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VI
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Ele caminhava pela rua apinhada de gente, rápido o suficiente para parecer apressado, mas não desesperado. A temporada natalina de compras estava em pleno movimento, e as lojas ostentavam longas fieiras de ouropel, enfeitadas com figuras de anjos e minúsculos pinheiros de Natal. Havia quinze minutos que o céu fechara e começara a soprar uma brisa fria, e ele caminhava por entre uma multidão de pessoas, um par de sapatos engraxados numa das mãos. Eram sapatos simples, porém elegantes, e brilhavam como novos. Nan Melda os usava apenas para algumas poucas ocasiões, geralmente para ir aos chás da igreja ou quando alguma família vinha buscar uma criança no orfanato. Ele os segurava firmemente em sua mão, como se fossem a única coisa que o mantivesse são. A pulsação entre suas pernas não havia parado, como ele inocentemente supusera de início. Pelo contrário, piorara – a cada passo que dava, o raspar áspero do jeans em sua virilha a havia tornara quase impossível de tolerar.
Ele caminhava apressadamente em direção à parada de ônibus mais próxima que, oh, ainda estava tão distante.
Não dá, pensou, se recostando num poste de luz. Preciso parar um pouco, senão vou enlouquecer.
Ele deu uma profunda respiração, soltando-a num hausto trêmulo, o frio do metal contra o fogo de seu rosto, resistindo ao incontrolável desejo de tocar seu centro e dar um fim àquilo, resistindo – o mais que podia – ao pânico selvagem que destruía seu autocontrole. Resistindo, mas ele se perguntava até quando.
Gritos chegaram aos seus ouvidos, e ele viu um grupo de crianças se amontoando em frente a uma vitrine. Havia um grande cartaz anunciando a SUPER PROMOÇÃO DE INAUGURAÇÃO e QUALQUER BARRA DE CHOCOLATE POR $0,25. Era uma loja de doces.
Ele se aproximou cuidadosamente. Atrás da vitrine, havia o que parecia ser uma enorme ampola de vidro dentro de uma bacia, com quase dois metros de altura. Acima, um balde gigante estava suspenso por várias cordas douradas, uma das quais pendia frouxamente em direção ao chão. Segurando sua ponta, estava um Papai Noel enorme, não gordo, mas quase tão alto quanto a ampola. Ele sorria, mostrando dentes manchados de nicotina, um sorriso que não chegava aos seus frios olhos azuis.
Ele acenou e, em seguida, com esforço visível (dava para ver o seu rosto avermelhar progressivamente), começou a puxar a corda, arrancando gritos de exaltação da criançada. O balde foi virando devagar, e começou a derramar uma cascata de chocolate líquido diretamente dentro da ampola de vidro. Splosh.
Itachi sentiu seu baixo-ventre pulsar ameaçadoramente.
O chocolate ia acumulando-se em dobras cremosas, brilhantes, quase sedosas sob as luzes da vitrine. Ele observava, quase hipnotizado, à medida que seu estômago contraía-se com uma sensação branca e quente que começava a ampliar-se através de seu corpo, como o volume ia aumentando e aumentando, enchendo em direção às bordas.
Vai transbordar, pensou com fascinada aflição, se continuar assim, vai...
E ele notou que era isso mesmo que iria acontecer – metade da ampola estava cheia daquele chocolate líquido e macio, que continuava a subir – cada vez mais rápido – elevando-se – crescendo – atingindo – -
E derramando.
Gozou sem que fizesse nada, nem ninguém sequer encostar nele. Tudo o que ele fez foi agarrar os sapatos em suas mãos, a cabeça pendendo para frente, e gemer, enquanto o ferrão de mel de seu primeiro orgasmo fazia seus nervos vibrarem e obliterava seu pensamento consciente (mas não a consciência em si).
Ninguém notou. As crianças gritavam excitadas, mãozinhas pequenas deixando marcas na vitrine, quando o balde entornou por completo, e Papai Noel, um gigante vindo das terras desoladas do Polo Norte, virou-se para acenar.
- Não percam nossas ofertas de inauguração, criançada! – ele clamava em um sistema de auto-falantes e o som amplificado não era apenas jovial, mas de certa forma terrível, como o riso de um maníaco que surgisse dentro da noite, empunhando um facão de açougueiro, em vez de presentes. – Chocolate! Jujubas! Chicletes de todos os sabores! Pirulitos do tamanho de bolas de futebol! E! MUITO! MAIS!
As crianças estavam ao ponto da histeria, e Itachi cambaleou para trás, percebendo que deixara os sapatos caírem no chão sem dar-se conta. Ele os juntou, e um sopro de vento passou ligeiro por ele, arrepiando por completo e deixando os pelos de sua nuca em posição de sentido.
Sentia-se horrível. Cabeça pesada, nariz entupido, coração acelerado e, por algum motivo, dor na coluna. Porém, as pulsações haviam parado. Sentia-se úmido lá em baixo, e a urgência de voltar para casa assolou-o. Retornou à sua caminhada, passando por entre as pessoas ao som de "Santa Claus is Coming to Town", na versão de Springsteen. Estava assustado, exausto, havia um martelar incessante em sua cabeça e ele estava molhado, pegajoso, recendendo a febre por fora, a visão desfocada mostrando apenas o segundo-plano da realidade: brilho, ouropéis, luzes.
Parando para pensar, foi uma sorte ele ter sido capaz de fazer o caminho até o orfanato. Um diabo de sorte.
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Incapaz de parar quieto, Shisui rondava o orfanato com passos nervosos, o semblante tão tenso que chegava a lhe dar um ar sério. Subia e descia as escadas, passava por entre os brinquedos no pátio dos fundos, abria o portão e ficava longos minutos observando o final da calçada, mas Itachi não chegava. Da sua cadeira de balanço na varanda, Nan Melda o olhava como se ele tivesse ficado louco.
Talvez eu esteja, mesmo, e riu para si mesmo, algo frenético. É, não é tão impossível assim.
De volta ao quarto (Sempre de volta ao quarto, pensou amargamente, no final, tudo sempre volta para cá), sentou-se nas camas. Talvez ele devesse ir fazer os deveres de Tópicos da História Americana – a Sra. Kurenai não estava exatamente feliz com sua participação em aula, mas Shisui achava que até mesmo ela tinha de admitir que Duzentos Anos de Desenvolvimento e Crise não era um tema muito interessante para se debater no primeiro período da manhã, quando o cérebro ainda está tentando retornar à terra dos sonhos.
Shisui deixou as costas baterem no colchão. Nan Melda estava falando alguma coisa nas escadas, possivelmente ralhando com alguma criança. Olhou pela janela o céu que ficara carregado de nuvens escuras e frias de inverno. Estaria totalmente escuro dentro de trinta, talvez vinte minutos, e ele pensou em ir dizer à Nan Melda que iria sair para procurar Itachi, quando a voz dela foi ficando mais clara:
-... ter voutado cuando si apercebeu que naum tava beim! Sabia que o rádio tá tagareiando o dia inteiru pru conta da nevi que vai tê di noiti?
Em seguida, a porta se abriu e ali estava a governanta, com o braço em torno dos ombros estreitos de Itachi. Shisui levantou-se num pulo, mal acreditando no estado do amigo. Os cabelos desgrenhados pelo vento, a pele, normalmente de uma palidez bonita, agora doentiamente branca, contrastando contra o profundo vermelho das maçãs do rosto, os olhos ardendo como lâmpadas.
- Itachi, o quê...?
- Sai da frente, Shisui – ordenou Nan Melda.
Empurrando-o para o lado, ela foi em direção ao armário e o escancarou.
Shisui alcançou Itachi e pôs as mãos em seu rosto, sentindo-as sacudirem com os tremores.
- O que houve? – murmurou. – O que você está sentindo?
Itachi não respondeu. Tinha os olhos baixos. Ele nunca, jamais, havia evitado o olhar de Shisui. Nunca.
- Chega di conversa mole – falou Nan Melda, fechando o armário. Tinha uma toalha numa mão e um pijama na outra. – Queru que tu enfie ele dibaixo dum chuveiro morno, e o segure lá. Eu vou passá na farmácia 24 hora, num demoro muito.
Ela atirou as coisas para ele e saiu, deixando os dois sozinhos. Shisui ficou parado, um pouco atordoado, segurando a toalha e o pijama. Ouviu os sons de dentes batendo levemente, e viu que Itachi tinha os braços cruzados sobre o peito, as mãos segurando os cotovelos.
- Ei – disse, pondo a mão em seu ombro. – Vem, vamos para o banheiro.
A cabeça dele tremeu mais violentamente, e Shisui supôs que ele estivesse concordando.
Ligou o chuveiro numa temperatura um pouco mais quente – Nan Melda dissesse o que quisesse, mas ele não iria colocar Itachi debaixo de água meramente morna com o rádio prevendo neve para a noite. Logo o vapor começou a subir.
- Quer ajuda para tirar a roupa?
Itachi balançou a cabeça numa negativa, e começou ele mesmo a despir-se. Tirou a camiseta juntamente com o blusão, e Shisui viu os pelinhos macios das costas e da barriga ficarem arrepiados. Ele se viu relembrando aquela outra noite de tantos anos atrás, quando Itachi havia chegado ali pela primeira vez. Não havia sido naquele mesmo banheiro? Não, fora no andar de baixo, mas ele podia sentir o déjà-vu.
Itachi desafivelou o cinto e estava abaixando as calças quando travou o movimento.
- O que foi? – Shisui perguntou. – Você está se sentindo bem?
- Sim, é que... – Shisui teve a impressão de que o vermelho do rosto dele se intensificou ainda mais. – Você se importaria de virar-se?
Shisui o olhou durante alguns poucos segundos. Ainda nada de Itachi lhe olhar nos olhos.
- Claro que não – falou, a voz vazia de emoção. – Sinta-se à vontade.
Deu meia-volta, ficando de cara para a porta. Ouvia o farfalhar das roupas de Itachi deixando-lhe o corpo e mordeu o lábio, sem saber o que sentir. Era assim que as coisas seriam dali para frente? Não havia nada em Itachi que Shisui já não houvesse visto e vice-versa. Aquele súbito acesso de vergonha se devia ao quê? Ao fato de que Shisui gostava dele? Será que Itachi tinha medo de que o amigo o olhasse de alguma maneira indecente? Ou pior, que sua nudez conduzisse Shisui a violentá-lo?
Jesus. Meu bom Jesus.
O ruído macio das roupas sendo jogadas no cesto de roupa suja e uma interferência no som contínuo da água caindo.
- Pode virar.
Shisui voltou-se. Ele estava sentado dentro da banheira, esticando-se para pegar uma embalagem de xampu. Shisui a alcançou e a entregou a ele. Itachi começou a lavar-se com movimentos lentos e trêmulos dos braços e das mãos, e Shisui sentou-se no vaso sanitário, as mãos juntas entre as pernas, observando o piso ladrilhado.
Depois de um tempo, o barulho da água voltou a ficar contínuo. Ele olhou e viu Itachi abraçado nas pernas, o rosto enterrado nos joelhos.
- Ei – disse, inclinando-se em sua direção. – Ei.
Itachi não respondia, apenas continuava a tremer. Shisui pensou então que Nan Melda talvez tivesse mesmo razão, e esfriou um pouco a água.
- Não – disse Itachi, e Shisui poderia jurar pela sua voz que ele estava chorando. – Não, por favor, não...
- Desculpe, Itachi, mas temos que baixar a sua temperatura, senão...
Um soluço cortou suas palavras, e a frase morreu. Sem sombra de dúvidas, Itachi estava chorando, e Shisui simplesmente não soube como agir. Desde que chegara ao orfanato, Itachi nunca mais chorara, e a sensação de que estavam de volta àquele dia ia ficando mais e mais forte.
Itachi tentou se levantar, mas Shisui o deteve colocando as mãos em seus ombros. Ele ainda tentou se desvencilhar, mas estava demasiado trêmulo e enfraquecido pela febre para obter algum sucesso. Os olhos dele, vermelhos e inchados, encontraram os seus, e ao invés de
(confortá-lo beijando-o)
fazer alguma besteira, Shisui abraçou-o.
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O manteve ali durante pelo menos vinte minutos. Ele também ficou encharcado, obviamente, contudo ele estava muito distraído com a respiração resfolegante do amigo no seu ouvido para realmente se importar com aquilo.
Amparou-o ao saírem da banheira. Perguntou se queria ajuda para secar-se, mas Itachi dispensou-o. Ele também colocou o pijama sozinho, equilibrando-se precariamente na beirada da pia. No quarto, depois de Shisui trazer mais três cobertores de outros quartos (um deles do ruivinho que espancara anos atrás, pensou com satisfação), Nan Melda chegou e deu à Itachi um copo com águas e duas aspirinas super-fortes.
- Dois agora, dois mais tardi – disse, colocando a cartela em cima do criado-mudo.
Itachi engoliu os comprimidos e, em seguida, Shisui enrolou os três cobertores em volta dele, como se fossem túnicas, e o deitou na cama.
Nan Melda chegou para ele e disse:
- Nada de escola aminhã. Naum, tu fica quieto, num mi interrompi! Tu vai ficá de cama, tá entendendo? Quandu u sol nascê, vamu tê nevi até os tornozeiu, e a num sê que tu quêra murrê, tu num vai saí daqui.
Itachi grunhiu alguma coisa. Ela ainda ficou alguns segundos olhando-o, antes de sair.
Shisui, já vestido com seu próprio pijama, deitou ao lado dele. Itachi o olhava, os olhos repletos de uma névoa brilhante – a febre, teimando em partir –, e ele retribuía o olhar.
- Como você está? – sussurrou.
- Horrível – Itachi sussurrou de volta.
- Daqui a pouco, a aspirina vai começar a fazer efeito. Procure dormir.
Itachi continuava encarando-o sem ao menos piscar, através da luz espessa em suas íris acinzentadas, luzindo como brilhantes.
- Ei – disse Shisui –, dorme, tá bom?
Ele abriu lentamente os lábios, e deles saiu o pedido mais incrível, atordoante, impossível de todos os mundos e galáxias e universos além do plano da realidade:
- Beija-me, Shisui?
Já fazia um tempo que começara a nevar lá fora, pequenos flocos desfeitos misturados ao chuvisco, perolando o vidro da janela, maculando as luzes alaranjadas dos postes de luz na rua, e Shisui se perdeu no som pegajoso e misterioso da neve caindo. Ouvira correto, não ouvira? As palavras foram claras, sem nenhum barulho ali dentro para abafá-las ou torná-las confusas. Então, Itachi estava delirando, não?
- Por que eu deveria? – perguntou, em uma voz tão sem entonação e falha, que mal conseguiu identificar como sua.
- Porque eu quero – respondeu ele, tão baixo que era quase inaudível. – E porque você quer também.
E a coisa era que Shisui o beijou. O beijou ciente que Itachi não estava raciocinando direito por causa da febre; ciente que estava se aproveitando do delírio dele; ciente que contra o prazer, a culpa e o remorso não tinham chance alguma.
O beijou devagar, com gosto, sem saber quando – nem se – teria outra oportunidade como aquela. Por isso acariciou os lábios úmidos e febris de Itachi com os seus, fazendo carinho com a boca, sentido o gosto dele, ninando-o lentamente.
Os minutos se arrastaram. Shisui afastou-se quando a respiração de Itachi tornou-se regular, e ficou observando o semblante adormecido dele, as bochechas coradas, os lábios vermelhos.
Suas pálpebras caíram um pouco, pesadas com o sono se aproximando.
- Shisui.
Ele olhou-o, mas Itachi continuava com seus olhos fechados.
- O quê?
- Desculpe ter estragado nossa ida ao cinema.
Levou uns dois segundos para Shisui entender do que ele estava falando, e não conseguiu conter o riso. Depois de tudo, o "encontro" que eles haviam marcado era uma sombra numa das esquinas da sua memória.
- Não esquenta com isso.
- Era um filme que você queria muito ver?
- Não – Shisui disse, abraçando o casulo de cobertas no qual o amigo estava recolhido. – Nem lembro como era o nome. Punhos Perigosos. Mãos Voadoras Mortais. Talvez seja Genitais Furiosos, sei lá. Algum desses filmes violentos pra fazer as mocinhas vomitarem.
Ele produziu um longo ruído, "mmmmh", e então estava verdadeiramente adormecido, respirando suavemente pela boca entreaberta.
Shisui fechou os olhos, sentindo o corpo pesado e quente sob as cobertas, a friagem do quarto no rosto acima, e dormiu sem acreditar que estava conseguindo dormir depois do que fizera, e tão profundamente.
