Capítulo Sétimo

Depois de serem escoltados até um porto, dentro de um carro – e Harry precisou de vários minutos tentando convencer o loiro a entrar na caixa metálica –, os dois estavam finalmente dentro do iate. Draco não gostou da idéia de subir novamente a bordo de uma invenção muggle, mas não falou nada, porque sabia que Harry viria com uma nova ladainha sobre como aquilo era seguro e sobre como ele estava sendo teimoso e implicante.

O iate era branco e enorme, e possuía uma elevação de três andares circulares, que o guia disse serem para os restaurantes, bares e pista de dança. No topo no terceiro andar, havia um espaço ao ar livre que, no momento, estava vazio devido à chuva.

Atravessaram com guarda-chuvas o espaço descoberto e entraram no primeiro andar, que nada mais era do uma luxuosa espécie de pub com música ao vivo e dança. No segundo, havia um restaurante chique, romântico, com uma pista de dança no centro, onde alguns poucos casais dançavam juntinhos. O terceiro andar era o menor de todos, com um espaço com televisão, sofás, música ambiente e um pequeno barzinho.

Era o lugar ideal para quem queria ter uma noite romântica na noite de Halloween. Havia abóboras, velas e bruxinhas espalhadas pelos três andares, mas nada muito extravagante.

Harry estava vermelho ao constatar que ele poderia chamar aquilo de uma noite romântica com Draco Malfoy. Engoliu em seco, mas não falou nada, tentando manter a pose despretensiosa e casual. Já anoitecera; a chuva não era mais do que uma fina camada fraca de água, e a noite não estava fria. Draco estava distraído com a decoração e fez uma careta ao ver uma das bruxinhas na parede.

"Olhe que coisa mais ridícula a forma como os muggles imaginam as bruxas; como se todas as mulheres fossem a cara da McGonagall." Ele falou, torcendo o nariz em desaprovação.

Harry fez um favor a si mesmo e ignorou o comentário.

"O que você quer fazer? Beber, dançar, jantar?" Sugeriu, ganhando por isso um olhar malicioso do loiro.

"Você está me convidando para dançar, Potter?"

Harry desviou o olhar do sorriso enviesado do loiro e respondeu por ele.

"Vamos jantar. Estou morto de fome. Não comemos nada desde o almoço." Falou. Eles subiram para o segundo andar, seguindo a indicação do guia, e procuraram uma mesa. Conseguiram uma ao lado dos vidros que rodeavam quase todo o andar; a chuva batia serena contra o vidro e o barulho era agradável.

"Você não gosta muito da chuva?" Perguntou Harry, olhando através do vidro. O mar estava calmo e sua superfície era perturbada apenas pelas pequenas ondulações causadas pelos pingos.

"Não vejo motivos para gostar." Draco deu de ombros.

"Mas aposto como odeia ainda mais a neve." Um brilho divertido atravessou os olhos do moreno. Draco olhou-o atravessado.

"Há-há, muito engraçado, depois de anos, vai ficar me lembrando das vezes que meu humilhou em Hogwarts." Disse o loiro, azedo, referindo-se a vez em que Harry, sob a capa da invisibilidade, tacara neve nele e em Crabbe e Goyle, perto da Casa dos Gritos.

"Eu não falei nada, você que está aí remoendo essas coisas." Harry se fez de desentendido. "Eu nem havia percebido que era Halloween até você falar dessa festa."

"É claro que não, estava distraído demais, divertindo-se comigo nesse lugar." Falou Draco, convencido, com seu habitual sorriso torto. Harry resmungou alguma coisa e mudou de assunto, mas o loiro percebeu que ele não negara sua afirmação.

Conversaram sobre amenidades: filhos, trabalho, colégio, viagens, as dores de cabeça que os filhos lhe davam, além de tentarem descobrir como aquelas duas pestes haviam planejado tudo aquilo e os trazido até o Caribe sem que ninguém mais soubesse.

"Talvez eles tenham tido alguma ajuda." Cogitou Harry. "Eles provavelmente roubaram algum dinheiro de nós, sem que percebêssemos... devem ter dado um jeito de conseguir uma chave-portal para o resort..."

"Scorpius não precisaria pegar dinheiro escondido. Ele ganha uma boa mesada mensal e gasta pouco do dinheiro. Quanto à chave-de-portal, eles podem ter subornado qualquer um para conseguir." Draco deu de ombros. "Não é como se aquele Ministério não estivesse infestado de interesseiros."

Harry se recostou na cadeira, olhando por um momento para o prato de comida meio vazio à sua frente.

"Passa rápido, não passa?"Perguntou, num ar nostálgico. Já era um homem de trinta e quatro anos, com dois filhos, o mais velho com dezessete anos! Fazia mesmo todo esse tempo desde que matara Voldemort e pudera enfim viver em paz, com a família que sempre sonhou?

"É... num momento, você está discutindo com seu inimigo do colégio e no outro, está casado, preocupando-se com os filhos, com o trabalho..." Draco sorriu de leve "E então jantando com esse mesmo inimigo em um iate numa praia do Caribe." Draco sorriu de lado para o moreno, que riu de leve e desviou o olhar para a comida e depois para o mar escuro àquela hora da noite. Seu semblante tornou-se melancólico, enquanto pensava em todos os caminhos que a vida oferecia e nos tantos que deixara para trás, ao escolher apenas um entre eles.

"E ainda mais inesperadamente, sua esposa morre de uma doença incurável à época." Harry ficou abatido ao lembrar-se de Ginny, e Draco percebeu que ele ainda sentia falta da falecida esposa. Ele sempre tentara esconder isso de todos, mas, naquele momento, as palavras começaram a jorrar de seu peito.

"Quando Ginny morreu, eu achei que não conseguiria seguir em frente; achei que não conseguiria criar Albus e Lily sozinho, que não conseguiria suprir a falta do amor de mãe do qual eles foram privados tão cedo." Draco se inclinou, e colocou uma mão sobre a do moreno que repousava sobre a mesa. Ou sentir meu coração bater forte como agora, completou em pensamentos, sem tirar a mão, de certa forma confortado pelo toque do loiro. "Quero dizer... passa rápido demais, mesmo, e quando se percebe alguém especial se foi como tantos outros já se foram, e parece tão injusto..."

Não saberia explicar por que estava falando aquilo, apenas sabia que, depois de anos, finalmente sentia algo diferente da solidão e do vazio que se instalaram em seu peito desde a morte da esposa. E o culpado por esse sentimento era Draco.

"Quando sua esposa morreu, eu vi o quão abalado você ficou, acompanhei o caso pelos jornais..." Draco apertou um pouco mais a mão do Harry, nervoso pelo que estava prestes a admitir. Os olhos verdes intensos do moreno se fixaram em seu rosto, aguardando, e ele se forçou a continuar. "Eu vi uma foto sua... com seus dois filhos... você estava tão abatido... e eu senti meu coração se apertar e eu quis ajudar de alguma forma. Mas nós não éramos próximos, não havia nada que eu poderia fazer, além de-"

"Além de começar a procurar por uma cura." Harry completou, e havia certa dose de surpresa e carinho em seu olhar. Draco assentiu de leve.

"Mas levei dois anos para conseguir a cura, e então era tarde demais." Completou, e havia real pesar em sua voz, porque de novo estava vendo aquela expressão desolada no rosto de Harry e não podia fazer nada para ajudar.

Se visse aquele tipo de sofrimento no rosto de qualquer outra pessoa que não seu filho, não se importaria, mas com Harry era diferente. Queria poder ajudá-lo – salvá-lo – como ele já o ajudara vezes antes.

"Draco..." Harry se inclinou e puxou a mão de Draco, beijando-a. O loiro prendeu a respiração, pego de surpresa com o gesto. De repente, ficou claro que a barreira que existia entre os dois, construída desde o momento em Harry recusara o aperto de mão de Draco no primeiro ano, fora derrubada.

Havia agora certa... cumplicidade entre os dois. E era algo bom para existir entre eles depois de terem compartilhado tanta raiva e inimizade.

Porém naquele instante Draco também se sentiu nervoso e desorientado, como alguém que passa anos desejando algo e, quando consegue, não sabe o que fazer com sua conquista. A simples idéia de que havia chances realmente de acontecer algo entre ele e Harry o apavorou e, quando Draco deu por si, estava pedindo licença e afastando-se da mesa para ir sabe-se lá para onde.

Subiu as escadas e alcançou o terraço sobre o terceiro andar. Não se importou com a chuva; ela estava tão fina que mal molhava suas roupas. Apoiou-se no parapeito e se repreendeu mentalmente. Seu coração estava ainda acelerado e respirou fundo tentando acalmá-lo. Tinha trinta e quatro anos e estava se comportando como um garotinho de quinze.

Ficou alguns minutos parado, de olhos fechados, enquanto a chuva trabalhava em molhar suas roupas e cabelos. Estava um pouco bêbado do vinho que ele e Harry dividiram, distraídos com a conversa.

"Agindo como um covarde outra vez." Murmurou para si mesmo, bufando irritado.

"Draco?"

Draco se virou, o coração pulando outra vez, ao ouvir a voz de Harry. Ele o olhava com um misto de confusão e curiosidade.

"O que você veio fazer aqui em cima?" Ele se aproximou, parando em frente ao loiro. Os olhares se encontraram; os olhos levemente cerrados devido à chuva.

"Pegar... um pouco de ar." Falou o loiro, com vontade de se jogar dali de cima pela resposta imbecil. Harry riu, mostrando a fileira de dentes brancos e bonitos.

"Na chuva? Você disse umas mil vezes hoje que não gostava da chuva, e não me deu nenhum motivo." Ele se aproximou mais um passo.

"Nunca tive motivos para gostar." Falou, ciente de que Harry se aproximava cada vez mais, como um felino sitiando sua presa. E não se importou nem um pouco em ser a presa.

"E se eu te desse um motivo?" Ele sussurrou, com os lábios muito próximos. Draco respirou fundo e reuniu toda sua coragem. Ele falara antes que a chuva seria sua testemunha de que faria a coisa certa, e iria cumprir essa promessa.

"Eu gostaria disso." Falou e se inclinou para frente. Harry deveria estar esperando por isso, pois se inclinou também, levando uma mão à nuca de Draco.

Os lábios se encontraram e os corpos se chocaram, a pele e as roupas de ambos úmidas pela chuva da qual o loiro passou a gostar a partir daquele momento.

X.X

A primeira coisa que percebeu quando acordou, era que estava de ressaca. O engraçado é que não se lembrava de ter bebido tanto; se bem que ele e Draco haviam ficado um bom tempo conversando e bebendo ao mesmo tempo naquele jantar.

Em seguida, estranhou estar deitado numa cama, quando não fazia idéia de como viera parar ali. Ergueu o rosto e viu que estava num quarto menor do que o do hotel, e que pelas janelas redondas e pequenas, ele conseguia ver o mar batendo contra o vidro. Estava ainda dentro do iate.

Por fim, e esse foi o ponto mais chocante do dia, virou-se para o outro lado, e viu a forma esguia e nua de Malfoy, deitado ao seu lado, dormindo tranquilamente. Então percebeu que se sentia, apesar da dor de cabeça, estranhamente satisfeito.

Seu queixo já estava perdido em algum lugar sobre o colchão, enquanto encarava boquiaberto o homem ao seu lado. Olhou para o próprio corpo. Estava nu também. Piscou algumas vezes e imagens da noite anterior começaram a lhe voltar à mente. Os beijos, os toques, os dois descendo para aquele quarto, as mãos lutando para livrarem um ao outro das roupas, as peles se encontrando, o fogo entre eles, a sensação de penetrá-lo e ouvi-lo gemer em seu ouvido...

Harry soltou um ganido estrangulado e pulou da cama, recolocando a cueca e as calças no mesmo instante em que Draco se espreguiçava e mudava de posição na cama, incomodado pela claridade que entrava pelas pequenas janelas. Harry correu para o banheiro e lavou o rosto, sua respiração acelerada como se houvesse corrido uma maratona. Aproveitou e escovou os dentes e tomou um banho rápido, tentando colocar seus pensamentos em ordem. Contudo, seu coração continuava a tentar causar-lhe um ataque cardíaco.

Quando saiu do banheiro, os olhos dos dois se encontraram. Os de Draco ainda sonolentos e os de Harry arregalados. Mirando novamente e com mais atenção o corpo livre de roupas do loiro, Harry sentiu seu corpo responder à visão com certa animação em suas partes baixas.

"Ah meu Merlin, eu transei com o cara que está transando com o meu filho!" Exclamou finalmente, como se a capacidade de articular as palavras houvesse-lhe voltado apenas naquele momento.

Draco olhou estupefato para Harry, apenas para revirar os olhos em seguida. Espreguiçou-se outra vez, como um gato preguiçoso, enquanto falava.

"Namorando, Potter. Eu e Albus nunca... isso não é importante, e você quer parar de andar de um lado para o outro pelo quarto?" Reclamou, coçando os olhos.

"Eu não consigo acreditar. Eu nunca pensei... Eu e você... Quero dizer, nós fizemos sexo. Sexo, Malfoy, você sabe o que é isso?" Harry estava fora de si, o banho supostamente relaxante não ajudara em nada, e Draco perguntou-se onde fora parar aquele homem confiante e sexy da noite passada.

"Yeah, Potter, eu estou bem ciente sobre o sexo e seus benefícios, obrigado. Será que é assim tão surpreendente ter dado uma trepada comigo? É por que eu sou homem, ou por que-"

"É por que você é o namorado do meu filho! Eu acabei de colocar chifres na cabeça do meu próprio filho, que espécie de pai eu sou?" Harry gesticulou exageradamente para dar ênfase às palavras. Draco suspirou, compreendendo então o drama do moreno.

"Acalme-se, Potter. Isso pode ser facilmente resolvido." Falou calmamente.

"Ah, é, e como? Com que cara eu vou falar com Albus amanhã? Oi, pai, como foi a viagem, você e Draco se entenderam? Oh, sim, filho, tão bem que acordamos domingo de manhã nus e satisfeitos na mesma cama." Harry falou, entre debochado e nervoso.

"Então você ficou satisfeito." Draco abriu um sorriso canalha e pervertido, cruzando os braços atrás da cabeça. Harry grunhiu.

"Esse não é o ponto. E eu nem ao menos posso matá-lo por ter traído o meu filho..."

"Potter, amanhã eu converso com o Albus e termino tudo, okay? Pare com todo esse drama." Pediu e revirou novamente os olhos. Merlin, e depois as mulheres é que eram dramáticas.

"E agora eu serei o culpado pelo fim do namoro de vocês. Que ótimo pai eu sou, roubando o namorado do filho..." Mas Harry continuou murmurando, sem parar de andar pelo quarto.

"Está querendo meu roubar, Potter?" Draco voltou a sorrir, olhando sugestivamente para o moreno.

"Cale a boca, Malfoy! Você não está ajudando em nada! Pare de agir como se isso tudo fosse uma coisa boa!" Explodiu Harry, parando de caminhar. "E você quer fazer o favor de tapar esse seu... isso daí!"

"E por que não seria uma coisa boa? O que há de tão errado em tudo isso, tirando o fato que eu troquei alguns beijos com o seu filho? Você nem ao menos sabe por que eu fiz isso, em primeiro lugar!" Draco irritou-se também, levantou da cama, enrolou um lençol na cintura e parou em frente a Harry.

"Não, não sei, eu realmente não sei o que você está fazendo com o meu filho! Meu filho, um garoto! Namorando um garoto com a metade da sua idade e depois fudendo com o pai dele! Por que você não tenta me explicar o que está fazendo, já que é tão cheio de motivos?" Desafiou Harry. Draco sentiu um jorro de irritação e frustração que o impeliu para frente, deixando-o muito perto do moreno.

"Por que ele é uma cópia sua, seu grande idiota. Porque quando ele me beijou naquela sala de aula, eu fiquei estático, lembrando-me de como eu queria que você me beijasse daquele jeito quando estávamos no colégio. Por que eu posso ser um egoísta de merda quando eu quero, e estar com ele era ter um pouco de você, mesmo que esse pouco fosse falso; mas eu aproveitaria até que ele se cansasse de mim, porque acredite, Potter, ele eventualmente se cansaria. Você acha que ele está mesmo apaixonado por mim? É claro que não está! Está apenas se divertindo com a idéia de namorar com um cara mais velho." Draco o soltou com um empurrão, e Harry cambaleou para trás, procurando com força pelo ar, o qual mal percebera ter-se impedido de respirar enquanto Draco rugia aquelas palavras, num tom baixo e rouco perto de seu rosto, os olhos cinzentos e gelados queimando nos seus verdes.

Então, Harry, atordoado e com o coração disparado, fez a coisa mais sensata que encontrou para fazer naquele momento: puxou Draco de novo e o beijou.

X.X

Eu me inspirei nesse iate:

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O Draco falando mal da McGonagall, mas olhem como ela era quando novinha:

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Nota da beta: OMG! Meu pai, que cap foi esse? Vcs tem noção de quanto eu arfei lendo? Momentos românticos, momentos fofis, momentos de tirar o fôlego! Harry e Draco finalmente juntooooos! \o/ Gente, esse cap. merece milhões e milhões de reviews! S2 Parabéns, twin! The Best! Bjão, beautiful people!

Nota da autora: Aew, finalmente cap. novo! Fui abandonada no último cap. snif. Brincadeira, nem fui. [][] Eu quero saber o que vocês acharam do cap.! Beijinhos :*

Julia: Chuchu, que bom! E sim, eu parei num momento tenso de novo, pode me bater (mas com carinho, rs) Não teve muito nada pervo nesse cap. mas nos próximos dois melhora. Agora em conta tuudo que achou! :D beijos, Ju!

Larissa: Weee, que bom, amore! Você torna os meus mais felizes com as suas reviews, rs. :D E eles finalmente partiram para a ação né? Esperemos que eles se entendam de verdade. *-* Ainda falta os filhos deles se entenderem, rs. Juan é amor, fico lufante que todo mundo gostou dele. Espero que tenha gostado. Autora favorita? Own [][][] Beijos! :*

Meline: Weee, agora você viu os dois se agarrando ;) Não foi muito, mas ainda teremos mais, hohoho! Nem, eu nunca sou malvada *cara de santa* Mas e aí, se divertiu? *.* Beijos, fofa! :*