O que será do amanhã?
Betas: Ana Ackles e Mary SPN. Beijo grande e abraço apertado para essas meninas maravilhosas!
N/A: Capítulo bem grande desta vez, mas não serão todos assim.
Capítulo 7
Descoberta
"Tens uma beleza infinita / E a boca mais bonita / Que a minha já tocou"
Paixão – Kleiton e Kledir
Jared acordou, mais ou menos, duas horas depois que Jensen se fora. Sentia-se melhor, mas estava com muita fome. Devin não estava na barraca, Liz dormia ao seu lado e Alice, sentada bem perto dele, lia um livro sob a luz de uma pequena lanterna.
- Que bom que acordou Jay! Como você se sente? – Alice fechou sua leitura e lhe sorriu, iluminando com a lanterna o rosto de Jared.
- Minha cabeça dói um pouco e eu estou faminto, mas estou bem. – Jared se sentou e massageou a testa e as têmporas com as pontas dos dedos. Ainda sentia-se meio tonto, mas assim que comesse alguma coisa, ficaria bem. – E aí? É você quem vai me contar o que houve por aqui enquanto eu estava apagado? – Sorriu para Alice e ajeitou o cobertor de Liz. – Minha informante oficial está no quinto sono! E onde está Devin?
- Devin foi dormir na barraca da Loretta, para que você tivesse um pouco mais de espaço, para se esticar por aqui. Mas ainda é cedo, duvido que já esteja dormindo. Provavelmente, está de papo com os meninos. Então, acho que sou eu que vou ter que te contar tudinho... – Alice sorriu, gostando da oportunidade de narrar os acontecimentos para Jared. Por ser muito tímida e calada, na maioria das vezes, era atropelada pela falante Liz e pelo afoito Devin, na hora de noticiar as novidades do dia.
Jared ficou surpreso ao saber da doação de alimentos que Jensen havia feito. O ato solidário daquele homem fez germinar uma semente de admiração, no coração do rapaz. Ficou pensando no motivo, que levara o detetive a querer ajudar a ele e toda aquela gente. Com certeza, era uma pessoa de bom coração. "Então, vai ver que aquela cara amarrada, é só para se defender..." Jared pensou, tentando entender a atitude tão legal do loiro.
Loretta havia distribuído um pouco para cada família e deixado três sacolas cheias para Jared e as crianças, pois sabia que eles estavam com os mantimentos quase à zero. Alice se levantou e trouxe leite, pão e frutas para Jared lanchar. Ele comeu com gosto, se alimentando bem, pela primeira vez, em dias.
Ela também entregou a Jared a caixa embrulhada para presente que Jensen havia deixado com Loretta. Ele a desembrulhou e abriu cuidadosamente, quase com cerimônia. Há muito, muito tempo, não ganhava um presente. Ainda mais assim, com um embrulho tão caprichado.
Porque será que Jensen lhe dera um presente? Não era Natal nem seu aniversário, e eles nem eram amigos nem nada. Ficou curioso. Quando viu os chinelos, abriu um sorriso tão luminoso que parecia ter ganhado algo raro e precioso. Ainda sentado, os colocou nos pés e ficou olhando para eles, com cara de criança que ganha um brinquedo desejado.
- Legal, Jay! Serviram direitinho! Como será que ele sabia seu número? – Alice perguntou. Mas Jared já estava com seus pensamentos distantes dali. Não sabia bem porque havia ganhado um presente do detetive, mas sentia um contentamento diferente, algo que nunca havia sentido antes. Ele recolocou os chinelos na caixa e também o papel de presente, que Alice havia dobrado com esmero, pois o tinha achado muito bonito; tornou a deitar-se e ajeitou a caixa bem pertinho de si como se fosse algo de extrema importância.
- Alice, minha gatinha, já é hora de guardar este livro e dormir. Amanhã você tem aula bem cedo. – Jared falou e sorriu para a menina, esperou que ela se deitasse e apagou a lanterna. Num impulso quase infantil, pegou o presente que Jensen lhe deu e colocou junto ao peito, embaixo do cobertor. Dormiu com um sorriso nos lábios.
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Jared havia dormido bem e bastante. Acordou disposto e tomou café da manhã com pão e frutas, não apenas o café preto de sempre. Seguiu sua rotina fazendo o almoço das crianças e, como ainda era cedo, resolveu seguir a pé para o trabalho. Era uma boa caminhada, e também um bom tempo para refletir. Seus pés estavam confortáveis, em macios chinelos, que cabiam perfeitamente neles. Sentia vontade de andar olhando para baixo o tempo todo mas, por fazer isso, já havia esbarrado em duas pessoas e um poste, então achou melhor parar de admirar seu presente e olhar para frente pelo resto do caminho.
Havia algo que martelava insistentemente em sua cabeça: a impressão de sentir carinho em seus cabelos, logo assim que acordou deitado no colo do detetive. Porém achava que isso não era possível. Talvez tivesse sonhado. Apesar de a sensação ter sido bem real.
Contudo, de uma coisa tinha certeza, o lindo sorriso tinha sido de verdade. "Ele sorriu para mim e ficou me olhando de um jeito... carinhoso?" Jared sorriu com esse pensamento. "Como pode ser isso? Devo estar delirando..."
Jared estava com um pouco de medo de externar o que estava pensando, até para si mesmo. "Pare com isso Jared! O cara é homem e você também. E ele é um policial!" Em sua mente, mil possibilidades pipocavam. Sabia que, apesar de gostar de estar com garotas, tinha aquela atração, ainda não devidamente exposta e experimentada, por homens. Nunca havia deixado esse seu desejo fluir. Sempre o coibia com alguma desculpa momentânea e deixava para pensar no assunto em outra hora. Hora essa, que nunca chegava. "Caramba, isso é tão confuso! Como eu gostaria de ter alguém para conversar sobre isso!"
O rapaz sentia-se um tanto ansioso por conhecer o que realmente se passava com seus sentidos e vontades. "Será que o professor Penikett me ajudaria a esclarecer umas dúvidas sobre esse assunto?"
Seja como for, Jared havia gostado muito da sensação de estar tão perto daquele detetive loiro. "É o cara mais bonito que já vi" E é muito gostoso também!" Deu um sorriso sacana com esse pensamento. "Tem aqueles olhões verdes e aquela boca... que boca! Dá uma vontade louca de beijar. É, mesmo que eu não me interessasse por homens, aquela boca não se discute." Outro sorrisinho sem-vergonha. "Ele é forte e as pernas arcadas são interessantes. Parece um cowboy andando." Dessa vez seu sorriso foi divertido, como o de um menino prestes a fazer uma travessura.
De repente, Jared ficou sério e depois sorriu desiludido. "Mas onde é que eu estou com a cabeça?" "Mesmo se ele fosse gay, se eu fosse gay, se o mundo inteiro fosse gay, por que ele iria querer alguma coisa comigo?" "Pareço um poste de tão alto, ando meio desengonçado, estou um pouco magro e preciso cortar esse cabelo com urgência." "E meus pés? Dão medo de tão grandes!" "Minhas mãos parecem duas raquetes e quando abro os braços pareço um albatroz!" "Ele fugiria correndo de mim..."
Jared nunca havia pensado em si mesmo desse jeito. Não se ligava muito na sua aparência, na verdade, nem tinha tempo para esse tipo de lamentação. Criar três crianças, sozinho, em condições completamente adversas, meio que faz a pessoa priorizar pensamentos e tem coisa que acaba nem passando pela cabeça. Estava bem consigo mesmo, na maioria do tempo.
Mas, por um momento, quis ser bonito e interessante para agradar os olhos do detetive Ackles. "Qual é mesmo o primeiro nome dele?" "Jensen..." Experimentou o nome na boca por várias vezes, bem devagar.
Bem, tinha estado com uma garota ou outra, e elas nunca haviam reclamado, mas também, nunca tinha sobrado tempo para repararem melhor nele. Jared fez uma cara de frustração, ao lembrar o quão rápido passara por elas e elas por ele. Era encontrar um lugar possível e, relativamente seguro, para transarem, e depois de saciada a vontade, cada um para o seu lado. Se acaso se esbarrassem mais para frente, poderia até rolar de novo, mas o esquema era o mesmo.
"Mas o que posso querer além de uns beijos, uma transa, um pouco de alívio para o corpo e algum tempo sem ter que pensar nessa vida filha da puta que eu levo?" Nada.
"Não adianta reclamar, nem esbravejar!"
"Tenho três vidas que dependem de mim e não posso me deixar abater"
"Meus três irmãos queridos são minha família e, cada um a seu modo, faz valer cada minuto da minha existência. Esse é o amor com o qual eu posso contar. O resto, infelizmente... tem que esperar."
"Quem sabe um dia, eu consigo ter um emprego, uma casa, algum conforto para oferecer e aí apareça alguém que queira mais que uma transa." "Namorar, talvez?" "Dormir uma noite inteira numa cama grande, abraçados... Huuum... isso deve ser bom..."
"Seria legal ter um apartamento, num prédio bem alto onde desse para ver as luzes da cidade à noite..."
"Se bem que é melhor uma casa, por causa das crianças. Elas merecem ter espaço. E Liz ainda é bem pequena..."
Os pensamentos de Jared se confundiam entre os desejos e anseios de um jovem e as responsabilidades de um adulto, que não se permite pensar em si em primeiro lugar, porque tem que zelar por outras vidas além da sua.
"Eu devo estar maluco!" Imagine se eu vou encontrar alguém que vai querer a todos nós?"
"Porque eu já tenho uma família e não vou deixar ninguém para trás. Eu os amo muito. E eu prometi."
"Seria legal um apartamento, alguém para namorar numa cama grande e quentinha, mas não dá para rolar desse jeito. Tudo bem. Quando não há o que ser feito, o jeito é continuar caminhando. Bola pra frente."
Não era resignação. Longe disso. Era como uma pessoa na situação de Jared, podia pensar para não enlouquecer ou até mesmo desistir da própria vida. Muitos apelavam para a bebida ou drogas, e se deixavam morrer ou ficavam andando como zumbis pelo mundo. Pobres almas penadas, consumidas pelos sonhos perdidos. Visíveis aos olhos de todos, porém, invisíveis aos corações das pessoas. A população de rua é mais que um problema social, é uma realidade assustadoramente cruel, é um caso de extrema falta de respeito pela vida humana.
"Preciso ir agradecer o presente." Jared pensou e sorriu um pouquinho mais animado.
E depois, com um semblante preocupado, lembrou que precisava organizar a fuga para dali a pouco tempo. A vida era assim. O seu amanhã não lhe dava opções. Era como era, e pronto.
Uma hora e meia de caminhada, passou sem que ele nem percebesse, tamanho o fluxo de seus pensamentos. Quando viu, já estava em frente à casa do professor e este lhe aguardava no portão com uma xícara de café bem quente e um sorriso enigmático no rosto.
- Olá, Jared! Hoje vai fazer um lindo dia!
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Jensen não dormiu bem. Acordou diversas vezes durante a noite e custava para voltar a dormir. Mesmo assim, não quis se medicar. Tinha medo de se viciar em remédios, então só os tomava quando a coisa ficava realmente feia.
A cada intervalo de sono, as lembranças de sua vida com Ty, enchiam seu coração de ternura e saudade. Chegou a conversar com ele, olhando para uma foto, que mantinha dentro da gaveta do criado mudo, para não ficar vendo a todo instante. Aquela mulher no acampamento havia lhe dito que um dia a dor cessaria e que ele só sentiria saudades. Ele ansiava por isso, mas ainda não vislumbrava esse dia. Na verdade, não havia entendido como ela sabia de sua perda. Não era uma pessoa totalmente cética, porém não acreditava em tudo que diziam. Entretanto, ficara com muita vontade de acreditar no que aquela senhora falou...
Acordou cedo e fez logo uma jarra cheia de café. Ia ter que tomar litros dessa bebida se quisesse se manter acordado e atento durante o dia. Limpou seu apartamento e, em muito tempo, aliás, desde que se mudara para NY, sentiu falta de suas plantas. Talvez comprasse algumas para dar um pouco de vida ao lugar. Talvez.
Saiu para trabalhar e, logo de primeira, teve que encarar um engarrafamento monstro. Ligou o rádio do carro, tentando se distrair e encontrar paciência, pois sabia que seria demorado chegar à delegacia. Talvez até se atrasasse.
Numa parada e outra, fechou os olhos por um instante e a imagem de Jared lhe invadiu a mente, provocando-lhe um sorriso descarado. "Que delícia ele é!" "Gostaria de prová-lo!"
Ampliou o sorriso atrevido e deixou seus pensamentos vagarem pela figura do rapaz. "Ele tem uma altura linda. Me amarro em homens mais altos do que eu e olha que é difícil de achar, já que sou bem alto." "Tem um jeito espontâneo de andar, não faz pose." "Está um pouco magro, mas nada que atrapalhe sua beleza e com uma alimentação correta, em dois tempos ficaria no ponto!" Mais um sorriso safado. "E eu gostei do cabelo dele! Nem todo mundo fica bem de cabelo grande, mas nele fica perfeito!"
O trânsito ia andando lentamente e Jensen continuava com a imagem de Jared a lhe acompanhar. "Será que os chinelos couberam?" "Tomara que sim. Eu costumo acertar só de olhar, espero não ter errado desta vez." "Será que ele gosta de massagem nos pés?" "Sou bom nisso!" "E será que ele é assim... todo proporcional?" O sorriso que surgiu naqueles lábios carnudos, foi impublicável.
"Porra, Jensen! Você mal conhece o cara e já está imaginando o tamanho do pau dele? Você não presta! Ou então está muito precisado!" Soltou uma gargalhada divertida e dirigiu mais alguns metros.
"O sorriso dele é demais!" "E as covinhas no rosto? Irresistíveis!" Lá fora buzinas e pessoas com pressa, dentro do carro, Jensen dirigia sem ver o tempo passar. O loiro nem percebeu, mas a dor e a tristeza constantes que sentia, afastaram-se um pouco, dando lugar a pensamentos mais leves.
"E o que são aquelas mãos?" "Ai... adoro mãos grandes!" "Quanto maiores melhor!" Só de sonhar com as mãos enormes de Jared passeando por seu corpo, Jensen ficou bem animado. E algumas partes, mais animadas que outras.
"Não posso deixar de pensar que aqueles braços enormes, devem abraçar completamente... carinhosamente... deliciosamente!" Respirou fundo. "Existe coisa melhor, para aplacar a solidão, que um abraço bem apertado?" "...Duvido..." Sorriu, com vontade de estar no meio de um abraço por um longo e incontável tempo.
"Jensen, Jensen. Hora de colocar os pés no chão e parar de voar." "Você já tem 30 anos, é completamente depressivo e mal controla suas crises de ansiedade." "O que tem a oferecer a um rapaz tão jovem?" O loiro achava seu coração endurecido e sua cabeça difícil de lidar. Era assim que via a si mesmo. Sem contar, que era meio antissocial, que só se sentia bem no silêncio de seu apartamento, e que morria de medo de se envolver e ficar sozinho outra vez. Já tivera muitas perdas: família, amigos, Ty, não suportaria perder mais ninguém.
"Sequer conheço Jared direito. Provavelmente ele nem é gay." "E se fosse, por que ficaria comigo?" "Um doido de pedra..." O trânsito melhorou e Jensen conseguiu chegar a tempo no trabalho.
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Segundo as informações do detetive particular, Jared era sozinho no mundo. Ninguém sabia o paradeiro de sua única irmã, que fora adotada quando ainda bem pequena.
Ele foi o único sobrevivente do incêndio de um abrigo em Lawrence e desde então ia passando de cidade em cidade, sempre morando nas ruas. Às vezes, seu rastro simplesmente desaparecia e, meses depois, surgia em outra cidade.
Cuidava de umas crianças que o detetive não havia conseguido ainda descobrir a origem, mas que, com certeza, não eram seus irmãos de sangue.
Não tinha passagem pela polícia e, atualmente, morava num acampamento de sem-teto na periferia de NY.
O detetive também, tinha conseguido apurar, que dois policiais haviam estado no acampamento buscando informações sobre as crianças que viviam ali.
Essas eram as informações que Tahmoh precisava. Dispensou o detetive, embora este houvesse insistido em continuar a investigação, até descobrir de onde eram as crianças que andavam com Jared. Dizia que isso, com certeza, seria algo relevante de saber sobre o rapaz.
Mas para o professor Penniket, não importava. Deviam ser uns pobres coitados que Jared ajudava, já que possuía um grande coração. Se não eram seus irmãos de verdade, seriam fácil de descartar. Bastava, sem que Jared soubesse, é claro, denunciar para a assistência social. Pronto. Problema resolvido.
Depois era só oferecer consolo pela perda e o lindo rapaz seria todo seu. Um plano simples e de fácil execução.
Tahmoh sempre conseguia o queria com os rapazes que o interessavam, porém achava Jared muito misterioso. O sondou diversas vezes, tentando descobrir o que ele segredava, mas não conseguiu saber o que era.
Ele queria Jared, contudo havia lutado muito por sua carreira e não estava disposto a se envolver com alguém que tinha problemas com a polícia.
Por isso contratou um detetive, para ter certeza que, independente do que fosse o segredo que Jared guardava, ele não era um criminoso procurado.
E agora sim, o caminho estava livre para suas investidas.
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Tahmoh e Jared estavam sentados na varanda, tomando uma xícara de café. O dia estava ensolarado, apesar de frio.
- Mais café Jared? – Tahmoh perguntou todo solícito.
- Não professor, obrigado. – Jared respondeu, já se levantando para começar a trabalhar.
- Amanhã é sábado. Que tal você trazer seus irmãos aqui para um banho de piscina? – Deu o seu melhor sorriso.
- Não sei... crianças fazem muita bagunça, e... eu não quero lhe incomodar. – Jared ficou sem graça pelo convite. Ele até que adoraria levar as crianças para essa diversão, mas não queria parecer estar se aproveitando da amizade do professor.
- Deixe de bobagem, você não me incomoda nunca! – Mais sorrisos e um olhar cheio de intenções que, desta vez, não passou despercebido a Jared. Mas este achou que talvez estivesse vendo algo a mais do que havia. Ele era um bom amigo. – Eu sei que o tempo não está quente, mas crianças se divertem com qualquer coisa, não é mesmo? São espíritos livres! – Tahmoh se levantou e colocou a mão nas costas de Jared. – Faço questão que vocês estejam aqui amanhã. Vou mandar fazer um lanche bem gostoso. Quero conhecer seus irmãos e também conversar com você sobre um emprego fixo, que te permita estudar e melhorar a sua vida e de sua família. É isso que você quer, não é? – O professor perguntou com um tom de voz cheio de compreensão.
Jared pensou que seria ótimo ter a oportunidade de alguma melhoria de vida para todos e que talvez essa fosse a chance que ele tanto esperava. O problema era que teria de fugir dali a pouco tempo, já que não poderia apresentar os documentos das crianças e não achava que o detetive Ackles fosse desistir de lhe cobrar isso.
Quem sabe se contasse o problema ao professor, ele soubesse como ajudar sem que as crianças fossem parar em um abrigo? Ele parecia ser muito bem relacionado, talvez conhecesse um advogado ou alguém no juizado que pudesse fazer algo. Tinha que pensar bem. Bom, as crianças iriam gostar de brincar na piscina. – Ok, professor. Amanhã nós viremos.
- Ótimo! Será um dia muito especial. – Sorriu simpaticamente e saiu.
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Jared havia decidido ir até à delegacia, agradecer o presente e ver Jensen uma vez mais, antes de ir embora. Precisava também lhe dizer o quanto havia admirado seu ato de solidariedade com ele e as outras pessoas desabrigadas.
Com esse pensamento feliz, continuou caminhando em direção ao acampamento. Ao passar por um pequeno mercado, bateu em Jared uma vontade de fazer uma pequena extravagância. Parou na porta e ficou por um instante repensando a ideia. Depois, tirou do bolso o dinheiro da diária que recebeu por seu trabalho, e entrou decidido a comprar algo que gostava muito, mas que quase nunca podia ter.
Jared estava alegre ao sair do mercado. Por agora, não queria pensar em cada centavo que precisava economizar. Sabia que qualquer gasto significaria um pão a menos para as crianças quando fugissem e estivessem em um lugar estranho, sem conhecer ninguém para pedir ajuda.
Mas suas roupas já eram tão surradas e ele nem podia gastar o dinheiro para cortar o cabelo, então tinha fechado os olhos e... comprado um sabonete perfumado. Queria, ao menos, ter um cheiro bom quando encontrasse com Jensen.
Jared adorava cheiros e perfumes, mas desde que se lembrava tudo em sua vida era inodoro ou tinha cheiro ruim. O abrigo em Lawrence, tinha cheiro de mofo, cada lugar que ficou desde que foi para as ruas, tinha um cheiro pior que o outro. Mas Jared sempre procurava limpar o lugar em que estava, o melhor possível e ensinou isso aos seus irmãos. Até Loretta admirava como sua barraca era limpa e organizada, mesmo tendo três crianças morando lá. Era como se Jared precisasse dessa ordem ao redor para manter a esperança de que sua vida um dia deixasse de ser a bagunça que era.
Quem vivia nas ruas, procurava descobrir ONGs e instituições de ajuda aos desabrigados, porque na maioria das vezes era só desses órgãos que recebiam algum auxílio, mesmo que limitado. Jared ia toda quinta-feira à noite junto com o pessoal do acampamento, pegar kits de higiene que eram distribuídos por uma Associação no Centro de NY. Era um kit por pessoa composto por um pequeno frasco de shampoo, um sabonete, um desodorante e um sabão em pedra para lavar roupas. Tudo neutro, sem cheiro algum. E ainda um creme dental e uma escova de dentes. Nos últimos dias até mesmo esses itens Jared vinha economizando para levar quando fugisse.
Quando chegou ao acampamento dos sem-tetos, Liz, como sempre fazia, saiu de dentro da barraca correndo, vindo recebê-lo toda esfuziante e falando sem parar sobre os acontecimentos do dia na escola. Jared sempre a ouvia com atenção para que ela sentisse que eram importantes os momentos que vivera. O grandão era apaixonado por aquela menininha alegre de olhinhos brilhantes, que o fazia se sentir tão especial.
- Onde estão seus irmãos? – Jared perguntou, fazendo o que a menina mais gostava: colocando-a sentada em seus ombros.
- Alice estava lendo uma história para mim na nossa casinha – era assim que Liz chamava a barraca onde moravam - e Devin está na barraca da Loretta.
Jared caminhou até sua própria barraca e desceu Liz dos ombros. – Vá chamá-lo para mim, princesa. Quero que ele me ajude a encher o tonel d'água. – A menina saiu correndo para chamar o irmão.
Devin e Jared levaram baldes até a única torneira que trazia água para o acampamento e encheram o tonel. Depois, Jared deu mais duas viagens para deixar quatro baldes cheios, exclusivamente para seu banho.
Mexeu para lá e para cá em suas poucas roupas, procurando por uma camisa que não estivesse rasgada, furada ou esgarçada. Achou uma camiseta cinza em relativo bom estado. "No momento, é a melhor que temos!" Separou-a, juntamente com sua única calça jeans, surrada. A outra que estava em um estado pior, ele usava para trabalhar. Cogitou a ideia de colocar seus tênis por causa do frio, mas queria muito ir com os chinelos para demonstrar o quanto havia gostado. "Ah, que se dane! Não será a primeira vez que fico com os pés gelados. Vou com os chinelos." Jared pegou seu sabonete perfumado e foi encarar seu banho frio.
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Eram quase 7 horas da noite e Jensen já deveria ter ido embora. Não estava rendendo mais nada. Ainda tinha uns relatórios pra fazer, mas odiava ter que preencher a papelada. Olhou alguns papéis numa pasta e decidiu deixar para o dia seguinte. Ia somente fazer o fechamento de dois casos e ir para casa. Precisava comer alguma coisa, estava faminto. Pegou o telefone e pediu uma pizza. Sentou à sua mesa e ligou o computador, que simplesmente o ignorou e não deu sinal de vida.
- Ah, não! De novo, não... – Sheppard estava indo embora e passou por Jensen, vendo-o reclamar perguntou qual era o drama. – Você sabe que esses computadores estão precisando de aposentadoria faz tempo! Esse aqui não liga mais. Posso terminar lá na sua sala?
- Tudo bem. Mas não mexa em nada. Use o computador e deixe o resto arrumado como está. Amanhã falamos sobre esses computadores. Mas não esqueça, as palavras-chave são: contenção de despesa. E Jensen, termine isso e vá para casa dormir. Seu plantão já acabou faz tempo. É uma ordem. Boa noite.
- Prometo capitão. Boa noite.
Jared não tinha certeza de que iria encontrar Jensen na delegacia àquela hora, porém não tinha como se comunicar com ele, então resolveu arriscar. Ao chegar, se aproximou do balcão de atendimento, torcendo para que Jensen estivesse por lá.
- Por favor, eu poderia falar com o detetive Ackles?
- O plantão dele já acabou, mas você deu sorte, ele ainda não foi embora. Quem deseja falar com ele?
- Pode dizer que é o Jared. Ele sabe quem eu sou.
A policial passou para o ramal da mesa de Jensen e este atendeu de imediato.
- Oi Rose. Por favor, diga que é a pizza que eu pedi. Estou morrendo de fome.
- Ainda não, Ackles. Mas tem um rapaz aqui querendo falar com você. Disse que se chama Jared e que você o conhece.
- Jared? Jared está aí? – Jensen ficou bastante surpreso.
- Sim. Vou mandá-lo entrar. – E desligou antes mesmo de ouvir a resposta de Jensen. – Você pode ir. Sabe onde fica a mesa dele? – Jared fez que sim com a cabeça e seguiu. Passou as mãos nos cabelos e desabotoou a jaqueta jeans que estava usando por cima da camiseta.
Foi caminhando devagar, tentando avistar Jensen antes de chegar à sua mesa. Queria ver o seu semblante, para saber se era bem vindo, afinal aquele era o local de trabalho dele.
- Boa noite. Não esperava por você. – Jensen veio ao encontro de Jared e estendeu-lhe a mão, cumprimentando-o com um sorriso nos lábios.
Jared por sua vez, estendeu a mão e segurou a de Jensen sentindo um alívio por ele não ter se zangado, por ter aparecido sem avisar. Lhe deu o seu sorriso mais aberto e o loiro pensou que jamais vira um sorriso tão luminoso.
Ficaram segurando a mão um do outro por mais tempo que o necessário, até que perceberam e soltaram-se.
- O que houve? Você já está melhor? Veio trazer os documentos? – Jensen saiu perguntando um monte de coisas. Ficou um pouco nervoso, pois não esperava vê-lo. – Senta aí. Vamos conversar.
Jared sentou-se e Jensen começou as perguntas novamente, só que agora um com um pouco mais de tranquilidade.
- E então? O que te traz aqui?
- Na verdade, eu só vim agradecer o presente. São muito confortáveis. Eu gostei demais. – Falou isso e mostrou os pés balançando-os para que Jensen reparasse que ele estava usando os chinelos. Depois, Jared sorriu como se tivesse cinco anos. Jensen achou engraçado.
- Muito legal que serviram! - O telefone tocou novamente e Jensen atendeu. – Pode mandar trazer. – e virando-se para Jared – Vamos dividir uma pizza?
O entregador entrou com a caixa de pizza na mão e parou bem na frente da mesa de Jensen. Enquanto o loiro virou-se para pegar o dinheiro na carteira, o rapaz reparou em Jared sentado à cavaleiro na cadeira à sua frente e achou a visão linda, então o encarou com um olhar sedutor e sorriu, flertando abertamente com o grandão. Nesse exato momento Jensen levantou a cabeça e viu o olhar do entregador para Jared, que estava meio sem graça com a situação.
- Perdeu alguma coisa aí amigo? – Jensen perguntou num tom de voz nada amigável.
- Eu? Não senhor. – O rapaz respondeu, sendo pego de surpresa, mas não deixou de olhar para Jared.
- Então tá olhando o quê? Toma aqui o dinheiro. Obrigado e pode ir. – Jensen falou rispidamente para o rapaz e virando-se para Jared – Venha. Vamos comer lá na sala do capitão. É mais reservada e podemos conversar melhor. – E saiu andando com a pizza na mão.
Jared o seguiu com uma expressão de desagrado, pelo modo como Jensen agira com o entregador. Claro que ele não esperava que Jensen fosse gay, afinal ele tinha um jeito bem másculo, mas nunca imaginara que ele pudesse ser homofóbico.
- O que foi aquilo lá fora? – Jared perguntou enquanto Jensen acendia as luzes, fechava as persianas e trancava a porta.
- Aquilo o quê? – Jensen perguntou distraído, sem se ligar que o que fizera, havia incomodado Jared.
- O jeito rude, para não dizer agressivo, com o qual você tratou o entregador, ora! – O grandão estava indignado e fez questão que Jensen soubesse disso.
- Não fui agressivo.
- É claro que foi! Você tem algum problema com gays, detetive? – Jared sentia-se chateado como... se tivesse sido com ele mesmo.
- Eu? Claro que não...
- Foi grosseiro com o cara só porque ele me deu uma sacada...
- Uma sacada? Ele quase pulou em cima de você! – Agora Jensen é que estava puto. Por que Jared estava defendendo o cara?
- E daí? Como eles vão conseguir ficar com alguém se não demonstrarem interesse? Não é assim que a gente faz também? Não achei que você fosse uma pessoa que tivesse tanto preconceito... – Jared desandou a falar e foi interrompido por Jensen.
- Caramba, eu não sou preconceituoso!
- Ah, é sim! Só faltou bater no cara. E para sua informação, se eu me sentir incomodado, sei me defender. Não sou nenhuma mocinha em perigo!
- Pois a mim pareceu que era! – Jensen falou sem pensar e se arrependeu na mesma hora, pois Jared levantou-se e caminhou até a porta, com uma cara bastante chateada.
- Olha detetive Ackles, não quero discutir. Vim só agradecer o presente e dizer que achei muito legal a ajuda que você deu a todos nós no acampamento. Eu não lhe conheço, não sabia que tinha uma cabeça tão fechada. Não tenho nada com o fato de você não gostar de gays, só acho que, mesmo não gostando, deveria respeitar. Ser um pouco flexível ajuda a...
- Eu sou gay. – Jensen simplesmente falou, interrompendo o discurso de Jared que parou com a mão na maçaneta e encarou o loiro.
Ficaram se olhando em silêncio por um tempo impreciso e, do nada, Jared irrompeu numa gargalhada, que contagiou Jensen e os dois riram sem parar por longos minutos.
- Jura? É sério? – Jared perguntou depois que conseguiu parar de rir.
- Sim. Não é preconceito. Eu só achei o cara abusado. Afinal você não estava sozinho...
- Estava sim. Não somos nada um do outro. – Jared disse só para provocar.
- É claro. Mas ele não sabia disso. – Jensen falou e sorriu. Havia muito tempo que não ria assim, com vontade. – Senta aí, grandão. Vamos comer a pizza que já deve ter esfriado.
- Adoro pizza fria. No dia seguinte então, fica perfeito. – Sorriu para Jensen.
- É... fica perfeito... – Jensen falou olhando para Jared, achando-o tão bonito em seu jeito simples de ser... Pegou uma fatia de pizza e entregou a ele.
Comeram em silêncio por um tempo, só apreciando a pizza e companhia um do outro.
- Posso te perguntar uma coisa meio íntima, detetive? – Jared criou coragem, aproveitando o clima leve e divertido que se formou entre eles, e também o fato de que aquela era provavelmente, a última vez que o veria, para matar a curiosidade de algumas coisas. Não sabia bem porque, mas sentia-se à vontade com aquele homem e tinha achado interessante ele defendê-lo do entregador de pizza tarado. Sorriu ao pensar assim. O loiro gostou do sorriso que viu, mesmo sem saber no que ele pensava.
- Me chame de Jensen. E sim. Pode perguntar, defensor dos gays tarados e desamparados. – Jensen fez piada só para ver aquele lindo sorriso cheio de covinhas novamente. Foi brindado com uma divertida gargalhada, com direito a cabeça jogada para trás e cabelos balançando suavemente. Achou a visão maravilhosa e também que não havia som mais gostoso no mundo.
- Como é? – Jay estava meio sem jeito.
- Como é o quê? – Jensen estava achando divertido.
- Ah, não sei... Tudo.
- Seja mais específico, Jared. – Jensen falou isso olhando bem dentro dos olhos de Jared, que desviou o olhar, totalmente sem graça.
- Como é beijar um cara? É bom? Deve ser diferente de beijar uma garota...
- Um beijo é um beijo. Não é o sexo de quem está beijando que faz o beijo ser bom ou ruim. Os dois estarem a fim de beijar, é que faz ser gostoso.
Jared se levantou e andou um pouco pela sala bem devagar, pensando.
- Garotas são... sei lá... delicadas, mesmo quando são ousadas. Mas e se o outro cara quiser mandar no beijo? Eu também sou homem, vai dar briga. – Jared encostou-se na mesa e cruzou os braços, com uma cara de menino travesso, que encantou o detetive.
E desta vez foi Jensen quem riu gostosamente, por conta do comentário de Jared. Não sabia quanta experiência o rapaz tinha nesse assunto, mas esse pensamento demonstrava que não era muita. Pelo que estava entendendo, o grandão parecia querer entrar para o time, mas ainda tinha muitas dúvidas.
- Bom, posso ver que seu interesse nesse assunto é bem grande. É que existem coisas, que não são muito boas de explicar com palavras. – Jensen levantou-se, foi até Jared, parou bem à sua frente e chegou o rosto bem perto do dele. – Quer matar sua curiosidade?
Por um instante, Jared não entendeu muito bem a pergunta, mas ao ver Jensen tão perto de si, deixou todas as suas dúvidas e pensamentos de lado, aproximou seu rosto mais um pouquinho, sentiu a respiração de Jensen e olhou bem dentro daqueles olhos cristalinamente verdes.
Não disse palavra alguma.
As enormes mãos de Jared seguraram o rosto de Jensen e o trouxeram para mais perto do seu. Seus olhos não se desviavam daquela boca carnuda, que parecia ser tão macia e saborosa quanto fruta madura.
Jensen mantinha o moreno junto à seu corpo, segurando-o pela cintura, de forma que podia sentir seu coração acelerando. O loiro queria que Jared iniciasse o beijo, porque era ele quem precisava se descobrir. Mas, sinceramente, já não estava mais aguentando de vontade de beijá-lo.
Jared parecia estar num mundo, onde só existiam ele e os lábios daquele homem lindo. Com o polegar, fazia um carinho suave na lateral do rosto de Jensen enquanto se aproximava devagarzinho, até roçar levemente sua boca na dele. Jensen estava enlouquecendo com aquela lentidão, há muito queria estar saboreando Jared e passeando com sua língua dentro daquela boca, que tinha o sorriso mais incrível que ele já vira. Porém tentava a todo custo, manter o controle, para deixar que o outro tivesse seu momento, fizesse sua descoberta.
Jared fechou os olhos e passou a língua suavemente pelos lábios de Jensen. O loiro, também de olhos fechados, apertou o moreno mais fortemente de encontro ao seu corpo e entreabriu seus lábios, ao mesmo tempo permitindo e convidando, o rapaz em seus braços, a conhecer as delícias de sua boca.
O beijo a princípio foi suave, explorador. Jensen deixou que Jared experimentasse e conhecesse cada cantinho, curtindo muito sentir a língua doce e quente, daquele belo rapaz, se apossando de sua boca. Contudo decidiu mostrar a ele, uma pequena diferença entre beijar uma garota e um homem com a força que ele tinha.
Essa diferença, claro, não estava no beijo e sim na força física, que fez com o loiro levantasse Jared com facilidade e o colocasse sentado sobre mesa, ficando entre suas pernas. Fez isso sem separar suas bocas.
Então, passou a mão pela nuca do moreno e o segurou com força, para logo depois invadir-lhe a boca com sua língua experiente, tomando de assalto aquela delícia para si. Jared não impôs resistência. Deixou-se beijar sem restrições, sentindo uma avalanche de desejo soterrar suas dúvidas. Abraçou-se a Jensen e o beijo ficou tão loucamente intenso, que teve que ser interrompido, antes que os dois sucumbissem por falta de ar.
- Uau! – Foi a única coisa que Jared conseguiu dizer enquanto tentava recuperar o fôlego.
Jensen, que também respirava forte, olhou para as mãos que Jared, sem perceber, apoiava sobre seu peito, levantou a cabeça e encarou o moreno de um jeito meio sem-vergonha. – E então? Quer experimentar mais alguma coisa?
Continua...
