I wanna roll with him

Gina ganhou novo fôlego para adentrar a história, ganhou algumas respostas, mais curiosidade e até compaixão por Draco quando soube o que realmente levara Malfoy à entrar na vida que ele demonstrava tão claramente não gostar.

Porém, anteriormente, por mais duas outras noites Gina fora surpreendida pela presença sorrateira de Draco Malfoy ao seu lado. Ela foi com ele até o carro, porque ele disse que era um lugar mais privativo, e ela como sempre tentava arrancar informações dele, sem sucesso. Tinha que jogar com todas as suas cartas e se arriscar a irritá-lo (o que não aconteceu), mas era o preço a se pagar pelo troco que daria nele mais tarde. Para alcançar seu objetivo, precisava saber mais sobre ele e confirmar as informações que já tinha sobre aquele homem misterioso.

Sua vontade de conseguir prová-lo culpado de alguma coisa se esvaía lentamente a cada vez que ele ignorava solenemente as perguntas invasoras dela. Ela se perguntava se conseguiria quebrar o gelo, já que tentara de quase tudo para fazê-lo falar e nada funcionava. Ele também estava determinado a não entregar nada sobre si, se ela conseguisse quebrar a barreira de silêncio construída ao redor dele mesmo seria pela persistência dela. Mas o destino deu uma ajuda, porque se dependesse dela, mais algumas tentativas frustradas e ela acabaria desistindo.

Ele estava diferente. Bateu nervoso na janela da sala, coisa que ele não fazia. Ele preferia ser visto por ela, agia como se tivesse todo o tempo do mundo, mas naquele dia ele corria contra o tempo. Ela o ouviu e saiu da sala. Ele disse a ela ali mesmo tudo que ela precisava saber para afastar o marido do lugar de ação dele no dia seguinte. Ele sempre buscava alguma discrição quanto a isso, mas naquele dia ignorou sua própria regra de evitar falar sobre suas atividades perto de estranhos e aquilo chamou a atenção de Gina. Mesmo sabendo que havia algo errado, ela decidiu ir atrás dele quando ele girou nos calcanhares e foi embora a passos largos em direção ao seu carro, no estacionamento ao lado do prédio onde Gina estudava.

-Porque está me seguindo, Potter?

-Porque você está apressado? - O tom dela era petulante.

-Não é da sua conta e eu não vou te responder, mesmo que faça mais milhares de perguntas irritantes como as que você sempre faz.

Ela ignorou o que ele disse.

-Eu tenho o direito de pelo menos tentar descobrir o que te deixa tão apressado, afinal você me mantém refém!

-Potter, vá embora.

Draco fechou a porta com mais brutalidade do que fazia, deixando Gina parada do lado de fora. Ela correu, deu a volta no veículo e antes que ele saísse com o carro, já em funcionamento, ela entrou e fechou a porta. Com uma freada brusca ele parou o movimento lento que o carro já fazia, impulsionando ambos para frente. Ele a encarou e falou num tom quase gritado:

-Saia daqui e vá embora, Potter! Eu já te disse!

-Pois eu não vou sair daqui. - Ela disse, colocando o cinto de segurança.

Ele fazia o movimento contínuo de bater com o indicador de uma mão no volante. A outra mão estava agarrada firmemente ao volante, tanto que os nós dos dedos estavam ainda mais brancos do que o normal. Ela viu que algo sério devia estar acontecendo, mas preferiu desconsiderar os sinais de nervosismo dele. Impulsivo como ele demonstrara ser, se alguma coisa fugia do controle dele, ele acabaria se desestabilizando e seu rígido silêncio perante as perguntas inconvenientes acabariam.

É claro que ela devia estar louca em ignorar os perigos de se andar com um cara como ele, mas ela estava tão determinada a provar pra quem quer que fosse que não era uma mocinha indefesa, que esqueceu que não só ele era perigoso, como a vida dele também. E agora ela acabara de dar um passo a mais para dentro da vida que ele tinha.

Ela soube um segundo depois que ele desatou o cinto dela com a intenção de fazê-la sair que não deveria ter entrado naquele carro. Dois homens enormes usando capuzes que não permitiam que seus rostos fossem identificados abriram as portas. Um pelo lado de Draco, outro pelo lado de Gina. O homem pelo lado de Draco o retirou do carro pelo colarinho da camisa e o atirou ao chão. O outro fez o mesmo com Gina, mas ao invés, puxou-a pelos cabelos. Ele a deixou jogada no chão e deu a volta para falar diretamente com Malfoy. Ela pode ver, por baixo do carro que ele era atingido por pontapés nas costelas e no rosto. Céus, porque esse estacionamento era sempre deserto? As pernas do homem que havia retirado Gina do carro já haviam contornado o veículo e agora acertaram um chute nas costas do homem caído ao chão. Draco não revidou nem gritou.

-Espero que não tenha esquecido da sua dívida com a gente! - um dos homens disse a Malfoy.

Gina ainda estava imóvel no chão observando a cena paralisada. Embora sentisse que podia sair dali correndo, ela só conseguia pensar que precisava fazer alguma coisa para ajudar Draco.

Malfoy não respondeu à provocação. Virou a cabeça e por baixo do carro cruzou o olhar com o de Gina. Os olhos estavam brilhantes de lágrimas doloridas que tentava conter e gritavam para Gina: vá! Saia daqui. Ela poderia aproveitar o momento de distração dos dois desconhecidos, mas e se Draco não ficasse bem?

-Você se lembra do prazo que te demos, certo? Quer que aconteça com você o mesmo que aconteceu com seu papai?

Draco continuou encarando Gina e virou com dificuldade o corpo em direção a ela. Em posição fetal ele formou com a boca a palavra "corra", sem emitir som. O lugar era mal iluminado, mas ela veria a qualquer custo, ele se preocupando com ela, afinal. Ela é que não deveria se preocupar se ele ficaria bem, mas não podia evitar. No entanto, ouvir, segundos depois, a voz convicta dele deu a ela forças para confiar nele. Ele ficaria bem, ela pensou. Pelo menos era isso que ele tentou passar para ela. Ela levantou-se lentamente depois de ouvir a voz fraca mas muito confiante dele dizer:

-Cale a boca, não fale do meu pai!

-Você está muito corajoso, Malfoy! Nos desafiando...

O preciso som do movimento de pés batendo contra algo sólido - o corpo de Malfoy - foi ouvido e finalmente ele soltou um gemido de dor. Gina ignorou esse som e saiu pela direção oposta. Andou abaixada até que saísse da vista dos homens, depois correu. Correu para dentro do prédio e subiu ao banheiro imediatamente. Abriu a porta com tanta força que a batera na parede. Havia um espelho em frente a ela. Viu que sua aparência estava lamentável, mas não era o momento para se recompor. Foi em direção à janela e a abriu com cuidado, evitando chamar atenção dos homens lá embaixo. Ela havia notado antes que esse banheiro do segundo andar tinha vista para o estacionamento, mas precisou subir na pia para ver o carro de Malfoy, que estava exatamente debaixo daquela janela. A cena toda só podia ser vista dali. Não se ouviam sons, mas o movimento deles indicava que estavam indo embora. Gina pôde ver parte do corpo de Draco estendido no chão. Queria correr para lá e ver o que lhe havia acontecido, mas os homens ainda não haviam deixado completamente o estacionamento. Entraram em um carro verde escuro e saíram. Gina não conseguiu enxergar placas, mas o modelo era comprido, talvez um sedã? Ela se amaldiçoou por não saber nada de carros. Talvez se soubesse mais detalhes conseguiria investigar, mais tarde quem eram. Só depois que o carro desapareceu no portão é que Gina deixou o banheiro feminino e desceu as escadas tentando ser tão rápida quanto as batidas de seu coração estavam.

Só agora, depois do susto maior ter passado ela percebeu que tinha uma dificuldade em correr porque seus braços e pernas estavam ralados. Sua calça rasgara no joelho e nos lados de uma das coxas e isso atrapalhava sua locomoção, sem contar a ardência nos machucados. Mas ela estava bem, se comparada ao Malfoy. Ele estava desacordado no chão, com a aparência de uma pessoa morta, embora ela ainda não tivesse visto nenhuma. Ela tentou verificar se ainda havia pulso no pescoço dele, mas os dedos dela estavam tão gelados e trêmulos que ela não achara o local certo e não conseguiria sentir, de qualquer maneira. Abaixou então o rosto para tentar sentir o ar saindo das narinas dele. Ela quase sorriu ao constatar que ele estava vivo. Mas tinha que agir rápido, não tinha tempo para sorrisos aliviados. Com algum esforço, conseguiu carregá-lo para o banco de trás do carro. Arrastou-o para dentro e tentou acomodá-lo o melhor possível. Ele emitia sons de dor enquanto ela o tocava. Ela precisava fazer alguma coisa.

Sentou-se no banco do carro e deu partida no carro. Ainda se lembrava como dirigir? Desde que se casara com Harry praticamente só ele dirigia. Ela pisou no acelerador e, com certo custo conseguiu controlar o carro antes de sair do estacionamento. Ela passou pelo portão se perguntando quase com indignação como uma faculdade tão movimentada tinha um estacionamento tão deserto e desprotegido.

Questionamento maior se deu quando ela parou à porta de um hospital. Ele precisava de cuidados, mas lá ela precisaria falar dos ferimentos dele e os próprios que ela tinha no corpo, teria que falar o nome dele o dela também... Teria que dar muitas explicações e responder à muitas perguntas se o levasse para lá. Arriscaria. Cuidaria, ela mesma, dele. Mas para onde o levaria? Sua casa não era um possibilidade. Tão pouco a de sua família. Ela fechou os olhos por um segundo. Só um lugar vinha a sua mente.


Quando ele acordou, seu primeiro reflexo foi esticar o braço em busca do maço de cigarros sobre a pilha de livros que ficava ao lado do colchão em que dormia. Ele sabia que estava em casa, o cheiro de poeira era inconfundível e a maciez nobre e confortável do colchão era um luxo bastante raro que não poderia encontrar em outro lugar com o mesmo cheiro de abandono, principalmente se considerasse que estava diretamente no chão, sem uma cama para sustentá-lo.

Mas ao fazer seu movimento habitual duas coisas aconteceram. Primeiro: ele percebeu a dor que mal o permitia respirar e se mexer ao mesmo tempo, isso quase imobilizou seu braço, que também doía, mas não tanto quanto suas costelas. Segundo: ele percebeu que seu movimento doloroso desencadeou, em um canto do quarto, um movimento brusco. Com a vista embaçada e ofuscada na escuridão, sua primeira impressão é de que era fogo, mas não era. O movimento era mais vivo e, julgou ele, mais fatal que fogo. Então ele levou automático a mão à cintura e não encontrou seu revolver. Estava desarmado e os passos chegavam próximos. Ela se abaixou, o rosto preocupado entrou em foco nos olhos de Draco. Era Gina Potter. Só então ele se lembrou das últimas coisas que lhe aconteceram. Ela continuou encarando-o com a testa franzida de preocupação, mas não disse nada. Parecia não saber o que dizer.

Então, ele prosseguiu com o movimento que iniciara logo que acordara. Ela só observou o braço dele se estender em direção à pilha de livros e pegar o cigarro. Ele trouxe o maço ao seu próprio peito e virou-o, sacudindo-o fracamente até que um cigarro saísse de lá. Levou-o à boca e depois esticou o braço novamente, dessa vez para pegar o isqueiro.

-Merda... - ele disse, o cigarro movendo-se junto com os lábios dele - Eu só fumava quando bebia.

Ele deu uma risada fraca de desgosto quando percebeu que seus dedos não conseguiriam realizar o movimento para acender o isqueiro. Então estendeu-o em direção a ela para que ela acendesse o cigarro para ele. Ela demorou um segundo para entender tudo, ainda olhava para ele como se ele fosse uma assombração e então acendeu o cigarro pra ele.

Ele tragou profundamente e alguns segundos depois soltou a fumaça para baixo com um canto da boca, como se toda a dor tivesse passado quando a fumaça invadira os pulmões dele. Draco fez força com os braços para pôr-se sentado. E então encostou-se na parede atrás de si.

Ele a encarou enquanto tirava o cigarro da boca.

-Você me deve algumas explicações. - afirmou ele, inquisidor.

-E você me deve a vida.

Draco riu com o canto da boca. Isso já acontecera antes, foi o que ele deu a entender, e ele sabia que sobreviveria à surra. Não era nada demais, ela devia saber. Eles só queriam realmente lembrá-lo da dívida, já que aparentemente ele desaparecera enquanto arrecadava mais dinheiro para pagá-los.

Ela sentou-se no colchão também. Draco notou que ela sentou-se com uma das pernas esticadas, ao invés de dobrá-la. A calça jeans estava rasgada, mas ela a havia dobrado. A perna estava bastante esfolada até a altura dos joelhos, mas os ferimentos estavam limpos. Um dos braços dela também estava esfolado. Ela havia se machucado também.

-Você devia ter me ouvido - disse Draco apontando para a perna dela.

Ela devia tê-lo ouvido da primeira vez que ele o mandou sair do carro. Pôs nele olhos castanhos manchados por uma sombra. Draco tentou clarear a mancha sombria que ele não gostara de ver tirando o brilho dos olhos dela, sempre tão vivos, como ele observara antes:

-Eu levei alguns chutes a mais porque você estava ali. E outros porque você sumiu. Mas pelo menos você foi esperta e saiu da segunda vez que eu te mandei ir embora.

Ela só se sentiu pior com o que ele dissera. E ainda não conseguira formular nenhuma frase completa para dizer. Agora ela estava até o pescoço envolvida nessa história e nem sabia se o plano que tinha antes dessa noite de entregá-lo seria mesmo uma saída. Ela só conseguia pensar em como escapar, mas se afundava cada vez mais na areia movediça em que se jogara. Ficou o observando fumar até que as palavras saíram de sua boca de maneira inconseqüente e impensada.

-Essa casa é mesmo sua...

-E como é que você sabia como chegar até aqui?

-Andei investigando.

-Potter não tem nada a ver com isso, tem?

-Harry? É claro que não. Ele não sabe de nada.

Ele julgou que ela estava sendo sincera.

-Certo... - ele tragou mais uma vez.

-Porque com uma casa tão grande você fica aqui no sótão? Você é muito pesado, ainda bem que existe aquele elevador antigo!

-É um lugar onde posso ficar sem ser notado pelos vizinhos. E a visão daqui é privilegiada.

Ele apontou com a cabeça uma janela alta e ampla sob a qual havia uma plataforma de madeira no chão. A mansão ficava na parte antiga da cidade, que era ligeiramente mais elevada do que o resto do local. Lá preferiam se instalar as tradicionais famílias ricas do passado. Subindo na plataforma era possível ver grande parte da cidade, toda a rua e um pouco das casas dos vizinhos. Eram mansões de estilo antigo e estavam decadentes, mas não tanto quanto esta, que fora completamente abandonada por anos, até Draco Malfoy voltar.

A mansão, como Gina notara, era enorme. Ela perdeu as contas, mas pelo que se lembrava haviam cerca de vinte quartos e muitas salas. Ela procurara em todos os cômodos um lugar para acomodar Draco e cuidar de seus ferimentos, mas a maioria dos quartos estava vazio e empoeirado. Ela encontrou a sala onde fora deixada na primeira vez que pisara naquele lugar e sentiu um arrepio ao lembrar daquele dia. Mas Gina não se deixou abalar pela sensação ruim e continuou procurando até encontrar, no último andar, uma espécie de sótão, todo em madeira e bem menor, mais limpo do que a maioria dos quartos da casa onde havia um grande colchão branco no chão, encostado à parede e em frente a ele, havia uma mala de viagem fechada a chave. Havia algumas pilhas de livros espalhadas pelo chão, mas de maneira organizada, uma poltrona alta e uma mesa de canto onde haviam algumas garrafas e uma caixa vazia de comida chinesa entregue em domicílio. O lugar era exatamente como ela imaginava que seria um esconderijo, só que mais limpo. Junto com um banheiro em baixo da escada que levava a esse cômodo aquela era a única área que parecia habitada. Gina surpreendeu-se em ver aquele casasão inteiro sendo mal utilizado. Deitou Draco, com extrema dificuldade, sobre o colchão. Já o havia arrastado do carro até o interior da casa e suspirou de alívio ao encontrar um elevador de ferro em perfeito funcionamento, embora rangesse alto, a deixando aflita.

Embora tivesse desistido do hospital, passara em uma farmácia e comprou analgésicos e material para fazer curativos. Ligou para Luna, pedindo que guardasse sua bolsa e os cadernos que haviam ficado na faculdade e depois ligou para Harry. Inventou a desculpa suficientemente convincente de que iria com alguns amigos novos da faculdade a um cine-clube que realizava sessões especiais de madrugada. Disse que iria assistir a uma série de documentários a respeito da mente humana, o tema da semana do cine-clube que inventara. A mentira não transparecera em sua voz, talvez apenas um nervosismo que podia ser facilmente explicado pelo fato de que era a primeira vez que teria de retomar suas atividades sociais desde que voltara ao curso de psicologia. Felizmente, Harry não perguntou nada a respeito e ela pode voltar ao carro e rumar para a Mansão de Malfoy cujo endereço ela havia decorado quando pesquisou a respeito da vida de Draco.

Ela não tinha a menor experiência em fazer curativos. Desabotoou a camisa dele e ele murmurou alguma coisa incompreensível. Gina limpou com antisséptico as feridas abertas dele, algumas na costela e uma no rosto, do lado esquerdo da testa. O abdome dele estava ligeiramente inchado. Ela achava que podia ser uma costela quebrada, mas não havia como ela saber ao certo. Ela passou uma pomada para dor nos hematomas que ladeavam o tronco dele. Ela estava abismada com a covardia de dois seres humanos espancarem dessa maneira uma pessoa, mesmo que essa pessoa fosse um chantagista e golpista como o Malfoy. Ela tentou tirar a camisa dos braços dele, mas inconscientemente ele reagiu a isso e agarrou um dos braços dela. O que estava ferido. Mesmo que ele não tivesse posto muita força no gesto, as feridas no braço de Gina ardiam. Então sentou-se na poltrona no canto do quarto e começou a cuidar dos próprios machucados. Foi quando ele acordou.

Agora ela o viu terminar o cigarro e colocar a ponta do cigarro em um cinzeiro de prata aparentemente caríssimo que também estava sobre a pilha de livros.

-Porque eles fizeram isso com você?

-Porque devo dinheiro a eles, você não ouviu?

-Não me leve a mal, Malfoy, mas eu não sou burra. Você tem uma casa dessas, que deve valer muito dinheiro e se mete numa coisa perigosa dessas?

-Você anda bisbilhotando muito a minha vida, Potter. - ele estava irritado em descobrir o quanto ela sabia.

-Bisbilhoto porque eu preciso saber com quem estou lidando!

Como uma criança mimada que acha que tem razão ela cruzou os braços, pensando ter se justificado.

-Você acha que está brincando e que esse é simplesmente um jogo. Mas não é. Tem coisas sérias acontecendo e envolvem a minha vida e a de outras pessoas.

Ela o encarou séria. Viu todo o desespero com que ele falava. Era mais do que um jogo e era mortal, principalmente pare ele.

-Eu entendo o que você quer dizer. - falou Gina calmamente - Eu quero saber como você veio parar nisso. Eu sei que você não quer isso pra você.

-Não pense que vai me ajudar, Potter - ele disse com raiva.

-Eu não quero ajudar, só quero entender.

-Também não sei se você vai conseguir entender! - agora ele agia como uma criança mimada.

Ela o olhou com olhos de "confie em mim".

-Está bem... Você quer saber como vim parar nesse inferno? - o tom dele era ríspido.

Gina fez que sim com a cabeça.

-Meu pai era muito rico, essa mansão é só uma amostra do poderio econômico que minha família tinha há muito tempo atrás.

Gina conteve um sorriso. Seu esboço de teoria sobre Malfoy começava a tomar forma e ganhar contornos de realidade.

-Só que houveram crises políticas e econômicas que atingiram meu pai. E então ele se envolveu com os Comensais da Morte, lavando dinheiro para eles e financiando os crimes deles. Era um negócio lucrativo e fácil. Eu não sei bem o que aconteceu, mas meu pai acabou se envolvendo mais mais fundo nisso do que devia. Ele não pretendia viver no crime pra sempre, tinha um nome a zelar, mas não conseguiu deixá-los. Ele foi atacado e quase morto, não fosse minha mãe ter conseguido encontrá-lo logo depois que ele levou os tiros. Nós abandonamos tudo por aqui, meu pai foi dado como morto e eu passei o resto da minha infância na França, onde minha família ainda tinha alguns parentes.

Draco endireitou, com uma careta de dor, suas costas contra a parede atrás de si. Gina investigava no rosto dele vestígios de mentiras, mas não encontrou. Ela não compreendia porque ele estava sendo sincero assim.

-Mas eu era um adolescente idiota e na primeira oportunidade que eu tive fui parar nos Comensais também. Eu fiquei meio sem perspectiva de futuro e por isso quando me provocaram para entrar, porque souberam que eu era filho do Lucius Malfoy, eu achava que aquilo seria grandioso e que eu me daria muito melhor que meu pai. Eu confesso que eu também tinha ambição de recuperar a fortuna da família e parecia tão fácil, já que eu não teria que fazer nenhum trabalho sujo... Eu era um dos grandes. Apesar do meu pai ter sido quase morto por eles mesmos, havia um certo respeito pelo nome e por algum dinheiro que restou. Mas as coisas ficaram feias quando descobriram que meu pai estava vivo e eu tive que deixar o grupo. Comprei a liberdade dele e da minha mãe. Mandei os dois pra um lugar bem longe onde eles não seriam encontrados. Mas precisei ficar aqui pra pagar pela minha própria liberdade. E claro, pra pagar o preço caro de se trair os comensais.

-Você traiu os comensais?

-Os caras que você viu são de uma gangue pequena e inimiga. Eles me emprestaram dinheiro pra pagar pela saída dos meus pais do país e eu dei a eles informações. Ainda preciso pagar minha dívida pra poder ir embora, por isso estou rodando o país, você sabe...

-Roubando...

-Sim, roubando. Mas só até pagar minha dívida e sair daqui.

Gina ficou em silêncio um minuto.

-Então você tem a...

-... a tatuagem?

-É, o símbolo dos comensais...

-Tenho... Por enquanto. Um dia ainda vou me livrar disso.

Gina observou-o dobrar a manga da camisa. A tatuagem ficava exatamente onde ela havia tentado tocar para lhe retirar a camisa, ainda quando ele estava inconsciente. Ela inclinou-se ligeiramente em relação a ele quando ele esticou o braço em direção a ela. Um crânio circulado por uma cobra. A tinta era tão escura contra a pele pálida dele que dava a sombria impressão de movimento. Gina esticou a mão e tocou a marca na pele dele. O braço dele estava quente e a mão dela gelada. Ela contornou com os dedos o desenho, de repente se distraindo com a ideia de que fora tão fácil saber tudo que ela viera tentando descobrir por tanto tempo. O olhar dela encontrou o dele e ela interrompeu o contato bruscamente, atirando a mão para longe dele como se tivesse levado um choque.

Gina levantou-se, levou a mão ao bolso traseiro da calça e entregou a Draco um comprimido analgésico.

-Tome esse remédio e vamos ao hospital.

Ele a encarou sem entender o porque do ato repentino.

-Não precisamos ir ao hospital.

-Precisamos. Eu acho que tem uma costela quebrada aí. - ela apontou para o peito dele. - E esse remédio não vai segurar sua dor por muito tempo.

-E porque não me levou ao hospital antes?

-Pra evitar perguntas.

Ele levantou a sobrancelha, impressionado.

-Está aprendendo rápido as regras do jogo.

Ela corou e estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar. Ele colocou o comprimido na boca e engoliu-o a seco. Ele se agarrou à mão estendida e apoiou seu peso nela para se levantar.

-E depois vamos comer, - acrescentou ele, inclinando-se em direção à mala de viagem, abrindo-a com uma chave que tirara do bolso e retirando de lá uma camisa - estou morrendo de fome.

Ela o ajudou a vestir a camisa tentando ignorar o desconforto do contato com ele. Draco abotoou a camisa devagar, encarando Gina. Que diabos os dois estavam fazendo?

-Ótimo, eu também estou faminta. - Disse ela, na tentativa de dispersar o ar estranho de indesejada intimidade e segredos revelados que pairava entre eles.


N.A.: Desculpem a demora pra atualizar, eu tava viajando. Espero que tenham gostado da ação e ela não para por aí. Esse capítulo foi um pouquinho mais longo, mas foi uma delícia de escrever e eu espero que vocês tenham gostado. Nem preciso dizer que quero ver muitas reviews. Eu sou carente de uma resposta de vocês, então façam o favor de mandar review nem que seja pra chingar! Obrigada por ler e voltem sempre!