Regina não está certa quando acontece, mas em algum momento entre as horas que passou ao lado de Hook certificando-se de que sua febre não pioraria e o restante do tempo em que se dedicou aos ferimentos de Whale, ela passou a ser considerada parte da tripulação do Jolly Roger e não apenas uma presença indesejada.

Pelo menos pela maior parte do grupo.

Talvez seja por isso que, dias mais tarde, ela encontre a si mesma inclusa em discussões que não são de seu interesse, ou mesmo de sua conta. Como, por exemplo, uma discussão entre Hook e Ruby.

"Killian, eu estou grávida, não inválida." Ruby resmunga entre dentes enquanto alinha suas facas sobre a mesa da cozinha para então enfiá-las em sua mochila.

"Eu sei coração, mas se você pensar bem eu não estou pedindo muito." Ele senta ao seu lado, procurando argumentar. "Apenas que você não se coloque em risco desnecessariamente."

Não muito distante do casal, Regina olha a porta de relance, se perguntando não pela primeira vez se é possível escapar dessa situação sem que os dois percebam a sua ausência.

"Regina, fale com ela!" Killian pleiteia lançando um significativo olhar em sua direção, que não é nem de longe tão esclarecedor quanto ele acredita.

"Eu não saberia por onde começar." Regina admite com sinceridade. Hook rosna impaciente.

"Você é uma mãe! E também tem conhecimentos 'femininos'." Ele acrescenta debilmente e Regina olha para o pirata como se ele fosse o ser mais alienado do planeta.

"Mesmo jamais antes tendo compartilhado seu atual estado Ruby, creio que o que este idiota está tentando dizer é que você precisa pensar nas necessidades do bebê a partir de agora, além das suas, é claro."

Hook celebra ao ter o apoio de Regina confirmado por suas palavras. Ruby, por sua vez, não parece nem um pouco satisfeita.

"Eu sei disso." Ruby concede contrariada. "Mas eu não estou fazendo isso apenas por lazer. Nós precisamos de toda a comida que conseguirmos e a Emma não pode fazer o trabalho todo sozinha. Além disso, ela não é exatamente a melhor caçadora que já existiu."

"Não posso dizer que isso me surpreenda." Regina comenta de soslaio. "Mas certamente existem outras pessoas que possam ajudá-la, não?"

"Talvez a Snow se ela já não ficasse tão atribulada com as tarefas da cozinha. Além do mais ela não tem mais o preparamento físico necessário. O Killian é um zero à esquerda quando se trata de ir à caça e o mesmo pode ser dito sobre praticamente todos os homens à bordo. É um beco sem saída."

"Talvez seja mesmo. Mas isso não muda os fatos. Hook pode ser um idiota, mas ele está certo quanto a isso." Regina admite embora o sorriso convencido que se abre no rosto do pitara lhe provoque náuseas. "Desde o ataque você tem apresentando uma porção de sintomas que indicam um grau elevado de estresse que poderia até não ser um problema normalmente, mas que é algo a ser levado em consideração quando se tem um bebê a caminho. Minha recomendação é, portanto, que você permaneça à bordo e evite ao máximo qualquer atividade que lhe provoque os nervos."

Regina percebe nas feições de Ruby sua teimosia dando lugar ao bom senso, o que é confirmado quando a mesma declara. "Está bem."

Com um gesto de vitória Hook celebra e está prestes a abraçar Ruby quando recebe um olhar ameaçador e o que pode muito bem ser um rosnado. "Você ouviu a Regina. Tenho que ficar longe de coisas que me deem nos nervos e nesse momento você é o primeiro item da lista. Fique longe de mim!"

Bufando a lobisomem sai pisando firme, deixando Regina e Killian à sós. Com um sorriso amarelo ele tenta justificar. "Isso provavelmente são os hormônios da gravidez não é?"

"Eu não estaria tão certa disso."

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A Emma não resta outra opção senão ter que levar Henry em suas missões para capturar alimentos, uma oportunidade que o adolescente recebe com visível empolgação.

Ela aprecia o tempo de qualidade passado na companhia do garoto que ainda parece estar crescendo mais rápido do que seus olhos conseguem acompanhar, mesmo que as chances de que eles realmente encontrem carne diminuam drasticamente sem as habilidades de Ruby para caça, além é claro de seu super-olfato.

Uma coisa que particularmente intriga Emma é o fato de que, apesar de ter sido responsável pela libertação de Regina e de tê-la trazido para o grupo, Henry continua a manter distância de sua mãe adotiva, o que Emma imagina, se deva a uma desconfiança quanto às suas verdadeiras intenções, muito provavelmente nascida do passado conturbado entre mãe e filho.

Ela nunca faz qualquer menção ao fato, tendo aprendido que quando se trata de Henry, a melhor maneira de agir é esperar que ele venha até você em seu próprio tempo.

E é isso o que acontece tão logo os dois se encontram sozinhos, em mais uma de suas missões.

"Tem certeza que é uma boa ideia deixar o Evan passar tanto tempo com ela?" Ele traz o assunto à tona com fingida indiferença, e a entrega de sua fala seria perfeita se Emma já não estivesse esperando por algo parecido.

"Por quê? Porque ela fez um trabalho terrível com você?" Emma responde sarcasticamente, a resposta dela quebrando a fachada de indiferença adotada pelo garoto.

"Eu só estou dizendo... O que faz você pensar que nós podemos realmente confiar nela?" Ele para de trabalhar em sua armadilha e olha para Emma, esperando que ela lhe dê não apenas uma resposta, mas algo que lhe proporcione paz de espírito.

"Bem, nós confiamos na Regina o suficiente para esperar que ela encontre uma maneira de sair desse inferno, não?" Emma diz, depois de pensar um pouco e continua seu trabalho. "Na verdade, se bem me lembro, isso tudo foi ideia sua."

"Sim... Mas só porque nós não tínhamos escolha. Isso não significa que eu esqueci quem ela realmente é."

Emma suspira então, longamente; uma miríade de memórias voltando para ela de uma só vez. As acusações, as ofensas, os discursos moralistas, toda aquela fala de heróis e vilões, um conceito simplista demais para seu gosto.

Henry era apenas uma criança na época, e estava certo a respeito de muitas coisas, mas no fundo, Emma esperava tê-lo ensinado mais ao longo dos anos que passaram juntos.

"Garoto, nos faça um favor e jogue a carta de Rainha Má fora, ok? Todos nós já vimos e fizemos o bastante a essa altura para saber que as coisas não são assim tão simples."

Henry não encontra uma resposta para tal argumento. Mas certamente fica com algo sobre o que refletir.

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De volta ao navio, Regina está apreciando os tímidos raios de sol de um dia ensolarado no convés do navio, enquanto fica em dia com os seus estudos, quando Emma e Henry retornam de sua expedição.

Emma parece bastante feliz por ter capturado um pássaro de algum tipo, mas o rapaz chega com uma expressão mal-humorada e imediatamente começa a suas tarefas - o que envolve a limpeza das folhas que Snow vai usar mais tarde em mais um de seus chás, as frutas que serão consumidas na manhã seguinte e os peixes que o grupo terá para o jantar mais uma vez.

Mesmo assim, Regina não pode deixar de notar os olhos do filho sobre sua figura, mesmo se, quando ela olha em sua direção, ele desvie o olhar.

Embora intrigada, Regina decide não agir em relação à sua curiosidade. Ao invés disso, ela concentra sua aparente atenção no pergaminho que tem em mãos ou em Evan, sempre que o menino se aproxima dela com uma pergunta ou um comentário trivial.

Emma percebe o comportamento de Henry também, mas decide não ficar no caminho do relacionamento entre mãe e filho. Com isso em mente, ela se dedica a se vangloriar para todos que possam ouvir sobre suas habilidades de caça e seus despojos.

Infelizmente, comê-los não faz parte do negócio.

A loira está atravessando o convés principal em seu caminho para o porão, quando Hook cruza seu caminho, apressado demais para ser apenas casual.

"Bela captura você tem aí, Swan." Ele oferece com um sorriso malicioso. Emma o encara apenas, ciente de que algo mais está por vir. "Red ficará feliz em saber o quão bem lhe ensinou."

"Sim, é, na verdade eu já tinha algum talento. Ela só me deu algumas dicas."

Hook olha para o pássaro em seguida, seus olhos ainda sobre o mesmo, quando ele diz. "Pena que não poderemos desfrutá-lo."

Emma faz questão de sorrir quando lhe oferece uma resposta. "Pois é, você conhece bem o esquema."

"Sim, eu sei. O que levanta uma questão mais importante. Você poderia me informar até quando nós vamos alimentar o seu 'pai', ao invés de, você sabe todo mundo?" Hook diz que em um tom baixo, sem a intenção de que a conversa caia nos ouvidos de outrem.

Emma pode sentir suas bochechas queimando com o calor da irritação que lhe sobe de uma só vez, sua voz escapando mais alta do que seria aconselhável.

"Enquanto ele estiver vivendo no nosso porão, ok?"

O que ela não espera, porém, é que Evan esteja ouvindo a conversa do local onde se escondeu em uma de suas brincadeiras.

E o que ele ouve, imediatamente desperta sua curiosidade.

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"Minha mãe me disse que vocês se conhecem tem um tempão." Evan diz que enquanto tenta amarrar seu coelhinho de pelúcia em um de seus carrinhos de madeira pelas orelhas. Regina quase se compadece do brinquedo. Ele certamente aparenta já ter passado por maus bocados.

"É verdade." Regina responde, tentando não perder a concentração completamente. Ela realmente precisa que esta poção em particular funcione.

"Quanto tempo é um tempão?" Evan está sentado confortavelmente na poltrona surrada que ela colocou no cômodo com essa finalidade somente. Regina olha para o menino e seus longos cabelos loiros a caírem sobre seus ombros. Ela se acostumou ao estilo, mas se o menino fosse seu filho, um corte de cabelo seria a primeira de suas prioridades.

"Muitos, muitos anos." A resposta parece satisfazer a sua curiosidade, mas apenas momentaneamente. Ele está particularmente comunicativo hoje. "Você também conheceu o meu pai?"

A pergunta faz com que Regina pause e quando ela tira os olhos de seus manuscritos é para se deparar com um par de perspicazes olhos verdes a observá-la atentamente.

"É essa a pergunta que você quer me fazer?" Regina pergunta a sério. O menino morde o lábio inferior pensando bem antes de dar-lhe uma resposta final.

"É uma delas." Ele admite com sinceridade, o que Regina pode apreciar.

Em resposta, ela coloca seus manuscritos de lado e tira os óculos que conjurou recentemente como uma de suas mais recentes (e necessárias) aquisições.

"Sim, eu o conheci." Ela comenta vagamente, em conflito sobre seus próprios sentimentos em relação aos Charmings em geral e um desejo súbito de não decepcionar o menino ou machucá-lo de qualquer forma.

"A mãe diz que eu pareço com ele."

"Na verdade, eu acho que você se parece muito mais com sua irmã." Regina comenta casualmente, o que coloca um imenso sorriso no rosto do menino.

Se há uma coisa que Evan adora neste mundo é Emma Swan.

"Eu vou ser igual a ela quando crescer." Ele diz com orgulho e Regina dá graças por Emma não estar por perto para ouvi-lo. Caso contrário, ela nunca seria capaz de tolerar o sorriso convencido que a loira exibiria como um troféu.

"Isso é bem provável." Regina aquiesce, e se surpreende ao perceber que talvez isso não seja algo necessariamente trágico ou mesmo lamentável.

"Eu queria ter conhecido meu pai, mas ele morreu quando eu era muito pequeno. Emma diz que eu conheci ele sim, mas eu não lembro. Você sabe como foi que meu pai morreu?"

"Sim." Regina faz uma pausa procurando o jeito mais apropriado de apresentar os fatos para um menino de 5 anos. "Ele morreu como um herói."

O menino parece concordar com isso e, em seguida, Emma bate à porta, para grande alívio de Regina.

"Evan, o que eu já disse sobre ficar pentelhando a Regina?" Ele sorri timidamente para Emma, ciente de que foi pego em flagrante. "Vamos pirralho, que tal dar um descanso pra ela?"

O menino revira os olhos – um hábito recém adquirido que Emma desconfia seja fruto da constante convivência com a ex-prefeita -, mas obedece sem contestar. Entretanto, ao invés de deixar Regina a sós, Emma acaba tomando o lugar a pouco ocupado pelo irmão, sentando-se na poltrona e pondo-se a observar o seu trabalho por vários minutos até que a rainha se canse de fingir que ela não está ali.

"E o que é isso agora? Por acaso vocês estão se revezando?" Regina finge estar irritada com a presença de Emma, mas não o faz de forma muito convincente.

"Eu apenas achei que você deveria saber: Henry e eu tivemos uma conversa ontem." Emma declara categoricamente, para em seguida acrescentar com cuidado. "Sobre você."

"Ah." Regina exclama, não solicitando qualquer esclarecimento.

"Você não parece surpresa." Emma menciona desnecessariamente, avaliando os menores detalhes de sua reação.

"Por que eu deveria? Henry veio atrás de mim, sim, mas ele também deixou bem claro que a única razão pela qual fez isso foi essa missão e provavelmente seu instinto de sobrevivência. Pura e simplesmente."

"Missão essa pela qual você está se matando para fazer dar certo." Emma acrescenta, também desnecessariamente.

Regina dá de ombros, sem se comprometer, retomando suas atividades. Mas Emma, por sua vez, não está pronta para deixar o assunto morrer ainda.

"Você ao menos se arrepende das coisas que você fez?"

"Não", Regina responde sem pensar muito. A verdade é que ela teve cinco anos para pensar sobre isso. Portanto, a resposta agora, surge sem qualquer esforço mental. "Como eu poderia, quando tudo me levou a Henry?"

Sua resposta parece fazer sentido para a loira, mas isso não a impede de forçar o tópico um pouco mais. "Isso significa que eu ainda preciso me preocupar com você tentando matar a minha mãe?"

Desta vez, Regina faz uma pausa antes de responder.

"Não, minha querida. Até eu posso ver que Snow já está pagando um preço bem alto por suas ações." Regina pára, contemplativa por um momento, seu olhar distante. "No final das contas a vida tinha um plano muito mais cruel para sua mãe do qualquer fantasia de vingança que eu pudesse ter cultivado."

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É quase hora de almoço quando Henry entra na cabine de Regina à procura de Evan, apenas para encontrar uma cena que ele não sabe ao certo como classificar.

Sentada em um banco alto, debruçada sobre uma tábua grande e larga que tem servido como mesa desde que Regina montou sua 'oficina' no pequeno cômodo, sua mãe adotiva faz anotações com os olhos fixos em um cântaro pequeno e de aparência insignificante. Seus longos cabelos negros – com os quais Henry ainda tem dificuldade em se acostumar – caem sobre a mesa em uma trança prestes a se desfazer e ela parece quase frágil em sua túnica simples e desbotada.

Mas o que de fato surpreende Henry é encontrar Emma em sua companhia, ao que tudo indica, apenas passando o tempo em sua presença enquanto as duas compartilham um confortável silêncio.

Com o corpo esparramado na velha poltrona que compõe o cômodo, Emma parece relaxada e tranquila de uma forma que Henry não se recorda de ter visto há muito tempo, suas pernas jogadas sobre o braço da mesma enquanto suas mãos brincam despreocupadamente com as pontas de seus cachos loiros.

Ainda que a situação em si aparente ser completamente inofensiva, Henry percebe algo mais no ar, sua intuição tocando sinos, especialmente quando dois pares de olhos alarmados o recepcionam; quase como se estivessem sendo pegos em flagrante. Contudo, o sumiço de Evan obriga Henry a deixar seus receios de lado, mesmo que apenas momentaneamente.

"Erh, hey." Sua voz sai um pouco rouca e ele limpa a garganta antes de acrescentar. "Vocês viram o Evan? Ele tava comigo até alguns minutos atrás, mas agora eu não consigo encontrá-lo em parte alguma."

"Bem, você sabe como ele gosta de brincar de esconde-esconde." Emma sugere despreocupadamente.

"Sim, mas eu também sei o quão ruim ele é nisso. Eu já procurei por ele em todos os cantos. Não sei onde ele pode ter se enfiado." Henry diz sem disfarçar sua impaciência, como um irmão mais velho que se irrita com as estripulias do caçula.

Regina quase sorri, mas algo mais, um estranho pressentimento, se manifesta em seu íntimo.

Sem aviso ela sente seu estômago se contorcer em um nó.

"Emma, o quão bem trancado vocês mantém o cômodo onde fica o seu pai?"

"O porão não tem uma tranca, mas a cela del-" Emma está no meio da frase quando Regina desaparece em uma familiar nuvem de fumaça roxa.

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É realmente um milagre.

Ao aparecer no porão Regina encontra Evan caído no chão, segurando firmemente um pedaço de corda que está prestes a se romper enquanto Charming - ou a criatura que tomou o seu lugar - tenta puxá-lo pelos tornozelos.

O menino está chorando, aterrorizado, mas o porão é muito isolado para que os demais possam ouvir seus gritos por socorro.

Com o movimento de uma mão, Regina lança um choque de energia em Charming, forçando-o a soltar sua presa à medida que seu corpo é lançado na direção oposta da cela. Em seguida, Regina recebe o menino em seus braços, segurando-o tão firmemente quanto lhe é possível.

Charming levanta-se de novo e se arrasta em direção as grades, rosnando enquanto estica os braços tentando alcançar os dois. Regina olha para ele com nada além de espanto e descobre que, apesar de seus traços permanecerem praticamente os mesmos, a criatura que ela tem diante de si não mantém quase nenhuma semelhança com o homem que foi um dia.

Emma e Henry chegam em seguida, acompanhados pelos demais membros da tripulação.

O som do choro de Evan é alto o suficiente para encher o ambiente.

"Está tudo bem, você está seguro agora." Regina sussurra enquanto afaga seus cabelos, sem saber se as palavras são uma tentativa de conforto para o garoto ou uma garantia para si mesma.

Emma tenta pegar Evan no colo, mas ao tocá-lo o menino apenas abraça Regina com mais força. Com o seu auxílio, Regina se levanta, ainda segurando o menino no colo e busca a saída do porão. Em seu caminho, seus olhos se deparam com a figura de Snow no estreito corredor e, por um breve instante, Regina observa suas feições à procura de respostas.

Sentindo o coração de Evan ainda batendo apressado e seus soluços reverberando contra seu corpo, Regina desperta de seu estado de letargia e segue em frente.

Ela não está certa do que esperava encontrar nos olhos de Snow e isso tampouco lhe importa.

Pelo que pode ver, já não há mais nada ali.

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Uma vez que a situação está sobre controle, Regina conforta Evan em seu quarto, acompanhada por Henry, mas a coisa toda levanta um debate acalorado entre o restante da tripulação - especialmente aqueles que consideram a presença de Charming um risco para todos.

"Se isso não foi um sinal, eu não sei o que mais poderia ser." Hook declara com veemência, andando de um lado para o outro enquanto Ruby tenta consolar sua melhor amiga.

"O menino nunca deveria ter ido lá embaixo." Grumpy acrescenta, claramente preocupado em defender a posição de Snow.

"Eu não sei por que toda essa comoção. Nós apenas precisamos nos certificar de instalar um melhor sistema de segurança para o porão." Whale diz, nem de longe tão afetado pela situação quanto o restante do grupo.

"Um sistema de segurança?" Hook não esconde sua indignação. "Isso não é algo que algum tipo de tranca possa resolver. A vida de um menino estava em jogo."

"Mas nada aconteceu realmente." Whale argumenta.

"Só porque a rainha chegou a tempo! Se ela não tivesse seus poderes mais, você sabe exatamente o que teria acontecido."

"Charming nunca machucaria o Evan.", Snow diz em meio às lágrimas, a mão de Ruby sobre o seu punho fechado.

"Talvez sim, mas aquela coisa lá embaixo estava prestes a comê-lo." Hook retorque ferozmente, apesar dos olhares de censura que Ruby lança em sua direção. "E se você acha que aquela criatura hesitaria em devorar qualquer um neste navio, princesa, permita-me lhe dizer, você só pode estar delirando."

"Killian, já chega!" Emma se manifesta em um tom definitivo, embora não deixe de concordar com as coisas que ele está dizendo. A sua intervenção, contudo, só parece aumentar a frustração do pirata.

"Quer saber? Já estou farto disso! Quanto tempo mais você vai continuar protegendo ela? Já faz quase cinco anos e se ela acha que há alguma chance de que aquela coisa vá seguir com a gente seja qual for nosso destino..."

Completamente fora de si, Hook não tolera mais ficar no mesmo cômodo que Snow e sobe as escadas, a fim de obter algum ar fresco. Ruby dá um beijo na cabeça de Snow e com um sorriso de desculpas, vai atrás dele, provavelmente com a intenção de acalmá-lo.

Emma olha para Snow então, sem saber ao certo o que fazer.

Será possível que ela não seja mesmo capaz de enxergar o que poderia ter acontecido? O quão perto eles estiveram de perder Evan?

Ela pode discordar com Hook em muitas coisas, mas quanto a isso ele está coberto de razão. Não existe a menor chance de que ela vá permitir que o zumbi de David siga com eles em sua rota de fuga.

Mesmo que isso signifique perder o amor de sua mãe.

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Mais tarde, pela segunda vez em um dia que parece não ter fim, Regina é visitada por Emma em sua cabine.

Porém, desta vez, não há qualquer resquício de energia para provocações ou brincadeiras. Não que isso impeça a ex-xerife de tentar de qualquer maneira;

"Cuidado Madame Prefeita... Salvando criancinhas, ajudando lobisomens grávidas, abrindo portais para que as pessoas podem literalmente escapar do inferno... Desse jeito alguém pode acabar confundindo você com uma heroína."

Emma entra na cabine e não se senta, indo direto para a mesa de Regina, fingindo interesse nos objetos que ela tem ali.

"Não seja ridícula." Regina descarta sua observação revirando os olhos, para então adotar um tom muito mais sério. "Como ele está?"

"Bastante abalado." Emma admite, os gritos de Evan ainda ecoando em seus ouvidos. "Quer dizer, o Henry passou por maus bocados quando descobriu que você era de fato a Rainha Má, mas pelo menos você nunca tentou comê-lo!"

"Não. Mas em compensação o fiz pensar que era louco." Regina a contempla com uma confissão sincera, para a qual Emma não está preparada e tampouco sabe como receber. Ciente da delicadeza do tema, ela contém qualquer impulso em retribuir suas palavras com um comentário mordaz, o que resulta em um longo e carregado silêncio.

"Ele vai ficar bem." Regina garante a ela, com simpatia. "Vocês Swan não são nada senão sobreviventes."

"Verdade. Nós somos bem durões não é mesmo?" O sorriso de Emma é arrogante. Uma tentativa de esquecer o fardo que ainda pesa em suas costas. "Você também é bem durona, sabia? Quer dizer, eu ouvi a minha quota de histórias sobre a Rainha Má, mas minha aposta é que ela não tem nada em comparação a sua personificação de Mamãe Leoa."

"Você está falando absurdos." Regina diz, mas não consegue disfarçar por completo seu agrado, um pequeno sorriso se formando em seus lábios avermelhados.

"Estou é?" A pergunta de Emma é quase um sussurro, sua proximidade da outra mulher de repente mais do que óbvia e impossível de ser ignorada por ambas as partes.

Enquanto ainda fala, Emma pode ver as rodas girando dentro da cabeça de Regina também, fazendo sentido do que está de fato se passando. Emma não está certa de qual será sua reação, mas por algum motivo, isso não impede o que ela diz em seguida. "E se deixarmos toda essa conversa de lado então?"

Regina a avalia cuidadosamente, pelo que parece ser um longo, longo tempo. Não apenas suas palavras, mas sua fisionomia, e o que quer que esteja sendo dito pelo seu olhar. Possivelmente pensando que esta é uma ideia estúpida, louca ou terrível; Muito provavelmente todas as alternativas.

Mas então, seus olhos escuros estão na boca de Emma e a loira percebe que ela está segurando o fôlego.

Apenas esperando.

E pela primeira vez, Regina e a salvadora parecem estar de acordo a respeito de alguma coisa.

Sob a iluminação escassa de uma lamparina velha em uma cabine apertada, Regina e Emma se beijam pela primeira vez.

Lábios e dentes se encontrando com premência, ânsia e impetuosidade. Qualquer raciocínio lógico relegado a segundo plano, enquanto suas mãos se exploram a procura de um porto seguro em uma perpetuidade de tormenta.

Sentindo seu corpo formigando, Emma se entrega aos seus impulsos, sua boca, quente e úmida, explorando qualquer âmbito de pele exposta que surja em seu caminho.

Sem qualquer vestígio de elegância ela empurra o corpo de Regina sobre sua mesa, enquanto seus dentes reivindicam e marcam o corpo que ela tem à sua mercê e suas mãos desvendam caminhos que Emma guarda em sua memória e segue às cegas, guiada apenas por suspiros e gemidos.

Sob seu toque Regina perde o controle, ansiando pelo calor de quem a consome, a expressão de desejo incontido mascarada apenas pelas madeixas loiras que caem sobre seu rosto e tem o cheiro de mar e algo que é só Emma, nome esse que escapa por entre seus lábios com fervor quase religioso.

De forma abrasadora as duas se entregam, sem hesitações ou ressalvas, o oxigênio de cada fôlego roubado, apenas fazendo a chama queimar mais forte.

Quando a manhã chegar, as repercussões desse encontro estarão desnudas como a costa de uma praia após uma tempestade, todas as incertezas e inseguranças expostas como uma ferida aberta.

Mas não esta noite, e não agora.

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Continua...