Nenhuma Lealdade no Luar
escrito por Ariadne
traduzido por Ferporcel
beta-read por BastetAzazis
Capítulo 7: Os Sonhos dos Moribundos
Resumo: Minerva recorda, Severo questiona, Alvo é desafiado, e os fantasmas assombram as masmorras.
N.A.: Como sempre, meus agradecimentos à docmara, minha psicobeta, e Anastasia, por seu trabalho bem afiado de câmera e exato senso de fluxo. Um agradecimento especial à Indigofeathers, arynwy e annietalbot – elas sabem por quê.
– Ginevra Weasley conseguiu um NIEM em Aritmancia
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– Gina? – Minerva piscou. – Sim… sim, ela conseguiu. Eu já tinha me esquecido.
Severo assentiu e gesticulou para fechar a conexão.
Guilherme – sem filhos. Carlos – morto. Percival – muitos; a mais nova, menina, da mesma idade da do Potter. Fred, Jorge – ambos mortos. Ronald – morto. Ginevra – três meninas.
Mais pó de Flu.
– Minerva.
– Severo, francamen...
– Qual é o neto mais velho dos Weasley – o nome?
Os olhos de Minerva se estreitaram. – Por quê?
– Me diga.
Ela o considerou severamente por um longo tempo. – Lílian. Lílian Potter.
Um gosto amargo na boca. – E esta Potter conseguiu um NIEM em Aritmancia?
– Sim, como lhe disse.
– Os outros...
– Eles nem sequer começaram na matéria.
– Diga-me por quê.
Minerva hesitou.
– Minerva.
Minerva olhou para ele, um olhar que ele não conseguia entender. – Hermione aterrorizou a pobre criança, como você fez com o pai dela. A comparação não passou despercebida entre os funcionários e os alunos mais velhos. Ela sempre foi uma pupila apta, Severo.
Seus olhos se estreitaram, mas Minerva levantou a mão. – Você teve suas razões, Severo, e seu ônus.
– Ela também tem o ônus dela – ele disse calmamente. – Pior, eu acho, que o meu.
Minerva ergueu os olhos, assustada.
– Posso? – Ele gesticulou em direção à conexão Flu.
Ela desapareceu das chamas para permitir que ele atravessasse.
Pouco tempo depois, ele estava sentado em frente à mesa da diretora.
– Presumo que haja alguma ligação entre sua pergunta sobre os NIEMs da Gina e o que está acontecendo com a Hermione. Esse... – Minerva procurava a melhor palavra.
– A palavra que procura é "paradoxo", Minerva.
– Paradoxo? – Os olhos dela se arregalaram um pouco, e ela procurou debilmente pela corrente no pescoço.
Ele assentiu. – Devo explicar, é claro; a seriedade da situação requer isso, mas eu tenho algumas perguntas antes, se me permite...?
Ela crispou os lábios – preferiria que as explicações precedessem às próximas perguntas, mas, mesmo assim, gesticulou para que ele perguntasse.
– Depois da batalha final, os Inomináveis testaram as varinhas de todos?
A diretora assentiu. – É claro. Foi necessário, para o relatório deles ao Ministro.
– De todos?
– Exceto a da Hermione.
Ele ergueu uma sobrancelha.
– Estava quebrada – Minerva completou.
Outra sobrancelha – aquele detalhe não estivera em nenhum dos relatos. – Você tem alguma idéia de como?
Minerva deu de ombros. – Ela disse que caiu, bem no final.
– Talvez – ele concordou. – Você pode me dizer o que aconteceu nos momentos finais, Minerva?
Minerva empalideceu um pouco. Nas semanas seguintes à batalha, todos eles só falaram sobre isso, mas depois, um por um, acharam mais fácil deixar as memórias quietas. – Certamente que você se lembra, Severo.
Ele retornou o olhar dela calmamente. – Eu estava um tanto ocupado na hora – disse secamente –, como você deve lembrar.
Ele revelara sua lealdade bem no final, virando-se para Voldemort e matando o corpo mortal dele, assegurando que o confronto final acontecesse na mente do Harry. Lúcio e Belatriz reagiram como ele esperara, atacando-o com fúria selvagem. A única surpresa real foi que ele sobrevivera.
– Eu não vi o duelo, Severo. Minhas atenções estavam…
– No Potter.
Minerva se encontrou presa, mas percebeu que não havia nem acusação nem amargura no tom dele. Relaxando, ela assentiu. – Depois que Rony Weasley caiu, não tenho certeza dos detalhes. – Olhando para baixo, ela disse calmamente: – Eles estavam de costas para mim.
– E como o Sr. Weasley morreu? – ele perguntou calmamente.
Minerva olhou para as mãos, apoiadas na mesa, como se elas não pertencessem a ela e não estivesse bem certa do que eram. Quando falou, sua voz estava apertada. – Isso é necessário, Severo?
Ele respondeu simplesmente: – Sim. – Mas havia algo no tom dele que ela nunca ouvira nele antes. Não era compaixão, exatamente, mas tinha uma espécie de reconhecimento assim mesmo; todos eles tinham suas memórias, e nenhuma delas era fácil.
Ela assentiu seu próprio reconhecimento. – Foi um encantamento de corte.
– Sectumsempra.
Ela assentiu novamente, ainda olhando para as mãos. – Voldemort planejou, eu acho, que o melhor amigo do Harry morresse lentamente. – Ela engoliu em seco. – O que aconteceu.
Severo recostou-se e apoiou a testa na mão. O fato de que inventara o encantamento poderia ser problemático agora. Ele estudou a disposição das pedras no chão.
A voz da Minerva o trouxe de volta ao presente. – De onde eu estava caída, podia ver muito pouco. Hermione pareceu dividida entre ajudar Ronald e ficar com o Harry, depois Harry pareceu titubear...
Severo assentiu. Isso casava com os outros relatos que ouvira ou lera, durante seu julgamento e nas edições passadas do Profeta Diário que recolhera depois que fora solto.
A diretora ainda olhava para as mãos.
– E? – ele perguntou calmamente.
– E Harry não caiu. Ele se endireitou, e estava acabado.
Não estivera, para ele, e talvez nunca esteja, para Granger. – E a Srta. Granger?
– Eu não pude vê-la depois. De acordo com o Ministério, ela foi encontrada agachada no chão, ilesa, com a varinha quebrada ao lado.
– Pelos Inomináveis.
Minerva assentiu.
– Então você não a viu cair?
– Não, Severo. Estava observando o Harry.
Ele assentiu uma vez e ficou quieto por um longo tempo. – Então, depois da batalha...?
– Você não se lembra?
O olhar que ele a dispensou era penetrante.
O rosto dela corou um pouco, e as mãos ergueram-se para pairar a poucos centímetros da mesa. – É claro, você não poderia... os aurores... Peço desculpas.
Ele assentiu, se para aceitar as desculpas ou para que continuasse, ela não estava certa.
Respirando fundo, ela prosseguiu. – Os Inomináveis chegaram, e nós fomos todos levados ao St. Mungus.
– Juntos, ou separadamente?
– Juntos, embora acredite que todos que… que sobraram… fomos todos contatados individualmente, depois.
– Alguém foi selecionado para ter uma atenção especial?
Ela assentiu. – Harry, é claro. Eu mesma. Arthur, Olho-Tonto, e, acho, Bill Weasley.
– Granger?
– Naturalmente. Além do Harry, ela foi a última lutando do nosso lado.
Outro olhar penetrante.
Minerva ficou quieta por um momento. – Eu não vejo o propósito disso, Severo. Os Inomináveis devem tê-lo questionado também.
– Eles não me questionaram.
As sobrancelhas de Minerva se ergueram. – Eu tinha pensado…
– Talvez eu os tenha deixado desconfortáveis – ele disse com facilidade.
As sobrancelhas de Minerva ergueram-se mais ainda. – Tenho certeza, Severo, que eu não desejaria encontrar qualquer bruxo que desconcertasse os Inomináveis. É mais provável que fosse uma questão de jurisdição.
– Provavelmente – ele disse brandamente.
O fato do julgamento e da prisão dele pesou no ar entre eles, ficando sozinho no silêncio, um contraste isolado à série de celebrações e honras que os outros – bem, não desfrutaram, certamente, mas, encarando Severo, Minerva não conseguia fazer-se sequer pensar na palavra "agüentara".
Nenhuma palavra poderia ligar sua Ordem de Merlin e o julgamento dele, nem atravessar o mar frio do norte para penetrar nos muros de Azkaban.
Sua razão insistia que isso estava tudo no passado, só história, mas ela pressentia que o presente o puxara para frente e que também seria sempre agora. Depois de um tempo, durante o qual não houve nenhum som salvo o vento nas janelas, ela lembrou como a conversa deles começara, e perguntou:
– Qual foi a razão para a sua pergunta sobre a Srta. Weasley? Por que os NIEMs dela importariam?
– Ah. – Ele se mexeu na poltrona. – Granger foi professora de Aritmancia durante o último ano dela, sim?
Minerva assentiu. – Ela tratou a estranheza de ensinar os antigos colegas de escola excepcionalmente bem. – O canto da sua boca puxou. O bruxo sentado à sua frente não se saíra nem metade tão bem.
Se ele estava ciente da sua comparação, ele não demonstrou. – Você não acha interessante, Minerva, que a aversão pública da Granger à família Weasley pareceu começar com o casamento?
Minerva tentou entender o que ele queria dizer. – Severo, nunca houve indicação de que Hermione e Harry estivessem de forma alguma...
Ele a cortou com um olhar. – Eu não tenho interesse em romance adolescente, Minerva. – Um dos aspectos de lecionar que ele decididamente não sentia falta. – Estou falando de Horcruxes.
– A pesquisa da Profa. Granger.
Ele assentiu, e ela sentiu-se repentinamente mais gelada.
As próximas palavras dele não fizeram nada para acalmar a sensação de frio. – Alguém já questionou Harry sobre como ele matou o Lorde das Trevas?
– É claro. Todos nós questionamos.
– E a resposta dele?
– Ele disse que Alvo lhe falara algo sobre amor, sobre escolhas.
Ele desconsiderou amor e escolhas com um gesto impaciente. – A explicação que ele deu na autobiografia é irrelevante, Minerva. Refiro-me a como ele explicou para o restante de vocês.
Ela fungou. – Foi assim que ele explicou para nós, Severo. Sentado nessa mesma cadeira, na verdade.
– Amor – ele disse suavemente.
Ela assentiu. – Ele disse que foi assim que pareceu, que Alvo estivera certo.
– E eu estava. – A voz de Alvo flutuou de perto do teto. – Foi amor. No final, o poder do amor foi mais forte em Harry que o fragmento da alma de Voldemort.
Severo virou-se um pouco na cadeira. – E onde entra a escolha, Alvo?
– Não é óbvio, Severo? Que ele escolheu o amor?
– Isso não é vitória, Alvo. Isso é jogar uma moeda para cima.
Uma alusão às vestes de Alvo roçando quando ele abriu as mãos. – Tais momentos são raros, mas tais momentos podem mudar o curso do mundo.
– Ou prevenir a mudança – Severo disse secamente.
– Uma questão de perspectiva.
Severo observou o retrato. – Então você deu uma mãozinha para a sorte naquele último ano com o Potter?
– Fiz o melhor que pude para isso, sim.
Severo franziu a testa e esfregou um dedo ao longo da sobrancelha. Finalmente, ele falou calmamente: – Alvo, tanto a teoria mágica quanto a prática da perícia do encantamento requer que a destruição de uma Horcrux envolva um sacrifício.
– Sim. – A voz vindo da parede era calma.
– Um sacrifício? – Minerva perguntou assustada. Como a maioria da Ordem, o conhecimento dela das Artes das Trevas fora puramente para fins de Defesa; o que você não podia opor, você evitava. Era o alicerce do currículo de Artes das Trevas de Hogwarts.
Severo franziu a testa, e Alvo continuou:
– O sacrifício foi Ronald Weasley, naturalmente. Foi a morte dele que deu a Harry os meios de forçar o que restava de Voldemort para fora da cicatriz.
O franzir da testa de Severo se intensificou.
– Se você acredita ou não, Severo, foi amor.
– Certamente, Alvo; não tenho dúvidas. Mas nenhum de vocês nunca pensou em perguntar de quem? – Novamente, sua voz não carregava nenhuma inflexão de amargura, só um vazio.
Alvo respondeu pacientemente:
– A resposta é óbvia, Severo: do Harry.
Os olhos de Severo brilharam no sol que se punha.
Minerva interpôs:
– Severo, o que você está sugerindo?
– Não sugerindo, Minerva; afirmando. Independente das aparências, não foi o Potter. A pesquisa da Profa. Granger revela que ele não matou Voldemort.
Somente o som do anel de Minerva tinindo na mesa quando ela deixou as mãos caírem quebrou o silêncio do choque.
– O quê? – O sussurro quieto de Dumbledore carregou consigo algo da memória tangível do antigo poder dele.
Não era uma ameaça que Dumbledore usara com freqüência, mas protelou na memória de Severo, e algo nele acordou.
Ele se levantou e andou a passos largos até a janela, algo da velha e mordaz acidez infiltrando-se no seu tom. – Potter não foi o escolhido, a identificação de Granger do encantamento de Horcrux como um processo trifásico prova isso.
– Severo – Minerva protestou debilmente –, não consigo ver o que a pesquisa dela tem a ver com o que aconteceu tanto tempo atrás. O sacrifício de Ronald Weasley deu ao Harry o poder de escolher o amor, assim destruindo a Horcrux na cicatriz. Harry falou; Alvo confirmou.
Ele bufou, virando-se para encará-los. – Potter confirmou a teoria do Alvo, você quer dizer, usando as próprias palavras que Alvo dera a ele para "explicar" algo que ele mesmo não lembra, e não teria palavras para explicar se lembrasse. – A capa ondulou para parar ao redor dele, obscurecendo a luz lânguida. – Alvo estava errado.
Um pequeno tinido quando Alvo removeu os óclinhos e colocou-os na pequena mesa no retrato. – E em qual aspecto da teoria da Profa. Granger você encontra provas para a minha alegada inexatidão, Severo?
Severo sorriu fino. – No fato dela ter uma teoria.
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Nos seus aposentos sem janelas bem abaixo da torre da diretora, o moribundo Horácio Slughorn ofegou uma risada dormindo.
Fazendo vigília à beira da cama, Papoula ergueu os olhos de leve e sorriu tristemente. O que os moribundos sonham – pensou, alcançando para alisar o cobertor. Essa não era a parte mais fácil da sua profissão, mas poderia ser uma parte serena. Sonhos muito melhores são sonhados na calma e paz do que em meio à confusão e à batalha de vinte e dois anos atrás.
Ela ergueu os olhos quando o Barão Sangrento flutuou pela parede, no meio de uma frase. – …spensá-la para o jantar, Madame Pomfrey.
Ela assentiu e levantou-se, alisando as vestes.
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Hermione apertou a pena pelos lados com os dentes e levantou as mãos para torcer o cabelo viciosamente no nó que ficava escapando. Estava na metade da sua introdução, e as palavras na página não se comportavam adequadamente.
O fantasminha a considerava seriamente. Quando a professora ficava brava com o cabelo, era hora de sair por um tempo.
Ela descendeu cuidadosamente por muitos andares de salas de aula e corredores desertos, vindo parar num conjunto de salas que sempre estiveram vazias, para flutuar em frente a um beiral que continha uma estátua pequena de um dragão preto.
Ela gostava de visitar o dragão. Estendeu um dedo cuidadoso e correu-o pelas costas dele.
Ele abriu as asas e piscou para ela.
Foi quase como se pudesse vê-la.
