Controle. Descontrole.

- Sexta-feira -

Arsene permanecia imóvel sentado no sofá da sala, onde costumava se sentar quando ela estava se arrumando. Mas já estava ali tempo demais para que aquilo fosse considerado saudável. Com sua audição poderosa, ele conseguia captar com facilidade os passos dela dentro do quarto, e julgando pelo tanto que ela andava e as exclamações de impaciência que ela soltava, Ângela estava com problemas para se vestir.

Incrível como certas coisas não mudavam.

Conheceu mulheres o suficiente para saber que elas sempre seriam daquele modo. As belas francesas da Belle Époque também passavam horas dentro dos seus camarins, apenas se maquiando e escolhendo a cor das meias de seda que iriam colocar para sair, ou escovando os cabelos e fazendo rolinhos para que esses ficassem perfeitos para a noite longa que viria.

As vampiras não eram diferentes. Apesar de serem naturalmente belas, também tinham suas dúvidas ao se vestir para algum evento importante, caso fossem observadas por vários vampiros.

Mas Ângela já estava passando do limite.

Ele revirou os olhos, dando dez minutos para que ela saísse daquele quarto e ficasse pronta.

Dentro do cômodo, uma garota andava em círculos, vez ou outra jogando uma peça de roupa na cama, que ajudava a aumentar a montanha de tecido que já havia ali. Vestia apenas lingerie da cor negra e com detalhes de renda. Ângela havia ficado satisfeita com sua ousadia em colocar aquela lingerie, mas sua paciência já havia se esgotado ao constatar que não conseguiria achar uma roupa satisfatória para aquela sexta.

A noite estava incontestavelmente fria, mas ela queria uma roupa que mostrasse um pouco da pele. George estaria lá, e Ângela queria que o homem pelo menos olhasse para ela de algum modo diferente naquela noite. Teria que estar bem bonita.

Estava coçando a cabeça e pensando em algo quando subitamente a porta se abriu e um vampiro ruivo e alto entrou ali como se estivesse entrando no seu próprio quarto. Ela gritou, seu rosto corando no mesmo momento.

- Ei! Você não pode entrar no meu quarto desse jeito!

Arsene soube que até o vizinho havia escutado aquilo tamanha a fúria e a altura com que foi falado. Mas não deu muita importância a isso, apenas sorriu para ela e deu de ombros.

- Mulher desse modo eu já vi aos montes.

- Foda-se.

O palavrão saiu da boca dela de forma mais controlada, mas nem por isso deixou de surpreendê-lo. Na verdade, até mesmo Ângela estava surpresa, mas não conseguiu se conter. Estava aflita por ele estar ali dentro do quarto dela, com ela apenas de lingerie. Mas também havia ficado com raiva devido à afirmação dele. Quem ele pensava que era? Mesmo que ele tivesse visto inúmeras garotas daquele modo – o que ela não duvidava, porque ele era imortal -, ela não era qualquer uma. Aquilo lhe deu uma sensação de ser comum e não fazer diferença a ponto de um homem a notar.

Sensação que ela claramente queria dispensar naquela noite.

Já estava nervosa, e aquilo a deixara ainda pior. Ângela buscou com os olhos a toalha que havia jogado horas atrás em algum lugar, mas ao julgar o tanto de roupa que estava ali, concluiu que não iria achá-la tão cedo.

Arsene aproveitou-se do desconcerto dela para olhá-la com mais atenção por diversos ângulos. Ela possuía pernas bonitas, como se tivesse o hábito de caminhar. Os músculos eram mais trabalhados do que o normal. Mas nem por isso deixava de ser feminina. Sua pele era branca e contrastava de uma forma bonita com a lingerie que ela usava, e que na opinião dele, era de um excelente bom gosto. Já estava maquiada. Não usava óculos e seus cabelos estavam presos em um coque, mas ele sabia que ela iria soltá-los quando finalmente achasse uma roupa. E quando ela inclinou para pegar a toalha no chão, estava de costas, e ele cravou os olhos em tudo o que as orbes vermelhas conseguiram captar.

Quando Ângela cobriu o corpo com a toalha, percebeu tarde demais o movimento que havia feito e que era burrice aquilo. Virou-se, fitando o vampiro com um misto de vergonha e aceitação.

- Você já viu tudo, não é?

O rosto de Arsene foi percorrido por um sorriso maldoso.

- Quase tudo, chérie.

Ela soltou um muxoxo e retirou a toalha, jogando-a na poltrona. Cruzou os braços de forma derrotada, tentando tampar um pouco dos seios com isso. Arsene pigarreou.

- Gostaria de saber o motivo da dúvida, julgando que pelo que eu vejo, você tem roupa o suficiente para vestir todas as vampiras de Volterra.

Ela não respondeu. Na verdade, ela desviou os olhos dos dele, fitando com interesse falso a maçaneta da porta do armário. O rosto dela foi percorrido por um rubor leve e a mente astuta dele percebeu o que estava em jogo naquela noite.

- É aquele cara?

- Sim...

Ela respondeu, não desviando os olhos da maçaneta. Arsene revirou os dele, pegando naquele monte algo que ele já havia visto há um bom tempo, e que o agradava em demasia. Jogou para Ângela uma calça preta de couro.

- Coloque isso.

Ele pediu, tentando soar gentil. Ela pegou a calça de couro e a olhou desconfiada, para depois enfiá-la no corpo. Arsene observou cada movimento da garota. Ela olhou-o com atenção.

- Você vai ficar me observando?

- Não saio daqui enquanto você não estiver vestida.

Ele fitou-a novamente. Estava ainda mais bonita. Apenas com a calça de couro e a lingerie de renda negra tampando os seios. Ele não quis nem mesmo dedicar mais de sua atenção àquilo, ou senão não sairia do quarto.

- Calce botas.

Ângela ficou estática, mas percebeu que ele estava decidido a não deixar o quarto enquanto ela não estivesse pronta. Bufou, visivelmente irritada.

- Isso é ridículo... Um vampiro me ajudando a escolher uma roupa... Eu devo estar sonhando...

Ela sussurrou, colocando seus pensamentos em voz alta, mas ele captou as palavras como se ela as tivesse dito em voz alta. Conteve um sorriso. Ela inclinou-se para colocar uma bota de salto alto, o cano chegava à metade de sua canela, e deixou-a elegante. Levantou-se, ficando visivelmente mais alta.

- Agora coloque uma jaqueta de couro.

- Com qual blusa?

- Sem blusa.

Ela o observou com atenção, esperando o vampiro dar uma risada maléfica e dizer a ela que aquilo não passava de uma brincadeira, mas os olhos vermelhos continuavam a fitá-la com determinação. Ela pensou um pouco na sugestão dele. Sabia que o bar era fechado, e dentro estaria quente. De qualquer forma, a noite estava fria demais. Ela achou que apenas uma jaqueta de couro iria dar conta do recado.

Pegou-a e colocou no corpo, fechando o zíper. Naquele momento, percebeu que havia feito algo de errado, pois Arsene contornou a cama e se aproximou dela. Sem pedir licença, pegou o zíper e o abaixou consideravelmente, o regulando para que a renda do sutiã aparecesse. Ao fazer isso, seu dedo longo e gelado roçou levemente os seios dela. Um toque quase imperceptível para a pele humana, mas que ele sentiu como se tivesse fechado sua mão inteira naquele pedaço irresistível de carne.

Ângela fitou-o com atenção, observando uma súbita mudança nele, e não entendendo ao certo o motivo.

- O que há com seus olhos?

As orbes que tinham a cor habitual carmim, estavam negras como a noite. Ele retirou a mão do zíper.

- Ficam assim quando quero algo.

Ela não gostou daquilo. Não gostou nem um pouco. De alguma maneira, ele parecia ainda mais perigoso com os olhos daquela cor. Seus instintos humanos gritavam a ela para que ela se afastasse, mas ela manteve a calma, engolindo em seco.

- Es-está com sede?

Os olhos negros dele cravaram nos seios dela, que subiam e desciam de uma forma tão sedutora...

- Não, estou com fome.

Ela piscou algumas vezes, tentando sair de perto dele. Mas ele parecia um campo magnético que ela por algum motivo não conseguia se desvencilhar. Ele ainda fitava os seios dela, e o quarto estava silencioso demais. Ela percebeu o que havia perguntado a ele e se repreendeu com isso. Achou que estava convivendo tempo demais com aquele ruivo. Que tipo de pessoa pergunta a um vampiro se ele está com sede como se estivesse perguntando a um humano se ele queria um copo d'água?

Ela decidiu quebrar o silêncio.

- Eu não vou apenas de jaqueta e sutiã, Arsene.

Foi a primeira vez que ela falou o nome dele, e o ruivo amou o tom como seu nome saiu da boca dela.

- Se quiser chamar a atenção daquele coisa, é melhor pensar duas vezes em retirar essa roupa.

Ela travou o maxilar. Soltou o cabelo liso e pegou a carteira de mão que estava em cima da poltrona.

- Ele não é um coisa.

Saiu do quarto, visivelmente irritada. Arsene permaneceu ali por alguns segundos a mais e logo depois fechou os olhos. Estava tentando se controlar. Afinal, era um ser viciado em sexo por natureza, e a sua vida inteira – tanto a humana quanto a imortal – havia alimentado o seu vício com perfeição e maestria. E de qualquer modo, não encostava em uma mulher há bastante tempo. Talvez semanas? Ele respirou fundo, tentando buscar a calma, mas percebeu que aquilo fora burrice.

O cheiro dela estava por toda parte.


Estavam naquele lugar há duas horas, as luzes piscavam rapidamente. Ela não havia falado a ele que era um bar-boate. A música estava alta, o incomodando um pouco por ele escutá-la vinte vezes mais alta. Arsene estava sentado perto do balcão do bar, o cotovelo direito apoiado ali, mas estava virado para a pista de dança, de costas para as inúmeras garrafas de bebidas. As mulheres o olhavam com interesse, de um modo bem diferente do modo como as garotas da universidade o olharam no começo da semana. Estavam sob efeito de álcool, e a ousadia triplicava em humanos quando isso acontecia.

De qualquer forma, Arsene não dava muita atenção a isso. Estava acostumado com tais olhares do mesmo modo que todos de sua espécie. Particularmente, não gostava de lugares fechados como aquele. O cheiro do sangue duplicava por causa disso e triplicava porque as pessoas dançavam. Mas ele tinha anos de experiência, então conseguia se controlar de forma satisfatória. Estava sem sede também, o que melhorava consideravelmente.

Entretanto, sua atenção não estava em tais assuntos. Seus olhos vermelhos estavam focados em Ângela, que dançava de forma solta na pista a alguns metros a frente dele. Ela havia pedido para ele manter distância dela, e fingir que não a conhecia. Ele entendeu o pedido, mas não gostou. Porém, lembrou-se de Bella pedindo para que desse espaço e privacidade à amiga.

Os cabelos de Ângela balançavam de forma graciosa à medida que ela dançava, de vez em quando fechando os olhos e entregando-se completamente à música. Um copo de alguma bebida vermelha estava na sua mão, e ela parecia um pouco mais solta por causa do álcool no corpo, assim como todos ali. E parecia ter esquecido completamente da presença do vampiro.

Arsene observava o modo como ela dançava quando aquele homem que ele descobrira chamar George estava por perto. Ela tentava chamar a atenção dele de alguma forma, mesmo que discretamente. Aquele homem era um professor da universidade. Um dos mais novos, assim como ela, e o interesse de Ângela nele era visível. Mas não parecia que tal interesse era recíproco. Ou ele fingia muito bem. De qualquer forma, aquilo de algum modo parecia magoar a garota. Arsene não gostou dele.

Chamou o barman com um gesto e pediu uma dose de tequila apenas para disfarçar. Na verdade, queria era enfiar os dentes no pescoço de alguém. Mas sabia que não poderia se alimentar tão cedo. Não em algum local como aquele. Não havia visto nenhum vampiro ali, felizmente. Uma garota sentou-se ao seu lado, mas ele ignorou-a completamente.

- Oi.

Arsene fitou a garota ao lado dele com atenção. Corpo bonito, cabelos loiros, lábios carnudos.

- Não.

Ele disse para ela de forma direta. A garota fez uma careta e pegou a tequila dele, bebendo-a completamente. Arsene não se importou, e incomodou-se ainda menos quando ela saiu visivelmente irritada dali. Quando ele estava trabalhando, não podia focar sua atenção em outra coisa.

- Cara, você deveria ao menos disfarçar.

A voz do barman chegou aos seus ouvidos rapidamente e Arsene virou-se, percebendo que ele estava enchendo o pequeno copo com tequila novamente.

- Desculpe, disfarçar?

- Sim. A lista de mulheres que o olharam e aproximaram de você é de longe a maior que já vi. Mas elas rapidamente perceberam que seu interesse é em outra pessoa, e saíram de perto.

O barman respondeu, fitando Ângela com diversão. A garota continuava a dançar. Arsene revirou os olhos.

- Estou apenas cuidando dela.

- É sua irmã?

- Não...

Ele deixou no ar. Pensou seriamente na pergunta do barman e percebeu que ele havia sido irônico. Era impossível os dois serem irmãos. Arsene possuía cabelos vermelhos e ela cabelos negros, sem contar os olhos levemente puxados que ela possuía. O homem se afastou, sorrindo, o vampiro voltou sua atenção a Ângela.

De repente, George encontrou uma garota interessante ao seu lado e começou a dar atenção a ela, deixando Ângela visivelmente de lado. Ela não gostou muito daquilo, mas continuou dançando como se estivesse ignorando tudo.

Arsene achou que era o suficiente.

Ângela permanecia de olhos fechados, entregando-se à música com mais afinco. Ela sentiu um leve cheiro adocicado e familiar, mas sua atenção estava totalmente voltada para George, que agora dançava de forma sensual com uma garota loira. Ficou irritada, mas decidiu ignorar. Estava ali, e teria que aproveitar a música.

De repente seu corpo se esbarrou bruscamente com outro e ela virou-se, abrindo os olhos e dando de cara com Arsene.

- O que está fazendo aqui?

- Um favor.

Ele respondeu, começando a dançar ao lado dela. Ela tentou ignorar que o homem mais bonito do local estava ao lado dela, dançando bem demais para ser verdade. Mas ignorar Arsene era algo praticamente impossível, principalmente quando as mãos enormes dele pegaram com um pouco de força a cintura dela e ele se aproximou, fazendo com que os lábios dele quase tocassem a orelha dela.

- Deixe-o ver você...

Ela continuou dançando com Arsene atrás de si, vez ou outra sentindo aquele cheiro delicioso de mel misturado a algo que ela nunca iria descobrir. As mãos conseguiam capturar a cintura dela com perfeição, a respiração gelada dele batia no pescoço dela, refrescando-a e fazendo uma sensação gostosa percorrer seu corpo.

George percebeu a aproximação do homem ruivo, observando com olhos masculinos que ele havia capturado a atenção de Ângela rapidamente, assim como a atenção de todas as garotas que estavam em volta. Afastou-se rapidamente da loira com quem dançava, e chamou Ângela com um gesto, dizendo que iria pegar um drinque.

Arsene sentiu Ângela puxar o corpo dela para sair de seus braços, mas apertou-a ainda mais, virando-a para ele e continuando a dançar.

- Seu objetivo foi alcançado. Ele me viu.

O ruivo gesticulou negativamente com a cabeça, apertando levemente a cintura dela.

- Muito fácil. Comece a complicar. Faça-o ver que ele não é tão prioridade assim.

Ângela sorriu em descrença.

- Já dancei com vários homens dessa boate. Por que seria diferente com você?

Arsene sorriu. Um sorriso genuíno, mas carregado de malícia. Antes que ela pudesse perguntar o motivo do sorriso, ele a beijou. Não um beijo voraz, mas apenas um contato de lábios, o que foi o suficiente para fazer o corpo de Ângela amolecer e automaticamente contornar o pescoço dele com os braços, tentando por instinto não deixá-lo se separar dela. Ele continuou conduzindo a garota na pista de dança, sentindo-a entregue a ele, os corpos colados como nunca haviam ficado.

Ângela tentava pensar com coerência. Os lábios dele eram frios e ainda mais adocicados do que o cheiro dele. Ele separou minimamente os lábios, fazendo com que ela sentisse o gosto de mel que ele possuía. Antes que ela tentasse algo mais vigoroso, sentiu os lábios dele a deixando.

Estava tonta e levemente corada quando se deu conta do que havia acontecido. Os olhos dele estavam negros quando ela o fitou, mas ele sorriu levemente.

- Agora você tem a atenção dele.

Ela retirou os braços do pescoço do vampiro e virou-se calmamente para trás, observando George se afastar com visível raiva. Andava para o balcão, e ela julgou que ele fora pegar o drinque que havia dito.

- Agora você pode ir atrás dele.

Arsene disse, mas ela soube que não era uma ordem, apenas um conselho. Mas ela não conseguia sair dali, seria desperdício de tempo deixar um homem daquele para se explicar para um cara igual a George. Ele a fitava com perceptível diversão.

- Acalme-se, chérie. Eu nem te beijei de verdade.

Ela ficou zonza com aquelas palavras. Estava parada, fitando-o com atenção, os lábios ainda entreabertos, como se estivesse bobamente pensando em algo sem sentido. Perguntou-se mentalmente como seria um beijo verdadeiro daquele ser que estava a sua frente. Automaticamente olhou novamente para os lábios dele, que se espicharam em um sorriso quando ele percebeu o que ela queria.

- Humanas...

Ele voltou a se aproximar dela, as mãos puxando a cintura com um certo sentimento de posse. Ângela umedeceu os lábios com a ponta da língua para receber os lábios dele, mas antes que isso acontecesse, quando ele estava a centímetros dela, ele ficou estático. Imóvel. De uma forma estranha.

Arsene correu os olhos negros pela pista de dança e captou os cheiros antes de encontrar os donos deles. Eram três vampiros. E estavam olhando-o com curiosidade. Na certa já sabiam que ele era um deles, e que a garota que ele segurava era uma humana. Definitivamente algo incomum. Nenhum vampiro abraça uma humana como ele estava a abraçando, a menos que fosse se alimentar dela.

- Precisamos ir.

Ângela não entendeu. Os braços dele a deixaram e ele se afastou ligeiramente dela.

- Mas...

- Agora.

Dessa vez foi uma ordem. O tom de voz dele estava diferente. Ela o fitou diretamente nos olhos, e conseguiu distinguir uma urgência nas orbes escuras. Ela assentiu com a cabeça e começou a andar com ele atrás de si de uma forma protetora. Ela passou pelo seu grupo e viu George conversando com Rick. Acenou com a mão, despedindo-se e gesticulando para avisar que ligaria depois, quando sentiu uma mão forte envolver seu braço. Arsene a puxou para fora da boate.

Ângela começou a andar até uma fila de táxi, mas foi impedida novamente por ele. Ele pegou-a dessa vez mais gentilmente pelo braço.

- Não seja idiota.

Disse em um tom neutro, guiando-a para o estacionamento onde a moto dele estava parada. Ângela havia ido de táxi porque sabia que iria beber, mas tinha se esquecido completamente que o vampiro a seguira de moto.

Ele virou-se para ela, colocando delicadamente o capacete que ele usava na cabeça dela. Montou naquele monstro e esperou que ela tivesse a coragem de fazer o mesmo. Desajeitadamente, ela sentou-se atrás dele, ficando um pouco afastada.

- É melhor se segurar.

Ele pediu, quase divertido pela falta de jeito dela. Ela tentou buscar algo em que pudesse se segurar, mas quando ele ligou a moto e aquilo roncou abaixo dela, automaticamente apertou as pernas perto das dele. Abraçou-o por trás, temendo cair quando ele guiou a moto para a saída do estacionamento. Ele vestia uma jaqueta de couro. Ângela enfiou os braços por debaixo do tecido da jaqueta, sentindo a pele gelada dele mesmo através da blusa que ele vestia. O cabelo dele tinha o mesmo aroma de mel. Doce. Ela escondeu o rosto nas costas dele, aspirando timidamente aquele cheiro delicioso.

Arsene fechou os olhos. Sentia as pernas quentes da humana fechando-se no corpo dele. Os seios macios pressionavam suas costas. Ele respirou fundo, tentando se controlar.

Acelerou a moto um pouco mais e correu pela rua.


Agora que tecnicamente estavam na segurança do apartamento dela novamente, Ângela jogou a carteira de mãos no sofá da sala e virou-se para Arsene, que estava fechando a porta e trancando-a.

- Posso saber o motivo de termos saído daquela maneira?

Ele a olhou com cuidado.

- Vampiros.

De repente ela empalideceu, seus olhos escuros se desviaram dos dele e ela andou rapidamente até o quarto. Estava tremendo quando se embrenhou pelo corredor, saindo do campo de visão de Arsene.

Ele poderia lidar com ela depois, mas agora tinha questões para resolver. Pegou o celular do bolso da calça jeans, digitando um número com uma rapidez anormal. Respirou fundo uma vez. Nesse momento, escutou o chuveiro sendo aberto. Apertou o botão verde. A voz atendeu rapidamente do outro lado da linha.

- Ciao.

Arsene explicou para Aro tudo o que havia ocorrido. Contou como foram para o bar e ele observou a humana até o momento em que ele farejou os três vampiros naquele lugar. Ocultou que havia beijado Ângela, sabendo que aquele era um assunto delicado demais para ser tratado pelo celular. De qualquer maneira, aquilo era irrelevante. Aro escutou tudo com atenção, ficando silencioso do outro lado da linha. Depois do relatório completo de Arsene, ele escutou o mestre respirar fundo.

- Precisará ficar ainda mais atento a essa garota agora, Arsene.

- Eu concordo.

Ele respondeu sem relutar. Agora não via isso como um castigo, mas como uma responsabilidade dele. Se não tivesse a beijado, a situação poderia ser mais favorável. Mas três vampiros tinham o visto com uma humana como se ele fosse um companheiro dela.

Aro desligou rapidamente.

Arsene jogou o celular no sofá, sabendo que ele não iria tocar tão cedo. Caminhou para o corredor calmamente. Ângela estava saindo do banheiro naquele momento. Seu cabelo estava preso de forma malfeita, fazendo com que algumas mechas lisas saíssem do penteado e caíssem de forma bonita pelo colo. Já estava sem maquiagem e não havia colocado os óculos. Vestia uma camisola um pouco curta, mas suficientemente longa para tampar a parte mais bonita de suas pernas.

Ela não o viu, apenas deu as costas para ele e entrou no quarto. Ele a seguiu no momento em que Ângela apagou a luz e enfiou-se debaixo do cobertor grosso, aconchegando-se ali para dormir. Foi quando ela se deu conta da presença do vampiro.

Ângela gritou, mas depois percebeu que o vampiro tinha cabelos ruivos enormes e era mais familiar a ela. Ela calou-se no mesmo instante, sentindo seu coração bater fortemente dentro do peito.

- Você é louca.

- Você acaba de me falar que viu vampiros onde estávamos e que eles nos viram. Como posso ficar calma depois disso?

Ele se aproximou da cama dela, sentando-se no colchão ao lado dela e fitando-a com atenção.

- Não precisa se preocupar, chérie. Eu sou um Volturi.

Ela não entendeu completamente o significado daquilo. Sabia exatamente o que eram os Volturi, mas não sabia o que isso poderia impedir caso aqueles vampiros resolvessem caçá-la. E se eles tivessem os seguido? De repente o corpo dela começou a tremer.

- Não quero confrontar aquilo de novo...

Ela lembrou-se do dia em que perdera três colegas apenas porque vampiros estavam com sede e haviam os matado sem escrúpulos. Não estava pronta para ver aquilo de novo. E desconfiava de que nunca estaria, assim como qualquer pessoa normal. Arsene deitou-se ao lado dela, automaticamente passando a mão nos cabelos dela.

- Acalme-se.

Ele pediu gentilmente. Ela conseguia fitá-lo por causa da claridade que irradiava da lua. Os dois estavam banhados por uma luz prateada.

- Não consigo. E preciso dormir. Amanhã tenho compromisso.

- Acho melhor você não sair amanhã. Os vampiros podem ter seguido o seu cheiro ou o meu. É arriscado.

Não entendeu a observação dele. Ele não era um Volturi?

- Mas é por isso que você está aqui, não é? Para me vigiar e para eu poder seguir a minha vida normalmente!

Arsene revirou os olhos. Ela continuou.

- Agora me sinto mais à vontade com você aqui.

Ela declarou, remexendo-se um pouco no colchão. Ele sorriu com as palavras dela, não acreditando no cinismo da garota.

- Você é bem esperta, hein?

Ela não respondeu, apenas continuou fitando o teto. De repente se espreguiçou, tentando por meio disso buscar o sono que teimava em não vir. Mas seus pensamentos tomaram outro rumo.

- George vai pensar coisas horríveis de mim. – declarou, enfim.

- Por quê?

Arsene perguntou, franzindo o cenho. Ela o fitou nos olhos, não acreditando que ele havia feito aquela pergunta.

- Você me beijou. E depois eu saí com você. – ao ver que o vampiro continuava não entendendo nada, acrescentou. – Isso no meu mundo significa sexo.

Percebeu o que havia dito ao ruivo e sentiu seu rosto se esquentar, tentou desviar os olhos, mas ele a fitava com tanta intensidade, que isso impedia com que ela completasse seu objetivo. Arsene sorriu para ela.

- Eu não te beijei, chérie.

A declaração a pegou de surpresa. Ela piscou algumas vezes para ele.

- Não?

- Não. Eu vou te beijar agora.

Antes que ela pudesse tomar alguma atitude ou processar o que ele havia lhe dito, os lábios frios dele estavam sobre os seus novamente, mas ela conseguiu sentir a diferença no modo como eles a tocavam. Eram mais determinados, mais tranquilos e até mesmo mais macios.

Dessa vez ele não permaneceu daquele jeito, mas entreabriu os lábios e a forçou a fazer o mesmo. A língua aveludada do vampiro deslizou para dentro da boca dela de forma possessiva, buscando a dela. Ângela sentiu seu corpo amolecer novamente, e foi percorrido por um arrepio delicioso quando ela retornou o beijo, sentindo aqueles lábios experientes conduzindo-a boa parte do tempo.

As mãos de Arsene capturaram a cintura dela pela segunda vez naquela noite. Ela não objetou a isso, e logo percebeu que ele se aproximava cada vez mais à medida que o beijo ia se intensificando e tornando-se mais voraz. Ele colou o corpo ao dela, ficando ambos de lado. Automaticamente e com um pouco de ousadia, ela passou uma perna por cima da cintura dele. Arsene observou os gestos dela, e sem conseguir se conter, encaixou-se melhor.

Aquilo era algo que Ângela nunca havia provado, e arriscava-se a dizer que nunca provaria igual. O cabelo longo dele esbarrava no seu braço, caindo levemente na sua barriga, fazendo cócegas quando ele mexia a cabeça. Ele a beijava como se ela fosse a única mulher do mundo. Sentia-se desejada apenas com o toque dos lábios e da língua dele. Sentia-se pronta para se entregar quando ele fechava a boca para sugar o lábio inferior dela.

Arsene sentiu seu membro endurecer à medida que provava os lábios quentes da humana, observando ali um gosto que ele apreciou ainda mais do que o cheiro. Soube exatamente o momento em que ela percebeu que ele estava excitado quando ela gemeu um pouco, incitando-o a terminar logo com aquilo.

Mas ele não podia... Não ali. Não naquelas circunstâncias.

Ele separou os lábios dos dela, esperando-a abrir os olhos e senti-lo um pouco mais entre as pernas, para depois se separar completamente.

Ela o fitava como se estivesse saindo de um torpor. Piscou algumas vezes e soltou o ar pela boca.

- O que foi isso?

- Isso foi para você relaxar.

- Não mesmo. Não vou conseguir dormir depois disso.

Um sorriso jocoso brincou nos lábios dele.

- Você quer ajuda?

Ela não entendeu o que ele queria dizer com isso. Desconfiou de que era mais uma das brincadeiras pornográficas dele, mas ao julgar o modo como ele a fitava, o vampiro estava falando sério.

- Como vai me ajudar?

Arsene falou brevemente do dom que ele tinha, não explicando como aquele dom foi adquirido. Ela escutou tudo com fascínio, seus olhos sendo percorridos por um brilho incomum.

- Nossa, isso é legal. – ela declarou depois que ele terminou. – Tem como testar em mim para ver se funciona?

Arsene revirou os olhos, passando a mão no cabelo dela.

- É claro que funciona. Funciona até com Bella, que é imune a tudo.

Ângela sabia do dom de Bella, mas ao julgar a expressão no rosto dela, sabia que a garota pensava que apenas a amiga possuía um dom, ele pensou. Não perdeu tempo explicando tudo, apenas sorriu para ela, beliscando levemente seu queixo.

- Boa noite, chérie.

Antes que Ângela respondesse, sentiu um sono fora do comum tomar seu corpo.

Em segundos, estava dormindo.