7VERSE : SETE VIDAS
SETE VIDAS VIDA 5: O MONSTRO INTERIOR
vida 5 CAPÍTULO 7
NO COVIL DOS GHOULS
.
.
Nathalie Helms voltou contrariada para casa. Mas que isso, FURIOSA. Não estava acostumada a ser deixada sozinha num bar por um homem porque O IRMÃO PRECISAVA DELE. A primeira coisa que ordenaria quando o tivesse sob seu controle é que decapitasse o tal irmão e lhe trouxesse a cabeça desse irmão numa bandeja.
Não tivera tempo de perguntar o nome do homem, mas era um forasteiro. Devia estar hospedado num hotel na cidade ou, mais provavelmente, num motel barato de beira de estrada, a julgar pelas roupas ordinárias que usava. Era só acionar seus informantes.
Ele não era o primeiro homem que despertava nela a certeza de estar novamente frente a frente com o maldito Iάσων. Com quantas mulheres o maldito se deitara? Quantos descendentes dele ainda caminhavam sobre a Terra? Quantos mais ela teria que torturar e matar?
Mas, antes, arrancaria deste todo o prazer que Iάσων lhe negou. Apagaria dele qualquer outra motivação. Ele existiria apenas para satisfazê-la e somente pelo tempo que a satisfizesse.
Kyle Hayden se aproxima de Nathalie Helms queimando de desejo, mas aguardando submisso à permissão para tocá-la. Há mais de um mês que Nathalie Helms ocupa todos os espaços de sua mente. Desejo, paixão, ciúme, medo de perdê-la. Tudo junto, o tempo todo. Dormia e acordava pensando nela. Sonhava com ela. Sonhos eróticos e sonhos românticos. Estava definhando. O que comia, geralmente durante os jogos eróticos, não era o suficiente para mantê-lo. Já estava fraco demais para manter uma rodada de sexo mais longa.
Nathalie Helms sorri ao ver o estado deplorável a que o desejado capitão do melhor time de football universitário da cidade fora reduzido. Sorriu ao imaginar uma foto dele neste estado indigente sendo postada nas redes sociais. Na reação de horror das garotas dos seus vários fã-clubes. No desespero do delegado pai do rapaz. Agradeceu mentalmente ao delegado por ele ter um filho tão bonito. Dera à sua vingança momentos de genuíno prazer.
O rapaz não ia chegar vivo ao fim daquele dia. Ele até durara muito. Seis semanas. A maioria não durava três. Ela trocava de bom grado qualquer prazer que pudesse obter do sexo com ele pelo prazer de vê-lo - literalmente - MORRER de amor por ela. E ela já tinha encontrado alguém para substituí-lo. Alguém que ela adoraria consumir. Alguém que ela adoraria DEVORAR.
Uma última vez. Depois Kyle Hayden se tornaria alimento para seus ghouls. Eles estavam fazendo um trabalho tão bom de aterrorizar a cidade que mereciam um agrado. Ghouls. Sempre tão famintos. Não esperavam nem mesmo que a vítima estivesse morta.
.
Nathalie chama Kyle para sua cama. Por um segundo ele se sente o mais feliz dos homens.
.
Kyle desaba após chegar ao orgasmo e Nathalie ordena que seja levado para um anexo afastado da propriedade e deixado lá. As portas da mansão estavam definitivamente fechadas para ele.
Ele estava febril e começava a delirar.
Logo a fome, o frio ou os ghouls que circulavam livremente na propriedade acabariam com ele.
.
.
Ainda não amanhecera. Dean, o ghoul, já tinha saciado sua fome. Estava de carro, tinha um verdadeiro arsenal no porta-malas e, na memória, informações importantes da investigação policial obtidas do laptop de Sam. Ia atrás do ninho dos ghouls no norte da cidade.
Seguiu pela estrada de terra onde dois policiais avistaram um grupo de quatro ghouls. Sam tinha feito todo o trabalho de pesquisa no Google Maps e fizera anotações sobre o trajeto. Ultrapassou o ponto e seguiu até o final da estrada de terra, quando esta virava uma trilha no mato. Estacionou em um ponto em que era difícil ver o carro para quem vinha ou voltava pela trilha.
Amanhecia. Abriu o porta-malas e apanhou um facão longo, uma faca de caça dentada e o rifle winchester 1892. Voltou a se sentir ele mesmo. Caçador e não caça.
Acreditava que seu olfato acurado lhe permitiria localizar outros ghouls, mesmo quando estivessem fora de seu campo de visão. Mas, sabia que tinha que tomar cuidado. Se isso fosse verdade, eles, mais facilmente ainda, poderiam localizá-lo.
A Mansão Helms. Cercada de altos muros em toda a extensão e cerca eletrificada no topo do muro. Câmaras cobrindo o perímetro. No entanto, havia ghouls do lado de dentro dos muros. Muitos deles. Uma quantidade muito maior que imaginara. Estava certo. Podia senti-los pelo cheiro, embora estivessem distantes e houvesse um muro entre eles. Tinha que ter cuidado com a direção do vento.
A presença dos ghouls podia significar que a dona da Mansão e os empregados estivessem mortos, talvez substituídos por ghouls. A Mansão era o lugar perfeito para o ninho. Uma propriedade particular imensa, isolada e protegida de olhos curiosos. Um lugar onde a polícia não ousaria entrar sem um mandato judicial.
Dean não precisava de mandato judicial. O muro era alto, mas não tão alto quanto algumas das árvores que cresciam a apenas alguns metros dele. Subiu numa delas e saltou. Nem teve graça. Entraria com facilidade mesmo que ainda fosse apenas o velho Dean. Seus olhos logo perceberam os sensores de perímetro: os feixes infravermelhos que emitiam eram perfeitamente visíveis para ele. Havia câmaras também do lado de dentro, mas eram poucas e não cobriam toda a área.
Decidiu seguir direto para a Casa Grande, que ficava no centro geográfico da propriedade, há cerca de 2 km do muro. Não cruzou com nenhum ghoul no caminho, mas os sentiu próximos em várias ocasiões. Um. Outros três. Outro. Outro. Mais dois. Não tinha mais dúvidas. Encontrara o ninho.
.
De onde estava, já podia ver a porta da frente da Casa Grande. A porta se abre. Saem dois homens arrastando um terceiro. Homens. Todos os três. Disso, tinha certeza absoluta graças a seus sentidos aperfeiçoados. Seguiu os três sem ser visto nem por eles nem por outros ghouls. Entraram em um anexo afastado da Casa Grande, em péssimo estado de conservação. Sem porta. Janelas com vidros quebrados. Rachaduras. Os dois homens saíram, deixando o terceiro lá. Aparentemente voltavam para a Casa Grande.
Entrou, com cuidado, empunhando o rifle. Nada além de um sujeito em péssimo estado. Morrendo. Subnutrido e desidratado. Febril. Olhou de perto e estremeceu. KYLE HAYDEN? Impossível não ficar chocado com o seu atual estado. Lembrou-se dele de outras realidades. Forte e confiante. Lembrou de quando puxou o corpo dele contra o seu no vestiário deserto, em sua outra VIDA. Droga, será que seria para sempre assombrado por esta lembrança?
Tentaria salvá-lo. Mas, não podia se deixar levar pelo sentimentalismo. Não naquele momento. Estava em inferioridade numérica. Precisava matar os ghouls e salvar seus irmãos. ELES eram sua prioridade absoluta. Com a faca fez um pequeno corte no braço de Kyle. O sangue atrairia os ghouls.
Arrependeu-se imediatamente. Fora irresponsável. Não sabia se podia com todos. Pior, o cheiro de sangue o estava embriagando, tirando-o do controle. O rapaz já não estava seguro nem mesmo se ele fosse o único ghoul do lugar.
Mas, estava feito. Não havia mais como controlar os acontecimentos.
.
Dean foi rápido e implacável. Os dois primeiros ghouls que entraram no anexo foram decapitados. Mas, os seguintes não se deixariam enganar. O sangue ghoul derramado tinha seu próprio cheiro inconfundível. Era a hora de usar a winchester. Partir para cima deles, antes que se aproximassem do anexo. Uma vez que estivessem dentro, teria que se preocupar não só consigo mesmo, mas também com Kyle.
Dean se faz visível alguns metros na frente da porta do anexo e espera. Três tiros em sequência. Três ghouls a menos para se preocupar. Os tiros foram certeiros na testa. Sempre fora um bom atirador, mas agora podia ver nitidamente a uma distância duas vezes maior. Se ghouls usassem armas seriam assassinos perfeitos.
Um tiro de rifle podia ser facilmente escutado da Casa Grande. E não fora um único tiro. Os tiros se sucediam. Nathalie se pôs em alerta. Enviou seus seguranças. Homens enfeitiçados que matariam e morreriam por ela. As ordens eram claras. Desarmar e trazer os invasores até ela. Estava furiosa com a ousadia. Mas, também estava curiosa. Nem lembrava mais da última vez que fora desafiada. Ainda mais em sua própria casa.
Dean conseguira acertar mais três, mas, agora que os ghouls estavam alerta, tudo seria mais difícil. Eles o estavam cercando. Precisou recuar para o anexo. Os seguranças humanos se aproximavam armados. Atirou na perna do primeiro. O sangue atrairia os ghouls contra ele e, com sorte, também contra os outros.
Entrou no anexo a tempo de explodir a cabeça de um ghoul que estava prestes a rasgar a garganta de Kyle. Quando se virou, três saltaram sobre ele, lançando-o contra o chão. Rosnou na forma de ghoul, mas era só o que podia fazer. Estava imobilizado. E a cada momento chegavam mais. Estava perdido. Não havia mais nada que pudesse fazer por Kyle. Ele seria estraçalhado. Devia tê-lo posto a salvo em primeiro lugar. Falhara também com os irmãos. Matara nove, mas eram dezenas de ghouls. Um pequeno exército.
Os seguranças e os ghouls abriram caminho para a passagem de Nathalie Helms. A feiticeira ordena que coloquem Dean de pé e o examina com a experiência de 3300 anos.
– Um ghoul que acredita ser humano? Agindo por conta própria. Interessante. Mas, quem você acredita que é? O menino Milligan não tinha esta familiaridade com armas. Quem veio você vingar?
Dean permanece calado, fuzilando a mulher com os olhos.
– Se prefere, pode ser da maneira mais difícil. Torna tudo mais divertido. Sua última chance, ghoul. Estava mesmo protegendo o humano?
Silêncio.
– Quanto a isso, é fácil ter uma resposta. Você mesmo vai devorar o humano. Depois disso, trataremos da sua punição.
– Não vou fazer nada disso.
– NÃO? Está dizendo que NÃO VAI devorar o humano? Vamos testar sua força de vontade, ghoul. Tragam os dois.
Dean e Kyle são levados para o subsolo da Casa Grande e trancados juntos numa espécie de masmorra. Nathalie perfura pessoalmente a coxa direita e o braço esquerdo de Kyle com a faca de caça de Dean, antes de trancar a porta. O cheiro do sangue que escorre abundantemente dos ferimentos ameaça tirar Dean do controle. Kyle está caído. Já estava mesmo muito fraco. A perda de sangue faz com que perca a consciência.
Dean já começava a sentir fome. Ainda controlável, mas ia apertar. Precisava sair dali enquanto ainda estava no comando de seus atos.
– Talvez eu devesse transformá-lo em humano antes de matá-lo.
– PODE ME TRANSFORMAR EM HUMANO?
– Claro, seria muito fácil. É isso que realmente quer, não é? Ser humano? Mesmo que seja apenas para MORRER como humano. MAS NÃO, VAI MORRER COMO O GHOUL SUJO QUE É.
– BRUXA MALDITA.
Nathalie gargalha como seria esperado de uma bruxa num filme classe B.
.
AVISO DE SPOILER:
Kyle Hayden é personagem importante em VIDA 3, onde se tornou objeto do desejo do Dean gay daquela realidade. As lembranças deste envolvimento atormentaram o Dean pai de família de VIDA 4.
01.02.2014
