HELL 75016
Arashi Kaminari
V.B – O rosé que precede o esporro
A gente se espreme os oito dentro do ML do pai da Gisty, placa CRY 75, que ela dirige sem carteira. Subimos a avenue Victor-Hugo, com Bel amour tocando no máximo. Vamos assistir Um outono em Nova York. Gisty estaciona no Champs-Elysées.
Passamos na frente de todo mundo da fila de dez metros, porque já reservamos as entradas pelo telefone, e pagamos. Entramos na sala e as publicidades estão terminando. A luz reacende e todo mundo diz psiu. Fazemos muito barulho.
Estamos nos sentando quando Shina, morrendo de rir, aponta uma fileira bem no fundo. Eu me viro e vejo A, acompanhando de uma loura razoável, Julian maluco, a coitada da Tétis, Radamanthys, Carlo e a turma que me olha torto, como que petrificada, exceto A, que não tem razão para ter raiva de mim. Pergunto como as coisas vão por sinais e ele sorri.
Encontramos vários conhecidos que vêm nos cumprimentar e os que ficam sentados nos ligam. Shina tem uma desavença com seu ex, Afrodite joga pipoca em cima de uma bicha que ele não gosta, aterrorizamos os caretas (Gente que não pertence ao nosso mundo. Eles não entendem nada do nosso meio social, ignoram que Deus é social. Quem mandou eles irem ao cinema no Champs). Levantam fazendo psiu e nos xingam de bando de babacas.
Cinema. Domingo. Nunca mais. Afrodite concorda. Percebemos que o filme começou há cinco minutos.
Meia-noite e meia saio do cinema caindo de boca no cigarro. O filme foi uma porcaria inominável. Todos concordam, fora Lune que adorou. Normal, ele é um idiota. Vamos ao Pershing Hall tomar um drinque, o tal hotel que acabou de abrir na rue Pierre-Charron.
Shina, de repente, cai na gargalhada, segura meu braço e começa a cantar e me contagia com seu delírio. Sem dúvida, efeito colateral das três garrafas de vinho. Estamos dando piruetas patéticas na calçada, quando um Porsche preto, placa 750NLY75, surge da rue du Colisée e quase nos atropela. Meu coração começa a bater surdamente. O carro freia fazendo um esporro infernal e dá a marcha ré. O vidro se abaixa lentamente e a cabeça de um anjo aparece.
– Francamente, cada vez que eu o encontro você está em casa estado... Quer uma carona?
Não espero nem um segundo, agarro a porta do carro e mergulho dentro dele. Mandamos-nos pelo Champs-Elysées numa disparada certamente proibida.
– Não sei nem mesmo como você se chama.
– O nome que você quiser...
– Estamos indo bem.
– Você não prefere saber onde eu moro? Pensei que você fosse me levar em casa.
Ele pára o carro, desliga o motor e se vira na minha direção.
– Como é que você se chama?
– Meu nome é Hell.
– Inferno?
– Exatamente, é isso.
Ele arranca de novo.
– Asterion.
– Como?
– Você escutou muito bem.
De repente tudo fica claro. O rosto lívido de Shina quando me viu entrar no carro, a sensação de que este Asterion, com o seu discurso niilista e a sua evidente perversidade, não me é de todo estranho – vivendo num mundo assim, eu ficaria surpresa se fosse o contrário – e a excitação que eu senti há dois meses na avenue Montaigne, quando acabara de passar pelo pior, a excitação que a culpa fizera com que reprimisse, a ponto de apagar da minha memória, aquele encontro, ressurge brutalmente, esta exaltação em perfeita harmonia com o que parece inspirar o personagem que me fora descrito.
– Eu tenho uma má reputação, não é? – diz ele.
Já faz um minuto, na verdade, desde que me revelou quem ele é, estou com os olhos mirando o vazio.
– Se você soubesse. – respondo.
Ele não fala de imediato, espera alguns segundos, virando-se em seguida para mim com um leve sorriso.
– Você também.
Logo depois me pergunta se estou com fome e diante da minha negativa, ele me explica o extremo pudor que reprime sua vontade incontestável de permanecer na minha companhia.
Ir visitar alguém é um tabu no nosso meio, tornando-se preciso disfarçar os mais espontâneos sentimentos debaixo de pretextos egoístas, ou melhor, por trás de estratagemas sórdidos, para não ficar com cara de babaca.
Ele tenta me convencer de que ele só está procurando alguém, não importa quem seja, para servir de companhia no jantar, ou pior ainda, que estava com vontade de transar, que aconteceu de ser eu que estava lá, e que eu servia, qualquer coisa sendo melhor do que confessar que estava atraído por mim, intrigado comigo, que já faz dois meses que ele não consegue parar de pensar noite e dia em mim, desde aquele encontro-relâmpago na frente da Baby Dior, e que foi a providência que o fez me encontrar lá, naquela rua escura, num domingo à meia-noite e me raptar. Vai logo me dizendo que não devo acreditar em nada do que ele diz, que cabe a eu escolher. Olho-o nos olhos dizendo que estou morto de fome.
Ele volta para a avenue Pierre-Ier-de-Serbie e estaciona defronte de uma porta pesada de madeira esculpida. Um segurança abre a portinhola. Asterion deve ser um habitué do lugar uma vez que o cérbero torce a cara tentando sorrir ao vê-lo.
Ele nos abre a porta. Um antro, um boteco miserável. Numa sala minúscula de teto rebaixado, estão espalhados alguns mafiosos de baixo calibre, com putas decrépitas do lado. Tenho a vaga sensação de estar numa isbá: os lambris, os móveis eslavos. Se eu sair dali, vou me deparar com uma floresta dos Urais, entre uma alcatéia de lobos ferozes e dois fugitivos das minas siberianas.
Nós nos sentamos, vejo de relance a cara dos outros presentes. Escória social. Um gordão com bochechas de buldogue, duas putas louras de farmácia, mal oxigenadas, os peitos caindo dentro do prato. Uma delas, uma velha, com o rosto marcado e estragado pela vida difícil. A outra, tão jovem... Mãe e filha? A cafetina e sua vítima?
A música é sinistra. Na entrada da cozinha dois canalhas brigam por um maço de notas estrangeiras em iugoslavo. Um filme de segunda. Peço um carpaccio e cigarros. Ele pede uma garrafa de vodca. Tentativa de entrar no clima? Pensei que ele estivesse com fome.
O lugar fede a decadência. Quase não toco no carpaccio e minhas boas maneiras destoam. A música parou bruscamente. O que é que vai sobre para mim? Um acerto de contas, uma suruba geral.
No meio da sala, um carcamano horroroso, segurando um violão de doze cordas, estende a mão na direção da jovem meretriz, que cora de vergonha. Alguns acordes, um violinista aparece não sei de onde... Ouço a voz da puta. É uma canção antiga, russa, magnífica. Harmonia total do carcamano e da meretriz. O lugar adquire um aspecto diferente. Asterion enche o meu copo, uma, duas vezes. Estou tomado pela beleza inesperada do duo. Até as cadeiras carcomidas adquirem um novo sentido.
A canção termina e o carcamano se aproxima.
– A senhorita canta? – ele pergunta e percebo que mais uma vez fui confundido com uma mulher.
Declino o convite. Ele insiste. Ele, os músicos, Asterion e todo mundo. Encurralado estou. Num sonho absurdo, seguro o microfone. Perguntam se sou francês. Várias músicas são oferecidas, a única que conheço é a de Léo Ferré.
A luz bruxuleante de um refletor vetusto aponta para mim. O silêncio toma conta do lugar. Estou na mira de todos. Titubeio do alto das minhas botas Prada. Fico balançando de uma perna para outra. Entôo os versos:
– Avec le temps... avec le temps va, tout s´en va...
Faço ares lânguidos, minha voz adquire um tom melodramático.
– Avec le temps...
Tudo se esvai com o tempo. Olho para Asterion.
– Tout s´évanouit...
Ele me encara e seu olhar me perturba.
– Avec le temps... on n´aime plus.
A gente cessa de amar. A música acaba. Sou aplaudido. Agradeço sorrindo. Um sorriso zombeteiro, no qual caçôo de mim mesmo.
Vou me sentar de novo ao lado de Asterion, ele me serve uma vodca. Os cumprimentos fluem das mesas vizinhas. Eu nem prestaria atenção nessa gente se a encontrasse na rua. Enquanto converso com Asterion, fico sem entender a ligação entre ele e aquelas monstruosidades que Afrodite me contou.
Falamos dos nossos restaurantes prediletos em Nova Iorque, de art déco, ele me diz que ama Paris, que não poderia viver em outro lugar, que havia nascido na Dinamarca, morado em Londres, em Nova Iorque, na Áustria, mas que ama Paris por causa desse passado sulfúreo que emana dos muros e que flutua nas ruas.
Daí a placa do seu carro, ele me explica: Paris, only Paris. Para ele só endereços com o 75 de Paris valem: abaixo a província e os subúrbios xenófobos. É só a gente que vale a pena.
Eu o interrompo e pergunto o porquê dele tratar assim as garotas, se ele tem problemas com a mamãezinha dele, se ele é broxa ou se ele tem algum tipo de competição com o pai. Por fim, pergunto se ele é bicha.
Ele dá uma risada e me diz que sou um grande filho-da-puta. Pergunto se é um cumprimento. Ele diz que sim, que ele mesmo se considera um babaca mimado e que como tal, procura seu ater ego de babaquinha no putinho que eu sou, ou pelo menos finjo ser.
Pergunto então qual é a definição dele de um babaquinha. Ele responde que um babaquinha é alguém que procura por todos os meios exasperar as pessoas – atividade que se tornou uma arte para ele. Para me explicar em seguida que o vasto mundo em que vivemos é composto de 99 porcento de imbecis, de imbecis que se levam a sério, cheios de vaidade e egoísmo disfarçados, que nada lhe dá mais prazer do que passá-los para trás.
Eu o interrogo sobre os meios que ele emprega: basta, ele diz, não se levar a sério, ter um ar de quem está se lixando para tudo em qualquer situação, transformar em zombaria valores tais como o dinheiro, o status social, o politicamente correto, é preciso cutucar os assuntos tabus, declarar tudo que a gente esconde, tudo o que os outros escondem, não sentir vergonha de nada.
– E gosto de perseguir as babaconas, todas essas peruas inúteis que vivem achando que têm direito a tudo só porque são bonitinhas, apenas faço com que elas entendam que o mundo não gira ao redor delas.
Eu estou encantado pelo charme dele. Tenho a sensação de que sou eu quem está falando. Nunca senti uma empatia igual com quem quer que seja. A sala se esvaziou. Asterion se inclina na minha direção e sinto vontade me entregar... Tenho um movimento de recuo, é meu instinto. O instinto de mandar à merda qualquer um que fique por cima, eu me esquivo dele, agarro minha bolsa:
– Preciso ir embora, obrigado pelo jantar.
Ele quase não se abala. Sorri:
– Obrigado a você, até breve.
Saio da Calavados, respiro longamente o ar fresco e expiro uma nuvem tênue de fumaça acinzentada... Caminho na direção da avenue George-V para pegar um táxi. Paro em frente ao carro dele... 750NLY75, ele me faz sorrir. Começo a dançar na rua, a saltitar. Não sinto frio, meu coração bate a mil. Isso nunca me aconteceu.
Arashi Kaminari, 06 de abril de 2006.
Notas da autora:
Obrigada as reviews da Pure-Petit Cat, Shakinha e Angell Kinney.
