Capítulo 7
O
MENINO-QUE-SOBREVIVEU
- Como é que é?
Frank o encarou seriamente, como se o avaliasse, e disse numa voz pastosa:
- Neville Longbottom. Pais mortos por você-sabe-quem a um punhado de anos. Cicatriz. Vamos, droga, você conhece a história!
- Quem não conhece? – comentou Harry dando um meio-sorriso e continuando a andar.
Por um instante, os olhos castanhos de Frank o miraram com desconfiança mas logo o garoto abriu um sorriso.
- Você quase me apanhou, Harry! Quase, quase... mas você sabe, eu sempre fui mais esperto que você.
Harry olhou por trás do ombro, tentando encontrar Neville que há pouco estivera ali, mas o garoto aparentemente já tinha ido embora.
"Voldemort não foi derrotado – pensou Harry com um misto de terror e entendimento – ele só atacou Neville ao invés de mim. Mas... mas que droga!".
- Coitado do Neville – começou Harry tentando desesperadamente obter informações.
- Coitado mesmo – concordou Frank – foi horrível quando a avó dele foi assassinada pelos Comensais da Morte ano passado, se lembra? Eu pensei que ele ia se matar... não que ele já não tenha tentado...
- Realmente, foi horrível – concordou Harry sentindo-se estranhamente mal.
- E agora com essa história de Você-sabe-quem à solta por aí matando as pessoas... eu não queria estar na pele do Neville. Já imaginou?
- É, eu acho que eu imagino um pouco – falou Harry tentando colocar uma expressão atordoada no rosto.
- Olha, Francesca! – exclamou Frank começando a andar mais depressa – Merlin abençoe os horários vagos, não?
Harry seguiu Frank até o salão principal, onde a garota loira que se sentara atrás de Harry na aula os esperava.
- McGonagall foi muito ruim com vocês? – ela perguntou.
- Não mais do que já é. Aquele papo de sempre sobre não agir mal com as pessoas... e blá blá blá – murmurou Frank.
- E você, Harry, ela foi má com você?
- Não tão má – ele respondeu um tanto confuso.
- Eu sabia que essa história com a Granger ia melar, mas ela mereceu. É uma garota enxerida e metida se querem saber – disse Francesca rindo – não é mesmo, Harry?
- Não tão má – ele repetiu a resposta anterior.
- Harry, sempre tão sensível... – murmurou Francesca revirando os olhos.
- É que depois do Draco ter sido expulso da escola, tínhamos que encontrar um novo alvo, não? – riu Frank.
Harry não sabia se avaliava melhor a palavra "alvo" ou a parte em que Frank dissera que Draco Malfoy estava fora da escola.
- Garoto estúpido! – comentou Francesca balançando a cabeça.
- Então Draco foi realmente expulso da escola? – Harry lançou a pergunta estratégica.
- Claro que foi! – exclamou Frank em voz alta – depois daquela confusão do ano passado? Tentar matar o diretor e tudo mais? E o caso dele está a julgamento no Ministério, não é mesmo? Eu acho que ele vai apodrecer em Azkaban...
- O idiota – completou Francesca rindo.
Harry não conseguiu pensar muito direito. Dumbledore, Dumbledore estava vivo. Vivo! Não podia acreditar. Seu peito se encheu de um calor e pôde respirar com mais facilidade por alguns segundos. Então, talvez, o mundo não estivesse tão perdido quanto pensava que estivesse...
- Mereceu todos aqueles anos em que a gente o atormentou – disse Frank com um sorriso quase saudoso no rosto.
- E o Snape? – perguntou Harry de supetão – Snape está preso, não está?
- Que Snape? – Francesca o inquiriu com o olhar confuso.
- Snape, vocês sabem... ele estava ajudando Malfoy – falou Harry depressa – nosso professor de Poções.
- O primeiro nome do Prof. Árcade é Snape? – perguntou Frank, os olhos arregalados.
- Eu pensei que era Quentin! – exclamou a garota.
- Não – corrigiu Harry – Severo Snape. Ele estava ajudando Draco!
- Isso é uma informação confidencial da Ordem da Fênix?
Frank e Francesca lançaram um olhar curioso a Harry. E foi só naquele momento que ele percebeu que os dois eram irmãos. Gêmeos ainda por cima. Exceto pelo fato de Francesca ter o cabelo um tom mais claro e ser, obviamente, uma garota.
- Escreveram para você contando? Sua mãe? Ela é membro da Ordem, não é?
A referência à sua mãe, deixou Harry um pouco mais abalado. A consciência de que tinha uma família viva se tornara mais clara do que nunca.
- Harry? – perguntou Francesca passando a mão em frente ao rosto do amigo – você ainda está aí?
- Ele está um pouco aéreo hoje – falou Frank dando pouca atenção.
- Isso tudo por causa de Lilá Brown? – zombou Francesca.
- Eu acho que... acho que preciso ir ao banheiro – falou Harry e saiu correndo do salão.
- Pelo futuro melhor!
- Mas como você está otimista – observou Lily acompanhando o marido no brinde – e isso tudo porque o Halloween está próximo?
- Nada a temer no Halloween – finalizou James bebendo o vinho.
Os dois jantaram silenciosamente, ocasionalmente interrompidos pelos gritinhos de Harry, que parecia tão empolgado quanto o pai.
- Amanhã eu vou falar com Dumbledore – disse James, sério, ao fim do jantar.
- James, você sabe que não pode sair em missões... não com Harry aqui e...
- Não – cortou ele balançando a cabeça negativamente – não é sobre isso. É sobre a traição da Ordem da Fênix.
Lily sentiu o ambiente ficar subitamente frio.
- Você se lembra... lembra que me disse uma vez que a adoração que Pedro tinha sobre mim e Sirius era mais uma espécie de medo?
- Você disse que era lealdade – falou Lily tomando um pequeno gole de vinho – disse que Pedro os adorava tanto que jamais moveria uma palha contra vocês.
- E você se lembra do que me disse depois?
- Eu disse que ele os adorava porque vocês eram mais fortes do que ele – disse a ruiva olhando assustada para o marido – James, por que está falando dessas coisas? Você nunca gostou de tocar nesses assuntos e...
- E se Pedro tivesse encontrado alguém que fosse mais forte e mais influente do que Sirius e eu, Lily? – perguntou James e o brilho em seus olhos assustou a esposa – ele trairia a mim e a Sirius?
Lily não respondeu, só tomou mais um gole de vinho. Pensara que James tivesse parado com aquelas estranhezas, mas pelo visto estava enganada.
- Amanhã, Lily, amanhã nós vamos descobrir o traidor da Ordem da Fênix. Vamos ver quem não tem uma marca.
James voltou-se rindo à sua taça de vinho, mas Lily teve a certeza de que ele falava mais sério do que nunca.
Harry praticamente arrombou a porta do banheiro masculino. Foi direto até a torneira mais próxima e lavou o rosto com força, esfregando-o. "Até que ponto isso é real...? Até que ponto isso é real?".
Sentou-se no chão do banheiro, num sentimento de confusão que parecia absorvê-lo por inteiro. Quem era ele agora? Quem era Harry Potter naquele mundo novo e confuso?
Sentia que perdera a referência das coisas. Sempre pensara que se Voldemort não tivesse atacado seus pais quando bebê sua vida seria melhor, fantástica e tudo mais. "Meu melhor amigo é meio maluco, eu atormento Hermione, Rony não conversa comigo por conta de Lilá Brown e Neville é o inimigo mortal de Voldemort. Grande maravilha de mundo, não?".
Será que uma única vez na vida algo poderia dar certo para ele? Harry chutou a pia com força, cheio de frustração.
- O que é que eu fiz de errado? – berrou para as paredes – o que é que eu fiz de tão errado? Por que eu não posso viver como os outros? Por que eu ainda me lembro doantes? Por quê?
- Já fiz a mesma pergunta e nunca obtive resposta.
Harry olhou para trás, espantado. Tinha certeza de que o banheiro estava vazio quando entrara. Mas estava errado. Mais ao canto, espremido junto às cabines estava Neville. Os olhos inchados e as mãos torcidas. O rosto contorcido de um modo tão perdido que dava pena.
- Eu não vi você – falou Harry numa voz branda.
- Não tem problema.
Os dois ficaram um tempo se encarando. Neville, observando o porte de um dos alunos mais populares do colégio e Harry, mirando assustado a cicatriz na testa que a tão pouco tempo fora sua.
- O que aconteceu? – perguntou Neville – você parece realmente mal.
"Eu deveria estar te perguntando isso" – pensou Harry observando o outro.
- Ah, na verdade não é nada, eu só estava... zangado com algumas coisas que não dão certo.
- As coisas nunca dão certo – disse Neville, os olhos melancólicos traindo o sorriso em seus lábios – a vida é só desgraça. E quando você pensa que as coisas vão melhorar, elas... elas só pioram. A justiça não existe, cara, então não vale a pena procurar por ela.
Harry não encontrou palavras para responder. Simplesmente qualquer idéia de conforto ou consolo tinha sido esmagada pelo desespero da voz de Neville. Harry continuou encarando-o, sentindo as pernas fraquejarem, assistindo a lamúria de uma pessoa incrivelmente perdida.
- Eu sinto muito, Neville.
Foi tudo que Harry conseguiu dizer antes de abandonar o banheiro.
