Pálidos raios de sol penetravam no quarto e, relutante, Kagome virou-se na cama. Não importava o quanto dormisse, muito ou pouco, sempre acordava aturdida e desorientada. Enquanto Souta pulava da cama sentindo-se desperto e em plena forma, ela primeiro tinha de se recostar nos travesseiros e permanecer sentada por uma meia hora até despertar por completo.
Por outro lado, Souta começava a disfarçar bocejos já às dez da noite, horário em que Kagome estava mais desperta do que nunca, pronta para jogar cartas ou bilhar, ou ler por mais algumas horas. Assim, adequou-se perfeitamente à temporada de Londres, quando as pessoas dormiam pelo menos até o meio-dia, permanecendo acordadas madrugada afora. A noite anterior havia sido uma rara exceção.
Ela sentia a cabeça como um peso morto sobre os travesseiros, quando obrigou-se a abrir os olhos. Na mesinha ao lado da cama havia uma bandeja com seu desjejum habitual: um pequeno bule com chocolate quente e uma fatia de torrada com manteiga. Suspirando, Kagome forçou-se a ir em frente com o ritual do despertar: agarrou-se à cabeceira da cama e forçou o corpo para cima, até recostar-se nos travesseiros; depois, lançou um olhar vago para as próprias mãos, como a querer que ganhassem vida Própria e alcançassem a xícara com o chocolate quente e restaurador.
Naquela manhã, precisou de mais força de vontade do que de costume pois sentia uma desconfortável dor de cabeça, além da incômoda impressão de que algo perturbador havia acontecido.
Ainda presa naquele estágio entre o sono e o despertar, removeu a toalhinha de croché que cobria o bule de porcelana e encheu a xícara. Só então se lembrou e sentiu o estômago revirar: naquele dia, um atraente homem de cabelo castanho estaria à sua espera no chalé dos lenhadores. Esperaria por uma hora e depois partiria... porque ela não iria aparecer. Não podia. Definitivamente, não podia!
As mãos tremeram um pouco quando levou a xícara aos lábios e naquele instante Berta irrompeu no quarto, com uma expressão preocupada que logo se transformou num sorriso aliviado.
— Ah, ainda bem... Já começava a imaginar se você estava doente!
—Por quê? — Kagome quis saber antes de beber um gole do chocolate. Estava gelado.
— Porque não consegui acordá-la e...
— Que horas são,Berta?
— Quase onze.
— Onze horas! Mas eu lhe disse para me acordar às oito! Como pôde me deixar dormir tanto? — Ainda zonza de sono, Elizabeth tentava pensar numa solução. Poderia vestir-se bem depressa e alcançar o grupo. Ou...
— Eu bem que tentei! — Berta exclamou, ressentida com a rispidez pouco característica na voz da patroa. — Mas você não queria acordar.
— Eu nuncaquero acordar, Berta. Você sabe disso melhor do que ninguém!
— Mas esta manhã estava ainda pior do que o normal. Disse que estava com dor de cabeça.
— Eu sempre digo coisas assim. Não sei o que falo, quando estou dormindo, e sou capaz de qualquer coisa para ganhar mais uns minutos de sono. Você me conhece há anos, e sempre conseguiu me despertar.
— Mas desta vez você disse — Berta insistiu, torcendo a barra do avental com um ar infeliz — que estava chovendo muito, ontem à noite, e que certamente o passeio ao vilarejo seria cancelado. E, por isso, não precisava levantar.
— Berta, pelo amor de Deus! — Kagome gemeu, afastando as cobertas e pulando da cama com uma energia que jamais demonstrara após um período tão curto de despertar. — Eu já cheguei a lhe dizer que estava morrendo de difteria, para obrigá-la a me deixar dormir mais um pouco, e nem isso adiantou!
— Bem — a criada retrucou, marchando em direção da campainha para que trouxessem água para o quarto —, naquela ocasião você não estava pálida, e tampouco seu rosto estava quente quando o toquei. E você também não havia se arrastado para a cama antes de uma da manhã, como aconteceu ontem.
Arrependida da explosão, Kagome tornou a sentar na cama.
—Não é sua culpa se durmo feito pedra. Além disso, se o passeio ao vilarejo foi cancelado, não faz diferença alguma se dormi demais.
Tentava resignar-se com a ideia de passar o dia inteiro presa naquela casa, perto de um homem capaz de fazer seu coração disparar com um único olhar, quando Berta falou:
— Mas eles foram ao vilarejo. A tempestade de ontem à noite foi rápida: mais barulho do que chuva.
Cerrando os olhos por um instante, Kagome soltou um longo suspiro. Eram onze horas, o que significava que InuYasha já iniciara a espera inútil no chalé.
— Muito bem, então irei a cavalo até o vilarejo e me encontro com o grupo. Não é preciso tanta pressa — acrescentou, quando Berta correu para abrir a porta e duas criadas entraram carregando baldes de água quente para o banho.
Passava de meio-dia e meia quando Kagome desceu as escadas, trajando um alegre conjunto de montaria cor de pêssego. Um chapeuzinho combinando, com uma pluma no lado direito, escondia-lhe o cabelo, e as luvas de couro cobriam-lhe as mãos e os pulsos. O som de vozes masculinas vinha da sala de jogos, atestando o fato de que nem todos os convidados haviam se decidido pelo passeio. Ela hesitou um pouco ao chegar ao vestíbulo, sem saber se deveria ou não espiar na sala de jogos e verificar se InuYasha retornara do chalé. Porém, tendo certeza de que isso acontecera, e não desejando vê-lo, virou-se na direção oposta e saiu da casa pela porta da frente.
Esperou alguns minutos no estábulo, enquanto os cavalariços lhe selavam um cavalo, mas seu coração parecia bater mais depressa a cada segundo, enquanto a mente a atormentava com a imagem de um homem solitário esperando no chalé por uma mulher que não chegaria.
—A senhora vai precisar da companhia de um lacaio, milady? —um dos cavalariços indagou. — Não tem ninguém aqui, no momento, pois foram todos acompanhar a excursão ao vilarejo. Mas alguns deles devem voltar em uma hora, mais ou menos, se a senhora quiser esperar. Se não, a estrada é segura e sem qualquer perigo. A patroa sempre cavalga sozinha até a vila.
A coisa que Kagome mais queria era galopar em seu alazão por uma boa estrada, e deixar todo o resto para trás.
— Não é necessário, irei sozinha — disse, sorrindo ao cavalariço com a mesma amigável doçura que dedicava aos criados em Havenhurst. — Nós passamos pelo vilarejo, no dia em que chegamos... fica no final da estrada principal, a cerca de oito quilômetros daqui, não é?
—Isso mesmo — o cavalariço concordou.
Naquele instante, um relâmpago iluminou o céu pálido e Kagome ergueu os olhos, ansiosa. Embora não quisesse ficar na casa, a perspectiva de ser apanhada por uma tempestade de verão também não era das mais animadoras.
— Duvido que chova antes do anoitecer — afirmou o criado ao vê-la hesitar. — Nesta época do ano estes relâmpagos são muito comuns. A senhora não viu, ontem à noite? Muitos relâmpagos e trovões, mas não caiu nem uma gota de chuva.
Era daquele incentivo que Kagome precisava.
A chuva começou a cair quando ela havia percorrido dois quilômetros de estrada.
— Ah, que ótimo... — desabafou desolada. Obrigou o cavalo a parar e examinou o céu.
Depois bateu com as esporas no lombo do animal e seguiu em frente, num rápido galope. Porém, minutos depois, começou a perceber que o vento, que até bem pouco não passava de uma brisa, subitamente soprava com força suficiente para vergar os galhos das árvores, enquanto a temperatura baixava com rapidez vertiginosa. A chuva ficou mais forte, caindo em grandes gotas que logo se transformaram numa torrente contínua. E quando avistou a trilha que saía da estrada principal em direção ao bosque, Kagome já estava quase ensopada. Procurando um abrigo entre as árvores, guiou o cavalo pela trilha. Ali, pelo menos, as árvores lhe dariam uma pequena, embora precária, proteção.
Relâmpagos explodiam no céu, seguidos pelos trovões ensurdecedores e, a despeito da previsão do cavalariço, ela concluiu que uma grande tempestade estava se formando, e prestes a decibar. O animal também pressentia o fato mas, embora se assustasse a cada trovoada, permanecia dócil e obediente.
— Que cavalo bonzinho você é...— Kagome disse com suavidade, afagando o pescoço aveludado do animal. Mas seus pensamentos se dirigiam ao chalé que sabia ficar no final daquela trilha.
Mordeu o lábio, indecisa, tentando calcular a hora: devia ser mais de uma da tarde, e portanto InuYasha Taisho há muito teria ido embora.
Nos poucos instantes que permaneceu parada sob as árvores, tentando analisar suas alternativas, chegou à conclusão óbvia de que estava exagerando demais a importância que aquele encontro teria para InuYasha. Na noite anterior, tinha visto com seus próprios olhos a maneira como ele flertava com Tsubaki, apenas meia hora depois de tê-la beijado no caramanchão. Não tinha dúvidas de que representara apenas um passatempo para ele. E como fora melodramática e estúpida, ao imaginá-lo andando de um lado para outro no chalé, esperando a porta se abrir... Afinal, ele não passava de um jogador e, provavelmente, um conquistador inveterado.
Não duvidava que ele tivesse desistido da espera ao meio-dia e voltado para a casa, em busca de uma companhia menos relutante, que encontraria sem grandes problemas. Por outro lado, na remota possibilidade de ele ainda estar no chalé, ela veria seu cavalo. Então simplesmente daria meia-volta e retornaria à mansão.
Avistou o chalé alguns minutos depois. Encravado no bosque úmido, era uma visão acolhedora. Forçou os olhos, tentando enxergar através das árvores densas e da neblina que as encobria, procurando sinais da montaria de InuYasha. Com o coração disparando de expectativa e temor, examinou a frente do chalé coberto de sape, mas logo percebeu que não havia motivo para tanto alarme. O lugar estava deserto. Ali estava o resultado do súbito e profundo carinho que ele sentira por ela, pensou com sarcasmo, recusando-se a analisar a estranha e dolorosa sensação que a invadia.
Desmontou do cavalo e levou-o para os fundos, onde encontrou um abrigo em que poderia amarrá-lo.
— Você já percebeu como os homens são imprevisíveis? — falou ao animal. — E como as mulheres são tolas por acreditar neles? — acrescentou, ciente de seu inexplicável desapontamento.
Sabia muito bem que estava sendo completamente irracional, não pretendera ir até ali, não quisera que ele a estivesse esperando e, agora, estava prestes a chorar por não encontrá-lo!
Com um gesto impaciente, desamarrou o laço que prendia o chapéu e tirou-o ao mesmo tempo em que abria a porta do chalé. Entrou e... ficou gelada!
Parado no lado oposto da pequena sala, de costas para ela, estava InuYasha Taisho. Observava o fogo crepitando na lareira, mantendo a cabeça levemente inclinada, as mãos apoiadas na cintura da calça de montaria cinza, um pé apoiado no gradil. Havia tirado a casaca, e sob o tecido leve da camisa, os músculos moveram-se quando ele levantou o braço direito e passou a mão pelo cabelo. O olhar de Kagome seguia cada movimento, reparando na beleza máscula dos ombros largos, das costas musculosas, da cintura estreita.
Alguma coisa na maneira sombria como InuYasha se postava além do fato de estar esperando-a por mais de duas horas levou-a a refletir sobre a importância do encontro para ele. Fez isso antes de olhar para o lado e ver a mesa: com um aperto no peito, percebeu todo o trabalho que ele tivera. Uma toalha de linho creme cobria o tampo rústico, e dois lugares haviam sido arrumados, com peças de porcelana azul e dourada, evidentemente emprestadas da casa de Tsubaki. No centro da mesa uma vela fora acesa, e uma garrafa de vinho pela metade jazia ao lado de um prato com carne fria e queijos.
Em toda a sua vida, Kagome nunca imaginara que um homem pudesse arrumar uma mesa e preparar um almoço. Essa tarefa cabia às mulheres. As mulheres e aos criados.
Pareceu-lhe que estava ali por muito tempo, e não apenas alguns segundos, quando finalmente InuYasha enrijeceu o corpo, pressentindo sua presença. Ele se virou e o rosto sombrio suavizou-se com um sorriso.
— Você não é muito pontual.
—Não tinha intenção de vir — ela admitiu, lutando para recobrar-se eignorar a reação que os olhos e a voz dele lhe causavam. — Começou a chover, quando eu estava a caminho do vilarejo.
— Está toda molhada.
— Eu sei.
— Venha para perto do fogo.
Vendo-a permanecer onde estava, fitando-o com um olhar vago, InuYasha resolveu se aproximar. Kagome parecia colada ao chão, ouvindo ressoar em sua mente o eco de todos os terríveis avisos de Kaede sobre ficar a sós com um homem.
— O que quer? — perguntou, ofegante, encolhendo-se sob a sombra dele.
— Seu casaco.
— Não... acho que prefiro ficar com ele.
— Tire — InuYasha insistiu. — Está molhado.
— Não se aproxime! — ela gritou, correndo em direção da porta e prendendo o casaco em torno de si.
— Kagome — ele disse, tranqulizando-a , eu lhe dei minha palavra de que você estaria segura, se viesse ao meu encontro.
Ela fechou os olhos e assentiu.
—Eu sei. Também sei que não deveria estar aqui. Preciso ir embora, neste exato instante. É o que devo fazer,não é? — Abriu os olhos, fitando-o confusa. A seduzida pedindo conselhos ao sedutor!
— Nestas circunstâncias, não creio que eu seja a pessoa adequada a lhe responder.
— Vou ficar — ela afirmou após um momento, e percebeu a tensão dele se atenuar.
Desabotoou o casaco e entregou-o a ele, juntamente com o chapéu. InuYasha levou-os para perto do fogo e pendurou-os em pregos na parede.
— Fique junto à lareira — ordenou, encaminhando-se para a mesa e servindo dois copos de vinho, enquanto verificava se ela obedeceria.
A parte da frente dos cabelos de Kagome estava úmida, pois não fora protegida pelo chapéu. Num gesto automático, ela levantou os braços e, retirando os pentes que prendiam as mechas nas laterais do rosto, sacudiu a massa negra de cabelos. Inconsciente da sedução de cada um de seus movimentos, penteou os cabelos com os dedos e tornou a prendê-los com os pentes.
Voltou a olhar para InuYasha, reparando que ele ficara como que paralisado ao lado da mesa, observando-a. Alguma coisa na expressão dele a obrigou a baixar os braços depressa, quebrando a magia do momento.
Percebendo a dimensão exata do risco a que se expunha, Kagome estremeceu. Afinal, não conhecia aquele homem, encontrara-o pela primeira vez havia apenas algumas horas. E ainda assim, ele a fitava de uma maneira... íntima demais. Possessiva demais.
InuYasha entregou-lhe o copo de vinho e indicou o sofá surrado que ocupava quase toda aminúscula sala.
— Se você já se aqueceu, sente-se um pouco. O sofá está limpo.
Forrado com um tecido listrado de verde e branco, agora transformado numa mescla de tons acinzentados, o móvel era sem dúvida um refugo da casa principal.
Kagome sentou-se o mais longe possível de InuYasha, e cruzou as pernas sob a saia do traje de montaria, a fim de aquecê-las. Ele lhe prometera que ela estaria "segura" - agora percebia que a promessa poderia ser interpretada de diversas formas.
— Se vou ficar aqui — disse, apreensiva —, acho que devemos concordar em observar todas as convenções e atitudes apropriadas.
— Tais como...?
— Bem, para começar, o senhor não deveria estar me chamando pelo primeiro nome.
— Considerando-se o beijo que trocamos ontem à noite, parece-me absurdo chamá-la de srta. Higurashi. E gostaria que você me chamasse de InuYasha.
Era um bom momento para informá-lo de que era LadyHigurashi, mas estava perturbada demais com a lembrança dos inesquecíveis - e proibidos - momentos que passara nos braços dele para preocupar-se com este detalhe.
— Isso não vem ao caso — disse, com firmeza. — A questão é que não podemos permitir que o que aconteceu ontem à noite influencie nosso comportamento de hoje. Hoje devemos... devemos nos comportar duas vezesmais corretamente — completou um tanto desesperada e ilógica. — Devemos compensar nosso comportamento de ontem.
—É assimque se faz? — indagou ele com um brilho divertido no olhar. —Sabe, não imaginei que você permitisse que as convenções comandassem cada um de seus atos.
Para um jogador sem vínculos nem responsabilidades, as regras de etiqueta e as convenções sociais deveriam ser extremamente cansativas. Então Kagome concluiu que eraimperativoconvencê-lo da importância de seu ponto de vista.
— Ah, mas é assim que eu sou — mentiu, evasiva. — Os Higurashi são as pessoas mais convencionais deste mundo! Como já lhe disse ontem, acredito que a morte seja preferível à desonra. Também acreditamos em Deus, em nosso país, na maternidade, no rei e... e todas as outras convenções apropriadas. Na verdade, nossa atitude, em tais questões, chega a ser tediosa.
— Entendo — ele disse, curvando os lábios de leve. — Diga-me uma coisa: como uma pessoa assim, tão convencional, foi capaz de enfrentar uma sala repleta de homens, apenas para proteger a reputação de um estranho?
— Ah, aquilo... Bem, aquilo foi apenas... uma demonstração do meu senso de justiçaconvencional.Além do mais — acrescentou, sentindo a raiva renovar-se ao lembrar a cena na sala de jogos —, fiquei muito zangada ao perceber que o único motivo que impediu aqueles homens de dissuadirem Lorde Everly de duelar foi o fato de o senhor não pertencer à mesma classe social deles, como acontece com Everly.
— Está falando de igualdade social? — Ele abriu um sorriso largo e devastador. — Mas que ideia estranha, vinda de alguém tão convencional como você!
Kagome sabia que caíra na armadilha.
—Para dizer a verdade — confessou, trémula —, estou morrendo de medo por estar aqui.
— Eu sei — ele disse, ficando sério. — Mas sou a última pessoa do mundo a quem deve temer.
Aquelas palavras, e o tom em que foram ditas, levaram o coração de Kagome a disparar novamente. Ela bebeu um bom gole de vinho, rezando para que a bebida pudesse acalmá-la. Percebendo sua tensão, InuYasha mudou de assunto:
— Tem pensado muito a respeito da injustiça cometida contra Galileu?
Ela balançou a cabeça.
—Devo ter parecido uma tola, ontem à noite, falando em como foi errado julgá-lo diante da Inquisição. Foi uma coisa absurda para se conversar, especialmente com um cavalheiro.
— Pois para mim foi uma alternativa alentadora às costumeiras e insípidas trivialidades.
— Achou mesmo?— ela perguntou, os olhos procurando os dele num misto de incredulidade e esperança, sem perceber que estava sendo levada a esquecer seus temores e engajar-se numa conversa bem mais amena.
— É claro que sim.
— Eu gostaria tantoque a sociedade pensasse assim... —Ele sorriu, solidário.
— Há quanto tempo tem sido obrigada a esconder o fato de que possui um cérebro?
— Quatro semanas — ela admitiu, rindo um pouco das palavras dele. — O senhor não pode imaginar como é horrível ter de conversar apenas trivialidades com pessoas a quem se deseja muito indagar sobre coisas que viram, ou que conhecem. E, se por acaso forem homens, eles não respondem mesmo, nem quando lhes pergunto...
— E o que dizem? — InuYasha encorajou-a.
— Dizem que a resposta está muito além da compreensão feminina... ou que temem ofender minha sensibilidade.
— Que tipo de perguntas você andou fazendo?
Os olhos de Kagome mostravam uma mescla de riso e frustração.
— Perguntei a Sir Elston Greeley, que acabara de retornar de uma longa viagem, se havia ido até as colônias, e ele respondeu que sim. Porém, quando eu lhe pedi para me descrever os nativos, e como viviam, ele tossiu, embaraçado, e disse que não era "apropriado" conversar sobre "selvagens" com uma dama, e que eu seria capaz de desmaiar se ele o fizesse.
— A aparência e o modo de vida deles dependem de cada tribo — InuYasha começou a falar, em resposta à pergunta. — Algumas tribos podem ser consideradas "selvagens" pelos nossos padrões, e outras são pacíficas, julgadas por seja qual for o padrão...
Duas horas voaram enquanto Kagome o enchia de perguntas, ouvindo fascinada as histórias de lugares que ele conhecera. Nem uma vez sequer InuYasha recusou-se a responder ou fez pouco caso de seus comentários. Tratava-a como a um igual e parecia gostar quando ela discordava de algumas de suas opiniões.
Haviam acabado de almoçar e retornado ao sofá e, embora soubesse que já passara da hora de partir, Kagome relutava em pôr um fim naqueles momentos roubados.
—Não posso deixar de pensar — confidenciou, quando ele acabou de responder a uma pergunta sobre as mulheres da índia, que eram obrigadas a cobrir os rostos e cabelos em público — em quanto é injusto eu ter nascido mulher e que, portanto, jamais terei a chance de viver tais aventuras, ou conhecer pelo menos alguns desses lugares. Se eu partisse numa viagem para a índia, por exemplo, só me permitiriam ir a locais tão civilizados quanto... quanto Londres!
— Realmente, parece que existe um caso de extrema discriminação dos privilégios, no que se refere aos sexos — InuYasha concordou.
— Ainda assim, cada um de nós tem de cumprir sua obrigação — declarou ela com grande solenidade. — E dizem que há uma grande satisfação quando o dever é cumprido.
— O que você considera sua... ahn... obrigação? — perguntou ele, retribuindo seu tom cortante com um sorriso dos mais cândidos.
—Ora, isso é fácil. É obrigação da mulher ser uma boa esposa para o marido, em todos os sentidos. E é obrigação do homem fazer tudo o que quiser, quando quiser, contanto que esteja preparado para defender seu país, caso seja necessário, o que raramente acontece. Os homens — informou-o — adquirem a honra pelo sacrifício de si próprios nos campos de batalha, enquanto que nós,mulheres, nos sacrificamos no altar do matrimônio.
Ele riu gostosamente e ela sorriu-lhe de volta, divertindo-se com o tom de mofa do próprio discurso.
—E pesando todos os prós e contras — concluiu —, pode-se provar que nosso sacrifício é, de longe, o maior, e muito mais nobre.
—Como? — ele indagou, ainda rindo.
— É bastante óbvio: as batalhas duram apenas alguns dias ou semanas, meses, no máximo. Enquanto que o casamentodura uma vida inteira! Isso me faz lembrar de algo em que sempre pensei. — ela prosseguiu alegremente, expondo-lhe seus mais íntimos pensamentos.
— O que é? — incentivou ele, fitando-a embevecido.
— Afinal, por que será que nos chamam de sexo frágil? — Seus olhares sorridentes se encontraram, e só então Kagome percebeu como seus comentários poderiam parecer ousados aos olhos dele. — Você — acrescentou, pois finalmente cedera à insistência dele para chamá-lo pelo primeiro nome — deve estar me achando terrivelmente mal-educada.
— Estou achando você magnífica.
A sinceridade contida nessa afirmação tirou o fôlego de Kagome. Ela abriu a boca tentando encontrar algo divertido para falar, algo que restaurasse a fácil camaradagem de um minuto atrás, mas tudo o que conseguiu foi aspirar o ar, longa e profundamente.
— E — InuYasha continuou, baixinho — acho que você sabe disso. — Aquele não era o tipo de comentário lisonjeiro que ela estava acostumada a ouvir dos rapazes de Londres. E o brilho sensual que agora transparecia nos olhos de InuYasha a deixou totalmente aterrorizada. Afastando-se um pouco mais contra o braço do sofá, tentou convencer-se de que estava apenas exagerando sua reação a algo que não passava de mais um elogio fútil.
— Pois eu creio — conseguiu falar, afinal, com um risinho forçado — que você considera "magnífica" qualquer mulher que esteja ao seu lado.
— Por que diz isto? —Ela deu de ombros.
— A ceia de ontem, por exemplo. — Quando ele franziu a testa, sem entender, ela explicou: — Lembra-se de Lady Tsubaki Dumont, nossa anfitriã, uma adorável jovem senhora de cabelos castanhos? Você parecia ouvir embevecido cada palavra que ela pronunciava.
Ele sorriu.
— Está com ciúmes?
Kagome ergueu o queixo e balançou a cabeça.
— Tanto quanto você tem ciúmes de Lorde Howard — afirmou, sentindo uma pontinha de satisfação ao ver que a alegria dele desaparecera.
— O sujeito que parecia incapaz de falar com você sem tocar seu braço? — InuYasha indagou, com voz sedosa. — Aquele Lorde Howard? Para ser franco, meu amor, passei a maior parte do jantar tentando decidir se preferia enfiar o nariz dele embaixo da orelha direita ou da esquerda.
Ela rompeu num riso tão espontâneo que não pôde contê-lo.
— Ora, você jamais faria uma coisa dessas. Além do mais, se não aceitou duelar com Lorde Everly quando ele o acusou de trapaça, certamente não faria mal algum ao pobre Lorde Howard, apenas por ele ter tocado meu braço.
— Será que não? — ele perguntou com suavidade. — São duas questões bem diferentes.
Não pela primeira vez, Kagome não conseguiu compreendê-lo. De repente, a presença dele tornou a representar uma ameaça. Sempre que InuYasha parava de agir com a divertida galanteria, transformava-se num estranho sombrio e misterioso. Afastando o cabelo da testa, ela olhou pela janela.
—Já devem ser mais de três horas. Preciso ir embora. — Levantou-se, ajeitando a saia. — Obrigada por uma tarde tão agradável. Nem sei por que fiquei aqui, não deveria, mas... estou contente por ter ficado...
Sem mais o que dizer, Kagome olhou-o vagamente alarmada quando ele também se levantou.
— Não sabe mesmo? — InuYasha perguntou.
— O quê?
— Não sabe por que ainda está aqui comigo?
— Nem mesmo sei quem é você! Sei sobre os lugares onde esteve, mas nada sobre sua família, sua gente. Sei que aposta enormes somas de dinheiro nas cartas, e isso é algo que desaprovo...
— Também aposto muito dinheiro em navios e cargas... Será que este fato melhora o meu caráter aos seus olhos?
— E eu sei — ela prosseguiu, quase em desespero, observando o olhar dele tornar-se mais quente e sensual —, aliás, tenho certeza absoluta de que você me deixa muito constrangida, quando me olha da maneira como está fazendo agora!
— Kagome... está aqui porque nós dois estamos meio apaixonados um pelo outro.
— O quê ?– ela ofegou.
— E quanto à necessidade de saber quem eu sou, a resposta é muito simples. — Asmãos dele acariciaram-lhe o rosto pálido e,depois, deslizaram até a nuca, segurando-a com delicadeza — Eu sou o homem com quem você vai se casar.
— Ah, meu Deus!
— Creio que é tarde demais para começar a rezar — brincou ele.
— Você... deve estar louco! — ela murmurou, trêmula.
— Sim, é exatamente o que eu penso — InuYasha sussurrou e, inclinando a cabeça, pressionou os lábios em sua testa. Puxou-a contra o peito, abraçando-a como se soubesse que ela iria lutar, se tentasse avançar mais. — Não estava nos meus planos, srta. Higurashi.
—Ah, por favor... — ela implorou, transtornada. —Não aja assim comigo, eu não entendo nada disso... Não sei o que está querendo...
— Quero você. — Segurando-lhe o queixo entre os dedos, InuYasha obrigou-a a erguer o rosto e encarar seu olhar firme. — E você também me quer.
Kagome sentiu o corpo todo estremecer quando os lábios dele aproximaram-se dos seus, e tentou adiar o que sabia ser inevitável.
— Uma inglesa bem-criada não sente nada mais forte do que afeição —argumentou, citando uma das frases de Kaede. Nós nuncanos apaixonamos.
Os lábios quentes de InuYasha tocaram os dela.
— Eu sou escocês — ele murmurou. — Nós nos apaixonamos.
- Um escocês! — ofegou ela quando ele afastou os lábios. Ele riu, diante da expressão apavorada.
—Eu disse "escocês", não "assassino".
Um escocês que, ainda por cima, era um jogador inveterado! Havenhurst seria entregue aos credores, os criados seriam despedidos, e todo o seu mundo ruiria em pedaços.
— Eu não posso, não possome casar com você!
— Pode, Kagome — ele sussurrou. — Você pode, sim.
Os lábios dele roçaram a orelha de Kagome e, com a ponta da língua, InuYasha tocou-lhe o lóbulo, antes de traçar delicadamente cada curva, cada reentrância, até que Kagome estremeceu, sentindo ondas de tensão cobrirem seu corpo. Assim que sentiu a reação de medo, InuYasha abraçou-a com mais força, amparando-a contra si enquanto penetrava a língua em sua orelha. As mãos acariciavam a nuca com sensualidade, e ele passou a beijá-la desde o pescoço até os ombros. Com a respiração quente contra os cabelos dela, ele sussurrou:
— Não tenha medo... Posso parar quando você quiser que eu pare.
Aprisionada no abraço protetor, tranquilizada pela promessa e seduzida pela boca e pelas mãos acariciantes, Kagome colou-se a ele, deslizando para o abismo do desejo para onde ele a levava.
InuYasha passou a beijá-la pelo rosto inteiro e, quando seus lábios tocaram o canto dos dela, Kagome inclinou a cabeça, entregando-se inteira ao beijo. Aquela doce oferenda fez com que ele gemesse baixinho, numa mescla de dor e prazer, e a beijou com um desejo avassalador, que beirava a loucura.
De repente, ele a tomou no colo e a carregou até o sofá, mantendo os lábios colados aos dela enquanto se inclinava sobre ela. A língua traçava uma linha ardente sobre seus lábios, insistindo para que ela os entreabrisse, e no instante em que ela cedeu, penetrou em sua boca, agressiva e suave ao mesmo tempo. Kagome arqueou-se, sensações primitivas tomando conta de seu corpo, e, sem pensar, ela se rendeu ao esplendor tempestuoso daquele beijo. Acariciou as costas musculosas enquanto seus lábios se moviam contra os dele num abandono crescente.
Uma eternidade se passou antes que ele finalmente afastasse o rosto. Ambos respiravam ofegantes. Quase sem sentidos, Kagome retornou à superfície da realidade após aquele mergulho no paraíso sensual em que haviam estado. Com dificuldade, obrigou os olhos pesados a se abrirem para olhá-lo.
Estendido ao seu lado no sofá, InuYasha permanecia inclinado, com o rosto tenso de paixão, os olhos brilhantes. Erguendo a mão, afastou ternamente uma mecha dos cabelos negros da face de Kagome. Tentou sorrir, mas sua respiração ainda estava tão pesada quanto a dela.
Sem fazer ideia do esforço que ele fazia para manter a paixão de ambos sob controle, Kagome viu-o soltar um suspiro.
— Não faça isso — ele avisou com voz enrouquecida. — Não olhe para minha boca como se a quisesse outra vez sobre a sua.
Ingênua demais para esconder os sentimentos, ela o encarou, vendo o desejo estampado nos olhos castanhos. InuYasha respirou fundo e, cedendo à tentação, com delicadeza instruiu-a a demonstrar o que queria:
— Coloque as mãos em torno do meu pescoço — murmurou.
Kagome obedeceu e ele tornou a beijá-la. Finalmente percebendo que aquela posição era bem melhor, pressionou-lhe a nuca com mais força. Mesmo ansiando pelo beijo, Kagome sentiu um choque quando ele recomeçou a carícia que lhe provocava uma sensação doce e indescritível. Desta vez, foi ela quem tocou-lhe a boca com a língua; ao senti-lo estremecer, seus instintos lhe disseram que havia provocado nele um grande prazer.
Mas InuYasha afastou-se, brusco.
— Não faça isso, Kagome — pediu.
Em resposta, ela aumentou a pressão das mãos, colando o corpo contra o dele. InuYasha beijou-a com uma paixão crescente mas, ao invés de lutar, Kagome arqueou o corpo, penetrando a língua na boca masculina. Podia sentir o coração dele disparando contra os seios, e InuYasha passou a beijá-la com uma intensidade ainda maior, descontrolada. Suas línguas se encontravam, tocando-se e afastando-se num ritmo excitante que a fazia sentir-se prestes a explodir. A mão de InuYasha deslizou até um de seus seios e cobriu-o num gesto de posse que a fez pular, chocada.
— Não... — ele murmurou, contra seus lábios. — Por Deus, ainda não...
Ela ficou estática, assustada com o tom urgente da voz dele, e InuYasha ergueu o rosto, olhando com ansiedade a parte de cima de seu vestido. Apesar do protesto sussurrado, as mãos estavam imóveis. Mesmo imersa numa onda de sensações conflitantes, Kagome percebeu que ele honrava a promessa que lhe fizera, de parar quando ela pedisse. Incapaz ela mesma de parar, ou de encorajá-lo, baixou os olhos para as mãos firmes e bronzeadas antes de tornar a mergulhar nos olhos cor de âmbar. Viu o calor intenso com que ardiam. Com um gemido inaudível, aconchegou-se a ele.
Era todo o encorajamento de que InuYasha precisava. Seus dedos moveram-se sobre os seios de Kagome, embora continuasse fitando-a, observando a maneira como aquele lindo rosto refletia primeiro o medo e, depois, o prazer. Para Kagome, os seios, até agora, haviam sido como as pernas: possuíam uma função prática. As pernas eram para andar, e os seios para erguer e preencher o corpete de um vestido. Jamais imaginara que pudessem lhe provocar tais sensações e, enquanto era beijada, limitou-se a ficar prostrada, quieta, enquanto InuYasha abria a blusa, puxava o corpete para baixo e desnudava-lhe os seios diante de seu olhar ardente. Num gesto automático, ela tentou cobri-los, mas InuYasha baixou o rosto devagar, distraindo-a enquanto lhe beijava as mãos e, depois, levando um de seus dedos à boca e sugando-o. Ela enrijeceu, temerosa, e puxou a mão, mas InuYasha já encontrara o seio e fazia a mesma coisa com seu mamilo. Uma onda selvagem de prazer a invadiu, e ela gemeu, agarrando-se à maciez dos cabelos dele, sentindo o coração aos saltos e a mente enviando-lhe o aviso urgente para que o obrigasse a parar.
InuYasha passou a beijar o outro seio, com os lábios fechando-se em torno do mamilo rígido, e Kagome arqueou o corpo, pressionando-lhe a nuca com mais força. Subitamente, ele levantou o rosto, admirando com carinho os seios rosados. Suspirou.
— Kagome, nós temos de parar.
Os sentidos transtornados começaram a voltar à tona, lentamente no início e, depois, com uma violência dolorosa. A paixão deu lugar ao medo e, em seguida, à vergonha angustiante ao perceber que estava deitada nos braços de um homem, com o corpete aberto, o corpo exposto ao seu olhar e ao seu toque. Fechando os olhos, tentou lutar contra as lágrimas e afastou a mão dele, erguendo-se para se sentar.
— Deixe-me levantar, por favor — sussurrou, sentindo a voz embargada com o nojo de si mesma.
Sentia a pele arder quando começou a fechar o corpete, e no instante em que InuYasha se afastou um pouco, ela levantou-se de um salto.
Virando-se de costas para ele, abotoou a blusa com as mãos trêmulas e pegou o casaco perto da lareira. InuYasha movia-se tão silenciosamente que ela nem sequer percebera que também havia se levantado, até que as mãos dele pousaram em seus ombros tensos.
— Não tenha medo do que existe entre nós, Kagome. Eu vou cuidar de você...
Toda a angústia e confusão que ela sentia explodiram num jorro de fúria que, embora dirigida a si mesma, foi lançada contra ele. Desvencilhando-se, virou-se para encará-lo.
— Cuidar de mim? — gritou. — Cuidar como? Vai atirar-me num buraco na Escócia, onde ficarei prisioneira enquanto você se finge de cavalheiro inglês e perde no jogo tudo o que possui...?
— Se tudo correr como espero — ele interrompeu, com calma —, serei um dos homens mais ricos da Inglaterra, no período de um ou dois anos, no máximo. E, mesmo que isso não aconteça, ainda assim cuidarei de você.
Kagome pegou o chapéu e afastou-se dele, tomada de um pavor que era em parte por ele, em parte por sua própria fraqueza.
— Isto é loucura. É completa loucura. — Virando-se, caminhou para a porta.
— Eu sei...
Kagome abriu a porta, mas parou, quando ele voltou a falar:
— Se você mudar de ideia, depois que partirmos, amanhã, poderá me encontrar na casa de Hamummd, em Londres. Fica na rua Upper Brook e estarei lá até quarta-feira, quando devo partir para uma viagem à índia. Ficarei longe até o inverno.
— Eu... espero que faça boa viagem - ela disse, abalada demais para pensar no agudo aperto que sentiu no peito à simples ideia de perdê-lo.
— Se mudar de ideia a tempo — ele brincou —, eu a levarei comigo.
Ela saiu correndo, aterrorizada com a doce segurança que ouviu na voz dele. Enquanto galopava através da densa neblina e sobre a grama molhada, já não era mais a jovem confiante esensata que havia sido antes; ao contrário, era uma garotinha assustada, sucumbindo sob uma montanha de responsabilidades e convenções que lhe haviam ensinado que a louca atração que sentia por InuYasha Taisho era algo sórdido e imperdoável.
Quando deixou o cavalo na estrebaria e viu, com um horror paralisante, que o grupo de convidados já havia retornado do passeio ao vilarejo, não pensou em mais nada, exceto enviar um recado a Souta, implorando para que fosse buscá-la ainda naquela noite, e não no dia seguinte.
Kagome ceou em seu quarto, enquanto Berta arrumava suas malas, e teve todo cuidado de evitar aproximar-se da janela, de onde avistava o jardim. Nas duas vezes em que olhou para fora, havia deparado com InuYasha, lá em baixo. Na primeira, ele estivera parado sozinho no terraço, com um charuto preso entre os dentes e o olhar perdido no horizonte, e aquela postura solitária lhe provocara um aperto doloroso no coração. Na outra vez em que o viu, ele estava cercado de mulheres que não estiveram presentes no baile da noite anterior - recém-chegadas à casa, ela supôs -, e todas as cinco pareciam achá-lo irresistível. Disse a si mesma que não se importava com ele, não podia importar-se... tinha suas obrigações para com Souta e Havenhurst, que sempre viriam em primeiro lugar. Apesar do que InuYasha achava, não podia unir seu futuro com o de um jogador imprudente, mesmo se fosse o escocês mais atraente que já existira - e talvez o mais gentil.
Cerrou os olhos com força, tentando afastar tais pensamentos. Era uma grande estupidez ficar pensando em InuYasha, e muito perigoso, também. Pois Kikyou e alguns dos outros convidados pareciam desconfiar de seu interlúdio à tarde. Cruzando os braços em torno do peito, Kagome estremeceu ao lembrar-se de como quase fora denunciada pelo seu próprio sentimento de culpa, quando entrara na casa.
— Meu Deus, você está toda molhada! — Kikyou exclamara, ao vê-la. — O cavalariço disse que você ficou fora a tarde inteira. Não vá me dizer que esteve perdida na chuva todo esse tempo!
— Não, eu... encontrei um chalé no meio do bosque, onde me abriguei até a chuva parar, há pouco. — A resposta lhe parecera a mais acertada pois, enquanto o cavalo de lan estivera fora das vistas, o seu permanecera perfeitamente visível, se alguém tivesse se dado ao trabalho de verificar.
— E a que horas foi isso?
— Creio que uma hora, mais ou menos.
— Por acaso não encontrou o sr. Taisho, enquanto esteve fora? — Kikyou indagara, com um sorriso malicioso, e todos os convidados presentes no salão haviam se virado para ouvir a resposta. Sem se abalar, ela juntou: — Um dos cavalariços disse que viu um homem alto e de cabelos escuros, montado num belo garanhão negro, indo na direção do chalé dos lenhadores. Presumiu que fosse um convidado, e por isso não questionou sua presença naqueles arredores.
— Eu... não o encontrei — Kagome respondera. — Havia... muita neblina. Espero que não tenha ocorrido nenhum contratempo com ele.
— Bem, não temos muita certeza, pois ele ainda não voltou. Tsubaki está preocupada, embora eu tenha lhe assegurado de que não precisa ficar assim. — Kikyou a observara com atenção, antes de prosseguir: — Soube que as criadas da cozinha prepararam um lanche para duas pessoas, que ele levou quando saiu.
Afastando-se um pouco para dar passagem a um casal, Kagome havia explicado a Kikyou que decidira partir naquela noite, em vez de no dia seguinte, e sem lhe dar a chance de questionar seus motivos, desculpara-se depressa, retirando-se em seguida para seu quarto.
Com um único olhar no rosto pálido de Kagome, Berta adivinhara que alguma coisa muito errada acontecera. E teve confirmada a intuição quando a jovem insistira para que um mensageiro levasse o recado para Souta vir buscá-la ainda naquela noite. No momento em que Kagome enviara o recado ao irmão, Berta já conseguira lhe arrancar uma boa parte da história. E Kagome foi forçada a passar o restante da tarde e o início da noite tentando acalmar a criada.
