O Começo
Diversas televisões de Nyender tinham sua programação interrompida pelas notícias de última hora. Ninguém parecia acreditar, no entanto, no que via sendo transmitido pela tela em diversos canais simultaneamente. No hospital, Gregory se apoiava na maca onde Houndoom era mantida anestesiada e ligada a equipamentos que lhe filtravam o sangue para livrá-la das toxinas que quase lhe custaram a vida há alguns dias. Nas mãos do médico, o celular com uma mensagem mais do que perturbadora para aquela noite de plantão indesejado.
"Levaram Yasmin".
Angélica nunca fora de lhe mandar mensagens ou de ligar quando não fosse realmente necessário. Dar uma notícia dessas de forma tão abrupta só significava que ela não poderia ligar e ele sabia que mais do que nunca ela precisaria de alguém do lado, mesmo ela negando. Ele também sabia que provavelmente era a última escolha que ela faria, mas em se tratando da filha deles, ele queria estar lá para ela e para saber como aquilo acontecera.
Após sair do quarto, o médico congelou na sala onde alguns colegas miravam uma televisão. Na tela o anúncio de que a Comandante se aposentara por motivos de força maior, bem como o anúncio de que Cornélios Darbas era nomeado novo Comandante Cadete. As notícias ruins pareciam não ter fim...
Sem ser interrompido, Gregory saiu do hospital deixando seus casos para trás (o que não era exatamente uma novidade no ambiente hospitalar). Naquele dia, contudo, o olhar de preocupação e pena que recebeu de alguns médicos, enfermeiros, pacientes e acompanhantes o irritava. Não precisava de piedade, precisava de um plano e de uma equipe forte para resgatar sua filha e simplesmente não entendia como isso poderia acontecer com Angélica se aposentando.
Em tempo Record, o homem chegava na casa da antiga oficial e entrava sem pensar duas vezes. Em poucos segundos, adentrou o quarto da mulher, encontrando-a não exatamente como esperava...
Angélica estava sem camisa, com bandagens lhe cobrindo o peito e barriga. Mienshao era impiedoso ao garantir que as bandagens estavam bem presas e, como ela ainda estava amamentando Layla, o médico podia imaginar que pressionar os seios daquela forma estaria lhe causando alguma dor. O olhar, porém, só indicava ira.
Sobre a cama, o médico percebia armas diversas dispostas e o colete a prova de balas que aguardava sua vez de ser vestido. Perto, Alakazam usava diversas poções e medicamentos para aliviar as dores e ferimentos de Luxray e Swellow. Era óbvio que partiriam para a guerra em breve.
- Corrija-me se eu estiver errado. – Gregory dizia pegando uma pistola de cima da cama e mirando a arma. – Estando aposentada, você não poderia ter esse tipo de coisa em casa, não é?
- Não vou esperar por Cornélios. – A mulher dizia após terminar de vestir o colete a prova de balas e uma camisa por cima. Facas encontravam seu lugar dentro das botas, armas nos coldres à cintura. Balas o suficiente para algumas recargas também encontravam seu lugar, assim como duas granadas e algumas smoke ball.
Luxray e Swellow se erguiam. Ainda não pareciam estar em seu melhor estado, contudo o olhar deixava claro que morreriam antes de deixar Yasmin com os sequestradores. Todos pareciam saber onde a criança estava e Gregory se forçava a respirar com calma e manter a mente funcionando.
- Quem levou ela?
- Miya.
Após dar o nome da líder dos Armagedons, Angélica largava um Mega Ring nas mãos do médico. Ele sabia onde a Houndoomite estava guardada enquanto a Pokémon não ganhava alta e sabia que teria de acelerar a cura da canina. Provavelmente ela seria a única fonte de proteção que Layla teria por um tempo.
- Não deixe nada acontecer com ela. – Angélica praticamente ordenava, relutante em deixar a filha mais nova. O coração dividido entre ficar e proteger a caçula ou ir em busca da mais velha que estava em mãos inimigas. Deixar o resgate de Yasmin aos cuidados de Cornélios era não ter ideia de quando a missão seria destinada, uma vez que o resgate de uma criança não era prioridade do atual Comandante quando haviam vilarejos inteiros tomados e uma cidade a reconquistar. Deixar a mais nova com tanta proteção era arriscar-se a perdê-la também.
Gregory conhecia a mega evolução e sabia que era necessário um grande laço entre treinador e Pokémon para que a mudança ocorresse. Ele também sabia que não possuía esse laço com Houndoom, mas sentia que se precisasse, funcionaria.
– E fique de olho no Gligar. Ele agora é seu. – A mulher dizia, colocando uma última Max Revive em um bolso.
Angélica finalmente se considerava pronta após recolher Luxray e Swellow e os colocar juntamente com outras Pokébolas que carregava, cada uma em um bolso distinto. Com uma despedida silenciosa, a mulher sumia com Alakazam e seu Teleport, deixando Gregory e Mienshao sozinhos no quarto. O médico pressionava o Mega Ring, tentando controlar as emoções que sentia. Àquela hora, Julian já devia estar no hospital, com alguém lhe cuidando o braço ferido. Todavia ele não se importava com o destino do adolescente, sua mente estava tomada por Yasmin, Layla e Angélica... Três mulheres que entraram na sua vida de forma totalmente inesperada. No chão, ao seu lado, o pequeno Gligar que levara a carta com as exigências de Miya abraçava sua perna, fascinado com seu novo mestre.
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Um jovem procurado corria pelas ruas de Chermont recém reformadas. O asfalto negro e intacto parecia desafiar alguém a dizer que àquela região sofrera diversas explosões provocadas por Electrodes há poucos meses. No entanto, o jovem que passava correndo pelas avenidas não estava preocupado com a historia que elas carregavam, mas sim no destino que elas poderiam levá-lo.
O som de uma viatura soava ao fundo indicando que a pista dele já havia sido localizada. O suor escorria por sua face e o procurado começava a rezar mentalmente. Havia muito a ser feito, uma vingança a conquistar. Não estava preparado para enfrentar um demorado julgamento e apodrecer atrás das grades enquanto o outro estava solto. A prece mental chegava ao fim e outra logo se iniciava. Não era o melhor religioso, era procurado por cárcere privado, agressão física e assassinato. Contudo, mesmo com essas acusações, acreditava que se rezasse com força, Arceus lhe ajudaria. Por outro lado, aquela parecia ser a única coisa a se fazer. Nenhuma outra saída parecia lhe surgir na mente...
Mais uma esquina era virada e o suor escorria pela face. Algumas lágrimas se formavam teimosamente devido à sensação de que fracassaria. Rostos infantis giravam por sua mente, risadas inocentes pareciam ser ouvidas juntamente com as sirenes, lembranças que lhe apertavam o coração e que ele não queria esquecer.
Repentinamente braços lhe rodearam, prendendo-o no lugar e uma mão lhe cobriu a boca para que não gritasse. Antes que pudesse protestar, era teleportado por um Alakazam para dentro de um apartamento do prédio ao lado. No quarto, um homem que tinha um olho castanho e outro vermelho estava sentado no chão, com as costas apoiadas na parede. Ele parecia ferido, mas o analisava como se isso fosse nada.
- O que quer?
O estranho que lhe salvara dos cadetes sorriu com a pergunta hostil do outro. Aquele era um homem acostumado a se virar, sempre sozinho em sua dor e em sua ambição. A frente dele um homem ferido que o ajudava em um momento de desespero. Porém, se havia algo que Shinki lhe ensinara é que tudo possui um custo.
- Fique calmo. Acredite ou não, estou aqui para ajudá-lo. – O outro mirou o homem sentado com ainda mais desconfiança. O Alakazam não era o único Pokémon presente. Apoiado próximo a uma janela, sem se deixar ser visto, um Lucario analisava as ruas da cidade e outras duas esferas eram visíveis ao lado do estranho que ainda não se apresentara. – Não se preocupe. Sei pelo que está passando. Sei o que é ter a justiça manipulada e usada contra você. E sei o que é achar que está ficando louco e que talvez a "verdade" que eles contam é a verdade mesmo.
As palavras pareciam atingir o procurado que seguia em pé com força e ele baixava os ombros. Não eram palavras de conforto, tampouco dignas de confiança. Era certo que o outro tentava demonstrar empatia com suas emoções. O mistério estava no fato do outro saber onde ele estava e falar como se realmente o conhecesse.
- Quem é você? – Perguntou por fim, abaixando um pouco a guarda e cedendo à curiosidade.
- Um amigo que pode lhe ajudar a trazer justiça para seus filhos. – O outro dizia se erguendo por fim e estendendo a mão. Lucario deixava de mirar a rua e, assim como Alakazam, mirava o novato a espera de uma resposta.
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Enquanto em Erobring o céu se iluminava pelas lanternas flutuantes que indicavam o fim do festival, em Mengun o céu se iluminava pelas chamas que escalavam um prédio residencial, colocando fim a vida de diversos civis.
Os cadetes corriam pelas ruas tentando deter o avanço dos Apocalipses, porém se tornava difícil garantir a segurança em uma cidade grande quando o alvo pareciam ser os próprios civis, não os cadetes. Com o número reduzido no lugar, os oficiais nem ao menos tentavam estimar o número de perdas durante os ataques, receosos de criar ainda mais caos no local.
Os Pokémons se enfrentavam e Mina mirava o brilho vermelho que clareava a noite. Nos dedos, uma taça oscilava levemente, fazendo o vinho girar delicadamente em seu interior. Os lábios vermelhos sorriam ainda mais ao ver o Flygon passando e desferindo um Hyper Beam por uma avenida inteira por onde civis tentavam fugir. Somente os fortes aguentariam àquela pressão e os cadetes logo fugiriam com os fracos. A cidade não aguentaria para sempre e a hora dela agir e acelerar o resultado se aproximava. A taça logo alcançava os lábios enquanto os pensamentos dançavam em sua mente. Miya poderia ter pego Kalled, mas ela pegaria Mengun. Enquanto Miya teria areia, ela teria tecnologia e poder real.
Em cima da mesa o celular tocava insistentemente. O aparelho já não emitia nenhum som. Na terceira tentativa de quem quer que fosse contatá-la, o equipamento fora colocado no silencioso de forma a não interromper sua apreciação do caos que começava a reinar na cidade. Sabia que não eram somente os seus agindo. Os Giratinistas não resistiriam a esse convite tão carinhosamente oferecido. A profecia deles os levando a criar o caos.
"Quando no mundo a ganância reinar, deuses e mortais vão se enfrentar, e na batalha que se travar, o sacrifício pelo bem irá triunfar. Mas se a humanidade mais uma vez decair, ira e vingança irão surgir, e aquele que antes os protegeu, tomará o mundo que sempre o pertenceu."
Pequenos tolos inocentes... A humanidade nunca ascendeu para poder decair e a ira e a vingança sempre foram inerentes ao ser humano. Entretanto eles estão corretos em uma coisa... O mundo deles será tomado por alguém que consegue arrancar a ira e o desejo de vingança até dos corações mais devotos: ela.
O badalar do relógio começava a soar quase como uma música, anunciando que a hora dela agir estava um pouco mais perto do que antes.
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Em Nyender, Gregory ainda estava no quarto que outrora dividira com Angélica. Gligar se mantinha agarrado em sua perna, tentando demonstrar seu amor e lealdade ao novo dono. Era um Pokémon que sem dúvidas se entregava fácil, bastando simplesmente o dono atual apresentar e identificar o novo para que sua lealdade e amor fossem transferidos. Tudo o que ele queria naquele momento: um bebê Pokémon carente.
Na sala, o pequeno filhote de Growlithe ainda sem nome roia um sapato como se não fosse nada demais. O cão parecia não perceber o clima ou o vazio da casa. Pippy, por outro lado, parecia indisposto para brincar e resolvia subir as escadas, seguindo o choro de Layla. O esquilo elétrico sentia saudades de sua dona e sentia-se fraco por não ter conseguido salvá-la. Seu olhar era claramente cabisbaixo.
Mienshao vistoriava a casa pela terceira vez, ansioso e nervoso. Sua atenção focava-se em qualquer coisa que se mexesse imediatamente. O lutador, sendo o único com real poder em casa no momento, não se permitia deixar algo mais acontecer a sua família. Durante essa vistoria, o Pokémon viu o táxi estacionando em frente à casa e a mãe de sua dona descer. Ela não fora chamada, mas a televisão transmitia insistentemente os últimos ocorridos e ela devia prever o que aconteceria.
O médico recepcionou sua quase sogra sem muito animo, mas isso não a impressionou. Ciente da falta de talento que o homem tinha com o bebê e não se surpreendendo com a ausência da filha, a mais velha se dirigiu ao quarto do bebê, verificar como Layla estava. O bebê ainda chorava copiosamente, enquanto Pippy tentava distraí-la, ligando o móbile que estava acima do berço.
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- Hey, Yayá-chan, o que acha de jogarmos esse jogo agora?
Um homem de cabelos arroxeados perguntava erguendo um cartucho onde se via uma Ponyta. O jogo claramente indicado para meninas jovens que gostavam de pentear e maquiar Pokémons não atraia, no entanto, a menina de 6 anos.
- Não quero mais jogar, Jack-chan. Quero ir pra casa... Mamãe deve tá pleocupada. – A garotinha dizia ainda sem conseguir falar a letra r corretamente.
- Conhecendo sua mãe, pequena, ela deve estar pertinho de chegar a essa hora. – O homem dizia colocando o jogo na tentativa de que vê-lo jogar atraísse a menina.
Yasmin, por outro lado, subia na cama grande e confortável do quarto em que estava cativa. Em cima da cama também estavam um Jolteon e um Vaporeon, atentos a qualquer movimento sem alarmar a menina raptada. A pequena Marill, pela primeira vez desde que entrara na família, sem seu chapéu, mantinha-se sempre entre a criança e os dois Pokémon, querendo deixar claro que eles não deveriam se aproximar. A aquática, contudo, não parecia ser uma ameaça à dupla, que simplesmente a ignorava.
Enquanto isso, na Route 20, oculta, mas com vista para a cidade de Kalled, a ex-comandante dos cadetes surgia com seu Alakazam. O Pokémon parecia um pouco desgastado devido ao longo percurso cruzado, sendo recolhido para a Pokébola e ficando a espera de sua deixa para entrar em combate.
O coração pulsava forte e uma gota de suor escorria pela lateral do rosto apesar do frio noturno nos desertos. Os olhos seguiam firmes para a cidade de terra. Muito estava em jogo naquela missão e ela não teria reforços antes que fosse tarde demais caso falhasse.
