Momento a sós

Acordou. Mais uma vez tinha tido sonhos estranhos. E o pior de tudo é que eram sonhos com a Granger. Nada de erótico, claro que não. Ele não iria descer tão baixo. Tinha, claramente, sonhos estranhos com ela. Ela olhava para ele de uma maneira diferente. Como se conseguisse vislumbrar um Draco Malfoy diferente no seu interior.

E ele estremecia com aquele olhar profundo e tão doce. Mas aquilo não era um sonho, raios!

Era um pesadelo. E dos piores.

Sentou-se no sofá e apoiou a cabeça nas suas mãos. Estava exausto apesar de ter acabado de acordar.

Por fim, levantou-se. Foi tomar banho, vestiu-se, e como diariamente, colocou a sua varinha no bolso dos jeans e saiu do quarto.

Ao fechar a porta, olhou para a porta do quarto de Hermione. Possivelmente ela já tinha acordado e talvez quisesse algo para comer.

Só depois de estar dentro do quarto dela é que se lembrou de duas coisas: que não tinha batido à porta e que já não era necessário trazer-lhe comida, uma vez que ela tinha autorização para vaguear pela cozinha e a outras áreas que mencionara.

Mas Hermione não estava na cama. Nem à janela. Não estava no seu campo de visão.

Pensou que ela tinha descido para a cozinha, mas apercebeu-se de vapor que provinha da casa de banho. Estava a tomar banho.

Sem pensar no que estava a fazer, Draco caminhou para a porta entreaberta da casa de banho. O vapor provindo do seu interior largava no ar, um ligeiro aroma floral. Jasmim, talvez.

Colocou a sua mão na maçaneta e olhou pela frecha da porta.

Pela pequena frecha da porta poderia dizer, honestamente, que nada via. O nevoeiro doméstico ocultava tudo. Mas não ocultava o som do choro de Hermione.

Então, ela continuava a chorar. Ainda se encontrava entristecida.

"Como é fraca, meu Merlin. Onde ela vai buscar tanta água para chorar? Ainda não parou, que horror." - e foi com este pensamento que Draco dirigiu-se para o exterior do quarto de Hermione. Percorreu o corredor ainda com o som do seu choro a entoar dentro de si.

Ele não queria admitir, mas conhecia aquele sentimento. Sabia o que era estar triste com algo, assustado com algo, enfurecido com algo.

A única diferença entre ele e Hermione é que esta última demonstrava o que sentia, chorando. Draco, por sua vez, destruía coisas. Treinava ferozmente até cair para o lado, exausto.

Sim, ele entendia o que ela sentia. Pois, apesar de tudo, ele era humano.

Era um simples humano de vinte e dois anos.

Ao sair da casa de banho, Hermione olhou mais uma vez para o espelho partido. Tinha os olhos, como imaginara, super inchados. Oh, como ela se sentia fraca. Fraca por chorar tanto.

Vestiu as mesmas roupas, uma vez que não tinha mais nenhumas. Elas encontravam-se uma lástima, mas pelo menos já não estavam imundas.

O facto de ter sido criada por muggles e num mundo muggle teve os seus encantos. E um deles é saber lavar roupa e secar, sem ajuda de varinhas.

Depois de se achar em condições colocou a mão na maçaneta da porta.

Duvidava que Draco estivesse a falar a sério quando falou de vaguear por certas áreas. Mas não custava tentar. Rodou a maçaneta e a porta abriu-se.

Ficou boquiaberta.

Draco Malfoy estava a dizer a verdade. Mas porquê é que poderia andar de um lado para o outro? De certo que haveria devoradores da morte em todas as esquinas e possivelmente Lord Voldemort poderia andar por ali.

Com o medo a apoderar-se de si, caminhou para o corredor. Era a primeira vez que olhava, claramente, para aquele lugar. Tão sinistro, tão escuro e tão vazio.

Agora que caminhava mais para longe do quarto não ouvia qualquer som. Onde estavam todos? Não deveriam estar ali montes de devoradores da morte?

Descia, confusa e apressadamente, as escadas pois aquela escuridão toda fazia-lhe arrepios.

Lembrou-se que Draco dissera uma vez a localização da cozinha e como tinha permissão para lá ir, seguiu em frente quando chegou ao piso inferior.

O hall como o corredor onde estivera era sinistro. Mas, pelo menos, tinha um pouco mais de luz.

Fez-lhe lembrar, por momentos, a velha casa de Sirius Black e antiga sede da Ordem da Fénix. Claro, que agora, estava mesmo abandonada e Hermione tinha pena disso. Mas Harry, não queria ir para lá viver. Não para ali.

Olhou para a porta que dava para o exterior e lembrou-se do jardim que via do seu quarto. Talvez pudesse ir para lá. Talvez. Não custava tentar.

Dirigiu-se para a dita cuja e puxou a enorme argola que provinha da cabeça de um dragão.

Ironia do destino, tal objecto fez-lhe lembrar Draco. Onde estava? Aliás, onde andavam todos?

Quando, por fim abriu a porta uns centímetros, foi projectada para trás. Como por uma força invisível.

O estrondo que o seu corpo fez ao atingir o chão foi tão grande que Hermione acreditou plenamente que tinha partido todos os seus ossos. Sentia dores nas costas, mas conseguia mexer os braços e o pescoço.

"Talvez tenha partido só algumas vértebras e/ou a coluna"- pensou Hermione, gemendo de dor.

- "O quê? Pensavas mesmo que tinhas autorização para sair? É definitivo. És mesmo estúpida." – Draco olhava seriamente para Hermione. Será que ela não entendeu as palavras dele na noite anterior? O que estava a pensar? Que poderia ir para o jardim? Que poderia ir colher flores e saltitar pelo prado? Que poderia, de alguma forma, escapar? Se pensou algo assim, decididamente era parva.

Mas ao olhar com mais atenção viu que ela se queixava de dores. A pancada no chão tinha sido enorme.

Por um lado sentia-se contente por ela estar com dores, mas por outro lado sabia que não devia deixá-la naquele estado. Lord Voldemort não queria que ela morresse. Queria que ele olhasse por ela.

E amaldiçoando o acto que estava prestes a fazer, Draco apontou a varinha para Hermione e proferiu:

- "Episkey" – e Hermione sentiu um leve ardor em si. Passado alguns segundos, levantou-se. Já não se sentia dorida e certamente não tinha nada ferido. Agora não. – "Sabes, já estou farto de tratar de ti, Granger. Mesmo farto." – Draco guardou a varinha nos jeans e lançou um olhar furioso a Hermione. Esta retribuiu o mesmo olhar feroz.

- "Tens bom remédio, Malfoy. Não trates."

Agora Draco caminhava para Hermione. Não sabia o que ia fazer, mas apenas desejava olhar mais de perto aqueles olhos castanhos. Tentar ver algo neles.

- "Sabes bem que as coisas não funcionam assim, Granger. Nem sempre podemos fazer o que desejamos."

Hermione retorquiu:

- "Podemos sim. Apenas tens que ter a coragem para as fazer."

- "Não me venhas com sermões, sangue de lama. Tu e as tuas frases. Deves pensar que és o quê? Psicóloga?"

Hermione ficou perplexa ao ouvir aquela frase. Claro que no mundo dos seus pais aquilo era algo normal, mas naquele mundo de magia e ainda por cima dito por Draco Malfoy era, sem dúvida, algo surpreendente.

- "Tens conhecimento das profissões dos muggles? Oh Merlin, por esta é que não estava a espera."

Draco corou. Claro que detestava os muggles e todos os seus descendentes, mas isso não implicava ser burro sobre os conhecimentos destes. Estava informado da medicina deles e de algumas outras coisas. Até gostava de um desporto de muggles: o futebol. Apesar de não praticar desde os seus catorze anos.

- "Não me melgues." – respondeu, por fim.

Contornou Hermione e caminhou para as escadas.

Hermione ficou sozinha. De novo.

Tinha algum receio de ir à cozinha e de aparecer subitamente algum devorador da morte, mas foi até lá.

A cozinha estava uma lástima. Nada a ver com a cozinha de Hogwarts e muito menos com a cozinha da Toca.

Alguns pratos estavam por lavar. A mesa tinha sujidade em algumas partes e na parede da cozinha alguns recortes do Profeta Diário permaneciam sossegados.

A maior parte eram artigos sobre os devoradores da morte e as suas fotografias acompanhavam os textos. Talvez eles sentiam-se orgulhosos por serem apresentados como os assassinos e os compinchas de Lord Voldemort.

Abruptamente, uma elfo apareceu. A mesma elfo que uma vez tinha lhe levado comida.

- "Olá! Não está cá ninguém?"- perguntou amavelmente Hermione. Mas o silêncio continuou. A pequena elfo nada disse. – "Ordens!"- pensou.

Apressadamente colocou um prato de comida na mesa. A seguir, um copo de leite e uns biscoitos.

- "Vejo que agora já não bebo apenas água e como pão duro."

- "Menina ser demasiado simpática para comer tão pouco. Não diga a ninguém, nem mesmo a menino Draco. Vou castigar-me por não cumprir ordens."

- "Não, por favor. Não faças isso. Então, para isso não acontecer, prefiro comer todos os dias pão duro."

- "Menina ser pessoa boa." – e fazendo uma humilde e desajeitada vénia, a elfo desapareceu.

Como tinha medo que fosse apanhada a comer aquele manjar, engoliu tudo num ápice. Já há muito que sentia saudades de beber leite e comer biscoitos. E torradinhas com compota de morango. O doce sabor de morangos. Nunca tinha ficado tão feliz por comer aquilo.

Terminado o pequeno-almoço caminhou para fora da cozinha.

Ninguém tinha aparecido e Hermione agradecia a Merlin por isso.

Talvez seria muito mau olhar e/ou estar na mesma sala que a sangue de lama. Hermione não se importou, mas tudo aquilo a intrigava.

Subiu as escadas com o intuito de regressar ao quarto, mas quando chegou ao corredor deste parou em frente à porta do lado.

Não sabia o porquê de tal coisa, mas quando deu por si estava a empurrar a porta.

O quarto era demasiado obscurecido. Não tão escuro como a cela em que permaneceu, mas mesmo assim tinha o seu grau de escuridão.

Permaneceu no meio daquele recinto inalando o forte perfume que circulava por ali. Um perfume que já antes tinha inalado. Olhou para o que parecia ser um sofá em degradação e caminhou para este.

Não sabia o que estava a fazer, não sabia porque estava ali. E sem explicações, sentou-se no sofá.

Com um pouco mais de atenção, olhou em seu redor. Aquele quarto estava mesmo uma lástima. Objectos partidos jaziam no chão. Roupas espalhadas por alguns recantos encontravam-se perdidas no tempo. E apesar de todo aquele aspecto hediondo, algo prendia-a lá.

Hermione sabia quem dormia ali. No seu fundo sabia, mas não entendia porque ainda ali estava. De alguma forma sentia um sofrimento no ar e não era apenas o seu.

Era o dele, também.

Apesar de nunca ter nutrido algo por ele para além de ódio, sentia pena dele e gostava de o ajudar.

- "Patetices!" - pensou, bufando de tédio. - "O que ainda faço aqui? Parece que não tenho forças para ir embora. Porquê?"

O calor.

Talvez fosse essa a resposta.

Apesar de ser um quarto não muito perfeito, tinha o seu encanto. O seu toque pessoal. O calor de alguém. Dele.

Fechou os olhos. Tinha algumas dúvidas a colocar a Draco. Onde estavam os outros devoradores da morte? O que faziam? E… Porque o quarto dele não estava interdito? Porque é que ele não fez o feitiço como o que ocorrera lá em baixo? No fundo era essa a pergunta que sobressaía. Mas porque razão? Isso desconhecia.

Alguém entrou de rompante no quarto fazendo Hermione estremecer. Era Draco.

Olhava incrédulo para ela.

- "O que faz aqui?"- pensou. – "O que fazes aqui? Não te dei permissão para vires aqui. Dei?" – perguntou, ferozmente.

Hermione levantou-se e colocou-se à sua frente. Cruzando os braços, como tantas vezes fazia, falou:

- "Que eu saiba não colocaste nenhuma protecção aqui. Pergunto-me porquê. Logo, tenho autorização para vir aqui. Uma vez que não é necessário ter marca negra para aqui entrar, estou a agir bem."

- "Não, não estás. Este é um local pessoal. É o meu espaço e eu não te dei permissão para vir aqui, sangue de lama. E é evidente que não coloquei nenhum feitiço aqui. Nunca pensei que tivesses a ousadia de vir aqui. Além disso não via razão para tu vires. Enganei-me." – olharam-se mutuamente e em silêncio. Ambos sabiam que tinham razão no que diziam. Sabiam que não tinham explicações para os seus actos. Actos banais, mas estranhos.

- "Gostaria de ter algumas dúvidas esclarecidas, Malfoy. Se pudesse, ser."

- "Depende. O que queres saber?" – falava seriamente e sem gritar, para grande espanto de Hermione.

- "Onde estão os teus amigos? Poderás dizer-me o que se passa?"

- "Não!"

- "Pelo amor de Merlin, Malfoy. Sou prisioneira, sofro todos os dias por estar longe de quem gosto. Se é para viver nesta agonia, mata-me aqui e AGORA." – implorou Hermione, tentando não chorar.

- "Tenho ordens para não o fazer. Mas acredita que adoraria fazer o que pedes. Adoraria matar-te."

- "Então, pára de acatar essas ordens e uma vez na vida faz algo que desejas. Não aguento mais isto."- e possuída por uma revolta enorme, Hermione dirigiu-se ainda mais para a frente de Draco e começou a dar murros no seu peito. Este, por sua vez, ficou boquiaberto com o seu feito. Ela estava mesmo infeliz. Estava farta dos acontecimentos e sentia-se mal. E Draco compreendia esses sentimentos. Sabia o que era estar farto. Estar infeliz.

Sem dizer nada, Draco pegou com força nos seus pulsos, impossibilitando Hermione de continuar a bater.

Por sua vez, esta estava frustrada por Draco ser mais forte que ela. Por a ter controlado. Ela era controlada por ele. Pelos devoradores da morte. Por Lord Voldemort.

Não podia mais.

E começou a chorar. E lentamente encostou a sua cabeça no peito de Draco. Hermione não dava conta do que estava a fazer e Draco sentia o seu coração a bater de uma forma esquisita. Como se estivesse a bater pela primeira vez.

Hermione estava absorvida pelos seus pensamentos tristes e Draco estava estático. Queria empurrá-la, queria afastá-la de si, mas não conseguia.

Continuava a segurar os pulsos de Hermione e olhava para a nuca desta.

O doce perfume que provinha dos seus cabelos, relaxava-o.

Tinha que dizer algo. Não podia simplesmente deixar aquilo acontecer.

As lágrimas de Hermione percorriam todo o seu peito, encharcando-o. De alguma maneira aquilo entristecia-o. Era como se estivesse a presenciar a si mesmo.

Uma dor que também ele tinha por outras razões. Mas nunca deixando de ser uma dor.

Mas o que estava a pensar? Estava louco. E ele descobriu o que ela estava a tentar fazer.

Desprendeu Hermione de si e afastou-a amavelmente. Amavelmente, que baste.

- "Acho que tens que te controlar um pouco mais, Granger. Não é por me bateres, por me encharcares com as tuas lágrimas repugnantes, por invadires o meu espaço que a tua dor vai apaziguar. Pelo contrário. Por isso pára com este joguinho. E como ousaste pensar que conseguirias seduzir-me?"

- "O QUÊ?" - Hermione enxugou as suas lágrimas com a palma da mão e olhou sarcasticamente para Draco. - "Não estás a falar a sério, pois não?"

- "Estou a entender o que estás a tentar fazer. Mas estás a esquecer-te de um pormenor. És uma sangue de lama irritante e és amiga do otário do cicatriz. Achas mesmo que iria me sentir atraído por ti? Nunca na vida. Mas digo-te que foi um plano bem pensado. Seduzias-me, fazias o que querias e em troca saías daqui. Um plano muito baixo. Estou surpreendido."

- "És nojento. NOJENTO. Tive um momento de fraqueza. Encostei-me a ti, pronto. Aconteceu. Nem sei o que tinha na cabeça, mas com certeza não tinha isso. Eu não sou nenhuma vadia. Não iria fazer nada disso. Mesmo se isso fosse o único meio de sair daqui, eu não o faria. Metes-me nojo."

- "O sentimento é recíproco, acredita. Agora podes sair do meu quarto?"

- "Diz-me o que se passa. Qual é o mal de saber o que o teu amo está a planear? Achas que vou dizer a alguém? Achas que vou conseguir sair desta maldita casa ou dar a informação a alguém? Porque não vejo ninguém aqui?"

- "Muito bem. Estamos sozinhos. Todos os meus companheiros partiram em negócios, por assim dizer. Lord Voldemort também partiu. Estou limitado a esta maldita casa e estou tão farto de estar nela como tu. Não faças isto ser mais difícil do que já é e saí do meu quarto."

- "Agora que sei o que queria, saio com prazer."

- "Estou à espera…" – Draco abriu ainda mais a porta do quarto e encostou-se a esta. Olhou para Hermione e cruzou os braços.

Percebendo o convite para sair, Hermione lançou um olhar enraivecido a Draco e caminhou para o exterior do quarto. Uma vez lá, sentiu a porta do quarto de Draco a fechar-se com brusquidão.

- "Malcriado!" – disse, revirando os olhos. E entrando no seu quarto fez o mesmo que Draco.

Fechou a porta com brusquidão.