"Perigo à espreita"
Albafica acorda escutando muitos cochichos, som de coisas sendo arrastadas e diversos passos. Abre os olhos assustado, sentando-se rapidamente e fitando as pessoas, que estavam em todos os lugares do recinto. Eram vários homens e mulheres, que limpavam cuidadosamente o local.
- Vamos logo com isso! Há outros cômodos para limpar e vocês sabem como Minos-sama é exigente! Tudo deve estar perfeitamente limpo e organizado em uma hora. - exclama o pequeno espectro, que estava parado na porta.
O espectro carregava uma foice em sua mão direita e era muito feio, chegando a ser engraçado. Era careca, tinha as orelhas um pouco pontudas, bem magro e andava um pouco encurvado. Só falava cochichando e sua voz era estranha.
- Ah... finalmente você acordou! - diz o espectro, voltando seu olhar para o pisciano. - Ande, ande, levante-se logo! Com você aí, os escravos não podem terminar a limpeza. Temos pressa e você está nos atrapalhando! Francamente... não sei porque Minos-sama não o colocou junto com os outros! - diz o pequeno, em tom de indignação.
Albafica, que ainda não havia despertado direito, se levanta um pouco tonto, ainda observando toda aquela agitação à sua volta.
- Onde está Minos? - Albafica pergunta, ainda um pouco confuso.
- Minos-sama para você, escravo! - a voz de outro espectro que adentrava o recinto responde, o que faz albafica virar sua atenção para ele. Era uma criatura mais bisonha e baixa que a primeira. Seus olhos eram esbugalhados, tinha uma boca enorme e pernas arqueadas. Sua armadura o deixava ainda mais bizarro.
- Zelos de Frog, o que faz aqui? Você sabe o quanto Minos-sama não te suporta, então, por favor... - quando o primeiro espectro ia colocar Zelos para fora dos aposentos, é interrompido por Byako.
- Markino, onde Minos-sama está? Ele não se encontra na sala do julgamento e Lune-sama pediu para que eu trouxesse alguns documentos para que ele assinasse. - Byako explica, parado na porta.
- Isso aqui está virando uma zona! Vocês sabem muito bem que Minos-sama não gosta que invadam seus aposentos dessa maneira! Somente eu tenho permissão de trazer os escravos para fazer a faxina, e só!- diz Markino, que estava completamente estressado, já imaginando o castigo que receberia se Minos ou Lune, principalmente Lune, vissem aquela invasão. - Ele está em seu escritório particular, Byako. E você, Frog, o que quer aqui? Sabe muito bem o que Minos-sama fará se te vires nos aposentos dele!
- Eu, Zelos de Frog, a estrela terrestre bizarra, trago notícias de Rhadamanthys sama! - diz o espectro, tirando de dentro de sua surplice uma carta selada, com o simbolo de Wyvern. Zelos demonstra todo o seu ego inflado e prepotência, olhando para Markino, como se fosse inferior. - E irei entregar pessoalmente esta carta a Minos-sama, portanto... - quando ia prosseguir, Byako arranca facilmente a carta da mão de Zelos e levanta a mão com a carta, enquanto o espectro fica pulando e tentando pegá-la de volta. - Ei! Me devolva isso! Devolva! Aahhhhh!
- Zelos, você sabe muito bem que Minos-sama o odeia. Se for até ele, corre o risco de acontecer o mesmo que houve da outra vez... por acaso você quer ter seus ossos partidos novamente? Quando vai aprender a se colocar em seu lugar? Agora dê o fora daqui, antes que Minos-sama escute sua voz! - Byako suspira, desanimado. Ele, assim como todos os outros espectros, odeia Frog.
- Isso mesmo! Você já fez o que devia fazer, agora saia daqui! - Markino completa, num tom rude. - não sei como Rhadamanthys-sama te suporta...
- Vocês só fazem isso porque Rhadamanthys-sama não está aqui, vão ver só uma coisa quando ele souber! - Zelos fala, enquanto se retira indignado.
Albafica, que observava tudo, não pôde deixar de rir baixinho, levando a mão à boca. Aquela cena era realmente hilária, pois ele nunca imaginaria algo semelhante vindo de espectros. Esta situação fez com que o cavaleiro esquecesse suas condições. Markino e Byako se entreolharam e depois fitaram Albafica, sem entender a reação do jovem, que estava parado em pé no mesmo lugar onde permanecia agrilhoado. Albafica, por sua vez, calou-se imediatamente ao perceber que era observado.
- Eh... eu vou avisar que você está aqui, Byako. - Markino já estava caminhando na direção do escritório, quando Byako o segura pelo ombro.
- Não é necessário. Hoje cedo, Minos-sama ordenou que eu fosse diretamente à sua presença e Lune-sama aproveitou para me passar a papelada. – diz, enquanto se dirige ao aposento, batendo na porta e logo entrando. - Minos-sama... com sua licença.
- Entre! Acharam o maldito? - Albafica pôde escutar a indagação em tom sério de Minos à Byako .
- Ainda não senhor, nós estamos... - Minos pôde ser visto, sentado diante de uma grande mesa cheia de pastas e papéis, ao fundo do grande cômodo. Logo, Byako fechou a porta atrás de si e a trancou, impossibilitando que o pisciano escutasse o restante da conversa. Na realidade, ele não tinha interesse algum em escutar e não se importou.
Os escravos continuaram a limpeza e o dourado apenas observava tudo, sem saber o que fazer nem onde parar, pois a todo o momento o tiravam de um lugar para o outro, enquanto enceravam o chão. Isso era incômodo, pois as correntes que o prendiam ao elo não eram muito compridas.
Outro espectro chega na porta, batendo.
- Markino, Lune-sama exige sua presença de imediato! - diz o espectro, que quando vê Albafica, estreita seus olhos, que adquirem um brilho estranho.
- Hum... mas não posso deixar os escravos sozinhos no momento.. - Markino leva a mão à sua careca chata, coçando-a, enquanto pensa que se demorar a atender Lune, com certeza será punido. - Mas se não atender logo, Lune-sama...
- Não se preocupe, Markino. Eu tomarei conta de tudo, pode ir. - interrompe. O espectro fitava Albafica de maneira estranha, com um sorriso malicioso e medonho, que faz o pisciano ter calafrios e virar-se de costas, fingindo se distrair com a vista da janela.
- Verdade? Faria isso por mim? - Markino questiona, sem entender a boa vontade do espectro, mas se alegrando em ver que alguém, finalmente, lhe faz uma gentileza. - Eu fico muito grato! Com licença. - Markino se retira rapidamente, ainda agradecendo seu "companheiro" de armas. - Muito obrigado, obrigado mesmo... volto assim que puder!
- Não se preocupe, cuidarei de tudo na sua ausência, Markino. Minos-sama nem dará por sua falta. - diz o espectro, num tom pretensioso, enquanto dá um sorriso maléfico e cheio de más intenções. - Vocês! Vão limpar o banheiro! Não há mais nada a se fazer neste local. - ordena aos escravos, que logo se retiram para o banheiro.
Agora o espectro conseguiu o que queria: ficar sozinho com Albafica. O que faz com que o cavaleiro sinta um frio na espinha.
Mesmo de costas, Albafica pode sentir o olhar malicioso do espectro e saber exatamente quais são suas intenções, que são claras e transparentes como a água. É algo perturbador, que o faz estremecer. Quando percebe que o homem se aproxima vagarosamente, Albafica entra em pânico, pois sabe perfeitamente o que ele pretende fazer.
"O que vou fazer agora? Estou completamente indefeso..." - os pensamentos de Albafica se tornam confusos e em uma fração de segundos, várias coisas lhe vêm à mente. - "O que vou fazer? Preciso me acalmar, não consigo pensar! Isso, meu sangue é venenoso! Se ele me tocar, irá morrer...- tentando se sentir mais seguro, mas logo lembra-se de que Minos tivera contato físico e nada aconteceu. - Mas, Minos me beijou e nada aconteceu com ele! Meu sangue, será que não tem mais veneno? Eu não sou mais venenoso? Que ironia, sempre odiei meu sangue pelo veneno que carregava e agora, quando mais preciso...! E agora, o que eu faço? Minos! Mas, Minos não se importa comigo, ele quer me ver sofrer! Minos!" - em meio ao desespero, Minos é a única solução que lhe vêm à cabeça. Mesmo que saiba que o juiz nunca o ajudaria, era sua única esperança.
O santo de Atena sente o espectro segurar firmemente uma mecha de seus cabelos e não se agüenta, virando-se rapidamente e gritando, enquanto dá um tapa na mão do espectro, afastando-a:
- Não toque em mim, maldito! - Albafica o fita com ódio e desespero, completamente ofegante e trêmulo.
- Ora ora... a flor mostrando seus espinhos... - o espectro responde sarcasticamente, o tirando de cima abaixo e o devorando com os olhos. - Vamos ver... se consegue me ferir com eles. - dá um sorriso maléfico e baixo.
A porta do escritório se abre e, em questão de segundos, o espectro havia sumido da frente de Albafica, aparecendo na porta, de braços cruzados, fitando os empregados, como se nada tivesse acontecido. O que faz com que o cavaleiro fique confuso e ainda mais assustado.
- O que está acontecendo aqui? - pergunta Byako, que escutara o grito de Albafica, juntamente com Minos, e se adiantou para verificar a situação.
- Byako, o que está havendo? - indaga Minos, ainda sentado atrás da grande mesa do escritório.
- Não houve nada Byako, apenas este louco gritando comigo. Não entendi nada. - mente o espectro, se fingindo de desentendido.
Byako fita o pisciano, verificando seu estado, e volta a fitar o espectro.
- Não se preocupe Minos-sama. Não é nada com que precise se preocupar, eu cuidarei disso. - Byako fecha a porta atrás de si e se aproxima do homem, estreitando seu olhar. - O que fez a ele?
- Eu já disse, eu não fiz nada! Este idiota gritou só porque me aproximei dele. - o espectro encara Byako com rancor, fingindo-se ofendido. – Por que não pergunta a ele então, já que não acredita em mim? – e vira-se para Albafica. - Ei! Eu te fiz alguma coisa, maldito?
O cavaleiro não conseguia raciocinar direito. Nunca, em toda sua vida, havia sentido tanto medo de alguém. Nem mesmo de Minos. Albafica não sabe o que dizer e apenas permanece calado, tentando se acalmar, enquanto fita o espectro.
"O que eu faço? O que eu digo? Talvez se Minos souber disso... não! Com certeza, ele iria se utilizar disso para me humilhar! Não direi nada, não posso dizer... preciso me acalmar, ele não pode me ver nesse estado." - Albafica ainda estava ofegante e trêmulo de pânico.
- O que houve aqui? Ele te machucou? - Byako questiona Albafica, que permanece paralisado. – Vamos, diga!
O jovem, que ainda não conseguiu tirar os olhos do espectro, apenas balança a cabeça negativamente, pois não consegue dizer uma só palavra.
- E você? O que faz aqui? Sabe muito bem que Minos-sama não gosta de ninguém em seus aposentos. - Byako fala, voltando-se para o espectro.
- Lune-sama mandou chamar Markino com urgência. Como ele estava supervisionando os escravos e não podia deixá-los sozinhos, eu...
- Então pode se retirar. Eu estou aqui e tomarei conta de tudo. - Byako fala num tom seco, fitando-o, desconfiado.
- Tudo bem... com licença. - o espectro se retira contrariado, mas Byako é o segundo em comando na ausência de Griffon e ele tinha que acatar. Acima de Byako, havia apenas Lune e o próprio Minos.
Byako permanece olhando, completamente confuso e desconfiado, para o cavaleiro, imaginando o que foi que o deixou tão aterrorizado.
"Este homem... o que o deixou neste estado? É como se ele tivesse visto o próprio Hades-sama em sua frente... ele é um guerreiro, um santo de Atena. Não ficaria desse jeito apenas por um espectro de nível tão baixo. Será que Minos-sama deu algum tipo de droga a ele? Mas isso não é do feitio de meu senhor..." – pensa, intrigado.
- O que deu em você? - Byako dá alguns passos na direção de Albafica, que, abruptamente, dá um passo pra trás em reflexo, enquanto o fita amedrontado. Confuso, o espectro pára onde está. - Acalme-se, não vou lhe fazer mal. - Byako coloca as duas mãos espalmadas à sua frente e volta a tentar se aproximar, mas o rapaz dá mais um passo pra trás, levando um tranco da corrente que se esticou. Assim, o espectro desiste de se aproximar e espera até que Markino volte. Logo, volta ao escritório do juiz.
Não demorou mais de uma hora para que todos se retirassem e Albafica ficasse finalmente sozinho. O local estava brilhando de tão limpo e o cheiro era bem agradável. O cavaleiro fitava o horizonte bem mais calmo, embora estivesse um pouco traumatizado. Estava fragilizado e várias coisas vinham em sua mente, ainda confusa. Ele não queria nem pensar no que teria acontecido se Byako não tivesse aparecido. Mas não conseguia parar de pensar nisso.
"- Estou completamente indefeso, a mercê deles. A qualquer hora, qualquer um pode me fazer algo de ruim... como posso me libertar disso? Será que um dia conseguirei sair daqui? O que Minos quer de mim, afinal? Até onde ele pretende levar essa história? Nunca imaginei ter de passar por algo semelhante. Também não acredito que um espectro tão fraco conseguiu me deixar naquele estado. Nem Minos me deixou assim! Mesmo com todas as ameaças que me fez, mesmo quando me beijou a força..." - várias coisas lhe vinham à cabeça ao mesmo tempo. Indagações e afirmações enchiam a mente do pisciano.- "Por que não senti o mesmo medo quando Minos me ameaçou? Griffon é muito mais poderoso, extremamente sádico. Mesmo assim, mesmo sob sua ameaça, não fui tão afetado. O medo que senti dele foi completamente diferente do que senti por aquele espectro. Qual é a diferença? O que está havendo comigo, afinal?" - Albafica trinca os dentes, colocando suas duas mãos na cabeça, se ajoelhando no chão e encolhendo-se, enquanto seus olhos se enchem d'água. O jovem desaba em prantos. Chora até se acalmar e nem percebe o tempo passar. Nem teria como perceber, visto que no inferno não existe dia ou noite, o céu possui sempre o mesmo tom púrpura, escuro e sombrio.
