Capítulo VI — Mata a cobra e mostra o pau
Sempre odiei mentir para a minha mãe. Sou daquele tipo que prefere dizer a verdade para receber anistia logo de início. Aliás, eu e minha mãe nunca tivemos segredos (ou ao menos era o que eu acreditava até ela me dizer que meu pai era um tengu).
Mesmo em ocasiões em que a sabedoria popular garantia que deveria mentir, eu dizia a verdade. Foi por isso que não escondi nada dela. Nem mesmo que eu viajava por um poço para a Era Feudal e procurava fragmentos de uma joia sagrada poderosa na companhia de um hanyou, uma caçadora de youkais e um monge.
Pensando bem... Agora compreendo porque ela absorveu algo bizarro como isso de forma tão calma. Na época eu havia ficado aliviada por ela não ter surtado e não me toquei que era uma aceitação pacífica demais para ser normal. Mas é claro que ela acreditaria! Afinal, havia tido um caso com um youkai e tinha uma filha que era uma hanyou.
Alonguei-me demais na discussão íntima.
A questão é que não foi confortável mentir para ela pela primeira vez. Mas não era por que eu queria esconder algo dela, mas sim porque acreditava que seria mais benéfico para ela não saber que a filha dela quase havia sido assassinada, estuprada, ou coisa pior, como ser obrigada a comer um Giga Pudding.
Apenas disse: "Mãe, Daiki alega que é a semana da consciência tengu e que tenho que ficar na Mansão Corvo por enquanto. Acho que eles vão mandar alguém pegar roupas para mim. Volto para casa assim que eu arquitetar um plano de fuga.". Bem, não necessariamente nessas palavras, mas no resumo foi algo assim.
O segundo motivo do meu desconforto foi que eu estava curando absurdamente rápido. Em um dia, hematomas mais superficiais já estavam extintos e Nagi (o médico psicopata dos tengus) havia dito que estimava minha cura completa em aproximadamente seis dias.
É absurdo que minha perna com um osso fraturado estivesse boa tão rápido, mas agora, já no quarto dia, eu tinha que encarar a dura realidade: eu era uma hanyou.
Sei, sei... Que grande revelação, Kagome!
Sim, eu já havia convencido a mim mesma que era uma hanyou, mas eu não tinha exatamente provas concretas além do fato de ter um pouco de força incomum. Mesmo durante todos esses anos, eu nunca havia percebido sequer que meus ferimentos se curavam rapidamente (eu também nunca quebrei uma perna para perceber).
Quer dizer, de fato, por toda a minha vida os meus ferimentos e queimaduras saravam rápido, mas meu avô sempre dava o crédito disso para suas gororobas medicinais feitas de ervas e secreções nauseantes de animais nojentos. E eu acreditava, de tão completamente inocente que era. Afinal, algo que fedia tanto devia ser eficiente.
Quebrar uma perna, no entanto, era totalmente diferente de pequenos arranhões ou arroxeados. Amigos meus já passaram meses para se recuperar de um dano assim... Como é possível que eu só precise de poucos dias? Resumindo: tudo aquilo em que eu havia acreditado caía por terra e agora me sinto desamparada no mundo. Praticamente a mesma sensação que tive quando descobri que Death Note não era baseado em fatos reais.
Logo no primeiro dia, em razão de eu estar enferma, Nagi havia decretado que apenas Daiki, Hideo e Hiroko (a ruiva estonteante de antes) pudessem ficar no quarto.
Foi Daiki quem mostrou resistência à decisão:
— Como assim a descendente de cruz credo vai ficar cuidando da minha irmã? Eu não deixarei. Essa louca só se aproxima da Kagome se for um cadáver!
— Daiki, cala a boca, se não juro que te surro até moer seus ossos, ok? — Hiroko disse, com os olhos verdes brilhando de desafio irado.
— Você não conseguiria isso nem em mil anos!
— Apenas por que Hideo disse que desconta do nosso salário se houver mortes desnecessárias. — Hiroko respondeu, cruzando os braços na altura da cintura finíssima.
Nagi se pronunciou:
— Então basta provar que a morte do Daiki foi necessária. Às vezes até o Hideo acha isso.
Hideo ficou encarando Nagi e por fim balançou a cabeça, como se dissesse "penso mesmo".
— Nagi, pare de dar ideias para a sua irmã. — Ele se virou para Hideo — E quanto a você, seja menos cretino.
Eles continuaram a discutir, até que Hideo afirmou que eu me sentiria mais confortável se tivesse companhia feminina, já que nenhum macho que morasse naquela casa tinha bom senso necessário para ficar perto de mim naquele momento. Daiki alegou que Aika (lembro vagamente desse nome na conversa feita com papel-adesivo) seria a companhia perfeita, mas Hideo informou que ela havia retornado temporariamente para Sapporo para realizar algumas funções do Senhor do Norte que foram delegadas para ela. Nisso Nagi virou para mim e disse "ela é a consigliere", numa tentativa de me integrar na conversa.
Bem, não serviu de muita coisa. Não faço ideia do que seja uma consigliere — alguns anos mais tarde eu descobri que isso fazia referência ao filme "Poderoso Chefão", no qual meu pai era completamente viciado.
Enfim, isso aconteceu no primeiro dia.
E eu percebi muitas coisas nos dias que se seguiram.
Um. A criadagem tinha um respeito quase que assustador por mim. Nenhum criado me encarava e todos estavam sempre pedindo perdão até por respirar.
Dois. Eu gostei de Hiroko. Ela é linda, engraçada e foi muito gentil comigo — embora não com o meu irmão, ela realmente odeia o Daiki.
Três. Nagi é irmão da Hiroko, mas é psicopata e nem de longe tão legal quanto ela. Ele sempre faz comentários que deixam as criadas exasperadas — como afirmar que eu odiava o cheiro de lavanda quando elas trouxeram algumas ervas para aromatizar o quarto; as coitadas ficaram tão desesperadas que mal sabiam como pedir desculpas e eu fui incapaz de desmentir a história, com medo de que eu fosse à próxima vítima de todo aquele talento para o mal que Nagi tinha.
Quatro. Daiki precisa de uma namorada melosa. Urgentemente. Eu o amo, mas também não precisa fazer um escândalo cada vez que eu disser que sinto dor.
E, por último, Hideo não apareceu nos quatro dias que se seguiram. E eu intimamente sabia que o motivo disso era sua promessa de que lembraria aos hebis a razão de os tengus serem temidos.
Quando finalmente saí daquele "quarto de hospital", senti alívio por finalmente estar andando e livre daquela rotina de cama e sacada que fui obrigada a ter pelo meu irmão hiper/ultra/über protetor Daiki. Era prazeroso, inclusive, estar caminhando, meio mancando, pelo corredor da "Mansão Corvo", seguindo o protetor que esbanjava um sorriso amplo, que eu estava incerta se achava adorável ou não.
Ele segurou minha cintura quando precisamos descer pela escadaria. Eu disse que minha perna já estava boa, mas ele insistiu, dizendo que aquilo era necessário. Mais alguns passos e ele parou na minha frente, alargando ainda mais aquele sorriso (não pensei que fosse possível), estendeu os braços como se fosse um apresentador de televisão e falou em uma voz ensaiada e incrivelmente falsa:
— Agora, lhe apresento: seu novo quarto. — Ele abriu a porta de carvalho e se adiantou, entrando no cômodo. Soltei um suspiro, pronta para começar meu discurso sobre o fato de eu não ir morar naquela mansão, mas meu queixo caiu quando entrei no recinto.
Era espaçoso, de fato, mas nada gigantesco que desse a impressão de ser requintado demais. Era aconchegante. Com tapetes felpudos de cor bege e móveis de madeira vermelha envernizada. Uma cortina negra deixava o quarto escuro, o que tornava o efeito das luminárias de cor levemente amarelada ainda mais acentuado.
— Gostou? — Daiki perguntou ansioso.
Calei a confirmação excitada bem a tempo. Temi que dizer sim àquela pergunta seria o mesmo que aceitar morar naquela casa e em nenhum momento eu havia dito isso.
Apenas fiquei encarando Daiki.
— Não gostou? — ele perguntou, agora com expressão desolada. Maldito, como ele consegue ser tão fofo?
— O quarto é lindo.
— Então você gostou. Sabia que gostaria. — Ele sorriu e me abraçou.
— Mas eu não vou usá-lo muito, não sei porque colocar tantas coisas pessoais, como livros de medicina. — comentei ao constatar uma pequena estante perto da mesa onde havia um notebook.
— Hideo me deu a missão de fazer sua mudança. — Daiki sorriu — Não conversei com a sua mãe... Achei que você ia querer fazer isso, mas ela deixou que eu trouxesse alguma coisa para deixar você confortável. Então... Quando posso ir lá pegar o resto?
Arregalei os olhos.
— Você ignorou o que eu te disse? Eu não vou morar aqui! — exclamei.
— O que foi que você falou? — Sua voz estava tão distante que não consegui entender.
— Daiki!
— Oi? Alguém me chama? — Ele colocou a mão em minha nuca e me puxou contra o peito fazendo meu nariz ser esmagado. — Ouço vozes do além... Papai, é você?
Comecei a protestar, mas minha voz era abafada pelo peito de Daiki. Maldito, tem um peito firme que nem pedra. Comecei a ficar sem ar (hanyous morrem sufocados?) e esperneei até que ele afrouxasse o aperto.
Arfei.
— Eu. Não. Vou. Morar. Aqui. — disse, respirando entre as palavras.
Daiki me encarou com as sobrancelhas vincadas e me soltou para colocar a mão na cintura, numa pose intimidadora.
— Você vai, sim. Eu te avisei, lembra? Não nos meteríamos, desde que não precisássemos. Minha irmã foi caçada por cinco dos melhores guerreiros dos hebis... Isso é motivo para intervirmos, está bem? — Ele rolou os olhos — Sem falar que o Hideo ameaçou meus países baixos, caso você não estivesse confortavelmente estabelecida na casa. Eu até pedi ajuda daquela mocreia da Hiroko quanto à decoração do quarto. Faça meu sacrifício valer a pena!
— Eu não tenho nada a ver com seus problemas pessoais com a Hiroko e não vou morar aqui e ponto.
— Vai morar.
— Vai me obrigar?
— Vou te comprar... Qual o seu preço?
— Não estou à venda.
— Todos tem um preço. Diga, quer um pônei?
— Por que eu iria querer um?
— Sei lá... Eu sempre achei que garotinhas gostassem de pôneis.
— Você acha que tenho quantos anos?
— Mentalmente ou fisicamente?
— Calado.
Ficamos quietos, ambos tentando respirar depois do bate-e-volta. Esses youkais são todos teimosos ou será que eu sou azarada de só encontrar gente assim? Sei que isso pode parecer capricho da minha pessoa, mas eu estava completamente desesperada com aquilo! Era impossível deixar de me sentir desconfortável quando alguém parecia tomar decisões por mim. Eu não queria me separar da minha família, que mal há nisso?
Em meios às minhas divagações, Daiki usou o golpe mais sujo e capcioso de toda a história de minha existência. Ele simplesmente olhou para um ponto atrás dos meus ombros esboçando aquele seu sorriso singelo de criança que estava aprontando e falou, animado:
— Viu, você duvidou que eu fosse capaz, mas fico muito eficiente quando algo envolve uma mulher gostosa e a deixar confortável.
Virei para a direção para a qual ele estava olhando. Era Hideo, que simplesmente resmungou um "com licença" e caminhou pelo quarto.
— Ficou aceitável. — Hideo disse olhando Daiki, que não se abalou com o comentário pouco animado.
— Kagome gostou, ela está fazendo doce para admitir, mas vejo em seus olhos. Será ótimo tê-la conosco, não acha? Para mimarmos nossa irmãzinha como se deve.
Hideo me olhou e depois para Daiki, foi quando ele simplesmente assentiu com a cabeça.
Tipo foi como um sonho.
Exagero? Não. Não quando se trata daquele tengu que dava medo concordando com algo que o outro tengu que dava nos nervos havia dito. Poderia ser efeito da medicação que Nagi havia me dado, ou sei lá, mas eu realmente acho que vi o meu irmão nervosinho-medonho concordar que iria me mimar?
— Está hesitando em aceitar morar conosco, Kagome?
— Como? — Balancei a cabeça levemente e voltei atenção a Hideo, ele franziu o semblante demonstrando que não repetiria a pergunta. — Não há necessidade para isso.
— Se não houvesse, não estaríamos fazendo isso, mais algum argumento?
— É exage...
— Algum argumento plausível que não seja embasado em sua teimosia? — Engoli em seco e fiz que não com a cabeça. — Ótimo, está decidido, iremos conversar com sua mãe pela manhã. Por ora, aproveite as acomodações... Daiki.
— Estou indo. Ah, é! Sem acesso a sites pornôs! Vou te vigiar, hem, menina!
— Ela não é você, Daiki. — resmungou Hideo, puxando Daiki para fora do quarto. Eles fecharam a porta quando saíram e eu me joguei na cama, derrotada.
Meus irmãos me levaram para falar com a minha mãe. Este era o sexto dia. Nagi estava certo em suas predições. E eu não queria falar com a minha mãe. Não com eles.
Minha mãe ficou toda sem jeito quando os dois entraram em casa — apesar de cinco meses atrás ela praticamente ter expulsado os dois do templo, o que me faz pensar o quanto uma mulher pode mudar de ideia por causa do charme masculino. Enfim, lá estava eu com aqueles dois sentados me tendo entre eles, enquanto mamãe servia chá com um sorriso abobado, comentando o quanto estava feliz por me ver tão íntima dos meus irmãos.
Acho que só o desejo de dar uns tapas na cara da própria mãe não é pecado... Ou é... Sei lá. Ainda me revolta essa mudança de lado da mamãe. Será que Hideo ou o Daiki a seduziram em minha ausência? Analisei os dois. Certo, mesmo comigo presente eles seriam capazes de seduzi-la. Na verdade, não duvidaria nada se eles conseguissem seduzir a mim.
— Nós queremos que a Kagome venha morar conosco. — disse Hideo. Ele nem preparou o terreno! Foi simplesmente jogando a bomba na minha mãe. Tão sutil quanto aqueles jurados de programas dereality show que falam que a mulher é gorda e peluda sem qualquer consideração com a pobre, destruindo seus sonhos de adolescente.
Encarei minha mãe, preocupada que ela tivesse um surto psicótico. Nesse momento, nem me lembrei da esperança de ela negar veemente minha mudança. Mas tudo caiu por terra. Minha expectativa foi lindamente destroçada quando ela disse:
— Eu já estava me preparando mentalmente para isso. — Mamãe sorriu tristemente para mim — Ao menos espero que você continue nos visitando, Kagome.
Como assim se preparando mentalmente para isso, criatura?
Que mãe é essa que eu tenho que se prepara mentalmente para ter sua filha tomada de seus braços por dois homens... Lindos, claro... Ok, ser tomada da mãe por homens nesse padrão de beleza não é tão ruim assim, mas isso não vem ao caso. Meu queixo estava levemente caído, meus olhos arregalados; Daiki empurrou meu queixo para cima, fechando minha boca.
— Está tudo bem para a senhora? — questionei incrédula.
— Kagome, chega um momento na vida das mães que elas precisam deixar os filhos saírem do ninho.
— Kagome é uma hanyou tengu, a analogia caiu como uma luva.
— Cala boca, Daiki. Mãe, a senhora não deve ter entendido, eles querem...
— Eu entendi filha. Assim como entendo que deve haver motivos para que seus irmãos tenham tomado tal decisão.
— De fato, há. — pronunciou-se Hideo.
— Se há motivos tão latentes que os façam tomarem essa decisão, devo apenas confiar no julgamento deles. Eu tenho que dar crédito a eles, já que mesmo depois de tudo, mantiveram a promessa de seu pai de não procurá-la até que fosse necessário. Se agora é imperativo, quem sou eu para impedir?
Minha batalha estava perdida. Eu estava indo morar com meus irmãos e ninguém ia fazer nada para impedir, nem mesmo minha própria mãe.
Entramos na Mansão Corvo. Minha expressão era completamente desoladora. Estava tão anestesiada que nem mesmo percebi a estranheza de encontrar sete tengus nos esperando na porta (deles, reconheci apenas Hiroko), todos vestidos em quimonos negros com obis brancas.
Hideo foi quem me explicou:
— Vamos sair. Aika chegou hoje pela manhã e ela ficará com você enquanto saímos em uma missão. — Encarei-o, sem entender realmente o que ele queria dizer, até que ele se virou para Daiki — Executor... Estamos de saída.
— Sim, meu senhor. — Mais uma vez, lá estava a obediência atípica da parte de Daiki. Dessa vez não estranhei. Pouco a pouco eu percebia que todo mundo tratava meu irmão mais velho de duas formas totalmente diferentes, de acordo com a ocasião. A maior parte do tempo ele era só "Hideo". Mas havia algo assustador na forma como era tratado o "Senhor do Norte".
— Vamos? — chamou Hideo e então todos os tengus se movimentaram para o jardim, muito além de onde eu podia ver. Logo ouvi o som de asas batendo e percebi que eram os tengus alçando voo.
— Eles vão caçar qualquer serpente que esteja diretamente envolvida no seu ataque. Hideo quer deixar o Senhor do Leste completamente aterrorizado. Depois, o Senhor do Norte irá sozinho atrás do Senhor do Leste, mas aí o Senhor das Serpentes não terá nenhum guerreiro ao seu lado. Estará completamente sozinho. — A voz feminina e melodiosa que disse isso atrás de mim pertencia a uma mulher aparentemente da minha idade, com olhos azuis como os meus e cabelos negros. Quase pulei, de susto. Essa tengu poderia facilmente se passar por minha irmã, e ninguém negaria tal fato. Ela sorriu para mim — Eu sou Aika, prima de Daiki e Hideo.
Ah, então esta era a Aika.
— Ehr... Prazer em conhecê-la. — eu disse, sorrindo de leve, sem saber como me portar — Você é a consigliere. Ou ao menos foi isso que Nagi me disse.
Ela rolou os olhos.
— Não deveria confiar no Nagi. Esse é um... apelido... dado pelo tio... Bem, seu pai. — Ela sorriu gentilmente mais uma vez — Teoricamente falando, eu sou o braço direito do seu irmão, Hideo. — O sorriso deslumbrante se tornou ligeiramente triste — Excetuando, é claro, quando diz respeito a lutar ao lado dele. Você deve ter percebido como os tengus têm tendência a serem superprotetores. Enfim, vamos entrar? Devemos aproveitar o tempo sozinhas para eu te contar todos os segredos sórdidos do Daiki.
Por algum motivo, eu acho que vou gostar da Aika.
Eu estava no jardim, pensando em como seria estranho ficar morando naquela "Mansão Corvo", quando ouvi o som de asas batendo antes mesmo de vê-lo pousando suavemente na grama.
Na última vez que vi Hideo em sua forma youkai, eu estava particularmente desesperada demais para notar o quanto a forma demoníaca dos tengus podia ser assustadora. Surpreendi-me ao perceber que as asas negras, forradas de penas lustrosas, começaram a se contorcer e se retrair, assim como o bico negro no rosto do meu irmão.
Voltar à forma humana parecia algo doloroso, mas a expressão de Hideo continuava extremamente serena.
Quando por fim ele havia voltado ao normal, eu tive algum estado de espírito para notar os detalhes que haviam passado despercebidos. Como a camisa social rasgada e o sangue escurecido que estava espalhado nela.
Eu finalmente olhei o rosto do meu irmão, e percebi que ele me observava, mas não apenas em análise, como também com receio e preocupação, como se imaginasse que eu fosse desmaiar apenas de ficar frente a frente com a prova de que ele esteve envolvido em algo que provavelmente levara à morte de alguém.
Se meus irmãos soubessem que eu já estava praticamente saturada de ver esse tipo de coisa... Que o tempo que passei ao lado de Inuyasha me tornou mais fria para lidar com a morte de youkais.
— Não existem mais serpentes, nem Senhor do Leste. — Ele informou devagar, analisando como eu receberia tal notícia.
Sorri suavemente para o meu irmão.
—Não sou tão frágil quanto pareço. — afirmei.
Hideo me analisou por alguns segundos, e então sorriu de leve, enquanto respondia:
— Então você se acostumará rapidamente a ser uma Tsubasa.
E talvez ele estivesse certo.
