A lei do amor
Kaline Bogard
Capítulo 07
Se um dia Kiba parasse para pensar e analisasse os fatos que o levaram através de todas as dificuldades enfrentadas, que o guiaram pela dor de sofrer um aborto e perder um filhote... se tivesse sangue frio o bastante para olhar para trás e analisar com imparcialidade, ele diria que o princípio de tudo fora a terça-feira após a aula com Iruka sensei.
Na terça-feira se plantaria a semente que traria grande tristeza à sua vida e a vida de Aburame Shino.
Mas ele não tinha tal sangue-frio, muito menos vontade de ficar remoendo o passado que não podia ser mudado.
A terça-feira que começou como um dia qualquer. Na rotina cômoda que já haviam se acostumado. Shino preparava o café da manhã, algo em que era realmente bom, enquanto Kiba assistia e repetia os pontos principais da conversa que tivera com Iruka sensei.
— O mais importante é que não vou virar uma fêmea — ele comentou pela terceira ou quarta vez, para a diversão de Shino. Nem percebera quão grande era essa preocupação na cabeça do outro garoto.
— Que bom. Gosto de você do jeito que é.
A declaração saiu tão natural que quase passou despercebida.
— Shino?! — Kiba sentiu o rosto esquentar — Gostar do tipo "gostar"? Ou do tipo só amigos mesmo?
O outro colocou a panela de arroz branco sobre a mesa, para que pudesse servir o futuro companheiro.
— O que você acha?
— D-desde quando?! — Kiba engoliu em seco — Por isso me escolheu, não é? Não foi apenas por amizade!
Shino permitiu-se sorrir um pouco, ao sentar-se para começar a comer.
— Muda alguma coisa?
Kiba desviou os olhos e entreteu-se levando arroz com o par de hashi até os lábios por algum tempo.
— O romantismo está oficialmente morto — ele gracejou, ainda corado — Não muda nada. Só que... eu acho que não correspondo os seus sentimentos, não "daquele" jeito.
— Não alimento esperanças — Shino soou bem pragmático, em seguida desviou o assunto — Amanhã é dia do jantar na casa da sua mãe. Quero comprar algumas coisas para levar como agradecimento.
— Podemos fazer compras antes do almoço — o garoto sugeriu de boca cheia — Temos alguma missão?
— Não, nenhuma.
— Então tá decidido.
Passava pouco das nove horas quando o futuro casal conseguiu sair de casa. O dia estava agradável. A vila borbulhava de vida, shifters envolvidos na reconstrução da vida, tentando voltar tudo ao que era antes, ou algo perto disso.
No caminho, cruzaram com Naruto, que vinha caminhando distraído, cantarolando uma música qualquer. Kiba, claro, agiu como sempre e interrompeu a marcha para falar com o colega, obrigando Shino a segui-lo.
— Oe, Naruto!
— Ah, Kiba! Shino! — ele parou e aguardou os dois alcançá-lo.
— E aí, Naruto? As coisas andam bem loucas, né? — Kiba lançou direto.
— Normal, a guerra mal acabou. Vai levar um tempo até tudo se ajeitar. Mas terminou melhor do que eu pensava.
Kiba estreitou os olhos. Naruto estava se esquivando do assuntou ou ele não entendera sua insinuação? Bem capaz de ser a segunda opção. O garoto não era assim tão esperto. Era?
Antes que insistisse, o próprio Naruto cruzou as mãos atrás da cabeça e deu uma risadinha.
— Parabéns para vocês. Ouvi que vão lançar um vínculo.
— Aa — Shino respondeu, pragmático como sempre.
— O-obrigado — Kiba irritou-se um pouco por corar. Só porque estava se unindo a outro cara não precisava ter tais reações de menininha! Mas quem disse que controlava o próprio corpo?
— Vocês formam um casal bonitinho — Naruto aproximou-se de Kiba e o prendeu em uma chave de braço de brincadeira — Terão filhotes fortes! Mas desejo que saiam com a cara do Shino, porque você é muito feio, Kiba! — e gargalhou.
— Oe! — Kiba debateu-se e escapou do golpe um tanto ofegante — Naruto idiota! Feio é o seu nariz! — então beliscou as bochechas de Naruto e puxou com força — Pare de chamar meu futuro marido provisório de bonito! Isso é muito indelicado.
Shino engasgou com ar e Naruto gracejou:
— Ciúmes? — lágrimas juntaram nos cantos dos olhos quando as bochechas foram puxadas com mais força, antes que Kiba as libertasse.
— C-claro que não — tratou de negar, constrangido — E por que você tá tão feliz? A Sakura ficou com aquele sobrancelhudo esquisito, não ficou? Você vai se vincular a quem?!
O semblante de Naruto tornou-se um tanto sério.
— Não preciso cumprir a lei.
A revelação deixou tanto Kiba quanto Shino curiosos.
— Você não é maior de idade ainda? — Kiba soou incerto. Se Naruto estivesse abaixo da idade, como era um Beta, ficaria livre das obrigações legais. Diferente dos Ômegas, que não possuíam essa brecha na lei.
Naruto coçou a bochecha com a ponta do dedo indicador.
— Já fiz dezoito também.
— E porque você é diferente?! Não é justo! Que tipo de privilégio você tem para escapar de...
— Oe, desgraçado — uma voz soou mortalmente fria, alguns metros a frente. Os três voltaram-se naquela direção e flagraram um Sasuke nitidamente irritado.
— Nah, nah — Naruto sorriu cheio de dentes — Não é privilégio, Kiba. A lei é apenas para shifters solteiros. Quando o conselho decidiu por em ação, eu já tinha um vínculo a algum tempo...
O queixo de Kiba despencou e quicou no chão, mirando de Sasuke para Naruto, incrédulo com a insinuação daquelas palavras. Por um instante, o ninja de espetados cabelos loiros tornou-se mais sério do que Kiba jamais o vira antes.
— A guerra muda muita coisa, principalmente quando se pensa que vai morrer. Qualquer dia a gente conversa! — e acenou em despedida, indo até Sasuke, quase irradiando de felicidade, nem um pouco assustado com a expressão feia na face do outro rapaz.
— Não sei o que pensar — Kiba sussurrou assim que a dupla (ou casal) saiu das vistas.
Shino sorriu de leve, igualmente surpreso com a revelação. Concordava com Naruto em um ponto: a guerra transformava tudo. Inclusive os sentimentos. O que teria acontecido para que o amor sentido por Sakura se transformasse em paixão pelo rival? Era uma formula que ele gostaria de saber.
Depois do breve encontro, finalmente retomaram o rumo do mercado, local onde se depararam com Hinata, e a colega de time carregava uma sacola enorme cheia de verduras e legumes, tão grande e pesada, que por fim Shino acabou ajudando-a a levar para casa, depois que eles próprios terminaram de comprar o que precisavam. Não sem antes parar em uma lanchonete para uma almoço leve e rápido.
Graças a isso descobriram que Hinata estava levando o vínculo com Chouji muito a sério, e todos aqueles mantimentos eram para o jantar que pretendia fazer para o futuro marido em comemoração. Hinata parecia tão feliz, como se quisesse aquela união verdadeiramente.
— Caralho, Shino! — Kiba desabafou enquanto seguiam para casa, depois de deixar Hinata em segurança — A gente passou por uma guerra ou por lavagem cerebral?
— Por uma guerra — Shino respondeu com paciência, acostumado aos dramas e exageros do companheiro de time.
— Você mudou com a guerra também? Me viu lutando e percebeu que eu sou um grande ninja e por isso se apaixonou?!
— Não.
A resposta simplista e direta fez Kiba se arrepiar que nem um cachorro prestes a atacar. Divertiu Shino.
— OE!
— Eu já gostava de você muito antes da guerra.
— Ah... — a resposta teve o efeito de um balde de agua fria, e o garoto se acalmou. Um pouquinho — Nunca percebi. Mas eu nunca percebo essas coisas.
O assunto morreu. Avistaram a casa de Shino, mas uma surpresa os aguardava. Era Yamanaka Ino, com um buque de tulipas brancas na mão e uma expressão facial que combinava com a mensagem das flores: sinto muito.
— Yo, Shino. Yo, Kiba — ela foi cumprimentando.
— Ino! — Kiba a olhou com um misto de surpresa e curiosidade.
— Vim pedir desculpas por ontem — ela falou um tanto sem graça e sem coragem de encarar o garoto.
Shino, que sabia o que tinha acontecido, não disse nada. Kiba, sorriu:
— Quer entrar? — ele ofereceu.
Ino aceitou o convite e seguiu os dois até a sala. Shino pegou a sacola que Kiba levava e rumou para a cozinha. Antes de sentar-se, Ino estendeu as flores para Kiba.
— Na linguagens da flores, tulipas brancas representam um pedido de desculpas — também significavam "humildade" e "inocência", mas Ino ocultou essa parte — Trouxe para você.
— Não precisa!
— Podemos conversar? Fiz biscoitos.
Kiba a observou por alguns segundos, se perguntando onde estava aquela Ino arrogante que sempre brigava com todo mundo. Mas a curiosidade o mordeu e ele acatou o pedido.
— Vamos pra cozinha. Lá a gente fica mais a vontade.
Não havia nem sinal de Shino no cômodo, apenas as sacolas sobre o balcão. Pelo que conhecia do outro, Kiba intuiu que era o jeito dele de lhes dar privacidade. Akamaru veio correndo, abanando o rabo apenas para ser tocado pra fora.
Enquanto Ino sentava-se a mesa, Kiba vasculhou os armários atrás de algo em que pudesse colocar as flores. Demorou um pouco, não estava tão familiarizado assim com as coisas de Shino.
— Pronto! — acabou por colocar em uma leiteira de alumínio.
— Aqui — ela puxou a pequena mochila das costas e tirou um pote de plástico cheio de biscoitos. Também pegou uma garrafinha térmica — Biscoito de manteiga e chá de camomila.
O aroma agradável fez o estomago de Kiba dar um salto. Ele pegou xícaras e também sentou-se à mesa. Nos momentos iniciais eles apenas saborearam os petiscos, muito do agrado de Kiba. Os biscoitos de manteiga derretiam na boca e o chá tinha um sabor doce e suave.
— Eu... eu sinto muito — Ino finalmente puxou assunto, evitando mirar Kiba — Por ontem. Você não merecia o jeito que eu te tratei.
— Nah, mas você sempre foi casca grossa — o garoto riu — Não foi nada fora do normal. Me pegou de surpresa, acho que porque fazia tempo que não levava suas patadas.
— Sempre fui assim, mas aprendi que não é o jeito de tratar as pessoas. Eu só estava irritada por causa dessa droga de lei e descontei em você.
Kiba parou de mastigar com as bochechas infladas de biscoito e ficou encarando a colega de classe. A guerra fazia milagres! Era a única explicação para aquela Ino toda gentil e humilde.
— Machos e Alphas não vão sentir tanto. A gente que vai pagar o pato, você pensa que vai conseguir carregar um filhote por nove meses e dar pra adoção? Eu não consigo — ela desabafou — Eu vou querer cuidar do meu filho. Nossa vida irá mudar pra sempre.
Kiba desviou os olhos.
— Não to pensando nisso ainda. Imagina! Foi meio chocante dizer sim pra outro cara. Mas é o Shino, to lidando bem com a situação. Mais ou menos bem... — e foi impossível segurar a curiosidade — Ino vai se vincular a quem?
— Shikamaru — ela respondeu meio seca — Parece que ele tem uma tara por mulheres loiras. Dai me escolheu. Eu aceitei, porque não temos muita alternativa, né? Sempre que penso na lei me da tanta raiva! Eu estava a ponto de explodir ontem e... você me acalmou.
— Eu?! — Kiba apontou para si mesmo.
— Acho que é o lance de ser Ômega.
— Ah... — o garoto sorriu — Pode ser isso aí!
— Obrigada. E desculpa.
Kiba fez um gesto de mão descartando tais palavras.
— Ser um Ômega tinha que servir pra algo! Fico muito feliz que te ajudou de algum jeito — ele pensou por breves segundos — Sempre que ficar pra baixo pode vir aqui conversar comigo. Não me importo em ajudar! Iruka sensei me disse ontem que a gente não precisa passar por isso sozinho.
Ino sorriu e deu um gole no chá. Ela queria pedir exatamente aquilo, uma chance de ficar ao lado do Ômega que aplacara sua raiva e lhe devolvera a capacidade de pensar com clareza e sentir calma para encarar o futuro.
