande decepção.
Psi surgiu como um fantasma através da escuridão. Ela sequer importava-se em fingir seu estado doentio agora. Seus olhos brilhavam intensamente, vidrados e ansiosos diante de sua presa indefesa. Ela levitou por alguns metros até aproximar-se de uma aturdida e imobilizada Nanny. Tomou seu rosto com uma das mãos com extrema delicadeza e penetrou profundamente em seus olhos.
- Vocês não sabem com quem estão lidando menina! - Ameaçou. - Acredita que sabe do que sou capaz? Acredita mesmo que sabe o quão baixo eu posso ir para conseguir o que quero? - Psi sorriu. - Pense novamente. - Disse fazendo um gesto firme com a mão livre para a sua criatura controlada.
Imediatamente, ela se moveu. Foi até uma das celas, arrombou a porta com extrema violência e pelos sons horríveis que Nanny pode ouvir, estraçalhou o reploid que lá estava. O barulho era horrível.O metal sendo estraçalhado, os gritos de dor e desespero. Ela não podia ver nada, mas isso era ainda pior. Sua imaginação criava a cena dantesca diante de seus olhos de uma maneira ainda pior do que realmente deveria ser. E saber o que estava acontecendo a fazia sentir-se ainda pior.
A psiquiatra não contente com a demonstração de força, ordenou que sua criatura invadisse outra cela. E outra. E mais outra. E em todas elas os gritos seguidos do assassinato de reploids indefesos tornava-se cada vez mais assustador.
- PARE! - Gritou finalmente a ex-babá encontrando forças onde já não esperava mais ter. - Eu entendi. Pare com isso por favor.
Com um olhar Psi deteve sua arma de destruição. Então tornou a encarar a assustada Nanny. E com um sorriso macabro nos labios respondeu a suas suplicas.
- Não.
- Psi por favor! - Suplicou.
- Não. Eu não vou parar. Essa será sua punição por me desafiar garota idiota. Ela vai matar a todos. Vai matar os doentes. Vai matar suas amigas. Vai matar a puta da Berkana e aquele idiota do Doppler. E então, quando todos estiverem mortos, eu vou chamar os Maverick Hunters e dizer a eles o que ela fez. E vou faze-la atacá-los para que a matem também. Assim você verá todos os seus queridos amigos morrerem diante de seus olhos e nada poderá fazer. Afinal, quem vai acreditar numa reploid acusada de matar uma criança e que covardemente alimentou o ódio numa maverick psicótica, que durante a noite ela libertou para que cometesse tão cruel chacina?
- Se você fizer isso eu também serei morta! - Respondeu Nanny cheia de ódio e coragem, ela nada tinha a perder. - Você não vai conseguir o que quer!
- E quem disse que eu preciso de você para conseguir o que quero? - Respondeu indiferente. - Já percebi que você é uma inútil. Que não conseguirei arrancar de você o que quero. Não, "Nanny"... - Disse o nome dela com profundo desprezo. - Eu vou diretamente a fonte! Eu vou descobrir o que quero diretamente da mente dele. E ninguém poderá me impedir. - Proferiu as últimas palavras com um sinistro brilho nos olhos. Seu rosto se contorceu em uma máscara enlouquecida de excitação e alegria antes de irromper numa sonora e macabra gargalhada diante da perplexidade de sua interlocutora.
- Psi você é doente! Você é uma maverick! A pior de todas! - Disse afastando a mão da doutora com um violento tapa. - E eu não deixarei que você consiga o que quer! Nem que leve mil anos, Psi! - Jurou a indignada Nanny pronta para fazer algo que nunca imaginou fazer. Partir para a violência física.
O rosto da doutora adquiriu uma expressão de desprezo e indiferença diante daquela bravata. O que ela poderia fazer? Bater nela? Bastava um pensamento e a interna Lilo a destroçaria em segundos. Talvez, pensou. Não fosse uma boa ideia dispensar aquela reploid apenas por vingança. Com Lilo ao seu lado, Psi poderia fazer qualquer coisa. Elas formavam o par perfeito. Uma era dotada de força descomunal e a outra de um intelecto incomparável. Diante delas, até mesmo X e Zero pareciam nada mais do que robôs enferrujados. Sim. Ela mataria Nanny, e todos os outros. Pouparia Lilo e com ela destruiria todos que se pusessem em seu caminho. Nada mais poderia detê-la.
- Lilo. - Chamou a psicótica doutora. - Destrua a interna Vênus.
A reploid obedeceu prontamente o comando de sua mestra e avançou na direção de Nanny. Num piscar de olhos ela estava com as mãos em torno do pescoço da ex-babá levantando-a do chão e esmagando-a contra a parede do corredor.
- Lilo... Sou eu... Lilo... - Tentou em vão impedir que a amiga a executasse. Lilo, sob absoluto controle de Psi continuava a apertar seu pescoço contra a parede. Percebendo que lhe restava pouco tempo Nanny lançou um triste e profundo olhar para sua algoz, mas tudo o que recebeu de volta foi o olhar vidrado de um corpo sem alma. Estava tudo acabado.
Os sentidos de Nanny começaram a falhar. Sua visão começou a escurecer, a dor ficou cada vez menos intensa. Foi quando um grito altíssimo irrompeu no corredor. Ela sentiu a pressão no pescoço desaparecer e pareceu-lhe que caía pesadamente ao chão. O grito continuou por alguns instantes, até que sua audição finalmente cessou. Seu corpo entrou em estado de emergência para poupar energia e garantir sua sobrevivência até que a ajuda chegasse. Mas nos seus últimos momentos de lucidez ela pensou: "Que ajuda?"
A primeira coisa que viu quando despertou foi o belo rosto de Lilo, agora já em seu habitual estado de alegria infantil que a encarava entusiasmada e dizia alguma coisa que ela não conseguia ouvir. Pode ver Alia aproximar-se e abrir um largo sorriso de satisfação e alegria ao vê-la voltar do coma. Thel também estava lá, juntamente com o Doutor Doppler e Berkana. Aos poucos todos os seus sentidos retornavam ao funcionamento. Ela estava viva. Mas que milagre a salvara?
- Alia e eu nos encontramos no caminho conforme o combinado, mas achamos estranho que as luzes do laboratórios apagaram-se de repente. Imaginando que não havia tempo suficiente para que o plano estivesse em prática corremos o mais rápido possível para lá. Quando chegamos ouvimos os gritos e os sons, imaginamos o pior. Alia foi chamar ajuda e eu, curiosa, fui ver o que ocorria. Quando vi Lilo segurando você pelo pescoço, claramente dominada por Psi, fiz a única coisa que sabia fazer. Eu gritei. Gritei tão alto e agudo que ela não pode manter o controle mental sobre Lilo.
- Assim que eu vi o que estava fazendo fiquei nervosa! Fiquei com medo. Achei que tinha matado você! - Disse Lilo quase irrompendo em um convulsivo pranto. - Então vi que era aquela bruxa que me fez fazer isso. Fiquei brava. Muito brava! Eu fui pra cima dela! Eu bati nela! Eu bati forte nela! - Afirmou a reploid com convicção.
- E como bateu! - Entusiasmou-se a cantora. - Neste momento Berkana e Doppler saíram do laboratório. Psi fingiu ser vítima de um ataque de internos furiosos e clamou por socorro. Acontece que eles já sabiam do que se tratava. Ninguém acreditou nela. Ela estava acabada, estava em nossas mãos! Nesse momento você gemeu alguma coisa, nos distraímos por um instante e ela desapareceu! Procuramos por toda parte. Os Maverick Hunters chegaram e nos ajudaram a procurar, mas... Psi evaporou. Simplesmente desapareceu.
- Mas mesmo que ela reapareça. Com a gravação que fiz e com os depoimentos de Doppler, Berkana e Thel, ela está acabada! O Quartel General dos Maverick Hunters já emitiu uma nota de busca contra ela. Psi é considerada uma maverick de alta periculosidade. Ela está na lista dos dez mais. Sua cabeça vale uma pequena fortuna, viva ou morta. - Disse Alia cheia de orgulho. - Nanny... O pesadelo acabou! - Afirmou feliz com um largo e emocionado sorriso nos lábios.
Ainda cansada pelo trauma que sofreu, tudo o que a reploid pode fazer foi esboçar um sorriso sincero e agradecer as amigas. Tudo era bom demais para ser verdade.
E pela primeira vez em dois anos, Nanny dormiu o sonho dos justos. Profunda e serenamente, com a convicção de que amanhã será diferente.
"Amanhã será melhor".
