6. A tênue linha entre amor e ódio
Gilbert estava na cozinha, sem camisa, preparando panquecas. Tinha passado a tarde com Matthew e agora fazia um lanche para ambos enquanto o garoto estava no banho. Não demorou para o canadense aparecer na cozinha vestindo um roupão.
- Isso está com um cheiro bom, Gilbert. Já está pronto?
- Quase, seu faminto.
O alemão se aproximou e lhe deu um longo beijo, acariciando os cabelos loiros em seguida.
- Não devia cozinhar sem camisa.
- O que foi, não gosta da visão?
- Adoro, mas...
- Então não esquenta. Pode ficar tranquilo que eu não vou deixar cair nada nas suas panquecas.
Matthew revirou os olhos.
- Argh, Gilbert.
O mais velho apenas riu e beijou o garoto novamente. Foi então que ouviram a campainha tocar.
- Espera aqui que eu vou atender a porta. Enquanto isso, fica de olho nas panquecas.
- Ok.
Gilbert foi até a sala e, quando abriu a porta, ficou surpreso ao ver Roderich.
- Vai me convidar para entrar ou está esperando alguma coisa?
- Você sabe que não precisa de convite para entrar na minha casa.
Os dois foram até a sala e o austríaco se sentou no sofá, sem tirar os olhos do outro.
- Precisamos conversar.
O alemão se sentou ao lado dele.
- Sobre o quê?
- Elizaveta e eu estamos noivos.
- O QUÊ?
Gilbert se levantou num pulo, olhando estupefato. Roderich não esboçou nenhuma reação.
- É isso mesmo que você ouviu.
- Mas... Desde quando?
- Desde ontem à noite.
- Roderich... Elizaveta está grávida?
- O QUÊ?
Dessa vez foi o austríaco que pulou do sofá.
- É claro que não! – Ele gritou. – De onde tirou essa ideia maluca?
- Oras, para você chegar aqui dizendo que vocês resolveram se casar de uma hora para outra, foi a primeira coisa que me veio à cabeça.
- Seu sem noção, você sabe que Elizaveta não é do tipo que se casaria só por causa disso. Nós tivemos uma longa conversa antes de decidirmos juntos. Em todo caso, não foi por isso que vim até aqui conversar com você.
- Ah, que ótimo, você me joga uma bomba e diz que esse não é o assunto principal? Vai me dizer o que, agora? Que vocês vão se mudar para a Áustria?
- Não seria má ideia. – Ele disse com uma expressão pensativa no rosto, mas resolveu ir direto ao assunto ao ver a cara de irritado do alemão. – Gilbert, eu vim conversar com você sobre o Matthew.
Gilbert fechou a cara.
- O que é que tem ele?
- O Francis me contou. Gilbert, isso não vai dar certo, ele é novo demais para você.
- Olha quem fala. – Ele riu. – Ele tem a mesma idade que meu irmão e, pelo que me lembro bem, você costumava agarrar Ludwig pelos cantos.
- Como você mesmo disse, costumava. – O austríaco enfatizou o termo no passado, irritado. – Ao contrário de você, eu caí na real.
O alemão deu uma gargalhada.
- Por favor, Roderich! Vocês só pararam porque meu irmão se apaixonou pelo italianinho e te largou.
- Será que dá para parar de falar do Ludwig! As coisas entre nós não deram certo, ok?
- E o Vash? Já se esqueceu dele?
Roderich ficou lívido.
- Cale. A boca. Agora.
- Está bem, eu me calo. – Gilbert riu, cruzando os braços. – Mas agora você me explica por que está dizendo para eu largar Matthew.
Ele respirou fundo, tentando se acalmar, e disse:
- Francis me contou sobre esse garoto. Por que você está com ele? Ficou com pena da situação?
- Já me viu ter pena de alguém, Rod? Eu sei o que o Matthew passou, ele me contou e ainda conversa comigo sobre isso. Ele me diverte, mesmo com esse jeitinho mais reservado, gosta de mim, me atura, é quase como...
Ele parou de falar, encarando o outro. Quase como você, Roderich.
- Como...?
- Deixa pra lá. Olha, eu vou continuar com ele até quando ele quiser. E antes que você me diga. – Acrescentou quando o austríaco abriu a boca para falar alguma coisa. – Eu sei que ele está confuso. Já não disse que conversamos sobre isso?
Roderich pareceu se conformar. Levantou-se do sofá e foi em direção à porta.
- Já vai embora?
- Já. Já falei tudo o que eu queria para você.
- Tem certeza?
Gilbert se aproximou, tocando o rosto do amigo, que corou e fez menção de se desvencilhar, mas o alemão foi mais rápido. No instante seguinte, Roderich tinha os lábios de Gilbert sobre os seus. O austríaco se deixou levar pelo beijo que, para sua decepção, não durou tanto quanto ele esperava.
- Sabe de uma coisa? – Disse Gilbert. – Matthew se parece muito com você.
Roderich não disse mais nada antes de se virar e sair da casa do alemão que ficou parado, apenas olhando e sorrindo. Voltou para a cozinha, onde o canadense o esperava com o lanche pronto no fogão.
- Gilbert, o que aconteceu? Achei melhor não interromper...
Matthew se calou com quando o mais velho o beijou. Passou os braços sobre seus ombros e sentiu ser erguido por ele e colocado na mesa, sendo empurrado em seguida para que se deitasse. Logo seu roupão estava aberto e o alemão beijava seu pescoço, descendo para seu peito, fazendo-o gemer. De repente...
- GILBERT!
Os dois se assustaram com o grito e viram Ludwig parado na porta da cozinha com os olhos arregalados. Ao seu lado, Feliciano puxava seu braço.
- Vee... Ludwig, não se deve interromper esses momentos.
Ele ignorou o italiano e foi em direção ao irmão mais velho.
- Mas que diabos você estava fazendo na mesa da cozinha?
- Quer mesmo que eu responda, maninho? – Ele riu.
- Argh, não. Pare com essa mania de agarrar as pessoas pelos quatro cantos da casa, eu também moro aqui e não gosto de chegar em casa e dar de cara com uma cena dessas. Principalmente na cozinha.
Enquanto os irmãos discutiam, Feliciano foi para perto de Matthew.
- Sinto muito por Ludwig ter interrompido. Eu falei pra ele, mas ele não quis me ouvir...
- Tudo bem, Feliciano, a gente continua isso depois. Quer panquecas?
- Oba! Eu quero, sim!
oOoOo
No fim de semana, Kiku foi até sua livraria favorita, perto de sua casa. O dono, um jovem chinês, sempre tinha um livro de seu gosto, mas não era um livro o que estava procurando no momento.
- Kiku? – O rapaz chamou quando o viu entrar. – Que bom te ver por aqui hoje.
- Oi, Yao. – Ele se aproximou do chinês, que percebeu seu semblante triste.
Yao Wang nascera na China, mas vivia na Inglaterra desde os oito anos de idade. Atualmente, aos vinte e cinco, era dono da pequena livraria, herdada de seu pai. Conheceu Kiku logo que ele se mudou e criou uma forte amizade com o garoto. Ouvia suas histórias sobre o colégio e os amigos, seus desabafos ou simplesmente lhe oferecia um livro para distração quando ele não queria falar.
- O que houve?
O japonês não respondeu e abraçou Yao, escondendo o rosto. O mais velho suspirou, passando a mão pelos cabelos negros do garoto.
- Quer me contar ou quer só chorar um pouco?
Kiku limpou uma lágrima com as costas da mão. O chinês chamou sua irmã mais nova, Mei, que o ajudava na loja e pediu que ela cuidasse de tudo enquanto ele conversava com Kiku. Ele sabia que o amigo estava precisando de apoio e o levou até o andar de cima, um apartamento onde morava com a irmã. Indicou o sofá para o garoto, foi até a cozinha preparar um chá e voltou com uma bandeja que continha duas xícaras. Colocou a bandeja na mesinha de centro e se sentou no sofá ao lado de Kiku.
- Tome um pouco, vai te acalmar.
- Obrigado, Yao.
O japonês bebeu alguns goles de chá antes de colocar a xícara de volta na mesinha.
- Eu não entendo... – Ele começou a falar, depois de um breve silêncio. – Eu pensei que fosse real.
- Não acredito que está assim por causa daquele garoto outra vez.
- Eu gosto dele, Yao, e pensei que ele também gostasse de mim, mas...
- Mas...?
- Eu não sei, ele insiste em dizer que não sente nada pelo primo, mas continua querendo cuidar dele, continua sentindo ciúmes dele...
Kiku parou de falar, fitando o vazio. O chinês começou a pensar enquanto tomava um gole de chá. Eu me lembro de como você estava feliz quando veio me contar que estavam juntos, Kiku. Quando você vinha me contar dos passeios que faziam, de quando saíam para jantar, de como ele o fazia rir... E tudo desmoronou assim de repente? Não... Está ruindo desde o início. Você só não percebeu.
- Kiku... – Yao quebrou o silêncio. – Eu sinto muito, mas seu relacionamento estava fadado à ruína desde o início.
- O quê?
O chinês suspirou, pensando em como explicar ao amigo.
- Eu acho que Alfred só está com você para tentar provar a si mesmo que pode comandar suas próprias emoções, que pode controlar seus sentimentos. Ele não quer admitir que sempre foi e ainda é apaixonado por Matthew, porque acha que vai parecer fraco se fizer isso.
Até que a faculdade de psicologia serviu para alguma coisa. Ele pensou, fitando o japonês, que tentava entender, ou melhor, tentava encontrar uma explicação para aquilo, porque tinha entendido muito bem.
- Eu não acredito que ele fez isso comigo.
Yao passou o braço pelo ombro do amigo, deixando que ele encostasse a cabeça em seu peito enquanto o abraçava. Nessa hora, o telefone tocou, assustando os dois. O chinês murmurou um pedido de desculpas e se levantou para atender, mas voltou logo.
- Era para a Mei, um colega de sala. Voltando ao nosso assunto, acho que você não deveria continuar saindo com Alfred.
- Eu também acho que não, mas... Isso não é fácil, sabe.
Kiku levou um susto quando o mais velho segurou seus ombros.
- Aquele americano não te merece, está só te usando. Esqueça-o!
- Eu... Eu não vou conseguir.
- Eu te ajudo.
O garoto se surpreendeu novamente quando Yao o puxou para um beijo. O que diabos ele está pensando?
- Yao! – Ele gritou, empurrando o outro. – O que está fazendo?
- Me desculpe, Kiku, mas você é meu melhor amigo. Eu não aguento te ver sofrendo desse jeito por um cara que não te leva a sério.
- Yao...
O chinês ia beijá-lo novamente quando Mei entrou na sala.
- Mano, onde está o... Ah, me desculpem. – Ela disse, constrangida.
- Não se preocupe, querida. O que está procurando?
- Meu fichário, um colega me pediu meu caderno de História emprestado. Aquele russo que te falei.
- O quê?
Os irmãos se viraram para o japonês.
- O que foi, Kiku? – Yao perguntou.
- Acho que conheço esse cara, não sabia que ele era da sala da Mei.
- O Ivan? – Começou a garota. – Acho que ele é bem estranho, na verdade. Soube por alguns garotos que ele foi expulso da escola anterior e que a irmã dele está no reformatório.
- Nossa. Você sabe por que ele foi expulso?
- Não fiquei sabendo muita coisa, acho que ele feriu um garoto com uma faca.
Kiku arregalou os olhos. Ivan decididamente não tinha ido com a cara de Alfred e o americano deixara claro que também não gostava do russo. Alfred pode estar correndo perigo.
- Eu preciso ir. – Ele disse, se levantando de repente. – Passo aqui mais tarde.
- Tudo bem, mas o que houve?
- Eu explico depois.
- Kiku, se foi alguma coisa que eu fiz...
O japonês deu um beijo rápido no amigo antes de dizer:
- Obrigado por tudo, Yao.
O chinês ficou sem palavras, vendo o garoto sair correndo do apartamento.
- Parece que está rolando alguma coisa entre vocês. – A irmã mais nova riu. – Eu já desconfiava que você sentia alguma coisa por ele.
- Mei, você não estava procurando seu fichário?
A garota riu novamente e saiu, deixando o irmão pensativo. Kiku era só meu amigo. Acho que não percebi que gostaria que ele fosse mais que isso.
oOoOo
Kiku correu até a casa de Alfred o mais rápido que conseguiu. Quando chegou lá, foi recebido pela empregada de Arthur.
- Sinto muito, o patrão foi passar o feriado na casa de campo com os primos.
- Feriado?
Só então Kiku se lembrou do feriado de uma semana que teriam a partir do dia seguinte. Nem o americano e nem o canadense comentaram alguma coisa sobre viajar, então ele presumiu que o mais velho tinha dado a ideia em cima da hora. Ele agradeceu a informação e voltou para casa, de onde tentou ligar para o celular do namorado. Estranho pensar nele como meu namorado depois dessa conversa com Yao. Eu não o quero mais, ainda que eu tenha que suprimir o que sinto, mas não posso deixar de avisá-lo sobre o russo.
Não obteve sucesso em nenhuma chamada, então teve outra ideia. Ligou para Ludwig.
- Hallo?
- Ludwig? Sou eu, Kiku.
- Kiku? Está tudo bem?
- Sim. Eu preciso falar com você, pode vir até minha casa?
- Posso. Chego daqui a quinze minutos.
O alemão chegou exatamente no tempo programado, característica forte daquela nacionalidade. Eram tão pontuais quanto os ingleses.
- Então, o que aconteceu?
- Preciso de informações. Acho que aquele russo, Ivan, é um sujeito perigoso e que Alfred pode estar correndo risco.
- De onde tirou essa ideia?
- Uma garota da sala dele comentou comigo que ele foi expulso da escola antiga por ferir outro garoto. Quero saber o que aconteceu.
- Espera aí, como é que um cara com um histórico desses conseguiu entrar na nossa escola, para começo de conversa?
Os dois pararam de falar, se olhando e pensando na mesma coisa. O japonês quebrou o silêncio.
- A família dele deve ter encoberto a história. Vamos tentar descobrir o máximo de informações possíveis.
- Certo, mas por que acha que Alfred está correndo risco?
- Oras, ele e Ivan já deixaram claro um para o outro que se odeiam. Se o que me contaram for verdade, ele pode resolver se livrar de Alfred quando der na telha.
- Entendi. Pode contar com minha ajuda.
- Obrigado. Só não conte nada a Feliciano, ok? Ele não é muito discreto.
- Feliciano não é nada discreto e, de qualquer modo, eu prefiro deixá-lo fora disso.
Os dois apertaram as mãos e começaram a decidir por onde começariam.
oOoOo
- Não entendi por que quis vir para a casa de campo tão de repente. – Comentou Alfred, no banco de trás do carro de Arthur. – Achei que não tínhamos nada planejado para o feriado.
- E eu não tinha. – O inglês respondeu. – Foi ideia do Francis. – Ele indicou o francês no banco do carona.
- Não reclamem, estamos todos precisando de um descanso. Olhem, já chegamos.
Arthur estacionou o carro e foi abrir a porta da casa. Enquanto isso, Alfred começava a tirar as malas do carro e o francês foi acordar Matthew, que dormia no banco de trás. O garoto não trocara uma palavra sequer com o primo americano durante toda a viagem.
- Ei, chegamos.
- Mas já?
Ele saiu, sonolento, para ver onde estavam e perdeu o fôlego ao ver a casa do lago. Aquela casa lhe trazia muitas lembranças. Sentiu os braços de Francis em volta de si e olhou para ele.
- Êtes-vous bien?
- Estou bem, só estou cansado.
O rapaz sorriu, acariciando os cabelos do mais novo.
- Seu quarto já deve estar preparado. Vá dormir direito.
O canadense foi para dentro da casa e Arthur foi falar com Francis.
- Aconteceu alguma coisa com Matthew?
- Ele está cansado.
- Acha mesmo que foi uma boa ideia virmos para cá?
- Matthew precisa de ar fresco, Alfred precisa esfriar a cabeça, você precisa descansar e, enquanto isso, eu aproveito sua bela casa de campo.
- Seu bebedor de vinho folgado.
O francês riu, levando suas malas direto para o quarto de Arthur, sendo logo seguido por ele.
- Você tem uma excelente vista daqui.
- Eu sei, é por isso que este é meu quarto.
Os dois arrumaram suas coisas e desceram para fazer o jantar. Enquanto isso, Matthew levava suas coisas para o quarto e encontrou Alfred no caminho.
- Quer ajuda? – Ofereceu o americano.
- Não. Posso me virar sozinho.
- Tem certeza de que vai dormir sozinho?
O canadense não respondeu, apenas lançou um olhar cortante ao primo antes de bater a porta do quarto. O outro suspirou e foi procurar alguma coisa para comer.
Os dias na casa de campo transcorreram normalmente. Já tinham se passado quatro dias desde que haviam chegado e eles resolveram fazer um jantar do lado de fora, na varanda.
- Francis, eu não sei como Arthur ia sobreviver aqui se você não viesse para cozinhar. – Riu Alfred. – Íamos morrer intoxicados.
- Cale a boca, moleque. – Disse Arthur, abrindo uma garrafa de vinho. – E, se for tomar vinho, misture com água.
- Certo.
Os rapazes acabaram perdendo a noção do tempo e quatro garrafas de vinho já estavam vazias em cima da mesa. O inglês cochilava no colo do namorado, sentados no sofá da sala, o americano terminava uma taça de vinho e o canadense estava quase dormindo em cima da mesa.
- Acho melhor você subir para o quarto, Mathieu. Vem, eu te levo.
Francis deixou Arthur no sofá e levou o garoto para o andar de cima.
- Qualquer coisa, appelez-moi.
- Oui. Merci, Francis. Bonne nuit.
- Bonne nuit, petit.
O francês voltou para levar o namorado para o quarto e mandou Alfred também ir dormir. O garoto disse que já estava indo e, quando os mais velhos saíram, foi até o quarto de Matthew. Quando entrou, viu que o primo estava trocando de roupa, vestindo apenas a calça do pijama. Ele levou um susto quando viu que havia mais alguém em seu quarto.
- Alfred! O que está fazendo aqui?
- Quero falar com você. Faz quatro dias que estamos aqui e você mal fala comigo. O que há com você, Mattie?
- Eu não quero conversar sobre isso agora. Vá para o seu quarto e me deixe em paz.
Ele se virou, mas sentiu a mão do americano se fechar em seu braço com força.
- Ai...
- Me escuta, Mattie. Eu quero você.
- O quê? Alfred, você está bêbado, saia daqui. Ai!
- Eu sinto sua falta. – Ele se aproximou, sem soltar o braço do outro, e o beijou.
No instante seguinte, Alfred foi empurrado contra a parede.
- Eu já disse para me deixar em paz! – Gritou Matthew. – Eu não quero mais nada com você!
Logo, Matthew é quem estava sendo jogado contra a parede.
- Isso é mentira! – Disse Alfred, alterado, apertando com força o braço do primo.
- Ai! Me solta!
O canadense foi empurrado para sua cama e gritou quando seu braço foi torcido para trás. O americano não estava gostando de ser contrariado.
- Alfred, para, você está me machucando!
- Não vou para até você admitir que ainda me ama.
- Você está louco!
- Estou louco por você, Mattie.
Ele o virou, beijando-o violentamente. De repente, sentiu uma forte dor entre as pernas. Matthew o chutara e aproveitou o momento para empurrá-lo para fora de cama e se levantar, mas, antes que pudesse chegar até a porta, Alfred segurou sua canela, fazendo-o cair, e se arrastou para cima dele.
- Você vai me pagar por essa!
- Eu devia era ter chutado mais forte. Saia de cima de mim, agora! O que está fazendo?
Os olhos azuis-violeta se arregalaram quando o garoto percebeu que ele estava tirando seu pijama.
- Alfred, para com isso! Para, me solta! – Ele gritou, se debatendo.
- Fique quieto! Vou fazer você vai se arrepender de tudo, Matthew!
Era a primeira vez, em anos, que ele ouvia o primo chamando-o assim. Como Alfred estava bêbado, ele conseguiu se virar e deu-lhe um soco, acertando seu rosto. Furioso e com o nariz sangrando, ele avançou para cima do canadense, fechando as mãos em seu pescoço.
- Alfred...
- Eu já mandei você ficar quieto e me escutar! Eu quero você de volta e ninguém vai me impedir!
- Alfred, por favor...
Ele intensificou o aperto e aproximou seu rosto do de Matthew. Antes que pudesse fazer alguma coisa, a porta se escancarou de repente e Alfred viu Arthur e Francis, estupefatos. Arthur olhou de um primo para o outro e agarrou o americano pela gola da camisa, levantando-o no ar.
- O QUE DIABOS VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? – Ele berrou, fora de si. – ESTÁ QUERENDO MATÁ-LO?
Francis, que tinha corrido para Matthew logo que o inglês tirara Alfred dali, colocou o pijama de volta nele e o pegou no colo, percebendo que a respiração do garoto estava fraca. Levou-o para seu quarto e o colocou em sua cama para reanimá-lo. Enquanto isso, o inglês tinha soltado Alfred e fechado a porta do quarto, impedindo que ele saísse.
- Arthur, me deixe sair, eu preciso... Preciso falar com Mattie...
- Alfred, você... Aposto que não escutou uma palavra do que eu disse mais cedo e bebeu vinho puro. Garoto idiota.
- Arthur...
- Me espera aqui, vou falar com Francis. – Ele levou o garoto até o banheiro, dando-lhe um bocado de papel higiênico. – Coloque isso no nariz. Não saia daqui.
Ele saiu, fechando a porta em seguida, e encontrou o francês no corredor.
- Como está Matthew?
- Consciente. Ainda está um pouco assustado, mas vai ficar bem. Ele fez um belo estrago no rosto de Alfred.
- Eu vi. Eu bem que te disse que os garotos estavam brigando.
- Ora, Arthur, você estava dormindo quando te levei pro quarto e mais para lá do que para cá quando me disse que tinha ouvido gritos dos meninos.
- Você deveria ter me escutado, mas você nunca me escuta.
- Arthur, não começa...
- Não quero nem saber o que poderia ter acontecido com Matthew se não tivéssemos chegado! – Ele estava quase gritando. – Francis, você tem noção disso? Ele poderia...
- Chega, Arthur! Tais-toi! Eu vou dormir com Mathieu hoje e você fica com Alfred.
O francês começou a andar na direção do quarto, mas foi segurado pelo outro.
- Espera aí, você acha mesmo que vou deixar você dormir com Matthew?
Ele balançou a cabeça num gesto de impaciência.
- Olha, você entende o Alfred melhor que eu e, querendo ou não, eu entendo Mathieu melhor que você. Tente conversar com Alfred.
Francis deu um beijo em Arthur antes de voltar para o quarto principal. O inglês voltou para o quarto em que Alfred esperava e ficou surpreso ao ver o garoto sentado no chão com lágrimas nos olhos. Ele se aproximou e sentou ao seu lado.
- Alfred?
- Eu sou um idiota. – O americano começou a falar. – Eu prometi a Mattie que o protegeria e olha o que eu fiz com ele.
- Não vou falar que a culpa não foi sua, pois eu avisei que não era para você tomar vinho puro.
- Era para eu ser o herói dele, como eu sempre fui. Eu me lembro...
- Se lembra do quê? – Arthur achou que o primo já estava delirando por causa do álcool, mas achou melhor deixar que ele desabafasse.
- Mattie chegou lá em casa e não disse uma palavra durante o dia inteiro. De noite, ele foi até meu quarto carregando aquele ursinho de pelúcia que ele sempre carregava para todo canto. – Alfred espalhou sangue em seu rosto ao tentar limpar o nariz. – E então ele chorou. Acho que estava se segurando desde que saiu do Canadá. Eu o abracei e prometi que o protegeria. Eu era o herói dele... Quando foi que isso acabou?
Arthur não sabia o que dizer.
- Alfred... Se lembra do que eu te disse uma vez? Talvez não seja tarde demais para consertar as coisas.
- Você acha?
- Não sei. Eu disse talvez. Mas nada te impede de tentar.
Arthur se surpreendeu quando Alfred o abraçou de repente, encostando a cabeça em seu peito. O inglês sorriu, pegando alguns lenços para limpar o rosto do garoto e, depois, o colocou na cama. O americano logo estava apagado.
No outro quarto, Francis acariciava os cabelos de Matthew, que estava deitado com a cabeça em seu colo. O jovem canadense levara um tempo para se acalmar depois de ser reanimado e agora abraçava um travesseiro.
- Está mais calmo agora, Mathieu?
- Acho que sim. – Ele respondeu em voz baixa. – Francis...
- Oui?
- Pourqoi?
O francês ficou em silêncio, sem saber o que responder. Ele sabia muito bem o motivo pelo qual o garoto perguntava por que. Matthew sentiu os braços de Francis em volta de si e se aconchegou a eles.
- Je ne sais pas. Eu não sei, petit.
- Não me deixe dormir sozinho hoje. – Ele disse, quase num sussurro.
O mais velho colocou-o na cama e se deitou ao seu lado.
- Estou aqui.
oOoOo
Na segunda-feira depois do feriado, Kiku notou que Alfred não estava com uma cara muito boa. Antes de comentar o que descobrira sobre o garoto russo do terceiro ano, ele resolveu perguntar o que acontecera com o americano.
- Não foi nada.
- Nada não o deixaria com essa cara, Alfred.
- Kiku...
- Estou preocupado com você.
- Eu não mereço isso.
Os dois tinham saído juntos depois da aula e conversavam no banco da praça perto da casa de Kiku. O mesmo em que uma noite se sentaram para olhar as estrelas.
- Alfred...
- Eu viajei com Arthur, Francis e Mattie. Nós dois brigamos e acho que ele quebrou meu nariz. – Ele riu rapidamente depois de dizer isso.
- Bem que eu achei que tinha alguma coisa estranha com seu nariz. O que mais aconteceu?
O americano suspirou.
- Deve ter sido a nossa pior briga, Mattie não quer nem olhar na minha cara.
- Nossa. Eu sinto muito, Alfred.
O japonês abraçou o loiro, que encostou a cabeça em seu ombro. Ficaram assim, em silêncio, por alguns minutos até o moreno se lembrar.
- Ah, tem uma coisa que quero te dizer.
- Sobre o quê?
- Se lembra daquele russo do terceiro ano B?
- O que tem aquele idiota?
- Se eu fosse você, tomava cuidado com ele.
Alfred riu.
- Kiku, eu posso dar uma surra nele quando eu quiser.
- É sério, Alfred. Me contaram que ele foi expulso de outra escola por ter ferido um aluno. Não sei como ele conseguiu entrar na nossa escola com isso no histórico.
- A família dele deve ter muita grana. Devem ser da máfia, eu sabia que ele tinha um ar estranho. Você sabe o que aconteceu?
- Provavelmente deve ter sido um desafeto. Mei Wang, minha amiga que é colega dele, descobriu quem é esse garoto. Acho que deveríamos tentar descobrir o que aconteceu.
- Concordo com você. É sempre bom saber com quem estamos lidando. Quem mais sabe disso?
- Só eu, você e Ludwig.
- Kiku... – Alfred sorriu. – Parece que temos um mistério para desvendar.
oOoOo
N/A: Só posso dizer que a fic está caminhando para seu final. Reviews?
