Ginevra não conseguia lembrar há quanto tempo não ficava tão atrapalhada. Não conseguia, também, lembrar há quanto tempo não conseguia dormir tão bem quanto naquela noite — e talvez esse fosse exatamente o problema: havia perdido completamente a hora. Já estava duas horas atrasada quando aparatou no Beco Diagonal. O movimento nas ruas já era imenso, com pessoas entrando e saindo das lojas o tempo inteiro. A decoração de Dia dos Namorados já havia sido retirada da maior parte dos lugares, mas as Gemialidades Weasley ainda exibiam alguns dos produtos da linha feminina na vitrine.
Sabia que o encontro com Ron era inevitável — e já começava a se preparar psicologicamente para a discussão que viria a seguir quando entrou na loja. George lhe cumprimentou, beijando-lhe a bochecha e indicando que o irmão mais novo estava na sala aos fundos — segundo ele, bastante mal humorado desde que havia chegado e verificando o relógio de cinco em cinco minutos, fazendo comentários nada ortodoxos. Decidiu que a melhor coisa a fazer era agir como se nada de anormal tivesse acontecido e passou para a sala de trás com um sorriso no rosto.
— Bom dia, Ron.
— Só se for pra você — ouviu o ruivo murmurar, as orelhas vermelhas. — Isso são horas, Ginny? — perguntou, o tom subindo.
A mulher deu de ombros.
— Eu apenas perdi a hora. Hermione gostou do presente?
— Adorou. Por que você está chegando tão tarde?
— Eu perdi a hora. Não ouvi o despertador tocar — respondeu simplesmente, tirando o casaco e pendurando-o. A orquídea permanecia intacta sobre sua mesa.
— Cansada demais? A noite foi longa demais?
— A noite terminou bem antes do que poderia, se quer saber — provocou. — Eu apenas dormi demais, como se você nunca tivesse perdido a hora, Ron — acrescentou, sorrindo.
— Ah, Malfoy é rapido então — respondeu, maliciosamente. — Eu sabia que aquela doninha não poderia ser bom em nada.
— Eu não estaria tão certa disso se fosse você... — ela respondeu no mesmo tom malicioso.
— Eu sabia que ele estava mandando flores e tudo mais só pra te levar pra cama. Típico de sonserinos.
— Se você prefere pensar assim... — a ruiva sentou à sua mesa habitual e começou a separar os relatórios. — Você sabe onde George deixou o fechamento do caixa de ontem? — o irmão deu de ombros.
— Você não tem vergonha, Ginny?
— Do que eu deveria me envergonhar? — perguntou, curiosa.
— Você sequer se separou e já está dando pra qualquer um. Isso é o tipo de exemplo que você quer dar pra Lily?
— Pra começo de conversa, Ron, quem definiu que eu dei para Draco ontem foi você. Em momento algum eu disse que dei pra ele — respondeu, irônica. — Em segundo lugar, o exemplo que dou ou deixo de dar para meus filhos é um problema exclusivamente meu.
— Diga isso pra Harry — respondeu com um sorriso amargo.
Ginevra abriu a boca para responder quando Luna apareceu na sala.
— Oi Ginny, Ronald...
— Bom dia, Luna — a ruiva respondeu.
— Ótimo dia, mesmo — ela falou, distraída. — Vocês perceberam como as nuvens estão fazendo formas interessantes hoje? Eu juro que vi um hipogrifo nelas, bem ao lado de um enxame de Heliopaths...
— Dia — Ron limitou-se a responder, a expressão ainda fechada.
— O que a traz aqui tão cedo? — Ginevra perguntou, curiosa.
— Eu achei que você gostaria de saber que eu consegui contactar todos os presentes no seu casamento. Já recolhi todas as mágicas necessárias... Agora só faltam seus irmãos e seus pais. Ah, claro, e Harry.
Ginevra viu a expressão de Ron empalidecer.
— Mas já? — o homem perguntou, surpreso.
— É uma ótima notícia, Luna — a ruiva comemorou. — Eu vou falar com Harry — acrescentou, fitando o irmão —, hoje mesmo.
— Não sei por que a pressa. Sabe-se lá quando Charlie vai poder vir.
— Conversamos anteontem, Ron, e ele disse que virá quando eu precisar — a irmã respondeu, satisfeita.
— Bom, você ainda pode... Mudar de idéia até lá, não é? — ele perguntou, inseguro.
— Oh, claro, eu estou fazendo tudo isso por mero capricho — ironizou. — Fiz Luna perder o tempo dela apenas porque eu sou sádica.
— Luna, eu acho que você deveria checar se minha irmã não está com Zonzóbulos ao invés de Harry. Ela enlouqueceu. Ela saiu com Malfoy ontem. Ela está firme em realmente se separar de Harry. Isso não pode ser normal.
— Então você aceitou? — a loira perguntou, fitando a amiga.
— Você sabia? — Ginevra se espantou.
Luna deu de ombros.
— Não era óbvio?
— LUNA! — reclamou o ruivo. — Ah, deixe para lá. Que idéia a minha, querer que Luna Lovegood desse um mínimo de juizo para a minha irmã.
— E então, como foi? — perguntou a loira, sem dar a mínima atenção ao homem.
— Tudo bem — a ruiva deu de ombros. — Foi uma noite agradável — disse, provocando o irmão.
— Eu não vou compactuar com isso! — Ron saiu da sala pisando duro.
— Ele se supera — Luna rolou os olhos e sentou de frente para a amiga. — E então?
— E então o quê? — a ruiva se esquivou.
— Eu quero saber de tudo!
— Você anda passando tempo demais com Blaise.
Luna fez um gesto para afastar a idéia, a encarando com os olhos arregalados, à espera.
— Não me admira você já saber — resmungou. — Draco me mandou isso — ela indicou a orquídea — e me levou para jantar em Yorkshire. Mas, pelo visto, isso não é novidade pra você — acrescentou, entediada.
— Eu absolutamente não sabia onde ele te levaria, embora Blaise tenha me perguntado que flores ele deveria mandar. Sobre o que conversaram? Como foi a comida? Onde em Yorkshire?
— Nós fomos ao restaurante dele — respondeu simplesmente. — Não sei te dizer exatamente onde fica, porque ele me levou por aparatação acompanhada.
— Ah! Em Upper Flag. Eu fui lá com Blaise outro dia, a comida é realmente muito boa.
— Eu não fazia idéia ele era o dono do restaurante — comentou, aleatória.
— Ah sim. Eu achei ótimo que ele procurasse algo para fazer depois de ficar viúvo.
— Ele me parece estar bem.
— E o que mais ele te parece estar?
— Eu vou mandar uma coruja pro Harry, avisando que você conseguiu localizar todo mundo — a ruiva mudou de assunto, pegando pergaminho e pena. — Quero resolver isso logo.
— E isso tem algo a ver com o encontro ontem à noite?
Ginevra suspirou.
— Ele me beijou.
— E você?
— Eu o quê?
— O beijou de volta?
— Não é óbvio? — repetiu a pergunta da amiga, irônica.
— Eu gosto de ter o prazer de ouvir de você.
— Dizer em voz alta faz as coisas parecerem mais surreais do que já estão — respondeu, incerta.
— Não é nada surreal, para mim. Não é... A primeira vez.
— Não é como se fôssemos adolescentes de novo, Luna.
— Essa não é a melhor parte? — perguntou, aérea.
— Eu só... Não sei. Eu tenho medo de onde isso possa chegar.
— Medo por quê?
— Eu tenho medo da maneira como me sinto quando estou com ele — a ruiva respondeu, tímida.
A loira sorriu bobamente.
— Você parece ter treze anos.
— Mas eu não tenho treze anos! Esse é o problema! — disse, frustrada.
— Eu sei que não, mas não é necessariamente um problema. Quer dizer que ele te faz se sentir boba como uma menina de treze anos, não necessariamente tão imatura como uma.
— Eu... — ela suspirou. — Eu só queria ir embora.
— Como assim ir embora?
— Quando ele me beijou.
— Só queria ir embora e ele te beijou ou só queria ir embora do beijo?
— Os dois — respondeu, cansada. — Eu vi que as coisas estavam caminhando pra esse lado e nem o deixei pedir a sobremesa. E então, quando nos despedimos... Eu tive medo de ficar mais alguns instantes e então me arrepender depois.
— E não se arrependeu também de não ter ficado?
Ela baixou os olhos.
— Eu ia me arrepender qualquer que fosse a escolha, não é mesmo?
— Sim.
— Então eu optei pelo que achei mais... Seguro.
— E não necessariamente o que te faz mais feliz.
— Durante anos isso não foi realmente um problema...
— Eu achei que estivesse se separando justamente para mudar isso.
— Não é o tipo de coisa que você dorme e na manhã seguinte acorda e tudo mudou, Luna.
— Nem o tipo de coisa que vai mudar se você não se esforçar para isso.
— E vocês, claro, esperam que seja Draco quem mude isso — respondeu, cruzando os braços.
— Nós? O que quer dizer com nós?
— Você, Blaise e o próprio Draco — disse, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Eu e Blaise queremos que você e Draco sejam felizes, respectivamente, seja com quem for. Mas, também percebemos, que nunca vimos vocês tão felizes como quando estavam juntos... Não amorosamente, ao menos.
— E lá se vão vinte anos e duas famílias depois.
— O que não quer dizer nem que as coisas vão dar certo nem que não vão.
— O que quer dizer que eu preciso pensar nos meus filhos, antes de qualquer coisa.
— Bom, você está falando de James, não é?
— Eu disse meus filhos, Luna, e não James. Tudo é muito fácil enquanto Draco é apenas o pai de Scorpius e as crianças sabem que houve algo entre nós no passado. Se, e eu disse se, ele vier a se tornar algo além disso, a coisa muda de figura.
— Honestamente, eu não consigo ver Albus tendo um problema com isso, nem Lily.
— Isso sem mencionarmos o fato de que Harry provavelmente vai querer morrer e ele pode usar as crianças pra me atingir.
— Harry vai querer morrer de qualquer jeito quando você disser para ele que encontrou todas as pessoas.
— Bem, de qualquer forma eu vou atingi-lo, seja comunicando isso via coruja ou pedindo para que venha até aqui; e então ele vai ficar esperançoso de que possa ser algo bom e vai ficar em mais alguns pedacinhos quando eu der realmente a notícia.
— Então, o que importa uma coisa ou outra a mais ou a menos? Eu diria que ele vai adorar ficar arrasado por Draco, vai poder dizer para Ronald que estava certo o tempo inteiro. Harry adora estar certo, talvez porque geralmente não esteja.
A ruiva suspirou novamente.
— Isso vai doer de qualquer forma. Não existe uma maneira menos dolorosa.
— A menos que você resolva voltar atrás.
— Não é o tipo de coisa que se volte atrás, uma vez tomada a decisão, Luna.
— Então, por que o medo de dar um passo à frente?
— Eu estou dando um passo à frente, nós vamos desfazer os feitiços.
— Você sabe muito bem do que estou falando.
— Eu preciso trabalhar, Luna — a ruiva desconversou. — Já cheguei duas horas atrasada hoje, o que resultou naquela pequena discussão cujo final você presenciou ao chegar.
— Tudo bem — suspirou. — Eu estou indo ver Hagrid, devo voltar em uns três ou quatro dias.
— Qualquer coisa me dê notícias, está bem? — pediu, terminando de escrever um curto bilhete para Harry e entregando o pergaminho para a coruja de George, que estava sobre o parapeito da janela.
— Bom, desde que as acromântulas se extinguiram, a pior coisa que eu posso encontrar na floresta é um Ford Anglia descontrolado.
Ginevra riu e a loira deixou a loja em seguida.
Draco sentiu um calafrio quando aparatou no atrium do Ministério. Por mais que tivesse se passado vinte anos, a imagem da estátua que tivera brevemente no Ministério durante a ascenção de Lord Voldemort ainda estava muito clara em sua mente e em seus pesadelos. Levou poucos minutos para encontrar Blaise — que havia acabado de deixar o gabinete do Ministro. Estava ansioso demais para esperar até que o amigo voltasse para casa.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou o negro, erguendo a sobrancelha direita.
— Bom dia pra você também — respondeu, bem humorado.
— Bom dia? Draco Malfoy dando bom dia. Essa é a chave para uma inundação. Mas, diga lá, por que tão bom dia?
— Porque a noite de ontem foi boa — respondeu simplesmente.
Os dois começaram a caminhar em direção ao hall de elevadores.
— Quão boa?
— Dizer "melhor impossível" seria mentira, mas "boa" já é um bom começo, não? — perguntou, erguendo uma sobrancelha.
— É um começo — respondeu Blaise, sorrindo. — Então, o que aconteceu? Levou a ruiva pra casa?
— Nós jantamos juntos.
— No seu restaurante?
Draco assentiu, sorrindo.
— Ela gostou da flor.
— Luna é de grande ajuda às vezes.
— Pra algo tinha que ser...
— Com certeza. E como foi o jantar?
— Agradável.
Blaise rolou os olhos.
— Isso foi realmente muito específico.
— Ela foi... Ela mesma outra vez, na maior parte do tempo. E não uma marionete.
— O que é um grande avanço. Ao menos a beijou?
O loiro sorriu genuinamente. Blaise deu um soquinho amigável no braço do homem.
— Esse é meu garoto!
— Agora eu estou planejando o próximo passo... Afinal, ela me deve uma sobremesa — acrescentou no exato momento em que o elevador se abriu e os dois deram de cara com Potter.
— Zabini.
— Potter.
O grifinório encarou o loiro brevemente, com uma cara de poucos amigos. Os dois sonserinos entraram no elevador sob o olhar atento do outro.
— Então, e o chef que eu indiquei, foi aprovado?
— Certamente.
— Eu sabia que seria. Sabia que tinha acertado quando levei Luna lá.
— Eu o mandaria embora, claro, se ele não fosse aprovado depois de ontem — Draco sentia os olhos de Potter sobre si.
— Estou ofendido. Minha oipnião não valhe nada?
O loiro riu.
— Você sabe que há opiniões muito mais importantes — o elevador parou no nível seguinte e alguns bruxos saíram e outros entraram.
— Aparentemente — o moreno suspirou. — Eu estava devendo uma a ele, logo, achei que seria bom indicá-lo. Fiquei muito feliz que ele não fosse um completo desastre no final.
— Ele faz, como foi mesmo o termo? — Draco fingiu-se pensativo. — Comidas que não são "habituais".
— São bastante habituais para mim — Blaise deu os ombros. — Eu e disse que era um favor.
— A melhor coisa da reforma ministerial foi ter acabado com esses favores — falou Potter.
Os dois olharam para o grifinório.
— Olhe quem está falando, Potter, o cara que nunca levou uma advertência no trabalho porque a melhor amiga tem um cargo alto no Departamento de Execução de Leis da Magia.
— Ignore Potter, Blaise.
— Ele deveria aprender a não se meter na conversa alheia, vivo dizendo isso há anos. Mas não, o perfeito e precioso Potter...
— Você ainda acha que tem jeito? — Draco debochou.
— É meu trabalho, Zabini. Cada um tem o trabalho que merece. Eu escuto a conversa de pessoas suspeitas, você lambe os sapatos das pessoas que precisa.
— É por isso que eu sempre disse que ele sempre enfiou o grande nariz onde não era chamado — o loiro respondeu. — Deu no que deu.
— O que quer dizer com isso, Malfoy?
— Que você veio bisbilhotar minha conversa com Luna e agora está aí, provando que dor de cotovelo não mata, infelimente nesse caso — Blaise respondeu pelo outro.
— Nossa, essa foi certeira — Draco continuou em tom de deboche.
— Eu estava preocupado com Luna, Zabini. Sua presença venenosa não pode fazer bem à minha amiga.
— Quem procura o que quer, acha o que não quer, Potter — Blaise respondeu, ácido.
O elevador parou novamente — e agora alguns bruxos olhavam com o canto dos olhos para os três homens, constrangidos.
— Sempre temos que procurar saber se você não está tentando seduzir e envenenar alguém, como sua querida mãe.
— Sabe, o trabalho está te fazendo mal — Draco interferiu. — Me parece que você resolveu viver numa realidade paralela, Potter.
— Por quê, Malfoy?
— Porque você insiste em estereotipar os outros, e a família dos outros, e esquece de olhar pro seu próprio umbigo.
— Que é a única coisa que você sabe fazer, Malfoy.
— Há quem não concorde com isso — o loiro respondeu, o elevador chegando finalmente ao piso térreo e ele e Blaise se dirigiram ao atrium.
— Malfoy! — chamou o grifinório, parecendo vermelho. — Você deveria saber que só não abro um inquerito contra você por agressão a um funcionário do Ministério porque não quero que Scorpius se torne mais orfão do que já é.
— Não se preocupe com isso, Potter. Ele tem a pequena Lily Potter para cuidar dele nesse caso — respondeu o loiro, sorrindo.
— Não que você possa provar qualquer coisa, Potter — Blaise enfatizou. — Draco não encostou em um fio do seu arrepiado cabelo — acrescentou, rindo.
— Minha filha é uma criança, Malfoy, uma CRIANÇA!
— Sua esposa, perdão, sua ex-mulher — frisou — tinha a idade dela quando descobriu que você era o amor da vida dela, Potter. Só que no caso de Ginevra, Merlin ouviu as minhas preces, e ela descobriu que havia coisa melhor que você.
— Se eu souber que você encostou em um fio de cabelo de Lily...
— Eu? Você acha que eu sou alguma espécie de depravado, Potter? Pergunte à sua criança se ela anda por aí com uma pulseira de pérolas negras, que pertenceu a Romilda. Porque Scorpius recebeu flores da sua filha ontem.
— Como você ousa... Como você sabe disso? As crianças estão em Hogwarts e...
— Se você não tem um bom relacionamento com seus filhos, Potter, é problema seu.
— Eu tenho um ótimo relacionamento com meus filhos! — respondeu, irritado.
— Então espere pela coruja deles te repetindo a história, Potter, porque eu honestamente tenho mais coisas para fazer no meu dia do que discutir com você.
Blaise e Draco desaparataram pouco tempo depois, deixando Potter espumando de raiva para trás.
Já era fim da tarde quando Harry entrou na loja, esbaforido. Ginevra estava no balcão, conversando com George sobre a produção de novos itens para comércio quando o viu chegar, ainda mais descabelado que o normal. O corpo sujo mostrava que tinha vindo pela rede flu ao invés de aparatar. George o cumprimentou como sempre, mas o homem não tirava os olhos da ruiva.
— Eu vim o mais rápido que eu pude, Percy, ele...
— Boa tarde, Harry — ela o interrompeu.
— Boa tarde — ele respondeu, corando. — Me desculpe, eu vinha na hora do almoço, mas Percy a tomou toda reclamando dos problemas de comunicação da política interdepartamental e não sei mais o quê.
— Típico de Percy — falou o ruivo, voltando os olhos para o caderno no qual a ruiva fazia anotações. — Quando ele fizer essas coisas, sugira que volte a fazer relatórios sobre fundos de caldeirão.
— Eu vou tentar me lembrar disso — respondeu, distraído. — Ron já foi embora?
— Ele está lá atrás, arrumando os produtos da área de defesa, chegou um novo estoque de pó peruano hoje.
Ginevra trocou um olhar com o irmão.
— Eu vou lá ajudá-lo, certo? — George disse, dando um beijo na bochecha da ruiva e se afastando dos dois.
— Desculpe não ter vindo antes, Gin, eu tive um dia terrível. O que houve? Foram notícias das crianças? Você recebeu notícias deles essa noite? O que eles disseram?
— Está tudo bem com eles, Harry. Luna esteve aqui pela manhã.
— Luna? — perguntou, confuso. — Falando em Luna, eu encontrei Zabini e Malfoy. Malfoy me disse que Lily tinha mandado flores para Scorpius ontem, você soube disso? E falou algo sobre ele ter dado uma jóia para ela. Isso é verdade?
A ruiva suspirou.
— Por que você mesmo não pergunta a ela, Harry? Lily sente falta de conversar com você. Mas como eu ia dizendo...
— Eu não vou conversar com a Lily sobre garotos, Gin, ela tem onze anos.
— Oh, claro, você pretende esperar que todos saibam que ela gosta de Scorpius, e então assustá-la com a sua reação. A propósito, ela já fez doze. Mas não foi por isso que eu te chamei, eu... — ele a interrompeu novamente.
— Ela gosta de Scorpius? Como assim gosta? Desde quando crianças de onze anos se interessam amorosamente por alguém? Ou doze, que seja, não faz a mínima diferença! Ela continua sendo uma criança!
— Na idade dela eu era apaixonada por você, Harry, caso você não lembre.
— Mas eu não te mandava joias, nem você me mandava flores.
— Não, eu te mandava cartões idiotas de Dia dos Namorados. A propósito, Luna conseguiu reunir todo mundo — disse, cortando-o.
— O quê? — perguntou, parando imediatamente de falar. — Como assim reunir todo mundo?
— Pessoas, nosso casamento. Para que possamos desfazer os feitiços.
— Ah... Que... bom — falou em uma voz fraca.
— Nós só precisamos agora marcar a data.
— Depende... De quando seus irmãos vão poder.
— Charlie disse que isso não é um problema.
— Mas não é só Charlie — ele tentou justificar. — E todas aquelas pessoas... Vai ser difícil encontrar uma data.
— Nós só precisamos marcar — repetiu. — Certo — repetiu, meio gemendo. — Mas vai ser complicado. — Se precisarmos, nós realizamos mais de uma vez, para juntar todo mundo. — Você está decidida então?
— Você acha que não? — questionou. — Você acha que eu teria tido todo esse trabalho para nada?
— Eu... Honestamente não gostaria de fazer isso, Gin.
— Jura? Nem reparei!
— Eu... Esperava que você mudasse de idéia com o tempo.
— Eu espero que um dia você perceba que eu estou fazendo isso pro bem de nós dois.
— Pelo bem maior, não é mesmo? — disse com um sorriso triste.
Ela assentiu, ainda o encarando. Não via Harry desde que o homem havia saído de casa — e agora notava o quão abatido realmente estava. Tinham novos tons de roxo em suas olheiras, parecia ter emagrecido. Imaginou o que sua mãe diria quando o visse. Depois, refletiu que não sabia se os dois tinham se encontrado nesse meio tempo.
— Harry, não ser meu marido não te faz menos parte da minha família, você sabe disso, não é?
Ele parecia estar a ponto de desabar.
— Eu... É. Eu sei — respondeu, sem jeito.
— Você ainda tem Ron, Hermione, meus irmãos, e as crianças. Nossos filhos.
— Seus pais — completou.
— Você sempre foi como um filho para eles, isso não vai mudar sendo meu marido ou não.
— Ginny, você viu onde George colocou... — Ron acabara de sair dos fundos da loja, distraído, só então reparou a presença de Harry. — Oh, George não me disse que você estava aqui — acrescentou, cumprimentando o amigo.
— Oi — respondeu Harry, sem esconder o tom de voz miserável.
— Eu atrapalho? — o ruivo perguntou, olhando da irmã para o amigo.
— Nosso assunto já estava terminando, Ron — Ginevra deu de ombros.
— Tem certeza? — perguntou o ruivo.
Harry colocou as mãos nos bolsos.
— Sim. O que você quer saber onde está?
— George precisa da lista de encomendas, ele não lembra onde pôs.
— Está em cima da minha mesa. Harry, veja quando você pode marcar a data e nós marcamos.
— Você... Já? — Ron a interrompeu.
— Não, Ron, ano que vem — respondeu, irônica.
— Não precisa ser tão irônica só porque está passando tanto tempo com Malfoy — ele falou, irritado.
— Você e Malfoy? — Harry perguntou, nitidamente surpreso.
— Você está quase tão fofoqueiro quanto Blaise, Ron.
— O que há entre você e Malfoy?
— Nada — respondeu, mentalmente acrescentando um "eu acho".
— Ginny saiu pra jantar com ele ontem — o irmão fez o favor de avisar.
— Você saiu com Malfoy? No Dia dos Namorados? Isso difícilmente se qualifica como "nada".
— Você passou um Dia dos Namorados inteiro falando para Chang que se encontraria com Hermione, e nem por isso vocês namoravam — respondeu, cansada.
— Hermione não era minha ex-namorada — apontou o moreno.
— Definitivamente não — falou Ron, meio rindo.
— Preciso lembrá-los que eu não devo satisfação de com quem janto ou deixo de jantar, a nenhum de vocês dois?
— Você me deve satisfação se pretende botar um homem dentro da minha casa.
— Draco nunca esteve na nossa casa.
— E espero que continue assim sendo. Como se não bastasse eu ter que me preocupar com a imaginação de Lily — bufou.
— A propósito, eu estou procurando outro lugar para morar.
— Como? — perguntou Ron, confuso.
— Eu estou procurando outro lugar — repetiu.
— A melhor coisa que você faz é voltar para A Toca se quer sair de lá — falou o ruivo, cruzando os braços.
— Você não tem dinheiro para sustentar uma casa sozinha, Gin.
— A menos que Malfoy esteja te dando dinheiro também.
— Primeiro: eu não vou voltar para A Toca. Nós somos adultos, Ron, e já demos trabalho suficiente para nossos pais ao longo de toda a nossa vida. Segundo: por mais que as crianças adorem a casa dos nossos pais, elas precisam ter um referencial de onde é a casa do pai e da mãe deles. Terceiro: eu tenho condições, sim, de sustentar uma casa, embora não vá fazer isso sozinha, Harry, porque se você não se lembra, nós temos três filhos menores de idade e você tem obrigação de participar da educação e despesas deles. Quarto: Draco não está me dando dinheiro e, ao contrário de vocês, isso jamais passaria pela cabeça dele.
— Pelo contrário, seria típico dele tentar te comprar, igualzinho ao pai.
— Como se vocês fossem íntimos dele, para saber como Draco realmente é — respondeu, irônica.
— Se vocês fossem íntimos, saberiam que eu sou interessante, irresistível e muitissimo bem humorado — falou o loiro, que tinha entrado desapercebido no meio da discussão. — Potter. Weasley. Boa tarde, Ginevra.
— Você não é bem-vindo aqui, Malfoy — Ron se colocou entre a irmã e o homem, os braços cruzados.
— Não sabia que lojas tinham o direito de recusar clientes, Weasley.
— Quando o cliente é você, Malfoy, nós recusamos.
— Ron, já chega! — a ruiva resmungou.
— O que você está fazendo aqui, Malfoy? — perguntou Harry, visivemente irritado.
— Nada que seja exatamente do seu interesse, Potter — o loiro respondeu, e então se dirigiu à mulher. — Nós podemos conversar um instante?
— Eu estou terminando aqui, saio em alguns minutos — Ginevra respondeu, ignorando a expressão de protesto dos outros dois.
— Ficarei esperando — respondeu, com um meio sorriso.
— Não tem um mínimo de respeito, Malfoy? Correndo atrás de uma mulher casada...
— Eu e todo o mundo mágico fomos informados da sua separação, Potter.
— Antes mesmo que sua mulher esfrie na cova, muito desrespeito.
— Poderia ser desrespeito, Potter, se o último desejo dela não tivesse sido exatamente esse.
— Romilda te mandou dar em cima da minha esposa? — Harry esbravejou, irritado.
— Ela me disse para ser feliz.
— Isso não inclui dar em cima de uma mulher casada — Ron ironizou.
— Como se eu ainda fosse casada, na prática — a ruiva disse, irritada. — Essa discussão acaba aqui, okay? Eu estou de saída — acrescentou, dirigindo-se à sala nos fundos.
Ginevra se despediu de George — ainda ouvindo gritos da discussão que os três homens travavam. Sem hesitar, cruzou a cortina que a levava de volta para a entrada da loja, o que imediatamente calou os três, que se limitaram a observar o que ela faria em seguida.
— Se precisa falar comigo, Draco, eu sugiro que o faça fora daqui — ela falou, colocando o livro da contabilidade da loja sobre o balcão, em frente ao irmão. — Ron, por favor, quando for fechar a loja, coloque todos os recibos em cima da minha mesa. Harry, eu sugiro marcar no próximo dia dez. É um sábado e dá quase um mês para as pessoas se organizarem bem. Boa noite — falou, saindo em direção a porta,
— Você vai sair com ele de novo? — o ruivo protestou, fazendo-a parar.
— Eu estou de saída, Ron.
— Eu pensei que nós poderíamos jantar juntos — Harry disse, fitando-a. — Para, er, resolvermos os detalhes — acrescentou, sem jeito. — E conversarmos sobre as crianças e... Eu gostaria de pegar algumas coisas em casa.
Ginevra suspirou.
— Como eu disse, eu acho que o próximo dia dez é uma boa data, Harry, mas se você tiver outra, basta marcar e me avisar — o moreno pareceu ainda mais decepcionado. — Quanto às suas coisas, você sabe que pode pegá-las quando quiser. Afinal, como você mesmo fez questão de frisar, é sua casa. Você não precisa de mim lá para fazer isso — finalizou e enfim se dirigiu ao sonserino, que estava ao seu lado. — Nós podemos ir agora.
Draco sorriu em resposta, indicando para que saíssem da loja. A ruiva ainda lançou um último olhar para os dois homens atônitos antes de deixar a Gemialidades Weasley, caminhando sem rumo pelo Beco Diagonal.
— Você está feita com esses dois, hein — o loiro comentou, divertido com a situação.
— Quando você e Harry se encontraram? — ele deu de ombros.
— Eu não tive culpa. Ele simplesmente deu o azar de estar no mesmo elevador que eu e Blaise, no Ministério.
— Bem, agora faz todo sentido...
— Ele perguntou sobre sua filha, não foi? — Ginevra assentiu.
— Era óbvio que você sabia que ele me perguntaria. Você fez de propósito — o loiro sorriu novamente.
— Ele precisa reparar que não participa da vida dela.
— Oh, claro, e eu contei para meu pai que nós nos encontrávamos em Hogwarts — respondeu, irônica.
— Os tempos mudaram, Ginevra.
— Ela continua sendo uma criança, os tempos tendo mudado ou não. Lily acha que está apaixonada pelo melhor amigo do irmão, isso lhe é familiar?
— A diferença é que o garoto em questão não tem olhos de sapinho cozido, ele é meu filho, e você pode estar certa que Scorpius sabe respeitar as mulheres — ela o olhou com o canto dos olhos. — Mesmo as que ainda são crianças — acrescentou. — Ele jamais se aproveitaria dela, assim como eu nunca me aproveitei de você — finalizou em tom galante, fazendo-a rir.
— Albus não está gostando disso.
— Eles têm uma paixonite platônica um pelo outro, Ginevra. Não é como se fizessem sexo nas salas abandonadas ou se pegassem pra valer. Nós dois sabemos que o máximo, fisicamente falando, que aconteceu entre nossos filhos foi diante dos nossos olhos, no velório de Romilda.
— Ela ficou encantada com a pulseira, mas não quis aceitar — a ruiva comentou, não querendo continuar com os rumos para os quais a conversa estava tendendo.
— E Scorpius a convenceu. Ele é um bom argumentador — ela riu.
— Será que a história vai se repetir?
— Eu espero que sim, nos dois sentidos — acrescentou, sorrindo. — Eu só espero que sua filha saiba fazer escolhas melhores que você.
Ginevra suspirou.
— Você não disse, afinal, por que me procurou.
Os dois pararam de caminhar, encarando-se.
— Você me deve uma sobremesa — respondeu, fazendo-a rir. — E não vou aceitar um "amanhã acordo cedo" como resposta negativa, porque amanhã é sábado.
— Draco, a loja abre aos sábados — ele deu de ombros.
— Isso não significa que você tenha de estar lá quando as galinhas acordarem.
A ruiva sorriu levemente.
— Não foi um dia exatamente bom hoje, eu não serei uma boa companhia.
— Eu não me importo — ele novamente deu de ombros. — E você não devia se deixar abalar por causa dele. Não mais.
— Eu não sei do que você está falando — foi a vez de ele sorrir.
— É óbvio que você sabe, Ginevra. Eu aposto que o dia estava ótimo, até ele chegar e falar alguma besteira que fez tudo ruir.
— Fui eu quem o chamei, pra ir na loja. Claro que eu sabia que não seria fácil, mas...
— Saber e ver são coisas diferentes.
Ela assentiu, triste.
— Luna conseguiu contatar todas as pessoas que precisamos para desfazer os feitiços. Agora é só marcar.
— E Potter, claro, não gostou de saber disso — ela balançou a cabeça em sinal negativo. — Você sabia que isso aconteceria, Ginevra. Ainda ontem nós falamos a respeito — ela suspirou.
— Eu estou cansada, Draco. Eu não agüento mais carregar todo esse peso, tentando fazer as coisas da melhor maneira possível, me preocupando com tudo e com todos, tentando fazer as coisas darem certo, mais uma vez.
Respirou fundo, tentando não desabar na frente dele, que a abraçou.
— Vai ficar tudo bem — murmurou em seu ouvido. — É só uma fase ruim pela qual você tem que passar, meu amor. Vai ficar tudo bem... — repetiu.
Permaneceram em silêncio por longos minutos, durante os quais Ginevra se permitiu não pensar em nada — nem causas, nem conseqüências. Não pensar que estava abraçada a Draco Malfoy no meio do Beco Diagonal, não pensar que teria que continuar a discutir com Ron e Harry cedo ou tarde, não pensar que havia a chance de encontrar o último quando finalmente voltasse para casa, não pensar na loucura que gostaria de fazer com o sonserino.
Permitiu-se apenas sentir. Sentir os braços dele ao redor de seu corpo, o calor tão próximo de si, a mão que acariciava seus cabelos, a respiração calma junto ao seu ouvido.
— Me leva daqui — sussurrou.
— Para onde você quer ir?
— Qualquer lugar — respondeu, a voz embargada. — Só me leva daqui.
Sentiu os lábios dele tocar levemente sua bochecha, mantendo os olhos fechados enquanto desaparatavam. Não demorou a reconhecer o lugar, não havia estado na região muitas vezes, mas era impossível não ter ouvido falar do círculo de pedras de Merry Maidens.
— Eu gosto de vir aqui, às vezes — a voz de Draco disse, às suas costas, enquanto ela observava, deslumbrada, a paisagem. — É como recuperar as energias.
— É lindo — murmurou, encantada. — Eu nunca tinha vindo aqui.
— Não eram os planos que eu tinha pra essa noite mas...
— Obrigada — ela disse simplesmente, cortando-o, virando-se para encará-lo. — Planos quase nunca dão certo mesmo — acrescentou, dando de ombros.
Draco sorriu e beijou-lhe a testa. Ginevra se incomodou com o ato, e ele pareceu notar.
— O que foi?
— Nada — desconversou. — Você vem muito aqui? — tratou de mudar o assunto, voltando a encarar o círculo de pedras mais à frente.
— Às vezes, quando eu preciso pensar no que fazer com relação a alguém que está fugindo de mim.
A ruiva suspirou, cansada.
— Eu...
— Isso não foi uma crítica — foi a vez de ele interromper. — Mesmo — acrescentou, sério.
— Draco, eu não sei, eu...
— Eu não estou pedindo explicações, Ginevra. Essa maldita mania grifinória de querer justificar e ser justa em tudo.
— Você sempre soube que eu era grifinória — respondeu com um sorrisinho.
— É, mais parece que depois de tanto tempo com Potter você sente a mesma necessidade desenfreada que ele em ser nobre, justo, em trabalhar "pelo bem maior" — falou, ironizando.
— São vinte anos ouvindo isso, Draco, óbvio que em algum momento você acaba internalizando a idéia.
Ele assentiu e ela desviou o olhar, encarando o vasto círculo de pedras. Os dois ficaram em completo silêncio por quase cinco minutos.
— Eu nunca tinha vindo em um anel de pedras. Ouvi, claro, Hermione falar sobre eles e suas histórias por horas, mas nunca tinha estado em um.
— Eu cresci em Wiltshire — ele falou, dando os ombros. — Então, Stonehenge era praticamente meu quintal. Eu ia pra lá quando precisava pensar, e sequer me incomodava ter que ir a pé.
— Draco Malfoy andando a pé?
— Você não imagina a quantidade de trouxas que haviam por lá. Ir de qualquer forma que não a pé certamente seria motivo para um ataque de bruxos do Departamento de Execução de Leis da Magia cair em cima da sua cabeça — ela acenou com a cabeça, aproximando-se de uma das pedras, sem tocá-la. — Meus pais se casaram lá.
— Em Stonehenge? — perguntou, confusa.
— É.
— Eu achava que tinham se casado na Mansão.
O loiro rolou os olhos.
— A cerimônia e a festa foram na Mansão. O casamento foi em Stonehenge.
— Ah — a ruiva corou. — Me parece estranho um casamento à céu aberto.
— Você não se opos a Hogwarts — ele falou com um sorrisinho.
— Óbvio que não — ela riu. — Mas é completamente diferente.
— Romilda também teve suas objeções — falou, com uma careta. — Eu precisei de algum tempo para convencê-la.
— Você e Romilda... Aqui? — ela perguntou, seu rosto ficando do mesmo tom de seus cabelos.
Ele negou com a cabeça.
— Romilda nunca esteve aqui. Nós fomos para o círculo de pedras de Tregeseal East. Eu... Nunca quis dividir esse lugar com ninguém.
— Então... — a ruiva hesitou. — Por que você me trouxe aqui?
Draco deu de ombros.
— Achei que você ia gostar.
— É um lugar importante pra você.
— Eu gostaria que fosse importante pra você também — o loiro respondeu, fitando-a. — Alguma coisa boa que tenhamos em comum.
— Nós temos coisas boas em comum, Draco — ele sorriu.
— Algo só nosso — definiu. — Ninguém pode prever o que vai acontecer entre nossos filhos.
— Você gostaria que acontecesse algo.
— Você não? — ele ergueu uma sobrancelha e a ruiva deu de ombros.
— Lily ainda é...
— Eu sei, Ginevra, eu sei que ela é uma criança. Mas nós não estamos falando do presente. Você gostaria ou não que houvesse algo mais entre eles, no futuro?
— Eu quero que eles sejam felizes, juntos ou não.
— E você?
— O que tem eu? — perguntou, confusa.
— Você quer ser feliz?
Ela suspirou.
— Não é o que todos queremos?
Draco deu de ombros.
— Teve uma época em que tudo o que eu mais quis foi matar nosso antigo diretor, e isso não era ser feliz.
A ruiva percebeu que ele cruzou os braços, como que numa tentativa de proteger o antebraço esquerdo.
— Você estava tentando proteger sua família.
— Um meio pouco ortodoxo de se proteger alguém, matando outra pessoa.
Ginevra deu de ombros.
— Dumbledore já estava condenado, Draco. Mesmo se você não tivesse... — a ruiva hesitou. — Mesmo que Snape não tivesse proferido o feitiço, cedo ou tarde aconteceria — ele se virou, evitando olhá-la.
— Isso não muda nada — pôde ouvir a voz baixa do homem. — Eu pretendia, eu precisava...
— Eu sabia que ia te perder por isso — ele murmurou.
— Era inevitával — a ruiva suspirou. — Eu passei boa parte daquele tempo... Com uma sensação esquisita. Eu sabia, Draco, eu sabia que você estava aprontando alguma coisa... Mas não consegui me afastar até não ter mais como negar.
— Mas voce queria?
A ruiva suspirou.
— Nosso relacionamento era... Um vício... Como...
— Poções alúcinogenas da melhor qualidade? — perguntou, erguendo uma sobrancelha.
Ela riu, negando com a cabeça.
— Você esteve no casamento de Percy e Padma, quando serviram vindalho com curry?
Ele tornou a erguer uma das sobrancelhas.
— É um frango indiano muito, muito apimentado...
— Eu sei o que é, só não sabia que era viciante.
— Você é difícil e irritante, e quando vem, é uma sensação forte demais. Como vindalho com curry. E quando você é completamente louco por vindalho, não tem problema. Mas não importa quanto você goste, se você comer muito, ele queima o céu da sua boca. E então você quer ficar muito tempo sem comer vindalho. E um dia você acorda e pensa: nossa, eu sinto falta de vindalho.
Ginevra teve que controlar o impulso de colocar a mão na boca. Não tinha a intenção de deixá-lo perceber que pensava nele.
— E isso... Essa sensação — ele consertou. — É viciante pra você?
— Draco... — ela murmurou abaixando os olhos. — Eu...
Ela recuou, encostando em uma das pedras, seus olhos se arregalaram ao contato.
— Você...? — ele estava agora mais próximo do que ela gostaria.
— A magia desse lugar é muito forte — ela falou, tentando mudar de assunto.
— Eu sei disso. O que eu não sei é a resposta pra pergunta que eu fiz.
— Um tanto — respondeu, desviando o olhar.
— E isso é bom?
— O próprio nome "vício" responde.
— Existem vícios ruins, que a gente luta pra abandonar...
— Ou para não retomar.
— Alguns são impossíveis deixar de lado...
— Parece que sim — ela murmurou e ele pôde quase sentir as palavras contra seus lábios.
— Por exemplo...? — a resposta dele veio no mesmo tom.
Como se fosse um impulso impossível de conter, ela levantou a mão, tocando o rosto do loiro.
— É cedo demais, Draco...
— Eu diria que é muito tarde...
— Fora do tempo, de qualquer forma — sussurrou. — Draco... — ela murmurou, como se implorasse. — Você conhece as conseqüências?
— Melhor do que você — respondeu, pegando-a pela cintura firmemente e capturando os lábios da ruiva com os seus.
Ginevra correspondeu ao beijo, abraçando-o com força. Era como se o mundo tivesse parado. As mãos do loiro corriam pelas suas costas, possessivamente. Ela sentia seu corpo corresponder aos carinhos quase inocentes como se fossem plenamente maliciosos. Ele soltou os lábios dos seus, descendo por seu pescoço. A respiração se tornou pesada, as unhas se enterrando nas costas dele. Seus lábios roçaram pela orelha do homem, que imediatamente deslizou o lábio inferior por toda a lateral de seu pescoço e mordiscou seu lóbulo esquerdo. Ela suspirou, puxando-o mais para perto de si, enquanto as mãos do homem saíam de sua cintura, subindo delicadamente por toda a lateral de seu corpo, para chegar a seu colo e pescoço e finalmente segurar seu rosto.
Ele parou de beijá-la, olhando-a nos olhos, com um sorriso aberto que raramente dava. Em seguida, voltou a beijar seus lábios, agora com uma vontade calma, entrelaçando seus dedos no cabelo flamejante da mulher. Ela os balançou de leve, sorrindo contra os lábios dele antes de retomar o beijo. Draco desceu as mãos lentamente pela frente de suas vestes até encontrar o primeiro botão. Ele o abriu, desviando seus beijos para o pescoço, beijando cada centímetro de pele que passara a ser exibido com a abertura do botão, para em seguida passar para o segundo e fazer a mesma coisa. A respiração de Ginevra era tão forte que seus seios subiam e desciam compassadamente, enquanto acariciava a parte que ficava de fora do sutiã meia-taça, afastando a roupa de cima com a ponta dos dedos. A ruiva sentia arrepios conforme os lábios dele seguiam o mesmo caminho.
O terceiro botão permitiu que passasse os dedos sobre o sutiã inteiro, a renda estimulando seus mamilos tanto quanto o calor do toque, e Ginevra prendeu a respiração. Quando a boca do loiro os encontrou, primeiro o esquerdo, e pouco depois o direito, ela não conseguiu impedir-se de soltar um pequeno gemido e, apesar de não ver seu rosto, sabia que Draco sorrira ao ouvir o som. Suas costas estavam apoiadas contra a pedra áspera, ele acabava de beijar o lugar onde o aro e o elástico de seu sutiã encontravam com sua pele e abria o quarto botão. Estava ficando tonta com a forma como ele a tocava — muito diferente da forma desajeitada de quando namoravam na escola — e nunca soubera o quão poderia ficar excitada com dedos passeando por sua barriga.
Uma parte de sua mente se perguntou o quanto Romilda poderia ter ensinado a ele, mas decidiu que não importava como fora. Seu estômago estava gelado, seu coração batia depressa e as mãos do loiro tinham aberto o quinto botão e deslizavam por seu quadril enquanto beijava a lateral de sua cintura, fazendo-a tremer.
Draco desceu os beijos até seu quadril pela lateral, depois de se desfazer dos três ultimos botões, um seguido do outro. Seus dedos passavam devagar por suas coxas, subindo até sua virilha antes de se desviar para a parte de trás de seu corpo e voltar os beijos por uma linha imaginária que seguia de seu umbigo até sua boca, passando diretamente pelo espaço entre seus seios. Ele a beijou com vontade e ela o puxou para si, escorregando seus dedos entre os botões dele com pressa, tentando despi-lo da roupa.
O loiro parou de beijá-la para acariciar seu rosto novamente e ela o virou, beijando seus dedos e suas mãos. A camisa de Draco se abriu e Ginevra colocou as mãos por dentro dela, acariciando a pele quente por baixo. Queria apertá-lo contra si, mas ele continuava a acariciá-la com leveza. Puxou o corpo mais para perto do seu, desesperada por mais contato, colando a pele dele contra a sua, lutando para abrir o cinto do homem.
Draco retirou sua mão, entrelaçando os dedos nos seus. A pele de Ginevra ardeu, constrangida, mas ele apenas beijou o ponto onde seu pescoço se encontrava com seu ombro e colocou seu braço por trás do pescoço dele, conforme usava a outra mão para colocar uma das pernas da ruiva em torno de seu corpo, passando para trazer a outra mão dela também para o pescoço, e a imprensou contra a pedra ainda mais. Ginevra gemeu conforme o volume entre as pernas de Draco pressionava algumas das partes mais sensíveis de seu corpo e colocou sua outra perna também em torno dele, tentando aumentar o contato.
O sonserino a ergueu, segurando-a pela cintura, e começou a andar com ela pelo círculo de pedras. Seus lábios continuavam espalhando beijos pelo ombro e pescoço da mulher, cujas vestes começavam a escorregar. Ele a abaixou de repente, deixando-a com ainda mais frio na barriga, e riu, divertindo-se da expressão surpresa da mulher. Mais delicadamente, deitou-a sobre o chão frio e sem grama do círculo, pegando sua varinha e fazendo feitiços em torno dos dois. Ginevra não prestou atenção no que poderiam ser, mas sentiu o chão sobre si se afofar e aquecer, e sorriu antes de puxá-lo para perto de si.
Deram um beijo longo, calmo e, ao mesmo tempo, incrivelmente intenso. Ela beijou todo seu rosto, seu pescoço e suas orelhas enquanto as mãos tentavam soltar à calça dele. O homem sorriu e a beijou na boca, deixando suas mãos percorrer os caminhos do corpo dela, como se jamais os tivesse esquecido. Draco se dedicou a beijar todo o corpo da ruiva. Ela conseguia sentir cada toque de seus lábios como se fosse fogo enquanto terminava de despí-la. Podia ver o vento, mas estava plenamente aquecida, se por mágica ou por desejo não sabia dizer.
Draco voltou a beijar sua boca, longa e delicadamente, enquanto se desfazia de suas calças e cueca. Ginevra estava tonta de vontade e nunca ficou tão feliz com quando ele se inclinou entre suas pernas, roçando a parte externa de suas coxas com as internas dela. Draco passou o braço pela cintura da ruiva, puxando-a para perto e para baixo, e com a outra mão, deslizou o dedo pelo rosto sardento da mulher, dando um sorrisinho. Então, abaixando o rosto para um beijo, deixou que seu membro a penetrasse.
Os dois começaram a se mover lentamente e ele levantou o rosto, olhando-a nos olhos. Era como se perder em diversos tons de cinza. O loiro sorria para ela, alguns fios de cabelo caindo sobre a testa conforme continuava. Ginevra o agarrou pela cintura, puxando-o para perto, e ele segurou sua outra mão.
O sorriso dele vacilou por um instante conforme suas alianças se encontraram — completamente diferentes uma da outra — e, em um impulso, ela puxou sua mão de volta, usando a outra para retirar o anel que usara por tantos anos e o olhando por alguns segundos antes de jogá-la o mais longe que podia. A beijando Draco parou, para retirar também sua aliança e a jogar na grama morta do círculo. Ginevra não conseguiu se conter e puxou a mão dele para si, beijando o lugar onde antes estivera o anel, sorrindo, sem parar, sem entender o que estava a levando a fazer isso. O loiro sorriu ainda mais largamente conforme voltava a se movimentar, agora um pouco mais rápido.
A respiração da ruiva começou a ficar cada vez mais ofegante, pequenos gemidos saíam de sua boca antes que conseguisse impedir — e nem mesmo conseguia ficar com vergonha, como de costume. Ele aumentou o ritmo, mas seu corpo queria ainda mais, e Ginevra se viu fazendo circulos com o quadril. Draco agora arquejava fortemente, a cabeça abaixando para beijar o rosto e os lábios da mulher sem parar. Estava tonta de prazer e fechou os olhos ao sentir que não poderia mais suportar, sem se importar com o tom de sua voz. O homem abaixou a cabeça e seu gemido soou maravilhosamente bem nos ouvidos da ruiva, alguns segundos antes de ele desabar sobre si.
Os dois ficaram assim muito tempo, mãos entrelaçadas, as respirações difíceis e rápidas, um sentido como o coração do outro batia. Sorriam sem parar, sem saber dizer o motivo, e ele beijou o lóbulo de sua orelha diversas vezes. Ginevra fechou os olhos, esperando sua respiração voltar ao normal, e adormeceu sem nem mesmo perceber.
Ao acordar, Draco observou Ginevra se virar ao seu lado, num sono tranqüilo. A mão esquerda estava sobre o travesseiro, ao lado dos fios vermelhos que destoavam da seda branca da roupa de cama. Ainda havia a marca no dedo que por tantos anos carregara a aliança de casamento com Potter. A respiração da mulher era calma e ele podia observar os olhos se movendo por detrás das pálpebras. Imaginou que estava em sono profundo, a julgar pelas horas que havia dormido. Conteve a vontade de abraçá-la e trazê-la para ainda mais perto de si. Não sabia qual seria a reação dela ao acordar e reconhecer que estavam na Villa Malfoy, então tentava decorar cada pequeno detalhe do quadro que contemplava à sua frente. Quando todo o torpor da noite anterior tivesse passado e a realidade batesse à sua porta, provavelmente a ruiva ficaria abalada — ou não, desejava intimamente.
Beijou sua testa, velando o sono de Ginevra ainda por algum tempo. Ela acordou lentamente e o encarou, ainda sonolenta.
— Bom dia — ele a cumprimentou com um beijo rápido em seus lábios.
— Já amanheceu? — a mulher perguntou, ajeitando-se na cama e, só então, olhando ao redor.
— Há algum tempo — respondeu, ajeitando-se para ficar ao lado dela, os narizes quase colados. — Dormiu bem? — ela suspirou.
— Eu não devia ter dormido. Não aqui — acrescentou.
— Qual o problema? — perguntou, passando os dedos pelo rosto dela, que fechou os olhos ao seu toque.
— Draco, não é certo. Essa é sua casa e...
— Essa casa foi de Romilda, Ginevra, e nada vai mudar isso.
— Ainda tem muito dela aqui — a ruiva respondeu, tornando a abrir os olhos e encará-lo.
— Você achou que eu fosse cretino a ponto de te levar pro meu quarto? — perguntou, divertido.
— Não, eu só... — ela respondeu, sem jeito. — Eu acho que é cedo demais, Draco.
— A última coisa que Romilda me pediu foi para ser feliz, e seu nome foi citado nesse pedido — a ruiva ergueu uma sobrancelha.
— Ela sabia que nós...
— Ela sempre soube que nós tivemos algo no passado. Você achou que eu esconderia isso da minha mulher? — perguntou, irônico.
Ginevra balançou a cabeça.
— As coisas não deviam acontecer assim.
— Assim como?
— Assim, tão rápido.
Draco riu.
— Nós não somos mais adolescentes, Ginevra.
A ruiva suspirou.
— Exatamente por isso. Nós somos adultos e temos responsabilidades. O que aconteceu ontem foi... — ele cobriu os lábios dela com os seus, impedindo-a de prosseguir.
— Foi como tinha que ser — o loiro completou, fitando-a atentamente.
— Draco, o que nós fizemos foi... Errado — acrescentou em tom de culpa.
— Você teve todas as chances de impedir que acontecesse e não o fez — respondeu, sério.
— Eu sei... — ela murmurou, baixando os olhos.
— Então não venha me dizer que seguir seus instintos foi errado, Ginevra. Não venha me dizer que fazer o que você quer é errado.
— Mas o que eu quero é errado, Draco.
— Por quê? — perguntou, paciente.
— Porque... Nós não podemos repetir aquilo, nós... Nosso relacionamento foi, literalmente, uma loucura. Em todos os aspectos. Nós nos encontrávamos às escondidas e sempre havia o medo de sermos vistos e...
— Isso não existe mais — ele a cortou. — Nós somos adultos, lembra? — perguntou, irônico. — Não há motivo para encontros às escondidas, não há motivo para temer que sejamos vistos, não há uma guerra acontecendo lá fora.
— Não — ela consentiu. — Mas eu acabo de me separar e você acaba de ficar viúvo. E nós dois temos filhos, frutos desses casamentos, Draco. Não estamos falando apenas da minha vida e da sua.
— Eu não estou te pedindo em casamento, Ginevra — respondeu, irritadiço. — Estou apenas te pedindo pra se dar uma chance de ser feliz. É tão difícil assim?
— Mas temos que pensar neles também, Draco. Ou você realmente imagina que quatro adolescentes não vão fazer a mínima diferença?
— Eu não estou dizendo isso.
— Então não finja que é tudo tão simples.
— Nem tão complicado quanto você está tornando as coisas.
Ginevra suspirou, cansada. Odiava quando ela suspirava daquela forma. Sabia que estava se preparando para argumentar ainda mais — e cada vez de forma mais grifinória.
— Tudo está indo rápido demais — ela respondeu, esquivando-se do olhar do loiro. — O que aconteceu ontem...
— Se você falar mais uma vez que foi um erro eu vou ficar realmente irritado, Ginevra — ele a interrompeu mais uma vez. — Nós não somos crianças, nem adolescentes, nem irresponsáveis. Nós sabíamos o que estávamos fazendo.
— Desejo, Draco é muito diferente de um relacionamento.
— A quem você quer convencer que aquilo foi só desejo? — ele levantou bruscamente da cama, caminhando até o banheiro, sem olhar para a ruiva.
Ligou o chuveiro e deixou que a água caísse por suas costas, a cabeça baixa, os olhos fechados. Sabia que se continuassem por aqueles rumos não chegariam a lugar algum.
Algum tempo depois, ele ouviu alguns passos leves se aproximando.
— Me desculpe — ela falou, sem olhar para ele. — Não era minha intenção te ofender.
A ruiva estava de pé, enrolada no lençol, apoiada na parede e encarando o chão.
— Eu achei que você já tivesse aprendido onde as coisas chegam quando você começa a querer se convencer de algo, Ginevra — respondeu, abrindo o vidro do boxe que separava os dois, a água ainda correndo do chuveiro.
— Do que você está falando?
— Quantos anos você levou pra admitir pra si mesma que não era feliz com ele? — perguntou, encarando-a, ainda que ela não tivesse levantado os olhos.
— Não sei dizer quando deixei de ser feliz, Draco.
— Não foi isso que eu perguntei — respondeu, irritado.
— Muito tempo — respondeu, evasiva. — As coisas não são tão fáceis de perceber como você imagina, sabia?
— E você levou mais um "muito tempo" pra resolver pensar em você. Só que você esqueceu que durante esse "muito tempo", muito de você ficou perdido.
— E, claro, você é o meu cavaleiro em cavalo branco que vai recuperar tudo isso — ironizou.
— Você tem que recuperar, Ginevra. Ninguém pode fazer isso por você — ele desligou o chuveiro.
— O que exatamente você quer, Draco? — ela perguntou, o olhando pela primeira vez.
— O que você quer? É isso o que importa — ele puxou uma das toalhas brancas que estavam penduradas próximo ao boxe e começou a se enxugar.
— Eu quero... Tempo.
— Eu não quero que você perca tempo de novo, Ginevra. Não quero que você se perca, não agora — acrescentou, enrolando a toalha ao redor da cintura.
— Eu não posso decidir minha vida com base em um par de noites! — ela reclamou. — Não estou falando de vinte anos. Eu estou dizendo de alguns dias, algumas semanas...
— Um par de noites? — ele repetiu, caminhando de volta para o quarto.
— Depois de vinte e três anos, Draco Malfoy, você não espera que eu leve em consideração um romance de colégio que acabou porque eu não conseguia confiar em você! — ela o seguiu.
— Eu não estava me referindo ao nosso romance, Ginevra — respondeu, irritado, virando-se pra ela. — Mas, como pra você, o que aconteceu ontem foi só desejo, não adianta nem tentar argumentar.
— Você quer dizer que concorda com isso? Que foi realmente só desejo?
— Claro, Ginevra, concordo plenamente. Meu único objetivo era te comer e te largar, sabe? Só pra irritar Potter.
A ruiva sentou sobre a cama, ainda segurando o lençol enrolado sobre seu corpo, os olhos fixos no chão à sua frente. Draco esperou por uma resposta, que aparentemente ela não pretendia dar.
— Eu achei que você me conhecesse melhor — ele falou, virando de costas.
— Você estava certo — ela murmurou pra si mesma.
— É o que geralmente acontece.
— Sobre o que falou, quando eu trouxe Albus aqui — continuou, como se sequer tivesse ouvido. — Eu não superei você.
— Você escolheu Potter, Ginevra. E fez questão de deixar isso bem claro.
— E essa entra pro rol de coisas que você vai jogar na minha cara o resto da minha vida, como os sapinhos cozidos — ela respondeu, ressentida.
— Como você acabou de notar, eu costumo estar certo quando eu faço isso.
— Você era o cara. Você sempre vai ser. Mas eu simplesmente não podia ficar com você.
— Então eu sou o cara, mas você quis ficar com outro cara, que obviamente, jamais poderia ser o cara.
— O que tinha de bom em você? É que você sempre pensa que está certo. O que é mais frustrante é a quantidade de tempo que você realmente está certo. Você sempre foi brilhante, engraçado, surpreendente, sexy... Mas eu ficava me sentindo que estava fora de algo importante, e eu achei que com Harry... Ele me deixaria fazer parte da vida dele por completo.
— E um dia alguém jogou água no seu castelinho de areia.
Draco a ouviu suspirar.
— Eu joguei.
— Como?
— Ele não era o cara. Ele não causava em mim a mesma reação que o cara causava. Ele... Me idolatrava. E eu demorei muito tempo pra perceber isso. E quando eu percebi, já era tão... Trivial. Já tinha virado rotina. Era algo que fazia parte do nosso casamento.
— Ele te usou como um ticket direto para a grande, unida e feliz família Weasley — disse, seco.
— Não que ele realmente precisasse de um ticket — ouviu-a murmurar.
— Você perdeu anos da sua vida nesse casamento. Você não acha que merece uma chance de ser feliz?
A ruiva deitou na cama, encolhida, o corpo virado para a parede oposta a qual ele estava. Draco se aproximou da cama, subindo atrás dela, mas a mulher não se moveu.
— Você merece essa chance, Ginevra.
— As coisas estão diferentes agora — ela disse, baixinho.
— Nós temos as chances de fazer a coisa dar certo desta vez — murmurou contra os cabelos dela.
Ao invés de responder, a ruiva se virou, puxando-o para si e beijando sua boca longamente, os dedos corriam suas costas ainda nuas com desespero e Draco se sentia tão intoxicado que ignorou os sons estranhos que ouvia, seu cérebro não conseguiu absorvê-los até a ouvir a porta do quarto se escancarar e dar de cara com a expressão chocada de Blaise.
— Er... Estou atrapalhando alguma coisa?
