CAPÍTULO SEIS – BACK TO REALITY

Bella POV.

Alguns segundos se passaram sem Alice e eu dizermos nada. Seus olhos ora estavam em meu rosto e ora em minhas marcas.

O que eu poderia dizer?

- Alice... – comecei, tentando mais do que nunca segurar as lágrimas. – Só... Não é nada disso do que está pensando.

Ela levantou uma sobrancelha.

- Não? – Aproximou-se. – Bella, você está cheia de marcas!

- Eu... – comecei a pensar em uma mentira rápida. – Eu caí...

No que eu havia me tornado? Em uma dessas mulheres que mentem que levam tombos cada vez que tinham que ir a hospitais por terem apanhado dos maridos/namorados e irmãos?

- Sério? – indagou. – Bella, se você precisar de ajuda e estiver com medo é só...

A dor e humilhação me queimaram e eu desviei os olhos.

- Não – disse. – Eu não estou pronta para falar sobre isso... Podemos só sair?

Ela suspirou pesadamente e assentiu. Antes que resolvesse falar alguma coisa, adentrei o quarto para me trocar.

Não demorou muito até que eu estivesse pronta, voltando para a sala somente com o celular no bolso.

Senti os olhares de Alice ainda em meus ombros, agora cobertos. Eu sabia que tinham várias perguntas em seus olhos enquanto caminhávamos para fora de casa e íamos até um shopping ali por perto.

- Edward conversou comigo hoje. – Alice disse de repente, fazendo-me imediatamente olhar para ela.

O calor em minhas bochechas denunciou que eu estava, mais uma vez, corando.

Edward provavelmente me odiava agora. Em nenhum momento pensei que Alice estivesse aqui por causa dele, por causa do que havia acontecido antes.

- Ele me odeia – sussurrei, desviando meus olhos para longe dela.

De repente eu quis esclarecer tudo para Alice.

Fazia muito tempo que eu não desabafava com alguém.

- Eu nunca imaginei que isso iria acontecer – continuei. – Ele me beijar e tudo o mais. Falei que seríamos amigos, porque nunca quis iludir ninguém, mas...

- Está tudo bem – interrompeu-me. – Eu só queria entender porque não disse nada quando você foi lá em casa ou em algum momento que conversou com Edward. Acho que eu entendo agora.

Respirei fundo.

- Eu posso te pedir algo, Alice?

O shopping estava um pouco cheio e foi difícil achar um local para sentar. Conseguimos, porém, de modo que consegui me virar para Alice e olhá-la.

Ela assentiu.

- Você pode não contar para ninguém o que viu hoje?

Eu não precisei esclarecer muita coisa mais. Ela sabia do que estava falando.

E para a minha surpresa, simplesmente assentiu, fazendo-me respirar aliviada.

Meu segredo estava seguro com ela.

Edward POV.

Eu não sabia dizer em exatamente qual momento Alice havia saído de perto de mim e ido falar com Bella, porque no sofá estava e ali permaneci, ainda meio que surpreso com a revelação.

Só que em algum momento eu teria de mexer e fiz isso, levantando-me e rumando até o quarto que outrora me pertenceu.

Pelo fato de eu ter ido morar sozinho logo depois de ter começado a faculdade, meu quarto ainda era "jovem" demais. Embora composto por uma cama de casal, como em todos os quartos da casa, com certeza dava para se notar que era um adolescente que vivia ali.

Não me importei com isso, como nunca havia me importado.

Deitei-me na cama e puxei o travesseiro para mim, afundando minha cabeça ali. Meus olhos se fecharam automaticamente, enquanto eu ainda desejava que Bella corresse até a mim, gritando que tudo não passara de uma brincadeira e que ela era solteira.

Isso não aconteceu.

Acho que acabei adormecendo, porque quando abri os olhos novamente, encontrei outro par de olhos da mesma cor que os meus me encarando.

Alice.

- O que foi? – murmurei, rolando na cama e bocejando.

Eu nem tinha percebido que estava tão cansado.

- Conversei com a Bella... – começou. – E tenho algo para falar com você.

Meu coração pareceu parar de bater por um segundo, antes de voltar a martelar em meu peito com o dobro da velocidade.

- O que ela falou? – Me vi de repente sentado na cama, atento a Alice.

Eu precisava saber de tudo.

Alice respirou fundo, mexendo na colcha que cobria minha cama.

- Eu preciso que você ouça com atenção – disse. – Bella tentou desconversar e não afirmou com todas as letras, mas eu tenho certeza do que eu vi. Aliás, acho que qualquer um poderia se estivesse na mesma situação que eu.

- O que foi, Alice?

Por que ela estava enrolando tanto? Por que não me falava de uma vez o que estava acontecendo?

- Quando cheguei – começou –, Bella estava de blusa de frio. Eu lhe passei a sacola com as roupas que tinha escolhido para ela e a mesma me pediu que sentasse, já partindo para um corredor.

- Eu não estou entendendo o que isso tem a ver comigo – interrompi-a, verdadeiramente confuso.

Alice me fuzilou com os olhos.

- Deixe-me terminar e saberá – disse, para logo depois suspirar. – Eu tinha que lhe dizer que o sapato estava embrulhado em outra pequena sacola, porque não tinha certeza se ela veria, então a segui pelo corredor e vi uma coisa que...

Eu sabia que ela me xingaria novamente, mas ela estava enrolando.

Eu precisava saber logo o que tinha acontecido.

- Só fale, Alice – pedi.

Na verdade, eu acho que implorei.

- Bella estava tirando a blusa de frio – sussurrou. – E eu vi marcas, Edward. Marcas horríveis. De mãos e, parecia pelo menos, de cintos.

Continuei-a encarando, deixando que aquelas palavras fizessem sentido para mim.

- Pareciam melhores já – murmurou. – Esverdeadas, amareladas. Mas eram, sem dúvidas, aparentes.

Alice não precisava dizer mais nada para que eu chegasse à mesma conclusão que ela, muito embora fosse horrível pensar nisso.

Mas ela disse assim mesmo.

- Bella apanha do marido.

Eu não sei dizer por quanto tempo fiquei ali, parado, encarando minha irmã.

Não podia ser verdade, eu não podia acreditar naquilo. Porque Bella, a encantadora Bella, a menina-mulher pela qual eu me encontrava extremamente apaixonado, não podia apanhar do marido.

- Edward? – chamou minha irmã, esperando que eu dissesse alguma coisa.

Só que eu fiquei ali, em silêncio, absorvendo tudo o que ela havia me dito.

Por que tudo o que se tratava de Bella parecia ser capaz de me deixar calado e em choque?

Eu conseguia ver, mesmo não tendo, de fato, visto.

As marcas que o cara que eu odiava sem nem conhecer deixava nela. Naquela pele tão delicada, tão branquinha e que parecia ser tão suave. Na verdade, se fosse igual ao rosto dela, seria muito mais que isso.

Seria perfeita.

- Ela apanha... – consegui sussurrar. – Ela apanha...

Não sei bem o que despertou a raiva que tomou conta de mim naquele momento.

Talvez o fato de eu te me dado conta que estava apaixonado. Ou talvez o fato de que nenhuma mulher devia apanhar.

Mas achava mesmo que era por ter imaginado tudo.

Minha cabeça construiu aquelas imagens dolorosas que eu sabia que me seguiriam sempre. Bella, encolhida em um canto, enquanto o marido batia nela.

Ela não merecia passar por aquilo.

- Edward!

Somente quando a voz de Alice, um pouco nervosa, me chamou que eu percebi que apertava o travesseiro com muita força.

Pisquei algumas vezes, afrouxando meus dedos e percebendo o quão dolorido eles estavam.

- Desculpe – suspirei. – É só que...

- Eu sei – interrompeu-me gentilmente. – Mas... Bom, eu prometi a Bella que não contaria a ninguém. Então, por favor...

- Alice – cortei-a. – Não pode jogar uma bomba dessas em mim e achar que eu vou ficar calado.

Ela revirou os olhos.

- Não estou pedindo que fique calado – deu de ombros. – Só que vá aos poucos se aproximando e tenta descobrir algo. Algo que possa nos ajudar a ajudá-la.

Assenti.

- Ela está com medo – disse mais suavemente. – Ela nem mesmo admitiu para mim. Não acho que alguém saiba de alguma coisa.

Tornei a assentir.

- Vou dar um jeito, Alice – disse. – Mesmo que eu não vá... Ficar com ela, eu preciso dar um jeito.

Porque eu só queria vê-la bem e feliz.

Bella POV.

A segunda chegou, fazendo com que eu ficasse feliz e triste ao mesmo tempo.

Eu gostava de trabalhar e amava muito cozinha, embora não pretendesse seguir essa carreira para sempre.

Porém, quanto mais rápido os dias passassem, mais rápido Riley voltaria.

E eu não queria isso. Queria continuar a fingir que era solteira e feliz, mesmo sabendo que não podia fingir para sempre.

Outra coisa me perturbava também. Edward não apareceu, não deu notícias.

Eu gostava da companhia dele, gostava de conversar. Mas ele queria coisas que eu não podia dar e nunca poderia.

No fim do expediente, tinha perdido as esperanças. Ele não veria.

Eu nunca mais o veria.

- Até amanhã, Sue – disse, quando meu expediente acabou. – Tem certeza de que não precisa de ajuda para fechar?

- Vá com Deus, menina – sorriu. – E fique tranqüila. Vá se divertir. Eu fecho.

Sorri.

- Tudo bem – dei de ombros. – Até amanhã.

Saí da confeitaria e comecei a andar em direção ao ponto de ônibus, lamentando o fato de o dia ter acabado.

Mas eu não precisava ir para casa, precisava? Sorrindo, resolvi ir até a biblioteca.

Eu estava morrendo de saudades de fazer isso.

- Bella?

Eu congelei imediatamente. Não esperava ouvir aquela voz novamente.

Virei-me, pronta para perceber que eu estivera imaginando coisas. Mas Edward estava ali, um sorriso triste no rosto.

- Oi... – corei um pouco. – Algum problema?

Ele se aproximou.

- Que tal eu te levar em casa? – indagou.

- Eu estava indo para biblioteca – mordi o lábio. – Preciso muito pegar alguns livros.

Os olhos de Edward brilharam um pouco.

- Eu te levo – riu. – Só preciso passar em um lugar antes.

Edward nos levou ao shopping, direto para uma livraria.

- Qual livro você vai comprar? – indaguei, empolgada para mostrar alguns a ele.

Ele riu de novo.

- Por que você não me sugere alguns?

Não sei dizer quanto tempo ficamos ali, enquanto eu mostrava diversos livros a Edward. Ele ria do meu entusiasmo, sempre pedindo mais opiniões e perguntando o que eu tinha achado do livro.

- Se fosse para comprar algum livro para você hoje – começou –, qual escolheria?

Não precisei pensar muito.

- Será que pode me levar à biblioteca agora? – perguntei. – Preciso mesmo pegar...

- Esse livro aqui?

Edward e eu estávamos tomando sorvete. Ele tinha comprado alguns livros, mas eu não tinha visto comprá-los, preferindo observar enquanto ele enfrentava a fila.

- Você comprou? – sorri, pegando o livro estendido das mãos dele. – Vai adorar! Pelo menos, eu acho...

- É para você – sorriu. – E não tente negar.

- Mas... – franzi a testa. – Eu pensei que... Não posso aceitar, Edward, eu...

Ele negou com a cabeça, colocando um dedo sobre meus lábios. Corei.

Sem dizer nada, peguei minha bolsa, juntando o restante do dinheiro que eu tinha. Passaria algum aperto e provavelmente não teria dinheiro para passagem durante alguns dias, mas eu tinha que fazer aquilo.

- Toma – estendi o dinheiro, um pouco envergonhada.

Edward franziu a testa.

- O que?

- O dinheiro do livro – murmurei.

Por que ele não aceitava logo para eu parar de corar?

- Não vou aceitar, Bella – disse, firme.

- Mas... – gaguejei. – Eu não posso aceitar!

- Por que não?

Eu sempre fui acostumada a pagar as minhas contas. Charlie nunca foi rico e por isso eu tive que aprender a me virar. Estudava e trabalhava. Sempre foi assim.

Eu não estava acostumada a pessoas querendo pagar para mim tudo o tempo todo.

- Por favor – pedi. – Eu me sentiria melhor.

Seus olhos se estreitaram.

- Só dessa vez? – Seus olhos verdes voltaram intensos para mim. – Por favor?

Mordi o lábio inferior e desviei os olhos.

Derrotada, voltei a guardar meu dinheiro na mochila, tentando ignorar o sorriso vitorioso de Edward.

- Vamos? – disse.

Ele sorriu durante todo o caminho e depois que começou a falar sobre os livros que comprou, comecei a sorrir também.

Até chegarmos a casa dele.

- Obrigada por tudo, Edward – murmurei. – E mais uma vez, desculpe-me...

Ele pegou minhas mãos nas suas e elas pareciam minúsculas ali.

- Tudo bem – sorriu. – Eu quero estar na sua vida, Bella. Afinal, você é uma pessoa adorável. E se for como amigo será.

Não entendi bem o que ele quis dizer, mas assenti.

- Obrigada – ri. – Por tudo.

- Disponha – piscou. – A gente se vê.

Acenei mais uma vez e saí do carro, esperando o carro sair e adentrando a casa.

Tranquei a porta e me virei, já tateando até achar o interruptor.

Acendi a luz e já segui para a cozinha, colocando a água para esquentar enquanto cantarolava uma música qualquer.

De repente, senti uma presença que fez meu corpo todo paralisar. Os pelos de meu corpo arrepiaram e eu tremi.

- Vejo que está feliz Isabella. – Riley disse.

Eu me virei, sem saber o que dizer.

- Surpresa, querida? – indagou, sorrindo, seus olhos quase se fechando. – Eu resolvi voltar da viagem um pouquinho mais cedo.

Ele estava bêbado.

- E enquanto eu estava aqui... – continuou, se aproximando. – Eu achei umas coisinhas bem interessantes.

Eu não conseguia me mexer, nem dizer nada.

Estava congelada, tomada pelo choque.

Eu me preparara psicologicamente para a volta dele dali a quase uma semana, não agora.

E ele estava bêbado.

- Que casaco masculino é aquele no nosso quarto, Isabella? – indagou.

Tremi.

O casaco que Edward me emprestara e eu me esquecera de devolver.

Lágrimas tomaram meus olhos.

- E acho que você dormiu fora também, não dormiu? Roupas diferentes tomando conta de suas coisas... Por quê? Achou que eu não iria descobrir?

A mão dele adentrou minha nuca, puxando meus cabelos e consequentemente minha cabeça tombou para trás. Seus olhos eram gélidos.

E eu temi.

- Riley... – gaguejei.

Eu não sei qual tapa me atingiu primeiro, mas sei que doeu. São em lugares, como sempre, que ninguém pode ver. Não entendi por que ele evitou os ombros, atingindo do estômago para baixo.

Em algum momento, o sono pareceu tomar conta de Riley e ele me largou ali, na cozinha.

Sozinha, com lágrimas nos olhos e dor.