Capítulo VII
Poção renegada
Os exames de final de ano finalmente beiravam, o que era um alívio, e ao mesmo tempo um horror. Um alívio porque teríamos as merecidas férias, um horror porque eu isso me lembrava que nas tão merecidas férias eu teria que voltar para casa, e isso implicaria a encontrar meu pai e a estilista que eu já nem lembrava mais o nome. Lee havia conseguido se livrar da acusação de homicídio, depois de ter cerca de cinqüenta alunos testemunhando a favor dele, mas nada disso foi capaz de impedir o longo discurso de Chloe sobre como tínhamos que nos portar diante da escola, uma vez que a fama de nossa família já não era das melhores.
- Você sabe o que nossos avôs foram, não sabe? – Ela nos dizia. – E a maioria dos nossos tios,..não? – Ela continuava, e eu e Lee parecíamos cada vez mais entediados. – Querem ser comparados a servos Daquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado?
- Chloe, esta é nossa família, não podemos negá-la, somos isso...a família da mamãe inteira foi...- Eu tentava fazê-la parar de tentar mudar o destino, mas ela me interrompia na maioria das vezes.
- Mamãe não era.- Sua voz, quando se referia a muitos assuntos, mas principalmente a mamãe, era quase de choro.
- Mamãe não era, e você viu o que aconteceu com ela?- Eu jogava às vezes na cara de minha irmã, sem conseguir me controlar. Ela me cansava a paciência, que não costumava ser muita.
Então era sempre a mesma coisa, os olhos dela se enchiam de lágrimas e ela correria para longe, na maioria das vezes em que eu ia atrás, ela ia para o banheiro, e só saia de lá horas depois.
Discutir com Loe era algo inevitável, mas ao mesmo tempo que me deixava mal, ela era frágil, e por mais que tentasse fazê-la ser mais forte, ela parecia ficar cada vez mais sensível.
Quando finalmente o exame de poções chegou, o ultimo, graças a Merlin, me vi em uma situação complicada. Eu entendia perfeitamente as aulas de poções, não porque eu gostava, mas porque parecia algo tão natural para mim, que crescera vendo minha mãe fazê-las, e ajudando-a, que não me parecia grande problema, porém, mostrar que eu era boa em poção, eu já havia percebido, só de assistir as aulas, me trazia alguns problemas. Certa vez, em aula, Benjamin Harshow, o professor de poções, que por acaso estudara com minha mãe em Hogwarts comentou, ao me ver acertar a Poção de Wiggenweld de primeira, sem ele ter nos instruído a fazê-la.
- Vejo que a genética da senhora Anita Johanson lhe favoreceu, senhorita Heather. Excelente, perfeitamente executada. – Ele me elogiou, e isso havia sido uns dois meses depois das aulas começarem, desde então as pessoas passaram a me perguntar e às vezes me comparar à minha mãe, o que era extremamente irritante. Eu não era ela, não tinha nada a ver com ela. Aliás se tivesse que me comparar com qualquer um dos meus pais eu preferiria dizer que era órfã. Além de ter que agüentar Loe dizendo que eu era mais parecida com mamãe e ela do que eu imaginava, uma vez que ela também se dava bem em poções.
Quando o professor, anunciou, finalmente, que nossa tarefa para a prova seria realizar uma Poção Estimulante, fosse das mais fortes ou da mais simples, eu pensei "que babaca, a coisa mais fácil impossível", na mesma hora, e mesmo sabendo perfeitamente que além do Chifre de Bicórnio e Raiz de Mandrágora, era necessário um Caldeirão de Cobre para que a poção desse certo, eu fui atrás de um caldeirão flexível e simples. Sabia que minha nota não seria extraordinária, pois a poção não sairia completa, porém sabia que havia acumulado pontos o suficiente com trabalhos e outras pequenas provas que me permitiriam passar na matéria sem maiores problemas, mesmo não tendo acertado o último exercício.
O professor Benjamin Harshow me chamou, ao final, quando já havia corrigido todas as poções e todos os alunos já haviam deixado a sala, a maioria feliz por estar de férias.
- Senhorita Johanson...- Ele puxou uma cadeira para que eu pudesse me sentar.-...não tenho dúvidas de sua incrível capacidade de realizar poções, mesmo quando de propósito, tenta fazê-las não dar certo e resmunga o quanto as odeia. Tive provas o suficiente do quanto a senhorita é provida de inteligência...- Ele baixou os óculos redondos, pousando-os na mesa onde havia se sentado, revelando as grandes orbes azuis acinzentadas, logo a minha frente. Imaginei que sem óculos ele parecia muito mais novo. -...e eu sei muito bem que como em outras ocasiões, errou propositalmente. – Ele suspirou, mas não me deu tempo de responder.- Devo dizer que conheci sua mãe, muito bem por sinal, ela era uma grande colega, e graças a ela comecei a gostar de poções...e apesar de pensar que não tem nada a ver com ela, e que apenas sua irmã, Chloe, que certamente é uma cópia viva de Anita, tenha herdado os dotes de sua mãe, devo dizer que você possa a vir se surpreender, pois vejo em você, assim como vejo em Chloe, Anita Johanson..e...
Mas eu o interrompi, não deixaria continuar jogando na minha cara o quanto eu era parecida com minha mãe.
- Eu não tenho nada a ver com ela, senhor Harshow. NADA! – Aumentei o tom de voz quando repeti a palavra e me levantei. -...ela era uma covarde. Uma mulher que se submetia a viver para um idiota que nunca lhe deu o mínimo respeito...e mesmo assim preferiu largar três filhas, por ter sido rejeitada pelo idiota. Ela não tinha um pingo de força...e se você quer saber, o que me irrita tanto em minha irmã, é enxergar nela cada vez mais minha mãe, cada vez mais...- Dei-lhe as costas e saindo da sala, sabendo muito bem que isso poderia me causar uma suspensão, na pior das hipóteses.
Aquela conversa estranha com o professor de poções me fez ficar revivendo a cena várias e várias vezes enquanto eu empacotava minhas coisas para sair de férias. Muita coisa ainda pairava em minha mente, o fato de eu não ver mais Dustin Hawkins, o Sonserino sombrio cheio de tatuagem que costumava me deixar intrigada, uma vez que provavelmente, a não ser que ele fosse reprovado, esse teria sido o ultimo ano dele na escola, o mistério do que havia entre Nottison e Leander, a morte de Nottison, aquela curandeira que parecia querer me confessar algo, a ajuda repentina de Vetter, a amizade entre o professor e minha mãe, a maneira como eu ainda era tratada como assassina por alguns, além do fato, claro de que em alguns dias eu estaria de volta ao meu inferno para fingir ter uma família feliz e perfeita. Isso só me desanimava mais ainda.
Quando finalmente eu conseguira enfiar tudo dentro de meu malão, arrastei-o dormitório abaixo, encontrando meu irmão, que parecia fazer a mesma coisa.
- Tudo pronto?- Ele me perguntou, indo no mesmo instante me ajudar com as malas. – E ai, o que achou do primeiro ano?- Ele sorriu, me abraçando com um dos braços e me dando um croqui. O que me fez resmungar e tentar me soltar a toda força dele.
- Foi...conturbado...- Eu ri, me jogando na poltrona da Sala Comunal, por algumas semanas eu não aproveitaria aquelas poltronas de novo. -...mas quer saber de uma coisa...- Olhei para os dois lados e o chamei para se sentar na poltrona ao meu lado, assim que ele o fez, disse em um tom mais baixo. -...é bom você me contar o que você e esse tal de Nottison tem, porque eu não quero que você seja o próximo morto...- Ele deu uma risada, mas senti que ficara tenso, então ele também analisou o lugar, vendo se ninguém vinha, e então deu continuidade.
- Quanto a morte dele, eu não tenho nada específico...quer dizer algumas hipóteses, mas nada o suficiente que me leve a crer que foi a causa de uma morte...mas quanto a nossa primeira briga, aquela antes do Natal, eu te conto, prometo, no trem, mas tem que me prometer que não vai sair de lá. – Ele me encarou com tal seriedade que eu nunca havia visto em seus olhos. Concordei com a cabeça no mesmo instante, e Aleera, Paige e Aidan chegaram, trazendo também os malões.
– Quem tá pronto pra voltar para casa?- Anunciou Aidan com uma animação, infelizmente eu não podia estar da mesma forma.
Logo fomos obrigados a deixar a Sala Comunal. Assim que deixamos o Castelo, a chuva nos pegou de surpresa e sem escolha, tivemos que correr para a carruagem que já nos aguardava para nos levar para a estação onde poderíamos pegar o Expresso de Hogwarts. A viagem até a estação não foi muito longa, e logo já estávamos embarcando no trem. Lee e eu procuramos uma cabine longe do resto da família, e desta vez Chloe não nos seguiu, estava ocupada com a trupe da Lufa-Lufa que finalmente havia se enturmado, eu não podia culpá-la, eu mesma não me enturmava com facilidade, um ano havia se passado, e eu mal havia trocado palavras com pessoas que não fossem da minha família.
Sentamos logo na primeira cabine que achamos vaga. Meu cabelo ruivo, depois da chuva, estava ensopado, e podia ser quase confundido com um cabelo castanho, se não fosse as sardas distribuídas pelo meu rosto, assim como meu cabelo, minhas vestes se encontravam no mesmo estado. Lee não estava muito diferente também, mas só de pensar na possibilidade de enfrentar a fila que havia se tornado pelo trem, que por sinal ocupava quase toda a extensão do veículo, e outra eu só estava na companhia de meu irmão...e ele...
Toc-toc. Ouviu-se o barulho na porta. Meus olhos encontram os de Lee no mesmo instante, e falamos ao mesmo tempo, como se um pudesse ler a mente do outro.
- Callie...nós...
Ambas as vozes sumiram quando ao invés de Callie, entrou um garoto, que eu se quer havia reparado, talvez ele estivesse em minha sala, porque não tinha cara de muito mais velho que eu, apesar da altura avantajada, tinha as vestes da Sonserina tão encharcadas quanto as minhas, assim como o cabelo loiro, no momento castanho quase escuro, pouco mais cumprido que o de Lee, mas sem a franja emo.
- O resto do trem tá cheio...- Ele disse, parecendo ficar repentinamente sem jeito. -...tudo bem?
Desviei meu olhar do rapaz, e busquei o de Lee, demos de ombros e concordamos com a cabeça, voltando a pousar os olhos no rapaz, que no mesmo instante adentrou a cabine e se acomodou no banco a nossa frente.
- Essa chuva estragou tudo...- Ele rosnou, parecendo que se sentia obrigado a dizer algo, revirando os olhos e cruzando os braços sobre a camisa que estava quase transparente devido a chuva. Graças à Merlin a minha estava coberta pela capa preta do uniforme.
- Pois é, deveria...haver magia contra chuva...- Disse no mesmo tom que o garoto, retrucando com Merlin. Lee olhou espantando para mim, normalmente ele era o sociável da família.
Um sorriso se desenhou no rosto dele, revelando uma covinha discreta, e eu sorri quase que na mesma hora. Depois então se fez silencio, por alguns minutos, nenhum de nos parecia ter muita afeição com sociabilidade. Então Lee se levantou, dizendo:
- Eu vou ver se a fila para o banheiro diminuiu, antes que o frio aumente...- Ele saiu então pela porta, e o momento que parecia ser de constrangimento devido ao silencio interminável pareceu piorar. Então ele quebrou o zumbido do trem se locomovendo.
- Connor...- Ele esticou a mão em minha direção. Então eu a apertei, e quando estava prestes a me apresentar ele completou. – Connor Maddox Black...desculpe, não sou acostumado à estas apresentações formais de Hogwarts.
Maddox? Eu conhecia aquele sobrenome, sabia que conhecia. Mais de onde...de algum colega? Talvez tivesse ouvido durante a seleção de casas...não, não podia ser, havia muito tempo desde o início do ano letivo...Meus pensamentos mentais pareceram parar repentinamente. Connor continuava com os olhos em minha direção, e eu continuava a apertar a mão dele. Quanto tempo me será que fiquei naquilo? Como se não bastasse minha atitude ridícula de não saber me comunicar muito bem, ainda fiquei apertando a mão do menino..e...
- Heather Johanson...- Dei de ombros e finalmente soltei a mão dele, me lembrando de que era educado da minha parte dizer meu nome em uma apresentação. Não que educação tivesse muito a ver comigo...mas...enfim.- Maddox!- Eu pensei em voz alta, infelizmente, e o menino a minha frente deu um pulo na cadeira, provavelmente por conta da minha exclamação exagerada. Eu me lembrara do nome...Kimberly Sch...alguma coisa Maddox, era isso, ele era parente da curandeira...- A curandeira de Hogwarts...ela é sua ir-...- Mas ele me interrompeu.
- Mãe. –Ele deu de ombros. – Ela é minha mãe.
Ok, eu estava prestes a dizer irmã...mas...já que ele...mas pera ai...ela não era meio nova...que eu me lembrava aparentava ter na faixa dos vinte...
- Ele me teve com quatorze anos...- Ele suspirou, dando de ombros, como se estivesse lendo o que eu estava pensado.
- Nossa...- Eu fiquei sem fala,não conseguindo dizer nada mais inspirador que um "nossa", quatorze anos era três anos a mais que eu...e definitivamente eu não me imaginava com um filho daqui há quatorze anos.
- Desculpe...- Resolvi me desculpar, de certo não havia sido muito simpática.
- Sem problemas, estou acostumado. – Ele se encostou na janela, respirando fundo, como se tivesse muito em que pensar. Me perguntei o que tumultuava sua mente. -...esta no primeiro ano, não? – Me pareceu mais uma confirmação do que uma pergunta.
Fiz que sim com a cabeça.
- É...eu imaginei, te observei durante as aulas.
Meus olhos se arregalaram e eu não consegui disfarçar minha surpresa. O que ele queria dizer com " te observei durante as aulas"? Te observei durante as aulas porque você é uma freak ou te observei durante as aulas porque você me chamou atenção de uma boa forma? Eu não soube a resposta, nunca cheguei a fazer a pergunta. Não ouve muito mais conversa depois disso, às vezes algumas trocas de olhares mais nada mais. Lee não voltou o resto da viagem, de certo se acomodou em outro vagão com resto da família. No meio da viagem, Connor tirou um caderninho, e começou a escrever algumas palavras, eu levantei os olhos, mas não consegui distinguir muitas palavras e não quis também parecer muito curiosa. Reconheci naquele gesto do caderno dele, a mesma mania que tenho de sempre carregar um caderno comigo, e me perguntei, se uma vez que ele andava me observando, teria reparado isto também. Apesar da curiosidade que me correria, não descobri naquela viagem o que havia naquele caderno.
– Quem tá pronto pra voltar para casa?- Anunciou Aidan com uma animação, infelizmente eu não podia estar da mesma forma.
