E finalmente chegamos ao final. Agradeço a todos que acompanharam.

CAPÍTULO FINAL: DIA D[1]

Era um domingo quente e ensolarado. Um dos poucos dias de folga que os líderes de ginásio tinham, mas Bugsy estava enfurnado dentro de casa, rodeado de livros sobre evolução dos Pokémon inseto. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo mal feito e depois de tantas horas de estudo, as palavras começavam a embaralhar. Será que precisaria de óculos?

Estava tão concentrado em seus estudos que mal ouviu a batida na porta. Só ouviu a segunda vez, que foi tão forte que fez a casa toda estremecer. Abandonou os livros e deu uma bela espreguiçada antes de abrir a porta. Só podia ser a Whitney e sua sutileza à Snorlax. Um dia, ela realmente iria acabar derrubando sua porta.

Abriu a porta e sentiu como se uma lufada de ar glacial invadisse sua casa. Junto com a luz da manhã que adentrava sua porta, estava parado Falkner, mãos no bolso, sorriso no rosto. Tinha um sorriso bonito e autêntico, muito parecido com aquele que Bugsy se acostumara a ver quando criança.

De todas as pessoas no mundo, a última que esperava era ele. Se fosse no começo, na mesma época de todas aquelas ligações, seria compressível tal presença. Mas não seis meses depois, quando tudo já tinha esfriado. Bugsy ficou parado, olhando o maior, sem reação. Deveria enxotá-lo de lá, fechar a porta na sua cara ou outra grosseira qualquer. Mas simplesmente não conseguia mandá-lo embora, não conseguia fazer nada.

"Você não vai me convidar para entrar?" Falkner sugeriu, num tom despretensioso e divertido. Estava espantado de como saíra natural, só Deus sabia como ele estava nervoso.

Bugsy mecanicamente deu passagem e fechou a porta quando o rapaz entrou. Apressadamente, se moveu para o outro canto da sala, no local mais longe possível de se ficar. Deu uma bela encarada no líder voador antes de lançar o olhar para os próprios pés.

"Não tenho nada para te servir." A voz saiu forçada e absurdamente infantil, como uma criança contrariada. Isso fez as bochechas do garoto inseto corarem.

"Tudo bem. Mas podemos almoçar se você estiver com fome." Sugeriu o mais velho, espiando a mesa da sala cheia de livros, a cozinha intocada e o fato que o menor ainda trajava uma roupa surrada que geralmente usava de pijama.

Bugsy encarou-o por um segundo e então voltou o olhar para o relógio próximo a cozinha. Já passava muito da uma hora da tarde. Estava tão compenetrado nos estudos que nem vira o tempo passar.

"Não. Eu estou bem assim." Enfiou as mãos nos bolsos da calça de moletom e voltou a encarar os pés.

Um profundo silêncio desceu entre eles. Falkner havia se preparado para uma guerra, cheia de acusações, gritos e choro. Embora soubesse que Bugsy era maduro para a idade, sabia também que ele era muito sentimental. Esperava muita coisa, até mesmo ser enxotado e não ter a chance de se explicar. Mas esse pavoroso silêncio, entrecortado por frases curtas e indiferentes que o estavam corroendo por dentro. Será que esperara tempo de mais, e já o tinha perdido?

"Sobre o dia do nosso encontro..." Respirou fundo, precisava continuar, mas antes disso, o jovem dos cabelos roxos o interrompeu.

"Se você veio só por isso saiba que..."

"Janine apareceu naquele dia." Interrompeu de volta. "Foi o dia em que terminamos."

Bugsy não sabia disso. Sentiu uma enorme vontade de encarar seu interlocutor, mas manteve o olhar firme nos chinelos. Sabia que eles tinham rompido na mesma época, mas não no mesmo dia.

"Eu sei que isso não atenua o fato de eu ter faltado ao nosso encontro. Só queria que você soubesse porque não apareci." Pronto, fase um, concluída.

"Ela é sua prioridade." Respondeu seco. Por essa Falkner não esperava, foi quase como um soco no estômago. Ele pensou em retrucar, mas precisava se manter calmo e no plano. Era muito mais difícil argumentar com quem não está a fim de conversa.

"Sobre o que aconteceu no aniversário..."

"Não precisamos falar sobre isso, já foi." Os olhos ainda nos chinelos.

"Claro que precisamos, foi por isso que brigamos..."

Mais silêncio. Incômodo, perturbador, sufocante.

"Aquele dia... Nós nos beijamos, não é?" A frase ficou ecoando pelo cômodo, lentamente até sumir. Bugsy sentiu o rosto corar e abaixou ainda mais a cabeça na tentativa de esconder o rosto com o cabelo. Ele não queria falar sobre o aniversário. Sabia que se falasse, milhões de sentimentos que ele vinha tentando suprimir, iriam despertar.

"Sim." Respondeu depois de um longo tempo. A voz saiu ligeiramente tremida. Não queria ir por aquele caminho, mas Bugsy acreditava que se respondesse logo, Falkner iria embora o quanto antes. Uma parte sádica de sua mente queria ficar de joguinhos, ver Falkner sofrer com a dúvida e o silêncio, mas temia que virasse um verdadeiro cabo de guerra. E Bugsy sabia que se isso virasse uma batalha, acabaria perdendo.

"E você disse que gostava de mim, certo?" Até Falkner sentiu as mãos suarem. Era uma lembrança muito vaga, podia ser um delírio seu aquelas palavras, mas ele precisava arriscar.

Só que a resposta não veio. Bugsy permaneceu em silêncio, encarando os pés, mãos no bolso. O menor sentia o coração bater descompassado. Maldito Falkner, só porque prometera esquecê-lo, surgia do nada para desenterrar o passado.

"Nós... não só nos beijamos, não é?" Bugsy sentiu o rosto corar ainda mais, até as orelhas. Whitney não tinha dito que o mais velho não se lembrava de nada?

"Não." Saiu mais firme que o adolescente esperava. Mas sentia o corpo tremer e lágrimas se formarem. Nunca conseguira pensar naquilo direito, sentira-se violado, sujo e principalmente, culpado.

Falker sentiu algo dentro de seu estômago revirar. Então era isso. Era por isso que seu corpo sempre reagia estranho quando tentava se lembrar do aniversário. Respirou fundo.

"E foi ruim?" Nenhum dos dois esperava essa pergunta. Falkner não a possuía em seu plano inicial. Mas algo dentro dele sentiu necessidade de fazê-la. Ele estava muito bêbado no dia, e sabia que quando estava assim agia principalmente por impulso, sem se importar com o resto. Sabia qual seria a resposta, mas precisava ouvi-la.

"Sim." Uma lágrima escorreu pelo rosto do adolescente, e ele torceu para que sua cabeça estivesse suficientemente baixa para que o adulto não visse. Por que Falkner tinha que perguntar essas coisas? Não foi suficiente humilhá-lo quando bêbado, tinha que fazê-lo sóbrio também. Ele não aguentava mais, queria que o outro fosse embora. Por que a pessoa que amava era a que mais lhe causava dor e sofrimento?

"Foi sua primeira vez..." Aquilo era a gota d'água. Não era uma pergunta e Bugsy não precisava daquilo. Chega daquela conversa sem sentido, chega daqueles sentimentos ruins. Tudo o que ele queria era que o líder fosse embora, assim poderia voltar aos seus estudos e voltar ao seu plano de esquecê-lo. Sim, agora mais do que nunca, ele o esqueceria.

"Isso não importa..." A frase saiu quase num grito. Bugsy reuniu o resto de coragem que tinha, iria olhar direto naqueles olhos azuis e mandá-lo embora. Quando levantou a cabeça, encontrou os grandes olhos azuis encarando-o bem de perto. O adolescente se perguntava quando Falkner havia se aproximado. Podia sentir a respiração do maior contra seu rosto e o calor que emanava do corpo dele.

Sentiu uma mão vir de encontro ao seu rosto e secar a lágrima desobediente. Depois a mão se deslocou, afastando uma mecha do cabelo bagunçado.

"Eu sinto muito." A voz de Falkner era suave e triste. Seus olhos eram chorosos, mesmo que lágrima alguma tivesse escorrido por eles. "Eu realmente sinto muito." A mão percorreu o osso da mandíbula e parou no queixo. "Nada do que eu fizer pode apagar o passado." Então, finalmente as lágrimas escorreram dos olhos escuros. Bugsy quase perdera o chão, nunca antes vira Falkner chorar. "Mas, por favor, não se afaste de mim. Eu... não posso viver sem você". Bugsy não tinha certeza se ouvira direito, sua mente ficara completamente em branco e o coração batia feito louco dentro do peito. As pernas vacilaram e ele só não foi ao chão porque Falkner o envolveu em um abraço.

Os corpos estavam unidos, os rostos muito próximos e quando Bugsy deu por si, seus lábios já tinham sido invadidos pelos do maior e o abraço o apertava tão forte que achou que seus ossos iriam quebrar. Dentro dele o coração batia enlouquecido, ele não deveria se sentir assim, mas estava muito feliz. Já em seu cérebro constava uma sensação de dejá-vu, tinha certeza que iria se arrepender de novo, mas agora era tarde de mais.

=8=

Bugsy encarava o teto do quarto, nunca reparara que a pintura estava lascada. Os lábios estavam inchados e o rosto muito vermelho. Falkner e ele se apertavam na pequena cama de solteiro do rapaz. Estavam nus, e esse pensamento o deixava ainda mais vermelho, enrolados um no outro. Falkner estava deitado sobre seu peito, as pernas enroscadas nas suas, os braços envolvendo a cintura fina. Tinha certeza que o maior podia ouvir seu coração batendo descompassado.

Não acreditava no que tinham feito. Sentia-se estranho por ter cedido tão facilmente, ainda mais depois de uma experiência tão ruim. Mas agora, os olhos de Falkner o encarando estavam gravados em sua mente, assim como os beijos apaixonados, as mãos sempre unidas e todo o carinho e gentileza que recebera. Nem em sua melhor fantasia poderia ter sido tão perfeito.

"Eu sinto muito por aquela vez". Falkner levantou a cabeça, encarando o rosto do menor. A mão afastou uma mecha do cabelo roxo. "E sinto por hoje." E ele sorriu, mas seus olhos pareciam ligeiramente tristes. Os olhos do mais jovem se arregalaram, por que Falkner estava se desculpando por hoje? Tudo tinha sido tão perfeito. "Janine."

Bugsy não podia acreditar, tinha sido usado de novo. Sentiu a sensação de dejá-vu que o cérebro tanto alertara. O estômago revirava e ele tinha certeza que iria chorar. Sentou-se bruscamente, dando as costas a Falkner.

"Eu ainda gosto dela." Confidenciou e viu os ombros nus se curvarem para frente. "É injusto não poder me dedicar integralmente a você." Os ombros balançavam lentamente, Bugsy estava chorando, um choro silencioso. "Com o tempo, ela será só uma lembrança. Mas as coisas que eu te disse foram sinceras, eu não posso mais viver sem você." Falkner encarava as costas a sua frente, tentando identificar o efeito de suas palavras. Talvez não saíra como imaginara, muito do que tinha acontecido ali não estava no seus planos. Nem mesmo dizer que ainda amava Janine, mas ele precisava ser sincero. Sincero com Bugsy, sincero consigo mesmo se realmente era aquele futuro que desejava. "É muita pretensão minha pedir que você espere..."

Finalmente o som de choro cortou suas palavras. Ele podia ver os ombros magros balançando, junto com o resto do corpo. Os soluços eram mal impedidos pelas mãos. Falkner estendeu a mão para alcançar o garoto, mas parou no meio do movimento.

"Durante seis meses eu tentei me convencer que eu superaria tudo o que sentia por você. Não importava quanto tempo demorasse, eu superaria. Mas não importa o que aconteça ou o quanto eu tente, eu não consigo..." A frase morreu em meio ao choro. Lentamente o garoto se virou, o rosto completamente lavado pelas lágrimas. "Não importa o que eu diga ou pense, eu não consigo te esquecer." Um sorriso infantil e confiante de repente se instalou no rosto molhado. "É claro que eu vou esperar até você estar pronto."

Falkner ficou parado, encarando o garoto a sua frente, com aquele lindo sorriso infantil e palavras que ele nunca esperava ouvir. Realmente, Bugsy era muito mais maduro do que imaginara. Queria dizer tanta coisa, externar de todas as formas que podia a enorme felicidade que sentia, mas tudo que conseguiu fazer foi puxar o garoto pelo braço, acomodá-lo em seu colo e abraçá-lo fortemente. Bugsy envolveu o pescoço do maior com os braços e descansou a cabeça sobre seu ombro.

"Falkner..." Chamou com a voz melodiosamente infantil.

"O que é?"

"Eu te amo." E Falkner teve certeza, aquelas palavras soavam lindas na voz de Bugsy.

=8=

"Não acredito que ela está se casando." Falkner ajeitou a gravata borboleta pela milésima vez, odiava roupas tão formais.

"Não acredito que ela achou outro trouxa para se casar." Constatou Morty, encarando o casal de noivos no outro extremo do salão. Morty, Falkner e Bugsy dividiam uma mesa perto da entrada do salão.

Era o casamento de Whitney, o segundo em menos de três anos. Ela trajava um vestido rosa chiclete enquanto exibia o noivo como um troféu. Assim como em seu primeiro casamento, ela fizera questão de fazer uma festa suntuosa e convidar até quem ela só conhecia de vista. O lugar, um salão rodeado por um enorme jardim, estava cheio e barulhento.

"Quanto tempo acha que vai durar?" Perguntou Falkner ao colega sentado a sua direita.

"Umas duas semanas, se ele tiver sorte." Apostou Morty, com um sorriso sádico.

"Quietos vocês dois!" Repreendeu Bugsy, sentado a esquerda de Falkner.

Os três estavam tão compenetrados na discussão que nem perceberam Janine, que chegara atrasada, passar por sua mesa. A garota encarou-os por um segundo e então partiu para cumprimentar a noiva.

=8=

A garota dos cabelos violáceos estava apoiada sobre o balaústre, encarando o jardim. Ela trajava um elegante vestido de verão preto e bege.

"Você está muito bonita." Falkner elogiou, aproximando-se da ex-namorada. Eles se viam muito pouco atualmente.

"Você também está ótimo." Ela sorriu, virando-se para ele. "E parece que ele te faz muito feliz."

"Ele?" Falkner perguntou sem entender.

"Eu vi vocês de mãos dadas, quando passei pela sua mesa." Ela sorriu. Falkner sentiu o rosto corar, não era de conhecimento público seu relacionamento com Bugsy. Os únicos que sabiam eram Morty e Whitney. "Sinceramente, acho que você não poderia ter feito escolha melhor." E se inclinou, depositando um beijo no rosto do líder de Violet. Ela sorriu, ele sorriu de volta. Janine era adorável e apaixonante, mas nunca mais voltaria a ocupar um lugar em seu coração, agora ela era só uma boa lembrança. Com um aceno, a moça se retirou e foi falar com Erika.[2]

"O que ela queria?" Quase como se tivesse se materializado ao seu lado, Bugsy estava ali, encarando furioso a garota que partia. Não tinha nada contra a moça, mas morria de ciúmes de qualquer um que se aproximasse muito do garoto de cabelo azul.

"Ela só..." Só então percebeu que o jovem carregava o buquê da noiva nas mãos. "Mas, o que é isso?"

"Ah..." Bugsy sentiu o rosto corar. "Era só para as meninas, mas Whitney achou que seria divertido se eu estivesse no meio... E eu acabei pegando." O rosto estava ainda mais vermelho.

"E já escolheu sua noiva?" Falkner provocou.

"Eu não quero noiva nenhuma, nem quero me casar." E levantou o braço para atirar o buquê no chão. Mas Falkner foi mais rápido e o puxou pelo braço, unindo o corpo ao seu. Segurou o garoto pelo queixo e o encarou com os grandes olhos azuis.

"E minha noiva, você aceitaria ser?" Bugsy ficou com o rosto em chamas, e empurrou o mais velho, afastando-o.

"Não diga esse tipo de coisa." Atirou o buquê no namorado e saiu em passos largos.

Falkner não pode deixar de rir da situação. Mesmo depois de tanto tempo, era engraçado ver como Bugsy ficava tímido e acanhado. Janine tinha razão, ele não poderia ter escolhido melhor.


N/T: [1] Dia D foi o dia onde os americanos e ingleses invadiram a Alemanha, e foi crucial na vitória da II Guerra Mundial. Atualmente, o Dia D é usado como expressão par um dia ou momento de decisão, onde seus acontecimentos são responsáveis pelo futuro da história.

[2] Líder de ginásio de Celadon City, em Kanto. Especialista em Pokémon planta.

Espero que tenham gostado, e não deixem de comentar!