Surpresas de aniversário – parte 2

-Ah, mãe...qual é?

-Não reclame. Caleb ainda não tem a carteira. – disse Ravena, séria. Estavam todos no carro de sempre, com Mutano dirigindo. Ravena proibira terminamente Caleb de dirigir o carro enquanto não tirasse a carteira de motorista. Os adolescentes em geral, Mutano e Cyborg ficaram desapontados. Mas ela permanecera firme. Queria manter Caleb longe de qualquer coisa perigosa. Pelo menos por aquele dia.

Caleb estava no banco de trás, admirando a paisagem noturna e urbana. Não reclamara de nada. O carro já era seu. Podia esperar mais alguns dias ou semanas. Estava bastante satisfeito. Só lamentava pelo cabelo, ainda escondido pelo capuz azul-escuro, e porque seus avós e o resto da Patrulha do destino não pudera vir. Mas prometeram aparecer tão logo possível, e mandaram um cartão. Flame cochilava com a cabeça em seu colo, que era acariciada constantemente pelo dono. Fora tudo ótimo, pensou o rapaz estreitando os olhos...Mas ele ainda não conseguira se livrar da sensação de que estava para acontecer alguma coisa...

Eram apenas 9 da noite...só faltavam três horas para o dia acabar... ou deveríamos dizer ainda?

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-Chegamos!

-Ah, sr. e sra. Logan...como foi a festa?

-Muito bem, Melvin...porque está me chamando de sra Logan? – perguntou Ravena confusa. Sempre fora tratada pelo primeiro nome por Melvin.

-Preciso treinar... – respondeu ela com tom ansioso – Amanhã tenho uma entrevista de emprego e preciso estar bem com as palavras...

-Ah, que ótimo, querida. Onde estão as meninas?

-Na sala. E aí, Caleb? 16 anos, hein? O que ganhou?

-Ah, Melvin, você não vai acreditar...ele ganhou um carro! – respondeu Esmeralda exitada, soltando Pérola no balcão da cozinha.

-Que maneiro! E você ficou legal com o capuz da sua mãe.

-É, isso além de um processo de crescimento tamaraniano...

Eles chegaram à sala, conversando e rindo. Arella e Marie estavam assistindo TV, sentadas, quietas e sérias, o que não era do feitio das duas. Marie estava sonolenta, com a cabeça vacilando. Arella estava ereta no sofá, sentando duro, olhando para a tela com mais fixação do que o normal.

-Ei, filhotas!

-Oi, papai! – disse Marie, acordando, estendendo os braços para ele. Mutano sorriu e a ajudou a se levantar com um abraço.

-Se comportaram, garotas? – perguntou Ravena. Estava um pouco arrependida de tê-las deixado em casa.

-Ah, elas foram uns amores, fiquei até surpresa. – respondeu Melvin, sorrindo. – Bem, tchau pra vocês, garotas, que vou andando.

-Eu te acompanho. – se ofereceu Esmeralda. – Como vai o Bob?

-Ah, estava aqui agora à pouco...

As vozes das duas foram sumindo. Caleb se voltou para as irmãs e imediatamente percebeu que tinha algo errado. Arella o fitava com os olhos arregalados. Ela estava muito pálida e um pouco trêmula, e não havia como decifrar suas emoções pela expressão misteriosa. Mas via-se claramente que ela estava pelo menos com um pouco de medo. Marie estava com sono, mas não parava de lançar olhares astutos e curiosos para ele e Arella.

-Ahn...então, tudo ok com vocês? – perguntou ele, confuso.

-Tudo. – sussurrou Arella, desviando o olhar.

-É...ahn, feliz aniversário, Caleb. Acho que já vamos pra cama, né, Arella?

Arella não respondeu nem olhou para ela. Só subiu porque a irmã gêmea foi até ela e puxou seu braço, desejando 'boa-noite' a todos.

Ravena e Mutano se entreolharam, pensando que aquilo tinha a ver com o fato de não terem ido à Torre. Ledo engano...

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-Marie, acho que quero contar. – disse Arella insegura.

-Você não pode contar! – exclamou Marie zangada. – Qual parte do 'arrancar seus dentes' e 'furar seus olhos' você não entendeu?

-Eles não vão fazer nada disso.

-Não, vão contar para mãe e pro pai, e aí vamos desejar que tivessem o feito. Não vai se trocar? – perguntou ela, vestindo o pijama.

Arella não respondeu. Estava sentada em sua cama, as mãos entrelaçadas em seu colo, meio curvada e com as pernas pra fora. Seu semblante era o de alguém que acabara de receber a notícia da morte de seu melhor amigo. Parecia que ia começar a chorar a qualquer instante.

Marie se apiedou dela. Nunca havia visto Arella assim. O que chegara mais perto fora quando o hamster delas morrera, dois anos atrás. A menina se trancara no quarto por dias, não importava o que dissesem. Ela se recusou a ter qualquer outro animal depois disso. E ainda assim, agora parecia pior. Mas a irmã não quisera contar o que a deixara tão perturbada. Só disse que aconteceu uma coisa muito horrível no quarto de Caleb, e que não sabia como explicar.

-Por que não me conta o que houve? – perguntou ela, subindo e se sentando ao lado dela. Arella balançou a cabeça.

-Não dá. Eu tive...umas visões, foi isso. Mas se te contar você vai achar que estou ficando louca. Mas Caleb...acho que talvez ele compreenda...

-Por que eu não? – perguntou Marie ofendida. – Não vou achar que esta ficando louca.

Arella olhou para ela e pensou em contar, mas nesse momento os pais entraram no quarto.

-Oi, meninas. Viemos dar boa-noite.

-Viemos nos desculpar por não termos levado vocês pra festa. – disse Ravena, infeliz.

-Ahn? Ah, tudo bem, mamãe. – disse Marie, descendo. – A culpa foi nossa, mesmo.

-Não...talvez tenhamos sido muito duros com vocês. – contiunuou a mãe, afagando a gêmea loura. – Pra compensar, podemos ir tomar um sorvete amanhã, está bem? Só nós quatro!

-Parece ótimo!

-E você, Arella? – perguntou Mutano, olhando pra cima. Arella ficou ainda mais pálida, se é que fosse possível. Acabara de se lembrar onde vira os olhos do demônio. Em sua mãe. Quando ficava brava. A garota da visão! Tinha os mesmos cabelos violeta de sua mãe...Seria ela?

-O que foi, querida? – quis saber ela, sentindo uma confusão na filha. – Tudo bem com você?

Arella de repente ficou muito triste. Esqueceu o resto das visões por um instante. Ficou triste por sua mãe. Era por isso que nunca falava em sua família...Seu pai era muito mau. A família que tinha agora eram eles...Então se sentiu extremamente culpada por ter feito aquelas brincadeiras de mau gosto, pensando em como seria horrível se seu pai fosse mau daquele jeito e se ela não tivesse mãe, nem irmãos.

"Pobre mamãe..." pensou ela arrependida "Será que não sabe o quanto é importante para mim...para todos...que ela esteja aqui? E eu jogo uma caixa-surpresa nela! Como sou má! Mamãe já teve que aguentar muita maldade..."

Os olhos violeta de Arella se encheram de lágrimas, que deslizaram silenciosamente por seu rosto.

-Desculpe, mãe. – pediu ela com a voz embargada. – Por tudo.

-Arella! – exclamou Ravena, puxando-a pra baixo. Então a abraçou com força. Não fazia idéia do que poderia ter deixado a filha assim, mas parecia ser muito sério. A garota a abraçou de volta, soluçando. E assim ficaram por um tempo, com Mutano e Marie olhando sem entender.

-Obrigada por estar aqui, mamãe. – murmurou Arella, de um jeito que só a mãe ouvisse.

-Eu sempre vou estar, docinho. – respondeu Ravena, sentindo vontade de chorar também. Então as duas se separaram, com meios sorrisos. A menina fungou e limpou os olhos na mangas da blusa. Então se virou para seu pai, que se aproximara das duas, preocupado.

-Obrigada por ser tão bom, papai. – agradeceu ela também, dando a mão para ele. Mutano deu um sorrisinho, pegando a mão da filha.

-Bom...? – murmurou ele sem entender. – É claro que vou ser bom, linda. Você é minha filha querida.

Mas Ravena entendeu.

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-Mãe? Pai? Aconteceu alguma coisa? – perguntou Esmeralda quando os pais desceram as escadas, a mãe com os olhos vermelhos e o pai com uma expressão confusa.

-Nada. – respondeu Ravena. – Vão pra cama, vão. Já esta na hora de dormir.

-Mas...é cedo. Estamos de férias, esqueceu?

-Eu disse cama. – repetiu Ravena, com sua expressão 'não-desobedeça-se-não...'.

Esmeralda desligou a TV, deu um beijo nos pais e subiu com Pérola, conformada. Caleb esperou mais um pouco.

-Ahn, eu queria agradecer mais uma vez. – disse ele, sorrindo. – Pelo carro e tudo o mais. Valeu mesmo, pai e mãe. Vocês são...os melhores pais que eu...nós... poderiamos ter.

-Não foi nada, Caleb. Obrigado pelos elogios. – disse Mutano, sorrindo também.

-É, sim, Caleb. Queremos que seja feliz. E...desculpe por ter cortado seu cabelo. Prometo que nunca mais faço isso.

-Tudo bem, mãe. Estava meio grande, mesmo.

Ele sorriu e se encaminhou para o quarto, seguido de Flame, que poderia dormir em casa hoje.

Depois que a porta lá em cima bateu, o casal se entreolhou.

-Entendeu alguma coisa? – perguntou Mutano se sentando. – De Arella, quero dizer.

-Mais ou menos... – respondeu Ravena, e sentou ao seu lado, mordendo o lábio. – Acho que ela ficou arrependida. Mas...não é tudo. Foi mais que isso. Aconteceu alguma coisa.

-É...não acho que elas tenham ficado quietinhas no sofá o tempo todo, como Melvin disse...

-Mas não vai adiantar pressioná-la. Quando chegar a hora, ela vai falar.

-Como sabe?

-Posso sentir. Ela ainda está preocupada com alguma coisa.

-Acho que o que eu menos entendi foi o que ela perguntou no final.

-O que? Se nós queríamos que ela ajudasse nas tarefas de casa?

-Não. Ela disse assim... – Mutano parou um instante, pensando. – "Caleb vai ficar bem, não vai?" Por que ela perguntaria uma coisa dessas?

Ravena não respondeu, pensando na questão do marido.

O relógio na parede marcava 10h02min.

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Caleb entrou no quarto, mas não se trocou. Deixou os presentes de tio Vic e tio Dick em cima do criado-mudo, com cuidado, e foi direto para a escrivaninha. Acendeu a luminária e pegou papel e lápis.

Começou desenhando seu carro. Caprichou nele, forçando as linhas e dando sombreamento. Pensou em colorir e pôr pessoas nele, mas desistiu, porque já era tarde. Então fez um esboço leve de si mesmo com o novo corte, então com o capuz. Depois desenhou a turma da festa, e acrescentou Arella e Marie, já que ficara triste por elas não terem ido também. Então se espreguiçou. Eram 10h45min. Seu dia já estava acabando. Ele se curvou para guardar os desenhos na pasta. Pensou que não olharia os desenhos sinistros de seus sonhos de novo. Deixaria para pensar neles outro dia. Foi quando viu que sua chave estava no chão, perto da gaveta. O que estava fazendo lá? Ele sempre guardava na gavetinha do criado-mudo...

'Arella!' pensou ele, lembrando de como ela estava nervosa quando ele chegara. Ele abriu a gaveta e não deu outra: Estava tudo atuchado, como se alguém tivesse guardado às pressas. Ele socou a outra gaveta, com raiva. Levantou-se depressa e andou até a porta, batendo os pés. Ia agora falar com a garota, pouco ligando se ela estaria dormindo, ou no banheiro, ou desarmando uma bomba. Vai ouvir umas poucas e boas, pensou ele. Mas quando pegou na maçaneta, ele ouviu.

"Caleb Logan"

Caleb se virou, surpreso. Fitou o quarto vazio, procurando a voz que dissera isso. Flame, em sua cesta, dormia profundamente, mas rosnou em seu sono.

"Caleb Logan" repetiu a voz. Era uma voz feminina, baixa, quase um sussurro.

-Quem...quem está aí? – perguntou ele, dando um passo à frente. De repente, seu quarto pareceu ainda mais escuro. Mas era um escuro diferente. A luz da lúminária era insignificante nessa escuridão. Parecia...sobrenatural.

"Caleb Mark Logan, estou certa?" perguntou a voz, agora um pouco mais alta.

-É...quem quer saber? – retrucou Caleb, olhando em volta. Mas era inútil. A voz parecia vir de todos os lugares, como se houvessem mega fones em todo o quarto. A voz deu uma risadinha.

"Quer saber quem eu sou?" perguntou ela, com um certo desdém.

-Quero. – respondeu Caleb, pegando um taco de beisebol, encostado na parede.

"Suas armas são inúteis contra mim" disse a voz, calma. " Não vim lhe fazer mal."

-É? E o que veio fazer? Quem é você, pela terceira vez?

"Sou uma mensageira." Disse a voz com orgulho. "Sabe o que quer dizer?"

-Obviamente. – respondeu Caleb, ainda com o taco na mão. Mas dessa vez ele recuava, indo para a porta. – Então...tem alguma coisa para mim, ou só veio pedir infomação?

A voz riu com gosto.

"Você é engraçado, Caleb Mark Logan."comentou a voz, como se estivessem no meio de uma conversa normal. "Mas cuidado com a pessoa com quem você faz gracinhas..."

-Você achou graça? Achei uma piada meio fraca... – disse Caleb, ainda indo para a porta. – Não tem palhaços muito bons de onde você veio, não é?

A voz não respondeu. Ele aproveitou a deixa e agarrou a maçaneta. Quando a virou, porem, levou um susto: estava trancada! Ele não se lembrava de ter trancado a porta.

"Não pode sair." Disse a voz, ainda divertida. "Tenho que te passar a mensagem primeiro."

Caleb começou a sacudir e bater na porta, chamando pela mãe, pelo pai e pelas irmãs.

"Ninguém vai te ouvir, Caleb Mark Logan."continuou a voz, despreocupada. "Tenho um grande poder. Semelhante ao seu."

-O que sabe sobre mim? – retrucou Caleb com raiva, desistindo da porta. Então olhou para Flame. Ela devia ser poderosa, mesmo. O cão continuava adormecido, e geralmente qualquer ruído o acordava. – Droga, diga! Quem é você? De onde vem?

De repente, uma luz, uma luz diferente, assim como aquela escuridão, apareceu no meio do quarto. Eram várias partículas de luz, e Caleb se sentiu fascinado por elas. As partículas dançaram, e se juntaram, formando uma silhueta. Então houve um clarão repentino, e Caleb estava à frente da garota mais bonita que ele já tinha visto.

Ela era pouco mais baixa que ele e parecia ter a sua idade. Seus cabelos eram longos e ruivos, lisos com ondas soltas no final. Sua pele era branca como neve, e parecia brilhar. Ela tinha olhos verde-claro, diferente dos olhos de suas irmãs. Era como um verde transparente, mas intenso. Seus lábios eram carnudos e muito vermelhos, e se abriam em um sorriso simpático, mostrando seus dentes iguais e ainda mais brancos que sua pele. Ela trajava vestes verdes, bem claras, o que realçava mais ainda seus olhos. Eram vestes simples, que lembravam uma toga: uma saia comprida e tecido sobre seu tronco, com um volume considerável sobre o busto recém-aumentado, deixando à mostra um de seus ombros brancos. Fora isso, ela usava um único colar, com uma pequena pedra rosa leitosa. Seus pés estavam descalços.

Caleb ficou boquiaberto, embriagado com a visão de tamanha beleza à sua frente. Seus olhos se alargaram, e ele sentiu sua mãos formigarem. Foi assaltado de repente pelo desejo forte de encostar seus lábios nos dela, rubros como sangue, de passar as mãos em seus cabelos vermelhos, de tocar seu ombro de porcelana, beijá-lo, não soltá-la mais. Ele estremeceu, surpreso com suas sensações novas. Era seu primeiro sentimento de luxúria. O rapaz sacudiu a cabeça, tentando clarear a mente.

A garota, porém, só ficou olhando-o, com a expressão divertida. Não era a primeira vez que alguém, especialmente um ser do sexo masculino, ficava com aquela expressão quando a via pela primeira vez. Mais vezes, até. Ela esperou, ainda sorrindo, o garoto esfregar o rosto, piscar com força, e olhá-la mais uma vez. Ele agora tinha a expressão controlada, o que a surpreendeu. Geralmente demorava uns 5 minutos para alguem da idade dele se acostumar com sua presença. Ela não conseguiu se decidir se gostava daquilo ou não.

-Oi. – cumprimentou ela.

-Ahn...oi. – respondeu Caleb, fazendo o possivel para se controlar. A voz dela era maravilhomente macia e doce, ele quase sentiu desejo de novo. – Então...você é uma mensageira?

Ela meneeou a cabeça graciosamente.

-Então...quem, exatamente, é você? – quis saber ele, sério. – O que quer de mim?

-Meu nome é Tinúvil. – respondeu ela. Esperou um instante. Era nessa hora que diziam que ela tinha um nome lindo. Sempre fora assim. Mas não dessa vez : Caleb continuava olhando-a com expressão séria. De fato, Caleb quase elogiou o nome da garota, mas tinha muito auto-controle. Era por isso que não estava babando.

-Bem... – continuou ela, um tanto desapontada. – Fui mandada por uma sociedade muito importante de magos e sábios, que dizem que você é muito importante.

-Importante? Por que?

-É aí que eu entro. Vim te trazer a mensagem.

-Ah! – exclamou Caleb. Estendeu a mão, esperando receber uma carta. A garota olhou para ele e para a mão dele sem entender. Então deu sua própria mão para ele.

Caleb achou que fosse derreter. Estava de mãos dadas com aquela beldade! Era uma mão tão pequena e quente!

-Por...por que fez isso? – perguntou ele, sem forças para puxar a mão.

-Eu não sei. Não era o que queria?

-Não! Queria a mensagem! Não é uma carta?

-Oh, não. – disse ela, rindo, como se a idéia fosse absurda. – Temos outros jeitos de entregar mensagens. Como você é bobo!

Caleb franziu a testa. Mas não conseguiu ficar zangado de verdade. Ela pareceu dizer isso com tanta inocência!

-Bem...então como entregam mensagens?

-De um jeito especial. Vem comigo. – chamou ela, dando um passo para trás, sem tirar sua mão da dele. O rapaz olhou para ela, que sorria. Poderia acompanhá-la até o fim do mundo se sorrisse daquele jeito. Mas preferiu não lhe dizer isso. Somente assentiu com a cabeça, esquecendo tudo o mais.

O relógio em sua escrivaninha marcava 11h10min.

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Um grito agudo e alto ecoou pela casa silenciosa.

-O que foi? O que foi? – berrou Mutano confuso, acordando de repente.

-Veio do quarto das meninas. – disse Ravena, levantando e acendendo as luzes.

Os dois correram para fora, encontrando, no corredor, Esmeralda, também assustada, com uma camisola de bolinhas.

-O que foi isso? – perguntou ela, entre sonolenta e surpresa.

Ravena abriu a porta do quarto das gêmeas e encontrou Marie de pé, olhando para cima, e Arella sentada na cama, ofegando. Estava muito suada e lágrimas escorriam pelo seu rosto.

-Minha nossa, o que houve, Arella? – quis saber Mutano, correndo a descê-la do beliche, o que levou algum tempo, já que a menina estava completamente enrolada no lençol. Quando conseguiu, ela não chorava mais, mas se abraçou a ele como se estivesse prestes a cair.

-Tudo bem, linda, tudo bem. – sussurrou ele, tentando acalmá-la.

-Oh, Arella, fique calma! – pediu Ravena, visto que a filha ainda ofegava como se tivesse corrido quilômetros. – Alda, vai buscar um copo d'agua para sua irmã.

-É pra já. – concordou ela, correndo para baixo. Voltou em três minutos, com um copão de água, faltando só um terço para estar cheio, que fora o que derramara no caminho.

Ravena pegou o copo e com calma fez Arella bebê-lo. A menina bebeu aos golões, então se voltou para a família, tentando dizer algo.

-Calma, irmãzinha, calma. – disse Esmeralda, e Arella fez uma pausa. Quando conseguiu respirar normalmente, ignorou as perguntas de pesadelos e somente sussurrou:

-Caleb.

-O que tem Caleb, docinho? – perguntou Ravena. – Você sonhou com ele?

Arella assentiu com a cabeça, mas não era isso que estava tentando dizer.

-Deve ter sido algo muito horrível, para fazer você gritar daquele jeito. – comentou Esmeralda. Marie concordou com a cabeça. Mutano olhou em volta.

-Onde está Caleb?

A família silenciou, percebendo que o irmão mais velho não estava ali.

-Não é possivel que ele não tenha ouvido o grito... –disse Marie. Mas nesse momento Flame irrompeu pelo quarto, latindo muito agitado.

-O que foi, Flame, seu cachorro burro? – perguntou Ravena, com um tom preocupado na voz. Flame pulou e saiu do quarto, então voltou, rodeou eles e de novo saiu do quarto.

-Ele quer mostrar alguma coisa. – disse Arella, pálida.

-Fique aqui. – ordenou Ravena, e ela e Mutano saíram do quarto. – As três! – acrescentou, quando Alda e Marie tentaram segui-los.

Os dois seguiram Flame até o quarto de Caleb. Quando chegaram, não havia nada de anormal...exceto a janela escancarada, por onde entrava um vento gelado, e o fato de Caleb não estar ali.

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-Aonde está me levando? – perguntou Caleb, curioso. Os dois estavam andando pela rua, que estava anormalmente deserta. Tinúvil ia à frente, guiando-o pela mão. A Lua, as estrelas e as luminárias da rua, todas juntas não brilhavam tanto quanto a garota naquela noite escura.

-Ainda não sei. – respondeu ela sem preocupação. – Algum lugar bom pra te dar a mensagem.

-Que tipo de mensagem é essa?

-Uma mensagem sobre você. Sobre coisas que você não sabe sobre si mesmo.

-Ah, é? Tipo...

-Tipo a coisa importante a que você está destinado.

-Destinado...? O que é?

-Se eu contar, vou estragar a surpresa!

-Mas como sabem ao que eu estou 'destinado'?

-Fizeram uma profecia quando você nasceu e... Ah! – exclamou ela do nada, parando de repente. – Quase esqueci! Hoje é seu aniversário!

Caleb olhou para ela sem entender. Era uma completa estranha que se dizia mensageira. Mas a garota se comportava como se eles fossem velhos amigos de infância passeando por aí.

-Ahn...é.

-Não te trouxe um presente... – disse ela preocupada.

-Que é isso! Você mal me conhece, não precisa...

-Já sei! – falou ela, ignorando o garoto. Soltou a mão dele (Caleb achou sua mão estranhamente fria e vazia nessa hora) e foi até o jardim de uma das casas da rua e pegou uma rosa. Os espinhos tocavam sua pele, mas não a feriam. Ela fechou a outra mão sobre as pétalas da rosa e murmurou umas palavras. Seu punho brilhou com uma luz esverdeada. Ela retirou a mão, e a rosa parecia maior, mais bonita e mais viva do que qualquer outra.

Tinúvil estendeu-a para ele. Caleb pegou a rosa sem jeito. Geralmente garotos davam flores a garotas, não o contrário.

-Ahn...obrigado. – agradeceu ele, sem pensar em mais nada pra dizer.

-Não tem de que. Eu fiz essa rosa ficar encantada. Agora ela nunca vai morrer, e se você um dia ficar sozinho, essa rosa vai ser sua amiga. Pode guardá-la num bolso, não vai acontecer nada.

O rapaz guardou a rosa no bolso interno da capa da mãe.

-Pode me dar a mensagem agora?

-Como você é impaciente...Mas tem razão, nosso tempo está acabando. – assentiu ela, e um relógio enorme apareceu do nada, marcando 11h20min.

-Até quando você pode ficar?

-Meia-noite! É quando seu dia acaba! 16 anos, não é?

-Isso.

-Eu tenho 15, quase 16...mas sei um monte de coisas de magia, minha tutora, Méomer, diz que eu sei coisas que gente muito mais velha que eu ignora, então...

-Tinúvil! – chamou Caleb, impaciente. – O tempo!

-Oh, sim, perdão, Caleb Mark Logan.

-Pode me chamar só de Caleb...

-Mesmo? Obrigada! Isso quer dizer que agora nós somos amigos, certo?

-Certo. – respondeu Caleb com um sorrisinho. Tinúvil era encantadora.

-Acho que aqui serve...Sente-se. – convidou ela, se sentando no chão, no meio da rua.

-Mas...ah, que seja! – exclamou Caleb e se sentou de frente para a garota. Provavelmente até um caminhão desviaria dela. – Então?

-Bem, você já conhece a história sobre a profecia de sua mãe, seu avô, e como e quando foi feita a sua profecia, certo? Então...

-Peraí. Espera aí, tempo. – pediu Caleb levantando a mão. – Profecia de quem?

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-Gar, o que vamos fazer? Ele não está em lugar nenhum! – exclamou Ravena, à beira das lágrimas. Eles tinham revistado toda a casa e o bairro, duas vezes. Nem sinal de Caleb.

-Fique calma, Rae. Vamos encontrá-lo. – assegurou Mutano. Já haviam avisado a polícia e os amigos titãs. Todos estavam à procura do rapaz.

-Ah, eu devia ter implantado um chip localizador nele! – disse Ravena, andando de um lado para o outro.

-Não consegue nenhum contato telepático?

-Não. Estou muito nervosa.

-Então se acalme, Ravena. Preferia você como antes nesse sentido...Nunca perdia a cabeça.

-Estamos falando do nosso filho! Como quer que eu não perca a cabeça? Droga!

-Olha, se não encontra-la logo, vamos estar perdendo tempo. Você é a mais indicada para tentar achá-lo. Conhece ele.

-Você também.

-Não tenho poderes telecinéticos, caso você não tenha notado.

-Vê-se claramente, pois, se tivesse, saberia que não é tão fácil quanto aparenta.

-Ora, você ao menos está se esforçando, ou só está aproveitando a situação pra reclamar?

-Como ousa...?

-Será que dá pra vocês pararem? – pediu Esmeralda de repente. Mutano e Ravena olharam para ela, surpresos. – Brigar desse jeito não vai adiantar de nada.

-Eu... – começou Ravena, pronta a discutir. Mas Mutano a fez parar, levantando o braço em sinal de paz. Ela tem razão, diziam seus olhos. Ravena suspirou.

-Desculpe.

-Não, desculpe você. – disse Mutano, passando o braço por trás de seus ombros. – Estou nervoso.

-Também estou. Devia ter cuidado melhor dele.

-Fez o possível, Rae. Nós fizemos.

Esmeralda cruzou os braços, voltando a olhar para cima. Arella estava muito pálida, mas tinha os olhos bem abertos e uma expressão de preocupação. Marie tinha a testa franzida e acariciava Pérola, que dormia em seu colo. Flame estava inquieto. Hora se deitava, hora levantava e andava em cículos, hora subia para verificar se o dono não estava mesmo no quarto, e então voltava a se deitar.

Do nada, fez algo diferente. Levantou-se, mas, em vez de subir, foi até a porta de entrada e começou a arranhá-la enquanto uivava. Pérola, ao mesmo tempo, pulou do colo de Marie e correu até a janela, com os pêlos eriçados e miando muito.

-O que há com esses bichos? – perguntou Ravena, indo abrir a porta para Flame. Para sua surpresa, quando saiu, viu que Flame e Pérola não eram os únicos.

Cães corriam em círculos nos jardins, ou se penduravam para fora nas janelas de casa, uivando como loucos. Gatos saíam pelas janelas ou apareciam nos telhados e muros, iguais a Pérola, miando com os pêlos eriçados. Pássaros saíram de seus ninhos e começaram a dar vôos rasantes e rápidos, piando junto com os presos em gaiolas, que começaram a se sacudir em sua pequena prisão, assim como hamsters e porquinhos-da-índia guinchavam sem parar, e peixes pulavam de seus aquários espalhando água. No litoral, animais maiores começaram a vir para a superfície ao mesmo tempo: Baleias esguichavam água, golfinhos pulavam ao lado de tubarões e barracudas, gaivotas, águias e andorinhas-do mar batiam as asas no mesmo lugar.

A alguns metros, vertical e horizontalmente, de uma certa biblioteca antiga, uma forte luz começou a brilhar, acompanhada de uma estranha e bela música.

Eram 11h56min.

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-Está dizendo...que minha mãe é filha do demônio Trigon?

-Isso mesmo. – assentiu Tinúvil, depois de contar a história toda. – Ela nunca te contou?

-Por que acha que estou tão surpreso? – retrucou Caleb zangado. – Não dá pra acreditar! E você tá dizendo que ele voltou, e que eu tenho que acabar com ele?

-Bem, sim. Ou pelo menos, é o que a profecia diz.

-Qual é! Tenho 16 anos! Não rola, Tinúvil, não dá, mesmo. E agora descubro que ele é meu...avô. Que estranho.

-Vamos, Caleb, sei que você vai conseguir. Você é forte e corajoso.

Caleb deu um muxoxo.

-Você acabou de me conhecer, como pode saber isso?

-Sabia da sua história, não sabia?

-É, mas uma coisa é uma história, outra é uma personalidade...

-Certo, mas, bem, você me parece corajoso. É a primeira pessoa que conheço e que acho isso. – disse ela, e não era mentira. Tinúvil ficou admirada com Caleb. Era o primeiro garoto que conhecia que prestava atenção no que ela dizia, e não só ficava olhando para ela como se fosse a coisa mais bonita do mundo, sonhando em tocá-la. E o primeiro que conhecia que não desmaiara quando ela o tocou ( não é exagero, outros desmairam, mesmo). E o primeiro que tentara enfrentá-la, mesmo que só sua voz. Geralmente sua voz bastava para alguns ficarem embriagados. O que isso tinha a ver com coragem? Só Tinúvil sabia, ou talvez apenas estivesse querendo dar qualidades a seu novo amigo. Outra coisa que gostara nele: aceitara ser seu amigo. Outros rapazes, quando ela fizera a proposta, lhe responderam que preferiam serem seus namorados.

Caleb riu.

-Está bem, então. Vamos dizer que eu tenha coragem para enfrentá-lo. Seria mais burrice, concorda? Meus poderes são muito fracos perto dos dele.

-Ele está um pouco mais fraco, agora. E você é mais poderoso do que imagina, Caleb, foi Méomer que disse isso.

Caleb ficou uns instantes em silêncio.

-O tempo está acabando, Caleb. – avisou Tinúvil. – Tenho que te dar a mensagem já.

-Vamos em frente. – concordou Caleb olhando para ela.

-Me dê a sua mão. Vamos para um lugar alto e espaçoso.

-Tinúvil, acho que não temos tempo para... – ele se calou de repente, vendo que estavam em uma espécie de torre cilindrica, que parecia ser o ponto mais alto da cidade.

-Caramba! Você é rápida!

-Obrigada. Agora feche os olhos. Eu vou te dizer a profecia, e você vai ver tudo o que eu falar. Vai ver tudo que você vai fazer, Caleb.

Caleb olhou para ela indeciso. Foi quando runas estranhas apareceram pelo seu corpo. Por seus braços, pernas e tronco, e uma em sua testa. Mas eram diferentes das da garota com quem ele um dia sonhara, e que há pouco descobrira ser sua mãe. Eram runas verdes, e de símbolos completamente diferentes.

-Chegou a hora. Vamos, Caleb. Tem que ser agora!

O garoto obedeceu. Fechou os olhos e sentiu Tinúvil tomar suas mãos nas dela. Nesse momento ele se sentiu mais ligado com seus poderes que nunca. Sentiu como se os poderes herdados da mãe tomassem forma, mas dessa vez, não em um corvo que vira lobo. Sentiu como se conjurasse todos os animais. Todos os que existiam. Todos aqueles em que seu pai podia se transformar. Sentiu-se ligado a eles. Sentiu-se expelindo luz.

E foi nesse estado de espírito que ele ouviu Tinúvil começar a falar.

Eram 11h56min.

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Capítulo com fim misterioso é foda, né? hehe ; )

Bem, posso dizer que ainda estava meio perdida quanto à profecia do Caleb, por isso deixei assim.

Mas o próximo cap. vai ser completo...espero. Só posso dizer que já tenho um final, mas o caminho ate lá...

Bem, só pra vcs saberem, tirei o nome Tinúvil de uma das histórias do Tolkien (autor de O Senhor dos Anéis), que era uma princesa elfa muito bonita que se apaixonou por um homem (reles mortal). Hum... bastante sugestivo, não?

Espero que continuem lendo. Obrigada pelos elogios nos reviews! E estou c/ um profile novo, se alguem quiser passar por lá...

b-jus!!