Capítulo 7

"Não vai nos dizer o que é tão engraçado?", perguntou Emmett enquanto nos dirigíamos para casa.

"É uma piada particular. Não se preocupe". Disse para me livrar dele.

"Desculpe, mas se é sobre Isabella Swan, acho que diz respeito a todos", contestou Rosalie.

"Sério. Não é nada. Só... angústia adolescente".

"E desde quando isso é divertido para você?", perguntou Jasper.

"Desde que sua mente não consegue se concentrar em outra coisa que não seja Isabella", respondeu Emmett.

"Não é verdade", disse. "Me diverte ver que os humanos se emocionam por nada. Especialmente os adolescentes".

"Suponho que tenha algo a ver com o baile que se aproxima", sugeriu Alice.

Olhei para ela.

"Viu algo?"

Ela arregalou os olhos, quase como se a houvesse pegado desprevenida.

"Pensei que a angústia fosse pelo baile. Todos falam sobre ele. Porque acha que vi algo?" Porque não vi nada. Nadinha.

Franzi o cenho em sinal de frustração. Estava tentando bloquear seus pensamentos tentando me enganar fazendo com que acreditasse que não tinha visto nada interessante em sua cabeça. Me espantou muito ver que tentava me ocultar algo tão pouco importante para mim, afinal, o que me importava esse baile? Nunca tinha me interessado por estes rituais humanos tão normais para eles... tradicionais... rituais de passagem... qualquer coisa assim.

Mas rapidamente percebi que me importava, para minha incredulidade. Se Alice viu algo sobre Bella e esse ridículo baile, precisava saber. Apesar de ter desfrutado ver Bella quebrar os corações de seus pretendentes, cheio de esperanças, hoje mesmo, sabia que teria algum homem que finalmente ganharia seu afeto. Essa certeza rasgava meu coração de uma forma incompreensível.

Não podia entender essa situação, já que não achava que tivesse acontecido antes. Certamente não tinha nada de errado em Mike, Eric ou Tyler. Tinham a idade correta para Bella e, o mais importante, eram humanos. Mas não pude evitar me sentir consumido pela raiva ao pensar que um desses estúpidos garotos a tocariam. Ainda que tivessem permissão para tocá-la, quando isso ocorresse não apreciariam como era preciosa e única. Se fosse eu, a adoraria.

Pela primeira vez em quase cem anos, desejei poder ser um humano novamente. Invejei o fato de que um desses garotos podiam passar facilmente uma tarde à sós com Bella e eu não. Cobiçava essa presença que eles podiam conseguir sem se sentirem tentados a lhe beber o sangue. Era difícil qualificá-lo, mas a única palavra que o definia era inveja. Estava com ciúmes, simples assim.

E agora Alice sabia algo sobre Bella e seu acompanhante para o baile. Tinha que saber antes que ficasse louco.

Chegamos em casa e levei Alice para o lado antes de entrar. Mantive minha voz firme quando disse:

"Alice, se viu algo sobre Bella indo ao baile, então, por favor, me diga. Preciso saber com quem ela vai".

"O baile?", perguntou confusa.

"Sim. Escutei os pensamentos desses três garotos a quem Bella disse não. Ela recusou seus convites e quebrou-lhes o coração. Agora, se você a viu ir com alguém..."

"Edward, porque você precisa saber com quem Bella decidiu ir ao baile?". Havia um ligeiro tom nervoso em sua voz que ignorei.

"Não preciso saber, é só que... gostaria de saber".

"Isso me soa como voyerismo. Acho que deveria se manter afastado dela".

Fiz uma careta.

"Hey, podia jurar que você estava comigo quando o assunto é Bella".

"Estou com você. Quero o que você quiser. Quero que Bella fique segura porque te faz feliz saber que ela está a salvo".

"Então porque não me diz com quem ela irá ao baile? Sei que não há muitos rapazes na escola que tem boas intenções, assim se ela for com alguém que..."

Alice grunhiu e revirou os olhos.

"Não vi nada sobre o baile, ok?"

"Mas viu algo"

Desviou o olhar, mas não precisava olhar para ela para escutar sua mente.

Sim... mas não me pergunte, porque você não vai gostar. Por favor, deixe como está.

"Olha, eu acredito que você não tenha visto nada sobre o baile. De verdade. Sabia que não planejava ir, só queria ter certeza. Se a viu com alguém então... precisava me preparar para isso. Não é que me sinta bem, mas ainda assim, ao menos poderei me acostumar com a idéia".

"Bom, o que eu vi não tinha nada a ver com o baile. Então, esqueça-o".

Não ia deixá-la tão facilmente.

"Tem algo a ver comigo?"

"Edward! Pára!"

"Ok!, disse com as mãos levantadas ao ar, derrotado. "Só estou curioso."

"Não fique. Você não quer saber".

Quis entrar nas profundezas de seus olhos para conhecer o significado oculto por trás de suas palavras.

Você sabe o que vi. Não me faça explicar outra vez.

Um calafrio percorreu minha espinha.

"Teve a mesma visão? A mesma de antes... quando eu..."

Quando você a transformou.

Sua mente terminou a frase por mim.

Sacudi a cabeça, a raiva crescendo.

"Isso não vai acontecer, Alice. Não vou permitir".

"Não posso negar o que vi, Edward. E vi mais de uma vez em diferentes cenários, mas todos com o mesmo final".

"Deixe-me adivinhar. Me viu com ela no baile, e eu a transformei – bebendo dela na frente de metade da escola na pista de dança".

"Já te disse que não tem nada a ver com o baile".

Mas não a escutei. Tudo o que podia pensar sobre sua insistência é que algum dia daria a Bella essa miserável vida tenebrosa.

"Não vai acontecer. Juro, me mataria antes de ver Bella nessa situação".

"Já considerou alguma vez que você pode não ter escolha?"

Retrocedi desconcertado por suas palavras.

"Sempre há uma opção"

"Sim, tem razão, mas às vezes as opções que temos não é sempre o que é certo e o que é errado, mas optar pelo... menos ruim".

Agora estava totalmente confuso.

"O que?"

Mexeu em seu cabelo e suspirou irritada.

"O que aconteceria se Bella estivesse ferida – horrivelmente ferida – e a única forma de salvá-la fosse transformá-la?"

Não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando.

"Primeiro, eu evitaria isso. Não permitiria que Bella chegasse a esse extremo".

"Mas não pode estar com ela sempre, Edward. Há lugares onde você não pode ir com ela. E ela não estará em Forks todos os dias de sua vida, do resto de sua vida"

Algo se iluminou em minha cabeça.

"Você a viu indo embora de Forks?"

Alice olhou para seus pés evitando meu olhar.

"Alice, isto é importante". Segurei fortemente seus braços com minhas mãos, forçando-a a me olhar. "Onde Bella estava em sua visão? Quando estava ferida, estava em Seattle?"

Seus olhos brilharam. Como sabia?

"Bella disse hoje a esses três rapazes que a razão de não poder is ao baile era porque tinha planos, queria ir a Seattle".

Alice fechou os olhos e murmurou um silencioso:

"Oh, não"

"Você a viu, não é? Você a viu em Seattle?"

Assentiu, dando-me razão. O pouco calor que havia em meu corpo desapareceu num instante.

"O que acontecerá?"

"Não sei", disse honestamente. "Tudo o que vi é que estava ferida. Estava morrendo e você..." a encontrava e a salvava. "Você a traz para Carlisle, como em todas as outras visões".

A raiva que suprimi anteriormente estava começando a voltar a superfície.

"Onde? Onde em Seattle?"

"Não tenho certeza. Para ser sincera, nem sequer sei se era Seattle. Só sei que não era Forks. Era em um beco escuro e sinistro. Pensei que não fosse comum ela estar em um lugar assim".

"Ela não vai a lugares assim. Não se pode evitá-lo". Me afastei dela mais irritado e com uma determinação que não tinha em anos.

"O que você vai fazer?", me chamou Alice.

"Vou salvar sua vida – outra vez".

Correu atrás de mim.

"Como?"

"Quebrando minha promessa de permanecer longe dela"

"Edward?"

Me detive abruptamente e me virei para olhá-la.

"De qualquer forma é inútil. Nossa família sabia que eu era incapaz de ficar longe dela, até você. Assim, se vou quebrar as regras, então vou quebrar todas. Não vou mais me reprimir, e não a deixarei morrer".

Articulei a última frase com precisão.

O rosto de Alice se contorceu em preocupação.

Mas a tentação será grande... tenho medo por você.

"Vou caçar agora, Alice. Volte para casa e conte a eles que o trato terminou. Se não gostarem... que não gostem".

Com uma velocidade supernatural, deixei-a antes que tivesse a oportunidade de falar sobre minha decisão. Corri e subi nas árvores atrás de casa, desesperado por me livrar da ansiedade que estava sentindo. A dor de ver Bella com outro homem – o medo de ver sua vida encurtada – a sensação inequívoca de querer mais dela do que eu nunca quis de ninguém em minha existência inteira.

Corri tão rápido quanto pude, com uma raiva irrefreável, desejando poder escapar deste destino que se havia imposto diante de mim. O vento rugia ao meu redor enquanto tentava escapar deste duro destino que me rodeava, que rodeava meu corpo como se fosse uma corda envolta de meu pescoço. Agora estava dentro do bosque e o odor de sangue fresco chegou a mim.

Na distância divisei a minha presa – um indefeso e inofensivo cervo, o que significava nenhum desafio. Não tinha ido caçar em nossa zona habitual, onde encontraria algum oponente que valesse a pena. Mas não tinha tempo. Minha sede era muito poderosa e precisava beber para pensar mais claramente e quietar esses pensamentos irracionais que me invadiam.

Em questão de segundos, tinha entre meus dentes o pescoço do animal. Ele lutou e me mexeu violentamente, mas o veneno que se introduziu em seu corpo o acalmou. Bebi dele, extraindo a essência de sua vida e saboreando a quentura de seu sangue através de minhas veias.

Me perguntei o que Bella acharia se pudesse me ver agora, drenando uma criatura indefesa, bebendo seu sangue. Me perguntei o que pensaria se soubesse que a minha sede pelo sangue deste animal não era nada comparado a minha ânsia de provar o dela. Ficaria com náuseas, é claro. Para mim, o sangue era uma necessidade, sem ele, não estaria vivo. Sabia por experiência própria que a dor de me abster de beber era muito intensa até para o mais forte de nossa raça. Mas para Bella, seguramente, beber sangue era algo que só um monstro faria.

E eu era um monstro.

Bebi, e quando terminei, encontrei outro e bebi dele também. Minha sede estava longe de se extinguir, e considerei com pessimismo que o sangue de Bella era o único suficientemente potente para satisfazer minha sede. Deixei cair o corpo rígido e sem vida do animal no chão e fiquei em pé contra o vento impactante, contemplando meu próximo movimento. Olhei para o sombrio céu, rezando por alguma intervenção divina ou para que qualquer divindade para que me escutasse. Talvez minha atenção devesse se focalizar no Inferno e não no Céu, já que, com a mais absoluta certeza, era o demônio que me havia colocado nesta posição.

Todos os meus pensamentos se centravam em Bella e a distância que nos separava, tanto física quanto espiritual. Tudo o que eu havia feito desde o dia que ela chegou a Forks tinha sido por seu próprio bem. Tinha colocado meus próprios desejos e tudo que queria em segundo plano para garantir sua segurança. E agora enfrentava a possibilidade de que meus esforços foram em vão. Apesar de parecer totalmente incrível, tal como as coisas eram, manter-me afastado dela a havia colocado em grave perigo. A única forma de protegê-la era ficar com ela. Contrário a regra. Mas não tinha opção.

Meus pés começaram a se mover por vontade própria passando de casa até a cidade. Não me importava o que estivesse fazendo a noite. Não me queixava sobre o clima gélido. Minha única preocupação era Bella e a certeza de não condená-la a meu inferno pessoal.

Parei do lado de fora de sua casa, debaixo da janela de seu quarto, e esperei até que a casa ficasse em completo silêncio. Não havia nenhuma luz acesa e os únicos pensamentos que podia escutar eram os do seu pai dormindo. As estrelas me confirmaram que era tarde, e me arrisquei a entrar na casa de Bella.

A luz da lua era a única fonte de luz em seu escuro quarto, não precisava de muita luz para ser capaz de vê-la com meus olhos inumanos. Seus traços eram tão delicados e belos – a palidez de sua pele... com um ligeiro rosado em suas bochechas. Esse rubor servia como um lembrete de que ela era humana, o abismo que nos separava.

Olhei seu peito subir e descer em um ritmo sereno, o som de sua respiração tão estridente para a tranqüilidade do quarto. Comecei a respirar no ritmo dela, querendo alcançá-la, ser igual a ela num nível tão básico. Era impossível, já que sua mortalidade a fazia muito superior a mim.

E então me dei conta de algo tão profundo que quase perdi o chão. Não era pela transformação, mas porque, se tomasse o que queria, ela morreria e nunca mais seria capaz de ter a oportunidade de ver essa assombrosa criatura dormindo diante de mim – nunca mais escutaria o tom de sua voz, nunca mais sentiria a fragrância de sua pele. Tinha valido a pena me abster durante quase um século para estar diante de sua presença.

Queria mantê-la viva e mortal... e ainda assim, sabia que não ia poder tê-la dessa forma. Eu era uma criatura muito egoísta para tomar só um pouco e recusar o prêmio inteiro. Ficar com ela, tê-la em minha vida, significava sacrificar grande parte da essência que me havia levado até ela. Queria que fosse humana, mas também queria sua companhia. Permiti a mim mesmo aceitar isso. Queria Bella da mesma forma que Esme queria a Carlisle. Mas isso não podia acontecer enquanto fosse humana, e não queria tirar sua mortalidade.

Mudou de posição, colocando sua cabeça para trás e me revelando a suave pele de seu esbelto pescoço. Meus olhos instantaneamente se tornaram vermelhos, vendo o líquido vermelho que corria em sua jugular. Sua garganta. Oh, que fácil seria beber dela! Como desfrutaria seu sabor. Prová-lo serviria para me satisfazer por anos. Me inclinei até ela e inalei seu doce perfume. Se tomasse o que queria a perderia para sempre. E eu a queria para sempre.

Qual é o velho ditado? Dois proveitos não cabem num sofá?*(N/T)

Me levantei sem fazer ruído, e dei uma espiada antes de tentar entrar em sua mente. Se soubesse seus sentimentos, isto não tornaria a minha decisão tão difícil. Me aceitaria como amigo? E se ela descobrisse a verdade sobre o que sou, poderia me olhar sem medo ou nojo? O que queria? Minha mente gritava por respostas.

O que você quer, Bella?

Então pronunciou meu nome.

Fiquei paralisado com os olhos muito abertos e curioso, como um animal em frente das luzes de um carro que se aproxima. Me perguntei por um momento se meus movimentos a haviam despertado de alguma maneira, mas estava tranqüila e profundamente adormecida. Será que havia imaginado? Meus olhos nunca deixaram seu rosto e vi sua boca se abrir. Disse meu nome mais uma vez.

"Edward"

O movimento de seus olhos atrás de suas pálpebras me mostrou que estava sonhando. Mais que isso, que estava sonhando comigo. Deixei que esse pensamento inundasse todo o meu ser enquanto buscava o porque, indeciso em como reagir. Pela primeira vez em quase um século, podia jurar que havia sentido meu coração bater.

E então, escutei o eco da voz de Esme em minha cabeça.

Não é normal viver sozinho. Para ninguém. Bella. A vontade de me colocar ao seu lado e tocá-la era enlouquecedora, mas não queria interrompê-la em seu descanso. Fechei os olhos e imaginei como seria tê-la entre meus braços novamente, inalar sua fragrância, provar a doçura de sua pele, escutar o som de seu coração batendo com força.

Por mais que tentasse, não poderia fugir do destino... ou de Bella. Abandonei as sombras de seu quarto para voltar a caçar. Precisava estar forte se ia deixar que o destino guiasse minhas ações.

* (N/T): Queria agradecer a minha professora de inglês que me salvou com esse provérbio:Have your cake and eat it, too. - Dois proveitos não cabem num sofá. Thanks!!!

N/T: Como já sabem, comentários são sempre bem-vindos 