Capítulo 7 – Um baú aberto.
Os dias seguintes foram os mais estranhos da vida de Snape. Jamais tivera um inquilino em sua casa, nem mesmo uma visita esporádica que não fosse Dumbledore. Era completamente difícil se acostumar com um ser que dependia de si, de sua proteção e seus cuidados, mesmo que esse ser mal falasse ou pedisse algo.
Após o primeiro dia quando demonstrou claramente quem era o dono da casa e quem dava as ordens, percebeu que o mesmo mudara completamente seu comportamento passando de um garoto mimado, irritante, arrogante e rebelde para um garoto calado e distante.
Devido a estranheza com esse novo jeito de agir que Harry demonstrava, Snape resolveu observá-lo por um tempo, deixar que ele agisse sem a sua intervenção e assim acabou descobrindo uma rotina que talvez o menino fizesse inconscientemente, mas que era peculiar. Todo dia Harry acordava bem cedo, quando o sol começava a mostrar sua luz no horizonte, arrumava seu quarto rapidamente, tomava banho e antes que Snape pudesse pensar em levantar-se de sua cama, o menino já arrumara o café da manhã, porém não se alimentava, apenas deixava suco, pão, ovos e bacon para Snape e saia para o jardim onde começava a cuidar de algumas plantas velhas e mortas. Somente após Snape terminar seu café é que ele entrava comia duas torradas com um copo de suco e limpava a cozinha voltando imediatamente para o jardim. Mal se alimentava no restante do dia e quando fazia era sozinho e em quantidades insuficientes para alguém de sua idade, ele nunca jantava nem pedia algo em especial para comer.
No começo aquela atitude não pareceu nada de importante, talvez apenas uma rebeldia pela mudança repentina de vida misturada por uma gratidão inconsciente por ter saído das garras do tio louco. Mas depois de um tempo tornara-se preocupante. Havia dias em que não escutava outra frase que não fosse "sim, senhor" sair da boca do jovem. O que no começo parecia ser uma atitude favorável ao seu convívio, tornara-se apreensivo.
Snape sabia que o vínculo de sangue que fora passado para ele só conseguiria se sustentar fortemente se o menino tivesse um bom convívio consigo, ou melhor, se algum sentimento complacente florescesse e o permitisse pelo menos pensar que ali ele estava seguro e que Snape fosse alguém que estava ali para lhe dar proteção e não simplesmente acabar com sua vida. Dumbledore lhe explicou que o vínculo seria forte no começo e depois iria começar a enfraquecer, podendo ficar fraco demais ou extinguir-se completamente deixando o menino completamente vulnerável. Por isso seria necessário que o bom convívio e até mesmo um sentimento favorável o fortalecesse.
Colocando em sua mente que a sua preocupação era única e exclusivamente pela segurança do mundo bruxo que dependia da sobrevivência do menino, abriu a porta que levava para o jardim e o viu abaixado sem camisa perto de um canteiro velho que agora estava com a terra revirada e a maioria das plantas velhas arrancadas. O sol estava queimando no céu e as costas dele suavam deixando as gotas desceram por sua pele e muitas vezes passarem por algumas cicatrizes antigas. Os olhos negros agora observavam com cuidado o que antes não havia reparado. O corpo do jovem de dezesseis anos era muito pequeno e magro para sua idade e posição de jogador de quadribol. Isso o intrigava. Quando Harry se mexia era possível ver suas costelas aparecerem por baixo de sua pele pálida.
- Potter! – Chamou Snape com a testa franzida.
Harry assustou-se e olhou para trás rapidamente vendo Snape parado atrás de si vestido com uma calça negra e uma camisa branca olhando-o atentamente e até mesmo o assustando com seu olhar inquisidor.
- Limpe sua mão e me encontre na sala.
Dizendo isso entrou na casa deixando Harry sem saber o motivo daquele tom irritado e urgente. Pelo que se lembrava não havia feito nada para desgosto do professor. Seguira sempre com sua rotina ficando o máximo que conseguia longe do homem e tentando ao máximo não lhe causar algum tipo de aborrecimento. Havia dias em que nem ao menos o via. Obedecendo a ordem dada, entrou na casa e lavou as mãos, colocou a camisa e foi para a sala encontrando Snape sentado na poltrona velha com as pernas cruzadas e a mão fechada apoiando o queixo travado. Seus olhos eram frios e raivosos, sua testa estava franzida mostrando uma linha de ruga em sua têmpora que pulsava fortemente. O corpo de Harry tremeu ante aquela visão.
- Me chamou, senhor? – Perguntou com cautela.
- Sim, Potter, o chamei. Tenho um assunto importante para tratar com você, sente-se.
Harry sentou-se na ponta mais afastada do sofá e esperou sem olhar para o homem. Ouviu ao longe uma respiração sendo solta fortemente, suas mãos tremeram, estava encrencado por alguma coisa que não podia imaginar o que era e agora só podia esperar para ver o que aconteceria. Permaneceu calado apenas esperando. Ele sempre tinha que esperar e isso era o pior de tudo, imaginar o que aconteceria.
- Preciso que entenda que o vínculo que foi passado para mim tem como objetivo protegê-lo e que precisamos que ele se fortaleça cada vez mais. Precisamos, como Dumbledore explicou, ter no mínimo um convívio bom e isso não está acontecendo.
- Desculpe-me.
O pedido de desculpas foi baixo e temeroso, quase não conseguiu escutá-lo e não conseguia compreender o motivo daquelas palavras terem saído da boca do menino, mas preferiu não entrar nessa questão e sim continuar com o que estava em mente. Precisava exigir algo de Potter que ele não aceitaria a princípio, mas que depois acabaria aceitando e fazendo naturalmente. Tudo pelo bem do mundo bruxo, pensava Snape.
- Para que possamos então seguir com o vínculo forte o suficiente para lhe proteger até ter sua maioridade, você terá que ver em mim uma pessoa importante para você. Por mais que eu odeie esse fato, terei que passar por isso, pois aceitei ser seu tutor.
- O que terei que fazer?
- A partir de agora, toda vez que se dirigir a mim, me chamará de pai. Com o tempo passará a me ver como um e será isso que vai sustentar esse vínculo.
Como esperado Harry ficou completamente embasbacado com isso, seu olhar estava perdido sem conseguir se focar em alguma coisa. Sua mente ainda tentava processar as palavras ditas por Snape e procurava uma brecha ou falha que lhe desse a escapatória de que aquilo era apenas uma brincadeira de mau gosto. Mas Snape jamais iria brincar com ele, o homem não tem senso e humor. Quando finalmente entendeu a intensidade do que lhe foi imposto levantou-se rapidamente e o olhou com ódio em seus olhos verdes marejados.
- Nunca. Você não é meu pai e nunca será. Jamais o chamarei assim, você não merece isso.
Mais rápido do que poderia pensar Snape o agarrara e batera com suas costas na estante de livro causando-lhe uma dor aguda nas costas, o professor não se importou, apenas apertou suas mãos nos braços magros e aproximou seu rosto do dele. Queria causar nele o que as palavras malcriadas lhe causaram indevidamente. Havia medo estampado nos olhos esmeraldas, mas estavam desfocados, distante como se Harry não conseguisse vê-lo completamente e realmente não conseguia, pois sua mente turvava e o confundia misturando a imagem de Snape com seus piores pesadelos. Seu coração estava tremendo dentro do peito, sabia o que iria acontecer depois disso e começava a se preparar, talvez a dor dessa vez não fosse tão insuportável. Segurando o choro e os soluços que queriam sair de seu corpo, fechou os olhos por um instante e rezou para que a mão de Snape não fosse tão pesada quanto estava acostumado, talvez os castigos com o professor fossem mais leves, talvez não ficassem tantas marcas. A simples expectativa disso o deixava com uma grande esperança ém o homem não fez nada além de apertar mais intensamente seu braço a ponto de deixar suas mãos formigando devido o sangue que não circulava e rosnar em seu rosto.
- Você vai me obedecer e fazer o que estou mandando. Entendeu?
Harry estava completamente assustado e confuso, sua mente nublava sua visão e já não conseguia entender quem o estava segurando, os olhos negros e frios transformavam-se em azuis e raivosos em questão de uma piscada de olhos.
- Me responda. – Exigiu Snape. – Entendeu?
- Sim. – Sussurrou Harry sentindo-se tonto.
- Sim o que? – Perguntou Snape balançando o menino magro e batendo novamente na parede. – Como eu mandei me chamar, senhor Potter?
- Sim... pai. – Cuspiu Harry sentindo que precisava se afastar dali, sair de perto dele o mais rápido que podia.
- Vá para seu quarto e não saia de lá.
Sem esperar as mãos de ferro soltaram seus braços e Harry quase caiu no chão. Suas costas latejavam e seus braços formigavam enquanto o sangue voltava a circular rapidamente. Seus olhos seguravam as lágrimas que teimavam em querer sair, mas que não deixaria serem derramadas na frente dele. Com rapidez e dor subiu as escadas e se fechou em seu quarto correndo para o canto mais afastado, perto da janela onde se encolheu abraçando as pernas e finalmente liberou o choro angustiante de quem estava completamente sozinho e confuso. Com cuidado levantou a manga da camisa e viu a marca dos dedos em sua pele branca. O local estava vermelho e inchado, logo estaria roxo e mais dolorido do que agora.
Voltou a chorar pensando o quanto sua vida era triste e completamente sem valor. Ou melhor, ela tinha valor, apenas para salvar o mundo bruxo, era somente para isso que se esforçavam para protegê-lo, poderia até mesmo dizer que apenas não o queriam morto, afinal, que modo estranho é esse de proteger alguém deixando-o nas mãos de pessoas que só o maltratam?
Pensou na Senhora Weasley, no quanto aquela mulher cuidou de si nos anos anteriores e sentiu saudades da única pessoa que demonstrou amor verdadeiro por si e que jamais demonstrou nada mais além de pura preocupação com sua saúde e bem estar. Mas então por que sentia que deveria continuar ali, naquela casa, com aquela pessoa?
A mente do menino começara a turvar-se e a sumir, era melhor dormir um pouco, estava com dor demais. Suas costas ardiam. Antes de se deixar cair no inconsciente retirou a camiseta e deixou que o chão gelado anestesiasse a região machucada em suas costas. O choque foi intenso e ardeu a princípio, mas logo a dor amenizara e o menino conseguiu deixar sua mente escapar das confusões que ela mesma causava transformando Snape em Tio Valter e causando-lhe medo.
Era melhor dormir.
Snape estava em seu segundo copo de whisky, sua cabeça latejava com os pensamentos intensos que não conseguia deixar ir embora. Havia dentro de si um pequeno pedaço de culpa pelo que acabara de acontecer e grande parte de orgulho que o dizia que estava certo em tratar o menino daquela forma, ele invadira sua vida e causara os grandes problemas que tivera, desde noites sem sono até a própria morte de Lilian.
Lilian. O simples pensar no nome da mulher causava em si um formigamento intenso e uma dor profunda. Uma cicatriz que jamais se fechará. Lembrou-se dos olhos verdes e se amaldiçoou por saber que seria odiado eternamente pelo que fizera. Mas não conseguia entender o motivo de querer tanto que o menino obedecesse aquela ordem dada e muito menos o porquê de não odiar a presença dele em sua casa.
Tudo era confuso demais.
Ao terminar de beber o líquido forte, limpou a gota que descia por seu queixo e subiu as escadas para os quartos. Sem sequer hesitar entrou no quarto do menino e viu a cama feita e vazia. Franziu a testa, ele não poderia ter saído da propriedade, é protegida por feitiços que o impediriam, o banheiro estava vazio e com certeza não estava em seu quarto. Onde estaria o menino? Deu alguns passos para frente e o achou encolhido no chão sem camisa, dormindo. Abaixou-se ao lado dele e viu as marcas das lágrimas que ainda caiam de seus olhos, algumas estavam secas, mas se mostravam claramente para os olhos negros que desceram pela pele branca chegando ao braço onde uma mancha vermelha começava a ficar roxa, tinha o formato de seus dedos como no outro braço também.
Um suspiro saiu de sua boca ao fechar os olhos e amaldiçoar-se por suas atitudes impensáveis e incompreensíveis. Ainda não entendia porque agira daquela forma com o menino, mas sabia que não deveria. Transtornado de culpa, passou o dedo pelo hematoma e viu o menino se encolher com a dor e virar-se de costas para si voltando a dormir. Provavelmente sua mente não o permitia acordar, precisava que ele descansasse. Era melhor assim, Potter não deveria acordar agora, pois se acordasse veria a expressão mortificada do professor ao ver a grande marca nas costas dele onde o batera na estante. Havia um risco vermelho que ia de um lado a outro das costas, estava inchado e em alguns pontos via-se sangue pelos mínimos cortes que a parte pontiaguda da estante causara.
Snape fechou os olhos por um instante e decidiu cuidar de sua culpa e confusão depois, agora precisava cuidar do estrago que fizera. Com cuidado virou Harry em seus braços e o ergueu depositando-o de bruços na cama, o menino não acordara, estava exausto emocionalmente. Após arrumar Harry com cuidado, saiu e foi até o laboratório pegando a essência de morstigo em seu estoque e voltando ao quarto. Harry estava na mesma posição em que o deixara e respirava com intensidade, parecia começar a ter um sonho ruim, mexia-se um pouco e franzia a testa. Snape se aproximou de seu rosto e viu seus lábios mexerem-se e lançarem palavras e frases estranhas e sem nexo, porém no meio da confusão de letras ele escutou claramente o apelo do menino. "Por favor, não me machuque".
Deixando o vidro de essência no criado mudo, se sentou ao lado dele e o observou, aos poucos começara a se mexer e chorar novamente, algo ruim passava por sua mente assustando-o completamente, causando-lhe medo e desespero.
Era só um pesadelo, deveria deixá-lo quieto para que aprendesse a lidar com o escuro da mente sozinho como ele mesmo aprendera a lidar. Os medos deveriam ser ultrapassados sozinhos, como ele ultrapassou. Mas mesmo assim, mesmo querendo que ele sofresse o que sofreu para aprender a lidar com a parte mais negra de sua mente, havia algo mais forte do que ele, talvez o inconsciente lhe dizendo que deveria fazer com ele o que não fizeram consigo, o fez estender a mão e tocar levemente sua palma nas costas dele perto do pescoço e longe do machucado. O simples fato do toque fez com que Harry aos poucos se acalmasse e voltasse a dormir tranquilamente.
Os negros olhos se fecharam e reviveram imagens tão antigas que deveriam estar trancadas em um baú com a chave perdida, mas fora aberto a partir do momento em que viu o menino sangrando e com medo diante da presença cruel do tio. Fora aberto e lançara para fora lembranças esquecidas, deixadas para trás. Lembranças que o deixavam diante de olhos negros e velhos, raivosos e odiosos, repulsivos que lançavam olhares...
- Não. – Sussurrou esfregando os olhos com as mãos e afastando aquelas imagens, devolvendo-as para o canto escuro de sua memória.
Olhou novamente para o menino e pela primeira vez não soube o que pensar. Ficou parado o observando até pegar novamente a essência e passar com cuidado em cima dos ferimentos causados por sua brutalidade. Harry não acordara em nenhum momento, pelo contrário, ficava cada vez mais calmo enquanto suas mãos estavam tocando em sua pele. Tomado por uma súbita vontade desenfreada que surgira inexplicavelmente em seu peito, alma e mente, levantou-se da cama e se aproximou da cabeceira abaixando-se até ficar na altura do rosto de Harry. Com cuidado levou sua mão até os cabelos rebeldes e os tirou de sua testa mostrando a cicatriz em forma de raio, a marca de seu insólito destino. Por alguns minutos ficou apenas contemplando aquele rosto sereno, apenas um garoto fugindo do medo, escondendo-se do frio da rejeição, apenas um garoto igual à ele.
- Não farei isso. – Sussurrou Snape antes de se levantar e sentar em uma cadeira no canto, velando o sono inocente.
N/A:
Daniela Snape: Dani, meu amor, que bom que gostou do capítulo, espero que tenha gostado desse também. Postei rapidinho não foi? Rsrsrs... bjussssss
