Uma jovem loira, de cabelos cacheados e túnica bordada no colo, andava cambaleante, enquanto era tomada de espasmos e tremores. Seus olhos estavam dilatados e sua boca deixava escorrer saliva pelo lábio inferior.
- Ahahah, eu vejo... Sim eu vejo... um dragão enorme... ele tem olhos de safira e nariz de fogueiras. Seu hálito cheira a sangue e ele está faminto. Eu posso sentir... eu tenho medo... - A jovem terminou seu relato com um grito de horror.
Havia pessoas em torno dela. Eles a cercavam, mas não se aproximavam. Temiam-na, mas a consideravam intocável, como um mal necessário. Aos poucos que se compadeciam da jovem louca, e tentavam ampará-la, eles os seguravam e balançavam a cabeça negativamente. Foi nessa situação em que se viu Merlin.
- Deixe-me ajudá-la, ela parece sofrer. - Merlin falou para o homem que o segurara pelos braços, ao tentar transpassar o cerco à jovem.
- Não garoto, ela não está doente. É uma profetisa. Não pode tocar nela quando está em transe.
- O que? Está me dizendo que ela está tendo visões ou algo assim? - Merlin olhava da jovem para o homem, e vice-versa.
- Sim, embora ninguém entenda o que ela vê. Acho que ela fala em códigos, ou talvez haja uma verdade oculta por traz de seu desvario. Eu não sei.
Merlin ficou observando até que a moça pareceu voltar ao normal. Ela olhava para as pessoas em volta e cobria o rosto, como se adivinhasse o que tinha acontecido e sentisse vergonha. Ele aproximou-se dela.
- Moça, tudo bem? Você precisa de alguma coisa?
- Eu... eu fiz de novo, não foi? Eu tive uma visão, não é? Não consigo me lembrar de nada, sinto apenas que fiz papel de tola novamente.
- Tudo bem, você não é culpada disso... quero dizer... você nasceu com o dom da profecia, não é uma coisa que se possa escolher.
- É... Algumas pessoas dizem que isso é uma bênção, mas para mim é mais uma maldição. Eu não posso ter uma vida normal como todo mundo, porquê todos têm medo de mim.
- Eu sei como é. - Merlin percebeu que a moça o olhava com os olhos aguçados de curiosidade. - Não, eu não sou um profeta. Eu apenas entendo o seu sofrimento.
- Ah, sim... Meu nome é Margot. Como se chama?
- Merlin.
- Merlin de Gaius?
- O que? Trabalhei para Gaius sim, mas... Não me diga que todos me conhecem.
- Sim. Você é famoso. Todos dizem que irá substituir Gaius quando este morrer.
- Não... Eu não. não estou à altura de Gaius... eu não sou um curandeiro.
- Hum... pelo menos você pode escolher o seu destino.
Merlin ficou observando Margot, e refletindo sobre o que ela falou. Depois ele a acompanhou até sua casa e compartilhou do almoço com sua família. Todavia, a contínua referência a Gaius e Camelot o incomodou, pois ele queria se manter anônimo. Ele se retirou logo depois com a promessa de voltarem a se encontrar outro dia.
O jovem mago observou que Margot e sua família não mencionaram o Príncipe Arthur e o suposto resgate pela captura de Merlin. Será que todo aquele drama havia passado?
Em Camelot, Gaius preparava suas beberagens quando alguém bateu à porta. Ele julgou ser o ferreiro atrás de emplastros para suas freqüentes queimaduras. Ao abrir a porta deparou-se com um jovem magrinho e comprido, a quem ele amava como a um filho. A alegria por vê-lo foi turvada por raiva, pelo desobedecimento à recomendação dada.
- O que está fazendo aqui, garoto? - Gaius reclamou, enquanto puxava Merlin pelo braço, para o interior do seu estúdio, e fechava a porta. - Eu lhe disse que esperasse uma estação.
- Sim, você falou... e eu fiquei sozinho naquela ilha. Senti a dor do isolamento e quis sair um pouco para conversar com alguém. Sinto muito.
- Você é um tolo, imprudente, idiota e desobediente.
Merlin baixou a cabeça envergonhado e levantou um pouco os olhos para ver se Gaius ainda estava zangado.
- Mestre Gaius... quando eu saí da ilha invisível... eu a encontrei novamente...
- Quem?
- Nimueh.
- O que? Eu lhe avisei garoto... O que aconteceu?
- Ela me disse coisas... queria que eu fosse seu aprendiz...
- E o que respondeu a ela?
- Eu disse que não... isto é... disse que ia primeiro falar com você.
- E...?
- Ela me disse que... ela falou coisas feias sobre você Mestre Gaius... Eu fiquei com raiva e tentei me afastar, mas ela jogou um feitiço para me impedir. Sim, eu já sei que ela é uma bruxa. Então, nós... tivemos uma disputa mágica. Acho que eu ganhei.
Gaius ficou passado. Gostaria imensamente de brigar com Merlin, ou até mesmo entregá-lo a Arthur para que fosse punido, mas ele precisava agir com cautela, e não se deixar levar pela emoção.
- Garoto... Nimueh não é apenas uma bruxa. Ela é mais que isso. Veja... você usa a magia como uma parte de si. Nimueh é a magia. Você interage com o mundo ao seu redor. Entenda, ela é como se fosse esse mundo. É a outra extremidade da magia. O seu oposto e o seu complemento. Você não pode brincar com ela. É muito poderosa e vingativa. Se você a ofendeu ou a provocou, ela voltará para cobrar a ofensa.
- Eu... usei magia contra ela, mas ela apenas sorriu para mim e desapareceu. Você acha que ela voltará para se vingar?
- Se você não foi desrespeitoso...
- Eu a chamei de mentirosa...
- Se ela contou uma mentira...
- Ela disse que um dia eu seria maior do que você, e seria muito famoso para além de Albyon. E que por causa disso você tinha medo de mim.
Gaius sentiu as pernas bambearem. Procurou uma velha cadeira e se sentou. Ele parecia muito velho e cansado. Olhava para Merlin e era como se não o visse, mas enxergasse através dele. Merlin ficou incomodado e saiu do lugar onde estava, indo sentar-se próximo a Gaius.
- Ela mentiu, não foi Gaius?
- Há alguns anos, eu... estava a serviço de alguém muito poderoso e tive que confrontar Nimueh. Ela... é muito poderosa. Não houve vencedores, mas... por assim dizer, eu consegui afastá-la de Camelot. Pensei que ela tivesse morrido, mas... - Gaius balançou a cabeça.
- "Aquela que nunca morre".
- Isso mesmo. Você é um mago, Merlin. Ou pelo menos tem potencial para isso, uma vez que não sabe controlar sua magia, ou não conhece todo o seu poder. Um dia, e eu espero que esteja bem longe, Nimueh irá desafiá-lo para um duelo de vida ou morte, e ela poderá vencê-lo. É o que ela faz.
- Ela me disse que você é um mago também, Gaius. Disse que você aprende magias em livros.
Gaius olhou para seu jovem pupilo por um instante, então levantou-se. Procurou por um velho livro na estante-prateleira com seu material de trabalho. Era o mesmo livro com letra ilegível, amarrado com tiras de couro. Ele o entregou a Merlin.
- Um mago poderoso uma vez deu esse livro a mim. Ele era um druída. Um tipo de sacerdote. Fui seu discípulo até a sua morte, mas não quis ficar com seu legado, não exerci a magia abertamente. Preferi o anonimato e o preparo de remédios pelo método antigo.
- Por que?
- Porquê os magos vivem se confrontando e se desafiando. O mais poderoso de todos é o pior deles. Pior no sentido de maldade e falta de escrúpulos. Preferi levar uma vida simples, continuar vivo e em paz com a minha consciência.
- Por que não me contou todas essas coisas Gaius?
- Porquê você não estava pronto para saber a verdade. Sua cabeça é como um cálice de água. eu não posso colocar a água do mar nesse cálice.
- Você fala de forma complicada, mas eu entendi. Conheci uma moça hoje. Ela também fala de forma complicada...
- Por hoje chega. Amanhã falaremos mais. Agora eu vou dormir.
- Só mais um pouco Gaius. Eu preciso falar, ou meu peito vai explodir. Eu almocei na casa dessa moça profetisa, e em sua casa todos me conheciam como Merlin de Gaius. Nenhum deles mencionou o Príncipe Arthur e minha sentença de morte. - Merlin falou de um fôlego só e por isso ficou arfante.
- Não mencionaram porquê o príncipe Arthur o perdoou.
- O que?
- Ele veio aqui e me disse que o tinha perdoado. Que você é bem vindo em Camelot novamente.
- Então... por que não me disse logo? - Merlin precipitou-se sobre Gaius abraçando-o e chorando lágrimas de alívio. Era bom poder voltar para casa, sem o peso da ameaça de uma espada no seu pescoço.
