Apesar de ainda estar chateada com Draco depois de saber que, mais uma vez, ele a havia trocado pelos supostos problemas da empresa, Hermione decidira que não ia mais se lamentar por causa dele. Ia aproveitar a oportunidade que estava tendo de rever seus amigos de infância. E foi para lembrar esses bons tempos que ela convenceu Harry e Rony a acompanharem a um passeio à velha Hogsmeade. Ela queria mostrar aos filhos o pequeno vilarejo bruxo da Inglaterra, e também queria aproveitar o momento para relembrar tantas coisas que ela e seus inseparáveis amigos haviam passado ali.
Helena e Apus estavam completamente encantados com Hogsmeade. De mãos dadas com a mãe, as crianças iam apontando e olhando tudo que podiam. Hermione, Harry e Rony iam, pacientemente, parando em cada loja para que eles a conhecessem e, a cada parada que faziam, havia sempre uma história para contar.
As lojas que fizeram maior sucesso foram, com certeza, a Zonko's e a Dedosdemel, mas a Casa dos Gritos também lhes chamou atenção. Rony fez questão de contar às crianças o susto que Harry dera em Draco em frente àquela mansão abandonada e, antes mesmo de Hermione explicar para eles o verdadeiro motivo dos gritos que eram ouvidos ali anos antes, Apus mostrou-se muito curioso e nada assustado com a possibilidade de se aproximar mais da mansão, fato que deixou Harry e Rony muito surpresos.
Já estava perto do almoço quando o grupo decidiu fazer um intervalo de todas aquelas andanças e memórias. O local escolhido para matar a fome e descansar um pouco não poderia ser outro além do conhecido bar 3 Vassouras. Já fazia algum tempo que, mesmo Harry e Rony, não iam até o bar, visto que uma passadinha rápida no Caldeirão Furado era muito mais fácil do que se deslocar até ali. Mme Rosmerta não escondeu a surpresa ao vê-los.
Ora, vejam só! – ela veio atendê-los pessoalmente. – Quem é vivo sempre aparece, não é mesmo? – ela parou ao lado da mesa deles com uma mão no ombro de Harry e outra no ombro de Rony que, mesmo depois de anos, ainda ruborizava perto dela.
Como vai, Mme Rosmerta? – Harry a cumprimentou, educadamente.
Vou muito bem, Harry! Mas e vocês? Sumiram de Hogsmeade! E não preciso nem dizer você, não é mesmo? – ela se virou sorridente para Hermione. – Esses devem ser seus filhos.
São sim, Mme Rosmerta. Apus e Helena. – ela falou, orgulhosa.
Como vão, crianças? – ela perguntou, sorridente.
Muito prazer, Mme Rosmerta. – Helena estendeu, cordialmente, a mão para a mulher. – Mamãe fala muito da cerveja amanteigada que a senhora serve aqui.
Ora, ora, mas que pequena dama temos aqui! – ela apertou a mão da menina. – Modéstia à parte, é mesmo a melhor cerveja da região! E esse pequeno jovem? – ela olhou mais séria para Apus. – Então você se casou mesmo com o Malfoy, não foi? – ela perguntou a Hermione. – Quase não acreditei quando Minerva me disse. – ela também estendeu a mão para Apus, que retribuiu o aperto de mão muito friamente, desfazendo o contato em menos de dois segundos. – Como vai ele, por falar nisso? Por que não está com vocês?
Meu pai não veio para a Inglaterra, e se viesse, duvido que sairia com ieles/i –apontando para Harry e Rony - e viria comer aqui! – Apus respondeu antes que Hermione pudesse abrir a boca.
Apus! – ela ralhou.
O mesmo gênio, não é mesmo? – Mme Rosmerta não se ofendeu com os modos de Apus. – Mas se o Malfoy melhorou depois de tudo que fez, nada impede que você melhore também, não é, mocinho? – ela sorriu, embora seu semblante não mentisse quanto às lembranças tristes que a imagem de Draco lhe trazia.
Me desculpe, Mme Rosmerta. – Hermione pediu, envergonhada. – Apus não se conforma com o fato de Draco não ter vindo conosco, mas o fato é que ele está com alguns problemas na empresa e não pode vir.
Uma pena. – a senhora respondeu. – Mas o que vão pedir? – ela sorriu novamente.
Traga o prato do dia para todos, Mme Rosmerta. – Rony pediu então, tentando fazer com que a mulher fosse embora logo e o assunto mudasse. – E cinco cervejas amanteigadas.
Pois não. Fiquem à vontade. – ela então se afastou, voltando para trás do balcão.
Puxa, mamãe... – Helena falou, meio tristonha. – Parece que ninguém aqui gosta do papai. O que foi que ele fez de tão errado?
Hermione suspirou, pesarosa. – Não é bem assim, querida. – ela tentou. – Tem muita gente que gosta do seu pai.
Nem a vovó gosta dele! – ela respondeu. – Ela nem veio nos visitar, e duvido que não saiba que estamos aqui, mãe! O que foi que aconteceu quando o papai era mais novo, hein?
Seu pai não foi uma pessoa muito legal no passado, Helena... – Rony se intrometeu.
Hei! Não vou deixar você falar mal do meu pai! – Apus se descontrolou.
Não estou falando mal! – Rony se defendeu. – Estou dizendo a verdade! Seu pai não foi uma pessoa muito boa quando era jovem, mas eram coisas de criança, de adolescente. Quando ficamos um pouco mais velhos ele fez mais uma escolha errada, mas se arrependeu depois. Acontece que já era tarde demais e algumas pessoas não puderam esquecer. – ele finalizou, em seguida olhou para Harry e Hermione, buscando o apoio deles.
Ambos se entreolharam admirados. Nunca tinham visto Rony defender Draco para ninguém. Hermione sentiu-se bem ao ouvi-lo dizer aquelas palavras. Ela sentia que, depois de tudo, Rony não tinha, realmente, guardado mágoas por ela ter ido embora. Ele estava mesmo amadurecido. Diante daquele gesto Hermione olhou carinhosamente para ele e sorriu. Rony retribuiu o sorriso e, por um instante, foi como se só existissem os dois naquela mesa.
Os pedidos deles chegaram, e foi a garçonete quem conseguiu quebrar o contato visual entre os dois ex-namorados. Harry sentiu-se, visivelmente, aliviado com a chegada dela. Observador como era, ele começou a notar que as coisas estavam ficando complicadas. Apesar da saudade que sentia de Hermione, começou a se perguntar se a visita dela havia mesmo sido uma boa idéia, ou se havia acontecido no momento certo.
Mamãe? – Helena interrompeu os pensamentos de Harry, ao chamar Hermione.
Sim, querida? – Hermione desviou-se do corpo da garçonete para poder ver a filha.
O papai foi mesmo, como se diz? Um co-sei-lá-o-que da morte?
A garçonete, que agora abria as garrafas de cerveja amanteigada, quase deixou uma delas escapar de suas mãos. Hermione deu um sorrisinho sem graça para ela e logo explicou.
Claro que não, querida. – sentenciou. – Seu pai era muito novo para ser comensal da morte. – a moça se atrapalhou novamente. – Agora, procure não falar desse assunto enquanto estivermos por aqui. Algumas dessas pessoas sofreram muito nas mãos desses homens maus e não gostam de se lembrar disso. – terminou, paciente.
Sim senhora. – ela respondeu, satisfeita e aliviada. – Eu só precisava saber. – sorriu.
Papai não é mau! – Apus falou, então. – Se ele fez alguma coisa errada aposto que teve algum motivo para isso!
E teve, querido! – Hermione respondeu. – Agora vamos...
Só mais uma pergunta, posso? – Helena agitou as mãos no ar, como se estivesse numa sala de aula.
Hermione bufou, impaciente. Harry e Rony se entreolharam e sorriram, lembrando-se do quanto ela mesma aborrecia muita gente com toda sua sede de conhecimento.
O que é, Helena? – ela perguntou por fim.
O que o papai fez para deixar a vovó tão brava com ele?
Você e seu irmão vão poder saber de tudo que aconteceu no passado do seu pai quando for a hora certa, e quando ele resolver lhes contar. Por enquanto vocês são muito novos para saber certas coisas.
Helena ia abrir a boca para reclamar, mas Hermione foi mais rápida:
São muito novos! – ela enfatizou. – Agora vamos mudar de assunto, por favor, sim?
Ok! – Helena estava aliviada, embora ainda mais curiosa, mas decidiu que já havia conseguido grande coisa tendo participado de uma conversa sobre aquele assunto.
O almoço transcorreu tranqüilo e agradável depois que o assunto "Draco Malfoy" foi deixado de lado. Mesmo Apus mostrou-se mais receptivo depois que Hermione deixou que ele, finalmente, se deliciasse com os doces que havia comprado na Dedosdemel. Ele, assim como Helena, festejaram a idéia de Hermione de visitar Hogwarts. Ambos cresceram ouvindo-a contar histórias a respeito daquele lugar e estavam curiosos por conhecê-lo.
Verdade que uma vez você e o tio Rony chegaram à escola voando, tio Harry? – Helena perguntava, empolgada. Ela andava saltitante de mãos dadas com Rony e Harry, enquanto Apus, embora tão ansioso quanto ela, andasse calmamente de mãos dadas com Hermione.
Verdade! – Harry sorriu à lembrança. – E se quer saber, quase fomos triturados por um Salgueiro Lutador plantado nos terrenos da escola há anos! – comentou.
Salgueiro lutador?! – Rony interveio. – Ele não foi nada perto das aranhas gigantes da Floresta Proibida!
Aranhas gigantes?! – Apus não se conteve.
Enormes! Do tamanho de casas! – Rony afastou os braços, tentando mostrar a dimensão dos aracnídeos.
Ah! Isso é mentira! – ele duvidou.
Juro! Elas eram horripilantes!
Ah, Rony! – Hermione começou a rir. – Você acha horripilante até a mais insignificante das aranhas, vai!
Mas elas eram mesmo enormes, Hermione! – ele se ofendeu. – E você sabe porque eu tenho... Receio em relação a aranhas...
Receio? – Harry provocou.
Eu também não gosto de aranhas, tio Rony! – Helena tomou partido. – Elas são nojentas!
E como!
Sem perceber, o grupo chegou à entrada do grande e imponente castelo de Hogwarts. Os javalis alados continuavam resguardando seus portões, assim como anos atrás. Apus e Helena se soltaram das mãos dos adultos e correram até as grades para olhar lá dentro.
É incrível! – Apus falou, tomado de espontaneidade.
Eu quero estudar aqui, mamãe! Não importa o que o papai diga! – Helena avisou.
O lugar é bonito, mas papai sempre diz que Durmstrang é bem melhor. – Apus contrabalançou.
Típico! – Rony aproximou-se também dos portões.
O que vocês querem aqui, diabinhos insuportáveis! – uma voz rouca e ríspida fez as crianças darem um salto para trás, assustadas.
O mesmo velho e agradável Filch, não? – Rony, que estava logo atrás das crianças, o reconheceu.
Weasley?! – Filch se assustou. – Potter?! – o velho arregalou os olhos. – Só falta... Ah não! Granger?!
Como vai, sr Filch? – Hermione o cumprimentou, cordialmente.
O que vocês querem aqui? Vão para suas casas! Será que nunca vou me livrar de vocês? – ele resmungou.
Olha que gato bonito! – Helena agachou-se para brincar com Mme Norrrrra, a despeito da cara feia de Filch.
É gata! – Filch a corrigiu. – E não gosta de crianças.
Não acredito que este bicho ainda está vivo! – Rony revirou os olhos.
Não se dependesse de vocês, não é mesmo, Potter? – ele olhou, mortífero, para Harry.
Hei Filch, por que não nos deixa entrar, hein? Queremos mostrar o colégio para os filhos de Hermione. – Harry pediu.
São seus filhos, hein? – ele olhou para as duas crianças com desdém. – Nunca achei que você conseguiria se casar, Granger! – ele olhou para ela, então. – Mas há gosto para tudo, não é?
Para tudo menos você, não é Filch? – ela respondeu, sem se incomodar com as palavras duras do homem.
Humpf! Quem pode ter sido o louco? – ele voltou a observar as crianças.
Meu pai não é louco! Você é que é! – Apus cruzou os braços, irritado. – Abra logo esses portões!
Ora, ora! Quem você pensa que é, pestinha? – ele se inclinou em direção ao portão, colocando seu rosto à mesma altura do rosto de Apus. – Gárgulas saltitantes! Mas você é a cara do...
Draco Malfoy! Não me diga?! – Apus abriu os braços com impaciência. – Será que dá para sair do caminho?
Não acredito! Então era verdade? – ele se virou novamente para Hermione. – Que tipo de feitiço você usou nele, Granger. Ele nunca se casaria com você em sã consciência.
Hei! – Helena protestou.
Se quiser depois te dou a receita, Filch, agora nos deixe entrar! – ela respondeu, também perdendo a paciência.
Seu pai sim era um bom garoto! Bem diferente desses dois! – ele olhou desdenhoso para Harry e Rony.
Graças a Deus! – ambos sussurraram.
Você gosta do meu pai? – Helena perguntou, empolgada.
Hum... Seu pai era um aluno exemplar! Sempre tentando alertar Dumbledore e os outros professores sobre o Potter, mas quem poderia lhe dar crédito, não é? Não contra o menino-que-sobreviveu.
Quem te deu permissão para falar do Harry, Filch?! Por que não volta ao trabalho, velho rabugento? Por mil ovos de dragão! Harry?! – Hagrid passava ao longe, acompanhado por uma turma de alunos curiosos. Mesmo de longe foi possível notar que seus olhinhos de besouro brilharam de felicidade.
Este só pode ser o Hagrid, não é mamãe? – Helena se aproximou do portão, empolgada, a despeito da proximidade de Filch.
Ele mesmo, querida! – Hermione sentiu seus olhos se enxerem de lágrimas.
Hermione! – Hagrid gritou ao se aproximar mais e poder enxergar todos que estavam ali. Com suas mãos enormes ele quase arrancou os portões, tamanha empolgação com que os abriu.
Volte para seus afazeres, Hagrid! Seus alunos! – Filch mandou, mas Hagrid não lhe deu atenção.
Achei que nunca mais a veria, Hermione! – ele voou para cima de Hermione e a abraçou, tirando-a do chão.
Hermione achou que pararia de respirar se não interrompesse aquele contato o quanto antes. – Hagrid! Não aperte tanto! – ela sorria, apesar do abraço.
Pelas barbas de Merlim! – ele a colocou no chão. – Por que você demorou tanto! – ele colocou sua mãozarra no rosto dela. – Eu senti sua falta, Hermione! Achei que tivesse se esquecido do velho Hagrid aqui!
Hermione sentiu-se mais emocionada ainda. Sabia que Hagrid gostava dela, mas sempre achou que ele gostava mais dos rapazes, e que não sentiria tanto sua falta.
Também senti muito sua falta, Hagrid! – ela o abraçou dessa vez. Voltou a sentir-se a garotinha em idade escolar que visitava Hagrid nas horas vagas.
E quanto a vocês! – ele olhou Rony e Harry. – Bem mais perto, e mesmo assim se esqueceram do velho gigante aqui, não? – ele segurou cada um com um braço e os apertou em direção ao seu peito, paternalmente.
Como poderíamos te esquecer, Hagrid! – Harry falou.
Ficamos sem tempo. – Rony explicou. – Mas estamos aqui, não?
Estão! Seus ingratos! – ele deu tapinhas nos rostos deles. – Venham! Entrem! Vou lhes servir um chá!
Você não está em aulas, Hagrid?
Está sim! – Filch esperneou. – Além do mais, não é permitida a entrada de estranhos no castelo.
Estranhos?! Estranha é a sua cara, velho chato! Entrem! Entrem! Não liguem para ele! – Hagrid abriu espaço para que todos passassem. – E essas duas figurinhas? Quem são? – ele sorriu amavelmente para as crianças.
Olá Hagrid! – Helena se dirigiu a ele, animadíssima. – Posso te chamar de Hagrid, não é? Eu sou Helena! – ela estendeu a mão para ele. – Helena Malfoy, muito prazer!
Helena Malfoy? – ele se admirou diante da apresentação. – Isso soa realmente estranho, sabia? – ele olhou para Hermione. – Muito prazer, srta Malfoy. – brincou.
Pode me chamar apenas de Helena! Esse é meu irmão, Apus!
Apus? Nome diferente. – ele estendeu a mão ao menino. – Vamos, garoto! Não seja mal educado como seu pai! – ele permaneceu com a mão estendida.
Pode ter certeza de que sou tão educado quanto ele! – Apus estendeu a mão, pronto a mostrar a educação que Draco lhe dera.
Bem se vê! – Hagrid olhou torto. – Finalmente os estou conhecendo! – ele sorriu de volta para Helena. – Venham! Eu estou dando aula, mas logo, logo termino! É a minha última! Vocês esperam, não esperam?
Se não for te atrapalhar, Hagrid. Não queremos te prejudicar. – Hermione falou. – Na verdade viemos mostrar o colégio aos meninos. Foram tantas histórias!
Com certeza... – Hagrid suspirou lembrando-se dos velhos tempos. – Mas não atrapalham não. Fiquem à vontade! A prof. McGonnagal vai gostar de ver vocês! Principalmente você, Hermione! Ela ainda se lamenta por você não ter ficado aqui no lugar da Mme Pomfrey! Entrem! E vocês... – ele se virou para os alunos que olhavam embasbacados para Harry. – ...para orla! Vamos! Vamos!
Hipogrifos, Hagrid? – Harry perguntou.
Não são mais permitidos desde o Bicuço, se lembra? – ele levantou uma sobrancelha para Apus. – Águas passadas! Nos vemos daqui a pouco! – ele seguiu sua turma, sorridente.
Depois do encontro com Hagrid e sua turma do terceiro ano, a noticia da presença de Harry Potter e amigos em Hogwarts correu como um corisco pela escola. Contente, a prof McGonnagal pessoalmente veio recepcioná-los. Ficou feliz por rever Hermione, sua melhor aluna, e fez questão de contar algumas de suas façanhas às crianças. Helena pareceu muito mais interessada nos feitos escolares de sua mãe que o irmão e, além disso, garantiu que seria uma aluna tão exemplar quanto ela.
Depois de falarem com a diretora de Hogwarts o grupo recebeu permissão para visitar o campo de quadribol. Só então Apus mostrou-se mais interessado pelo passeio. Lá o menino se sentiu em casa, e Harry também. Enquanto ele brincava com Helena e Apus com vassouras antigas pegas no vestiário, Rony e Hermione ficavam nas arquibancadas observando e conversando.
Ainda não entendi por que você e Harry não seguiram carreira como jogadores de quadribol. – Hermione comentou, enquanto observava, preocupada, seu filho voar numa velha Comet 260.
Você realmente me imagina jogando quadribol profissional? – Rony riu para ela.
Por que não?! – ela se espantou.
Sejamos sinceros, Hermione. Eu podia até jogar bem, mas ficava tão nervoso que só pagava mico. Imagine numa partida oficial então? – ele sorriu. – Mas o Harry teria se dado bem.
Seria ótimo para ele deixar de lado essa coisa de bruxos das trevas.
Também acho, mas ele gosta do que faz...
Pois é... – Hermione suspirou, olhando ao redor, gravando cada imagem e sorrindo. – Puxa! Eu senti mesmo falta disso tudo, sabia?
Eu senti i sua falta /i, Mione. – Rony a olhava, cheio de sentimento, feliz por tê-la por perto.
Hermione sentiu-se incomodada com o modo como aquela frase soou, e com o modo como ele a olhava. Voltando a olhar para o campo, em direção aos filhos, ela tentou mudar de assunto.
Aposto como você nunca ficou sabendo que eu joguei um feitiço para confundir naquele aluno que fazia o teste para goleiro no nosso sexto ano, não é?
O quê?! – Rony se assustou. – Você o confundiu?
Você estava indo bem, sabe? Mas aquele cara estava mesmo me irritando! – ela confessou.
Tá brincando? – ele estava inconformado. – Quer dizer que eu não entrei no time por mérito?
Claro que entrou! – Hermione afirmou. – Você pegou todas as goles, eu só dei uma forcinha... – ela baixou a cabeça, envergonhada.
Bom... – Rony suspirou. – Apesar de não ter sido justo, obrigado! Eu estava tão nervoso aquele dia que talvez não tivesse passado sem a sua ajuda.
Na verdade você só teria deixado o Harry numa situação muito difícil. Eu ajudei mais a ele do que a você. – ela sorriu.
Hum... – Rony cruzou os braços, ligeiramente aborrecido.
Rony?
Hum?
Eu preciso te agradecer por... Por ter defendido o Draco na frente das crianças... – ela o olhou, agradecida.
Eu não o defendi! – Rony desviou o olhar. – Apenas disse a verdade. Além disso, é o pai deles. Por mais que eu não goste do Malfoy, nenhuma criança deveria ouvir terceiros falando mal de seus pais.
Obrigada, mesmo assim. – ela agradeceu.
Hum... O que está realmente havendo entre você e o Malfoy, hein? – ele perguntou, sério. – Vocês não se largavam durante a guerra, agora você vem para cá sozinha?
Como assim? – ela sorriu, tentando disfarçar.
Eu não sou bobo, Hermione, e te conheço bem para saber quando você está triste com alguma coisa. E você está triste com ele!
É impres...
Não vem com essa, Hermione! O que ele te fez? – ele a encarou.
Ele não fez nada, Rony! Apenas... Apenas anda ocupado demais! É só isso!
Tão ocupado que não pode fazer uma viagem curta com a família? Eu bem que estranhei você ter vindo sozinha. Fiquei feliz, mas estranhei!
Ficou... Feliz? – Hermione se surpreendeu.
Rony não se dera conta do que havia dito, e quando o fez, suas orelhas ficaram vermelhas. Hermione teve vontade de rir, mas se conteve. Deveria ter ficado preocupada com tal declaração, não contente.
Hum... Claro! Você sabe que eu não gosto do Malfoy! Só colocamos o nome dele no convite porque a Luna insistiu muito! – ele cruzou os braços, contrariado. – Mas não me enrole, Hermione! Diga-me o que está havendo!
Eu não quero falar sobre isso, Rony!
Não se preocupe! – Rony se enfezou. – Eu não vou dizer "eu te avisei"! Embora eu tenha te avisado!
Rony! – Hermione reclamou. – Draco foi um bom marido até agora. E é um bom pai...
Mas?
Mas nada!
Mas mudou muito, não foi? Ou melhor, voltou a ser o mesmo Draco de antes, não é?
Não é nada disso, Rony! – ela não podia admitir.
Você ainda o ama? – Rony perguntou, então.
Que pergunta, Rony! – Hermione desviou o olhar.
Você o ama, Hermione?
Que diferença isso faz agora? – ela o olhou.
Faz toda! – Rony respondeu.
Rony...
Responda à minha pergunta. Você deixou de me amar um dia, pode ter deixado de amá-lo também.
Eu sinto muito por tê-lo deixado, Rony, mas...
Sente muito? – Rony perguntou. – Quer dizer que se arrependeu? Quer dizer que não o ama mais?
Não... Não foi isso que eu disse, Rony... – ela tentou. – Eu só... Eu não sei... – ela respondeu, triste. – Na verdade... Estou um pouco decepcionada com ele. – ela baixou a cabeça. Parte de seu cabelo caiu-lhe à frente dos olhos.
Todos têm o direito de escolher errado... – Rony colocou o cabelo dela atrás da orelha, com delicadeza. – E todos têm o direito de voltar atrás.
O que você quer dizer? - Hermione levantou os olhos até ele.
Você sabe o que eu quero dizer. – ele, praticamente, sussurrou.
Naqueles poucos segundos em que seus olhos se encontraram, milhares de indagações passaram pela cabeça de Hermione. Todas a respeito da escolha que ela havia feito no passado e da oportunidade que estaria tendo agora.
Já Rony não conseguia pensar em mais nada desde que Hermione chegara à Toca, só nela. No quanto estava bonita, no quanto estava fragilizada e, talvez, no quanto poderia estar arrependida de tê-lo deixado. A única indagação que pairava em sua cabeça era: "Será que essa é uma segunda chance para nós?"
Hei, dois! – Harry gritou lá do campo. – Acho que é hora de irmos, não? – ele os olhava, meio bravo.
Hum... Tem razão. – Hermione se assustou, e tratou de se afastar de Rony. Não tinha se dado conta do quão perto seus rostos estavam um do outro, e sentiu-se envergonhada por isso.
Mas e o Hagrid? – Rony perguntou, aborrecido. – Prometemos que íamos esperá-lo.
Vamos até a orla nos despedirmos! Acho que passou da hora de irmos! – ele falou, autoritário.
Você está certo, Harry! – Hermione levantou-se, então. – Desça da vassoura, Apus! Hora de ir. – ela desceu as arquibancadas, ansiosa. Não reparou nos olhares aborrecidos que Harry e Rony trocaram.
O grupo fez o que Harry sugerira. Foram até a orla da floresta, onde as crianças tiveram a oportunidade de ver de perto um unicórnio, e se despediram de Hagrid, com a promessa de que voltariam outro dia, apenas para conversarem com ele.
Os três adultos fizeram o caminho de volta a Londres muito calados. Apenas Helena e Apus falavam entusiasmados. Aquele dia havia sido, realmente, muito cheio de emoções, para todos eles, embora de maneiras muito diferentes.
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O que diabos foi aquilo, Rony? – Harry mal esperou Hermione chegar ao segundo andar da Toca com os filhos para se despedir dos Weasley, quando começou a discutir com Rony.
Aquilo o quê?! – Rony perguntou, fazendo-se de desentendido, enquanto entrava em casa.
Aquele clima que rolou entre você e a Hermione lá em Hogwarts! – ele diminuiu muito o tom de voz. – O que você pensa que está fazendo? Ficou louco?!
Você é que está ficando louco, Harry! – Rony respondeu no mesmo tom. – Não havia clima nenhum lá! – ele virou as costas.
Rony, a Hermione é casada agora! – Harry o segurou. - E você vai se casar! – os dois ainda sussurravam, embora nervosos.
Sabia que já inventaram divórcio, Harry? – Rony o enfrentou. – E que ele já chegou ao mundo bruxo?!
Rony, ela não vai se separar do Malfoy para ficar com você!
Ela não gosta mais dele!
Ela tem filhos! Ela jamais deixaria o pai deles na primeira oportunidade que tivesse! Além disso, você vai se casar! Esqueceu? Como fica a Luna nessa história?
Rony queria responder, mas não podia. Em nenhum momento daquele dia todo ele havia pensado em Luna, mas agora que o fazia, sentia-se mal. Ele não podia magoá-la, não queria.
Ah droga! – Rony abriu os braços, inconformado. – Você tem razão, Harry! – ele se esqueceu de manter o tom. – Como sempre, aliás! Você e a Hermione sempre têm razão em tudo! – ele sentou-se no primeiro degrau da escada que levava aos quartos.
Shiiii! Fale baixo! – Harry se aproximou do amigo, compreensivo.
Você tem razão. – ele repetiu, mais baixo. – Eu me esqueci completamente da Luna hoje, mas não foi de propósito! Eu... Eu estou... Confuso!
Péssima hora para ficar confuso, você não acha? – Harry sentou-se ao lado dele.
Teoricamente não. – Rony respondeu. – Eu ainda não me casei. Os danos seriam bem piores se...
A Hermione não vai se separar do Malfoy, e você sabe disso, por causa das crianças! Além do mais, a Luna não merece passar por isso, Rony! Faltam 10 dias para o casamento de vocês! Você insistiu para convidar a Hermione e agora...
Eu sei! Eu sei, Harry! – ele escondeu o rosto nas mãos. – Mas não estou fazendo isso de propósito! Eu gosto da Luna, mas a Hermione... Vê-la de novo... Eu sei lá! Me balançou, entende?
Até entendo, mas não concordo. Você pediu a Luna em casamento, você deu esperanças a ela! A responsabilidade é sua!
Eu sei...
Olá, rapazes! – a voz de Gina soou do andar de cima. Ela descia as escadas acompanhada das crianças. – E então? Como foi o passeio? Apus e Helena adoraram, não foi?
Oi Gi. – Harry respondeu, dando-lhe um beijo.
Nem gostei tanto assim... – Apus falou, desinteressado.
Sei. – Gina riu, não dando atenção ao comentário dele. Aconteceu alguma coisa? Vocês estão tão sérios. – ela perguntou então, notando as caras de Harry e Rony.
Não foi nada. – Rony respondeu. – Cadê a Hermione?
Está se despedindo da vovó Weasley, tio Rony. – Helena respondeu.
Hum... Eu vou ao banheiro, então... Desço antes de vocês saírem. – Rony se sentiu mal ao ouvir a menina chamar sua mãe de avó.
Ok. Eu ainda prometi um pedaço do famoso bolo de abóbora da mamãe para esses dois. – Gina falou, sorridente. – Nos acompanha, Harry?
Com certeza! Isto é, se eu for ganhar um pedaço de bolo também! – ele brincou.
Claro que vai, tio Harry! – Helena segurou a mão dele e os quatro foram para a cozinha.
Rony ficou observando-os. Harry decidiu que já havia falado tudo que devia, era hora de deixar Rony refletindo, por isso não insistiu para que ele os acompanhasse. Rony, por sua vez, ainda estava se sentindo balançado demais e, apesar de saber que Harry tinha toda a razão, não conseguia parar de pensar na possibilidade de romper o noivado e ficar com Hermione.
Cansado de martelar naquele assunto, ele subiu as escadas em direção ao seu quarto. Não queria realmente ir ao banheiro, só arrumar uma desculpa para não ver Hermione antes dela ir embora, mas seu plano não deu certo. Pouco antes de atravessar completamente a porta do quarto, Hermione saiu do quarto da sra Weasley.
Nos vemos amanhã então, sra Weasley. – ela falou, sorridente.
Vou ficar esperando por vocês, querida. – a senhora respondeu lá de dentro.
Rony podia ter, simplesmente, entrado no quarto e fechado a porta, já que Hermione ainda não o tinha visto, mas ele não conseguiu. Ficou esperando-a meio escondido e, quando ela passou em frente a sua porta, a puxou para dentro.
Rony! Que susto! – Hermione sussurrou já dentro do quarto. – Que foi? Por que essa cara?
Você sabe por quê! – ele respondeu, sério, embora completamente corado. – Temos que conversar, Hermione.
Não agora. Eu tenho que ir embora, Rony. As crianças estão me esperando e todos vão notar que nós dois "sumimos". – ela falou, caminhando em direção a porta.
Hermione espere! – ele a segurou pelo braço.
Rony, por favor, eu tenho mesmo que ir. Nós podemos conversar outra hora, com calma, depois de pensar melhor em tudo. – ela insistiu.
Então há mesmo no que pensar? – ele sentiu-se ligeiramente relaxado.
Bom... – ela cedeu. – Depois do que aconteceu lá em Hogwarts... Acho que sim, não é?
Não aconteceu nada lá em Hogwarts. – ele sondou.
Aconteceu sim, Rony. – ela cruzou os braços, desanimada. – E você sabe disso. Até o Harry percebeu.
Era só o que eu precisava saber, Mione. – muito diferente do Rony tímido que ele costumava ser, ele se aproximou, determinado, e a beijou, assim como gostaria de ter feito em Hogwarts e não pôde.
Hermione se assustou num primeiro instante, ficou sem saber o que fazer. Sua consciência dizia-lhe para afastá-lo o quanto antes, mas seu corpo estava gostando daquele contato. Fingindo-se de surda para a voz autoritária que soava em sua cabeça, Hermione entregou-se ao beijo, às carícias, e correspondeu-o completamente, explorando a boca dele com desejo, com vontade. Mas então a voz tornou-se insuportavelmente alta, e ela cedeu, dessa vez à razão.
Não Rony! – ela o empurrou com o máximo de força que pôde. – Isso não pode acontecer! Está muito errado.
Hermione nós...
Está errado, Rony! Não foi para isso que eu voltei! Pense em todos que vão sofrer com isso! Pense na Luna, nos meus filhos, em Draco... Não podemos Rony! Não vai acontecer de novo. – ela falou muito rápido, sem deixar espaço para Rony argumentar. – Não vai...
Hermione...
Mas ela não ficou para ouvir mais nada. Ensaiou sua expressão mais casual e desceu as escadas em direção à sala. Ouviu a voz dos filhos na cozinha e foi até lá, parecendo o mais natural possível.
E então, vamos? – perguntou.
Mãe! Esse bolo é uma delícia!
Eu sei! A sra Weasley cozinha maravilhosamente bem, agora temos que ir, não é? Despeçam-se do tio Harry e da tia Gina e vamos embora.
Helena levantou-se e, depois de levar seu prato até a pia, contornou a mesa para dar um beijo em Harry e Gina. Apus apenas acenou, já ao lado de Hermione.
E o tio Rony? Não nos despedimos dele. – Helena falou.
Vocês o verão amanhã de novo, não tem problema. Eu já abri a chave de portal, Mione. – Harry falou, parecendo ansioso para que ela fosse embora logo.
Obrigada Harry. – ela o fitou, com o olhar cheio de significado. – Vamos crianças.
Tá bom. Dá um beijo no tio Rony por mim, tia Gina. – Helena falou.
Pode deixar, querida. – Gina respondeu, sorridente.
O grupo foi até o quintal, onde um pneu velho os esperava. Hermione e as crianças precisaram correr para alcançá-lo, porque a costumeira luz azulada que indicava que estava na hora de partir já estava aparecendo.
Rony apareceu na porta da casa, a tempo de corresponder ao aceno que Helena lhe mandou. Seu sorriso era falso e tentava esconder o desapontamento diante da reação de Hermione.
Olá e tchau! – Luna aparatou de repente, havia acabado de chegar, e gritou para os três que partiam. Todos se assustaram, mas a cumprimentaram de volta. – Puxa! Se eu tivesse chegado minutos antes poderia tê-los cumprimentado direito. – ela dizia sorridente, olhando o brilho azulado que ia se apagando aos poucos.
Rony ficou meio perdido ao ver Luna chegar tão animada, tão sorridente. Sentiu-se confuso diante da sensação boa que sentiu ao vê-la, misturando-se com a culpa que sentia, também ao vê-la.
Como foi tudo? – ela perguntou pouco antes de jogar os braços em torno do pescoço dele, e beijá-lo antes mesmo que ele pudesse responder. – Senti sua falta na hora do almoço, meu amor.
Rony sorriu, contente por ouvir a voz dela depois de um dia inteiro sem vê-la, mas não pôde dizer nada. Achava que tudo que dissesse soaria muito falso.
Acho que me desacostumei a almoçar sozinha. – ela continuou sorrindo, ainda abraçada a ele. Beijou-o novamente.
A essa altura Harry e Gina já haviam saído de fininho para deixá-los a sós. Harry não permitiu nem que Gina a cumprimentasse. Queria que Rony pesasse a falta que sentiu de Luna com a falta que sentiu de Hermione.
Foi somente hoje, prometo. – Rony respondeu, sorrindo contagiado pelo olhar animado de Luna, sem notar nada ao seu redor. – Hermione estava ansiosa para rever Hogwarts e mostrar tudo às crianças.
E eu estava ansiosa para te ver! – ela sorriu e deu um selinho nele. – Não vejo a hora de nos casarmos e podermos nos ver todo dia, sabia? Fui até nossa casa hoje. Está simplesmente perfeita! Exatamente como imaginei!
Rony não disse nada. Apenas ficou olhando-a. Ele não conseguia explicar o que era aquilo que sentia quando estava perto de Luna, ele só sabia que adorava. Ele sentia que seria capaz de ficar horas admirando o modo como os olhos dela brilhavam quando ela falava de algum preparativo para o casamento, ou quando fazia seus planos para o futuro.
Adorava o jeito como ela o olhava, transmitindo todo amor que sentia por ele. Adorava os carinhos que ela fazia e os momentos em que passavam sozinhos. Ele se sentia bem, se sentia amado, e sentia amor, pelo menos era o que ele achava, até rever Hermione. Ele queria sentir por Luna tudo aquilo que ela demonstrava sentir por ele.
Eu te amo, Luna. – a frase escapou de seus lábios antes que ele a pudesse conter.
Luna abriu o maior sorriso que ele já vira, seus olhos brilharam de um modo sem igual. Rony podia jurar que ela estava emocionada.
É a primeira vez que você me diz isso, sabia? – ela falou, a voz fraca e ligeiramente embargada.
Sério? – ele sentiu as orelhas esquentarem. Baixou os olhos, confuso.
Eu também te amo. – ela respondeu, imaginando que o acanhamento dele era por não estar acostumado a dizer o que sentia. – Confesso que estava me sentindo insegura, sabe? Mas você me dizer isso, depois de ter reencontrado Hermione, significa muito para mim.
Ah Luna... – ele sentiu-se pior ainda, afastou-se dela e sentou-se na soleira da porta.
O que foi que eu disse de errado? – ela se assustou, então foi sentar-se ao lado dele. – Foi uma insegurança passageira! Eu tenho o direito, não tenho? Você e ela se separaram de forma tão...
Não vamos falar da Hermione, ta legal? – ele a fez parar, tentando parecer o mais calmo possível. – Vamos falar de nós! – ele suspirou. – Você já jantou?
Ainda não, mas...
Ótimo! Vamos sair para comer alguma coisa! – ele se levantou e a puxou pela mão. – Para compensar as horas que não passamos juntos hoje, ok?
Ok! – ela sorriu, como se nunca tivessem começado um assunto delicado. – Se você insiste!
Ele não quis nem entrar em casa, ou avisar alguém. Segurando a mão de Luna ele aparatou. Não queria pensar em Hermione, queria esquecer o que tinha feito. Queria aproveitar o bom momento que ele sabia que teria com Luna. Queria espantar a confusão de seu coração, queria que tudo voltasse a ser como era antes, queria ter certezas novamente.
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Hermione chegou na casa dos pais se sentindo péssima. Não quis nem jantar, quase não falou. Só queria ficar sozinha. Deixou a cargo da mãe a janta e o banho dos filhos. Ela foi direto para o quarto, jogou-se na cama e ficou refletindo a respeito do que fizera naquele dia, do que pensara, do que sentira.
Ela tentava por a culpa de tudo em Rony, tentava se convencer de que ele a pegara desprevenida, de que ela não teve como se defender, mas ela teve, e não quis. Ela podia tê-lo afastado logo de cara, mas não o fez. Ela o correspondeu, e isso a estava fazendo se sentir péssima.
Ela estava, mais uma vez, sentindo-se dividida entre Draco e Rony e, pior que isso, estava sentindo-se culpada. Ela saíra da Alemanha completamente desconfiada de Draco, achando que ele pudesse ter outra pessoa, mas agora era ela quem tinha, ou, pelo menos, era assim que se sentia. Então ela tentava se justificar. Tentava convencer a si mesmo que só estava devolvendo a Draco aquilo que ele estava fazendo com ela.
i "Mas será que está mesmo? Pode ser que a firma esteja mesmo com problemas. Sophie mesma falou que nunca está muito por dentro do que acontece. Pode ser que Draco estivesse dizendo a verdade. Mas e se não estiver? Como é que eu vou saber?" /i – ela pensava. – i "Eu tenho que confiar nele... E ele tem que confiar em mim..." /i
b Flashback /b
Ele estava atrasado, para variar. Sabia que tinha hora para tomar a poção, tratar os hematomas, mas ele nunca chegava na hora. Esperava sempre a dor ficar insuportável, só então aparecia.
Hermione já estava quase deixando a enfermaria quando ouviu a porta ranger. Era ele. Ela nem abriu a boca. Levantou-se da maca onde estava sentada e foi até o armário de poções. Draco entendera o recado. Também em silêncio, foi até a mesma maca, sentou e abriu a camisa. Ficou esperando.
Hermione veio até ele com o algodão e a poção. Começou a medicá-lo sem abrir a boca, sem olhá-lo. Estava irritada e Draco, ela não entendia por que, não aproveitou a chance para começar com seus comentários desagradáveis. Ele apenas a olhava, e isso ela percebeu, e a estava incomodando.
Por que você faz isso?
Isso o quê? – ela perguntou, sem perder a concentração.
Isso! – ele respondeu, indignado. – Por que você fica cuidando de mim?
Porque eu pretendo ser uma medi-bruxa um dia e eu não posso escolher quem tratar e quem não tratar. – ela respondeu tentando dar um fim à conversa.
Só isso? – ele insistiu.
Como assim só isso? – ela olhou para ele. – Por que outro motivo deveria ser?
Não sei. – ele deu de ombros. – Me diga você!
Eu já disse! – ela respondeu, impaciente.
Ele pareceu não acreditar. Ficou encarando-a insistentemente apenas para provocá-la, para ver se ela respondia o que ele pretendia ouvir. Ela suspirou, apertando o ferimento dele com o algodão embebido com poção com mais força do que o necessário.
Eu faço isso, Malfoy, porque, apesar de te achar desprezível, você ainda é um ser humano, e todo ser humano precisa de cuidados, por pior que seja. – ela jogou o algodão fora, fechou o frasco e se virou para guardá-lo no armário de poções.
Hum... – ele fez, meio decepcionado. – Achei que você não me achasse mais tão desprezível, Granger.
E por que não?! – ela se surpreendeu, e resolveu parar para dar-lhe atenção.
Bom... Faz um tempo que estou aqui e... Bom... Achei que já tivesse dado tempo de você me conhecer melhor. – ele fechou a camisa, mas sem nunca tirar os olhos dela.
Você não tem feito muitas coisas diferentes do que fazia em Hogwarts, Malfoy, embora tenha parado de nos encher e de me xingar. – ela cruzou os braços, começando a ficar impaciente.
E você nunca se perguntou por que eu parei de fazer essas coisas? – ele indagou.
Hermione riu: - Porque você está sozinho aqui? Porque você precisa de nós?
É só isso o que você pensa de mim, Granger? Que tudo que eu faço é por interesse? – ele deu alguns passos em direção a ela. – Você nunca pensou que eu pudesse ter mudado?
Não consigo ver nenhum motivo concreto par você ter mudado, Malfoy. – ela respondeu, começando a ficar confusa quanto ao rumo, ou ao motivo daquela conversa. – Você está querendo dizer alguma coisa? Pedir desculpas? Diga de uma vez?
Pedir desculpas? – foi a vez de Draco rir, mas ela continuou séria, o que o fez ficar sem graça. – Parece que seria um bom começo, não é?
Um bom começo para o quê? – ela estava ficando insegura.
Quem sabe? – ele se aproximou mais. – Me desculpe, Granger. – falou, pela primeira vez, com alguma sinceridade. – Eu acreditava realmente que houvesse alguma diferença entre nós dois pelo fato de eu ser sangue-puro e você ser nascida-trouxa, mas agora eu vejo que a única diferença que há entre nós é que você faz o que é certo. Faz o que seu coração manda, e eu faço o que me é conveniente. Mesmo que seja errado.
Hermione olhava para ele embasbacada. Meio sem saber se estava realmente ouvindo aquilo, ou se deveria acreditar no que estava ouvindo. Draco percebeu a desconfiança dela.
Difícil de acreditar, não é? Mas acredite! Eu estou pedindo desculpas sinceras. – ele voltou a andar, mas passou direto por ela. – Você ficaria surpresa ao descobrir o que algumas noites na masmorra da sua própria casa poderiam fazer com você. – ele sorriu, debochando de sua própria sorte, então parou na porta. – Eu nem perguntei: já posso ir, doutora?
P-Pode. – Hermione respondeu, completamente intrigada.
Ficaria mais surpresa ainda com o que uma segunda chance pode fazer. – ele cruzou a porta de uma vez. – Obrigado Granger. – e se foi.
De nada... – Hermione respondeu para si mesma, já que ele não poderia mais ouvi-la.
Ela ficou parada no mesmo lugar por alguns instantes, sem saber o que pensar daquela situação. Na verdade ainda se perguntava se aquilo havia realmente acontecido ou se era apenas coisa da sua cabeça. Decidiu conferir. Fechou o armário de poções, apagou a luz da enfermaria e correu para alcançar Draco. Ele não tinha ido muito longe, de modo que ela não demorou nada para avistá-lo.
Hei! Malfoy! – ela gritou.
Draco parou, mas não deu chance para Hermione ver o sorriso que se instalou em seu rosto ao ouvir a voz dela chamando-o. Já sério, virou-se de frente para ela e ficou esperando.
Você não me deu chance de responder. – ela chegou perto dele.
Responder o que? – ele perguntou.
Se suas desculpas são mesmo sinceras... Então eu as aceito. – ela sorriu sem pensar.
São sinceras sim. – Draco sorriu também, e era a primeira vez que Hermione o via fazer isso sem estar debochando de alguém. – E eu sei que um dia você vai acreditar nisso. Eu ainda não sei como, mas vou fazer você confiar em mim, Hermione.
Ela não soube por que, mas sentiu seu coração bater mais forte quando o ouviu chamá-la pelo primeiro nome. Toda atmosfera ao redor pareceu se modificar. Ela começou a olhá-lo com mais atenção, como nunca havia feito antes. Reparou que os olhos dele eram azuis, um azul muito diferente do que ela já tinha visto. Tinham um toque de cinza. Eram tão bonitos, assim como ele próprio, ela começou a notar.
Aquele em sua frente era, agora, um outro Draco. Um que ela nunca tinha visto, mas que queria muito conhecer melhor. Um Draco que não a deixava de mau humor, ou que fazia seu cérebro começar a pensar em boas respostas para dar às provocações dele, mas um Draco que merecia um sorriso. Um Draco que a deixava com vontade de sorrir.
Eu... – ela começou então. – Eu vou aguardar ansiosa pelo dia em que vou poder confiar em você... Draco.
Esse dia vai chegar. – ele sentenciou, ainda com um sorriso nos lábios, sentindo-se tão mais leve que nem podia explicar. – E no que depender de mim não vai demorar muito. – ele levou a mão ao rosto dela, mas não chegou a tocá-lo.
Aquele clima entre os dois acabou ali, como se aquele gesto pudesse ter disparado um alarme. Foi como se durante toda aquela conversa, que começou na enfermaria, eles estivessem numa outra dimensão e, depois daquele gesto, tivessem voltado ao mundo real. Os sorrisos sumiram, os olhares se desviaram. Eles viraram de costas um para o outro, quase ao mesmo tempo, e cada um tomou seu rumo, sem olhar para trás.
b Fim do flashback /b
Como é que eu posso exigir confiança dele se eu mesma não estou sendo confiável? – perguntou-se, angustiada. – Eu não devia mesmo ter vindo. Não tão magoada, tão suscetível. Mas aquilo não vai acontecer de novo. Não mesmo!
N/A: Aí está, finalmente, depois de tantas semanas de espera. Sei que alguns de vocês não vão gostar do fato de Draco quase não ter aparecido nesse capítulo, mas no próximo ele vai aparecer.
Por enquanto, peço desculpas pela demora e um pouco mais de paciência, pois, provavelmente, os próximos capítulos também vão demorar um pouco para serem postados. Esse é meu último semestre na faculdade e as coisas estão muito corridas. Acho que a maioria de vocês me entende.
Bom... Como sempre, tenho que pedir: comentem, digam o que acharam, o que não gostaram, façam sugestões para os próximos capítulos, isso estimula, e muito, minha imaginação, além de me fazer ter vontade de terminar o capítulo seguinte o quanto antes.
Valeu a todos! Bjos e até o próximo capítulo!
