Capitulo VII –
Two Rivers -
Eu havia entendido bem o que Cass havia dito. Se eu quisesse encontrar Kou deveria entregar a procura à deusa. Então no dia seguinte comprei flores, várias delas, de todas as cores e espécies, já que sonhava direto com um campo florido. Deixei Cass dormindo e fui bem cedo ao templo. Sentei nos poucos degraus e esperei que abrisse.
- Veio procurar sua família... – Afirmou o velho monge ao abrir as portas, como sempre fazia nos últimos quinze dias.
- Não senhor. – Levantei-me e o reverenciei respeitosamente. – Vim apenas para saudar a deusa e agradecer...
- Muito bem. E agradecer o que meu rapaz?
- Por cada pessoa que ela colocou em meu caminho, por ter colocado Cass ao meu lado, a garota que vem aqui comigo de vez em quando... Agradecer pela minha vida. Agradecer a deusa por ela ter me aceitado de volta.
- Então hoje é um dia feliz. Venha... Venha rápido! – O velho monge sorriu e me guiou a um jardim interno que eu nunca tinha visto antes, nem mesmo nas vezes que invadi o templo.
- Como não vi esse portão? – Eu estava confuso. Como eu um rastreador dos melhores não pude ver o portão de madeira meio encoberto por uma trepadeira cheia de flores?
- Você tinha os olhos fechados. Enxergava apenas aquilo que queria ver. – Ele me conduziu pelo portão através do jardim. – Quando você desistiu de procurar, no momento você se entregou nas mãos da deusa, permitiu que ela chegasse até você e desvendasse seus olhos, para que enxergasse o que realmente importa
Balanço a cabeça... Como fui idiota. Quando o portão se abriu pude ver uma linda cerejeira em flor no centro do jardim. Seu perfume inundou meu interior de forma arrebatadora. Aos pés da árvore uma estátua da deusa. Aproximei-me devagar com minhas flores. Depositei-as respeitosamente em um grande jarro de cristal que ali estava, cheio de água fresca. Mais um acaso? Ajeitei as flores e agradeci a deusa pela amizade de Cass, um anjo que ela havia enviado até mim. Alguém que salvou a minha vida. Que era uma grande companheira e me manteve em pé naqueles dias de cegueira e escuridão. Abaixei-me sobre um joelho, inclinando minha cabeça em sinal de respeito, em oração e profunda reflexão, minhas lágrimas molhando a grama verde.
Depois de um tempo na calma do jardim eu limpei o rosto e já ia me levantando quando vi nas mãos da deusa uma corrente com um pingente. Não pude acreditar. Era meu, um amuleto de proteção que Kou havia comprado para dar a papai, mas ele morreu pouco antes do natal e Kou pediu que eu ficasse com ele. Antes de deixá-los pedi a Kai que entregasse ao Kou.
Como no conto infantil, meu amor deixava uma trilha de migalhas para mim, inconscientemente é claro. Mas eu podia vê-la agora. Era clara e um a um eu ia recuperando tudo que meu chibi havia deixado para traz.
Agradeço a deusa e ao monge mais uma vez e volto para o hotel tranquilamente. Cass me aguardava com um sorriso, ela sabe! Ela sempre sabe quando eu estou feliz. Ela lê em meu rosto e em minha mente. Eu entro e abraço forte o meu anjo e agradeço a ela por tudo. Ela toca meu amuleto que agora está de volta ao seu devido lugar.
- Estou pronta. Vamos fazer ritual? – Ela se solta do meu abraço para pegar suas coisas.
- Não... Vamos ficar aqui hoje. Quero ir à praia amanhã cedo, andar descalço na areia. Você vai gostar disso.
Eu sinto que preciso cantar. Cantar e escrever, uma melodia brota em minha mente. Há tempos que não sentia inspiração, nem sabia o que era isso mais. Peguei um papel, caneta, e meu violão. Escrevo o que vai no meu coração. Enquanto eu rabiscava essa musica Cass fingia que lia. Por fim sentou-se a janela e ficou olhando o mar. Quando terminei, cantei a música inteira.
O céu está no chão
O céu não cai do alto
É o claro, é a escuridão
O céu que toca o chão
E o céu que vai no alto
Dois lados deram as mãos
Como eu fiz também
Só pra poder conhecer
O que a voz da vida vem dizer
Que os braços sentem
E os olhos vêem
Que os lábios sejam
Dois rios inteiros
Sem direção
O sol é o pé e a mão
O sol é a mãe e o pai
Dissolve a escuridão
O sol se põe se vai
E após se pôr
O sol renasce no Japão
Eu vi também
Só pra poder entender
Na voz da vida ouvi dizer
Que os braços sentem
E os olhos vêem
E os lábios beijam
Dois rios inteiros
Sem direção
E o meu lugar é esse
Ao lado seu, no corpo inteiro
Dou o meu lugar, pois o seu lugar
É o meu amor primeiro
O dia e a noite as quatro estações
- Eu realmente amei isso! – Ela aplaude. – Qual nome que vamos dar?
- Vamos? Eu pensei que eu tinha composto ela. – Olho para ela com olhar interrogativamente maroto.
- Bem, é que eu fiquei o tempo todo aqui...
- Me dando apoio! Eu sei meu anjo! – Eu a interrompo e completo sua fala. – Então vamos chamá-la Two Rivers. O que acha?
- Amei!!! Eu sei que em breve você estará cantando isso para alguém muito especial! – Ela fala com um sorriso lindo nos lábios.
- Sim, eu sei que sim. Agora eu vou dormir. Acho que você deveria também, quero pegar a praia cedo amanhã.
Ela acenou afirmativamente. Nunca dormi tão bem na vida. Voltei ao campo de flores. Bem no centro um terreno limpo, apenas um vaso com uma orquídea com três flores lindas. Apena três. Eu pude sentir meu amor ali quando me abaixei e toquei a planta. Levantei de súbito e o procurei, mas ele não estava por perto. Gritei por ele e não obtive resposta. Eu sabia que iria encontrá-lo, com toda certeza, mais cedo ou mais tarde.
Espere por mim meu chibi...
oOo
No dia seguinte corri pela praia. Estava um pouco frio, mas o sol esquentava minha pele, a sensação era muito boa. Então quando o cansaço nos venceu me joguei na areia. Cass me imitou. Nunca tinha visto a garota rir tanto, ela parecia muito feliz. Eu 'gostava' de vê-la feliz, mas 'queria' que ela tivesse vida própria. Eram desejos antagônicos, uma parte de mim a queria livre, vivendo uma vida normal e feliz outra parte não aceitaria nunca que ela se afastasse.
Naquele mesmo dia fizemos o ritual. O espelho mostrou um caminho aéreo que atravessava o Mar Amarelo, vimos a muralha da china depois a visão passou por uma placa indicando Beijing passando a frente do estádio do ninho. Seguindo um caminho até uma casa simples nos arredores.
- Vamos precisar de passaportes. O que acha de voar? – Olho para ela com um sorriso nos lábios.
- Sabe que nasci pronta!!!
Embarcamos em dois dias. Durante o vôo, Cass estava muito eufórica com o próximo destino. Fez-me um relatório rico em detalhes.
- A República Popular da China é o terceiro maior país do mundo em área ou o quarto, dependendo de como se contabilizem algumas áreas disputadas com outros países e o mais populoso do planeta, ocupando uma parte considerável da Ásia oriental, com uma população de mais de 1,32 bilhão de habitantes. Pequim, para onde vamos, é capital da República Popular da China e sua segunda cidade mais populosa. Acho que vamos ter um probleminha quanto a isso. Como vamos achar alguém em uma cidade tão cheia de gente? E com um regime ditatorial comunista tão rígido? – Ela tem um daqueles olhares indecifráveis.
- Se Kouyou estiver lá eu acho! – Digo passando confiança a ela, que continua sua narrativa..
- Pequim, cujo nome em mandarim significa 'capital do norte', durante séculos foi a maior cidade do mundo. Situada ao norte do país, é famosa pela Cidade Proibida, o palácio dos imperadores chineses, que foi construída entre 1406 e 1420, seguida do Templo do Céu 1420, e outros projetos. Foi capital do Império Chinês de 1421 a 1911. Em 1912 a capital foi transferida para Nanquim e a cidade tomou o nome de Beiping sendo ocupada pelos japoneses entre 1937 e 1945. A Praça da Paz Celestial (Tian'anmen) foi queimada duas vezes durante a dinastia Ming e finalmente reconstruída em 1651. Durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, Pequim foi ocupada pelo Japão em 29 de Julho de 1937. Durante a ocupação, foi a capital do comitê executivo do norte do país, um estado marioneta que governou o norte da China ocupada. A ocupação durou até à rendição do Japão, em 15 de Agosto de 1945. Em 31 de Janeiro de 1949, durante a Guerra Civil Chinesa, as forças comunistas entraram em Pequim sem confrontos violentos. No dia 1 de Outubro, o Partido Comunista Chinês chefiado por Mao Tse Tung, anunciou na Praça da Paz Celestial a criação da República Popular da China.
- Nossa seu relatório hoje está cheio de detalhes de história. – Disse ironicamente.
- E eu nem falei das Muralhas da China! A Grande Muralha é uma impressionante estrutura de arquitetura militar construída durante a China Imperial. Embora seja comum a idéia de que se trata de uma única estrutura, na realidade consiste em diversas muralhas, construídas por várias dinastias ao longo de cerca de dois milênios. Se, no passado, a sua função foi essencialmente defensiva, no presente constitui um símbolo da China e uma procurada atração turística. As suas diferentes partes distribuem-se entre o Mar Amarelo (litoral Nordeste da China) e o deserto de Góbi e a Mongólia (a Noroeste). Afirma-se que a Grande Muralha é a única estrutura construída pelo Homem a ser vista da Lua. Isso, porém não é verdade. Acredita-se que os trabalhos na muralha ocuparam a mão-de-obra de cerca de um milhão de homens (duzentos e cinqüenta mil teriam perecido durante a sua construção), entre soldados, camponeses e cativos. Calcula-se que a Grande Muralha tenha empregado cerca de trezentos milhões de metros cúbicos de material, o suficiente para erguer cento e vinte pirâmides de Quéops ou um muro de dois metros de altura em torno da Linha do Equador. A Muralha da China após concurso informal internacional em 2007 foi considerada uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo. Acha que pode me levar para dar um passeio nela depois que encontrar com sua família?
- Claro anjo!!! Vamos todos. Mas só se você prometer que vai fechar os olhos e dormir pelo menos até a hora do nosso pouso. – Ela me olha furiosa, cruza os braços e fecha os olhos imediatamente.
Nossa entrada em um país comunista só não foi mais difícil, por que Cass manipulou a mente do agente alfandegário. Era complicado entrar na China para estabelecer residência. Minha ansiedade era imensa. Alugamos um carro, e contratamos um interprete. O rapaz nos levou até o estádio do ninho um ponto arquitetônico que mostra uma poderosa China emergente no mundo moderno. Cass ficou encantada, podia ver em seus olhos e só não pediu para entrar, pois sabia que eu surtaria. Fiz o caminho que vi no espelho, a casa ainda estava lá. Dessa vez encontrei o endereço. Parei o carro, estava ofegante. Meu coração falhou uma batida.
- Eles não estão aqui...
Cass me olhou decepcionada. Pedi ao interprete que me acompanhasse. Bati na casa, pedindo por informações e claro a atual moradora não sabia de nada. Não nos restou alternativa, a não ser nos hospedarmos em um hotel ali perto. Eu teria que invadir a casa à noite, pois não me agradava que Cass ficasse controlando as mentes das pessoas. Então de madrugada eu estacionei o carro um pouco além da casa e entrei sem nenhum problema. Afinal fui treinado para ser invisível nessas horas. Sentei no tapete, no meio da sala de estar. Concentrei-me. Levou uns sete minutos e um relógio antigo com corrente logo voou em minha direção. Era o relógio de papai. Sempre pensei que o havia perdido, há muito tempo, então compreendi que Kou o havia 'guardado'. Sorri. Menino travesso, ficou com o relógio de papai. Saí dali muito feliz.
- Bem, sabe como chegar às muralhas Cass? Faça o itinerário, amanhã vamos fazer turismo. Prometo que levo você em todos os lugares que quiser!
- Onde está meu amigo Orion e o que você fez com ele? – Ela me olha entre surpresa e assustada.
- Talvez você tenha deixado ele naquela cela, morto com Zeus. E lhe sou grato por isso. – Disse pensativamente.
oOo
28 de Fevereiro
Eu estava na Sayuri quando senti aquele frio na espinha, me apoiei no balcão e esperei. Agora eu podia ver o templo à minha frente. Eu havia estado lá a tanto tempo! Estava tão chateado naquele dia... Coloquei flores em um vaso de cristal que estava ao lado de uma grande estátua em mármore branco da Deusa e entreguei a segurança de Aoi nas mãos dela, depositando ali o amuleto de proteção que um dia dei de presente para o ele. E naquele exato momento eu estava lá novamente, sentindo a presença de Yuu, podia até sentir seu perfume. Depois disso como sempre acordei no hospital.
Em outra ocasião, foi aquela maldita casa em que moramos na china. Vi o relógio que foi de meu pai. Estranho, nunca dei falta dele. Ou se dei, achei que fosse castigo por tê-lo escondido dos meus irmãos. Na verdade não sei o que está acontecendo comigo. Estou irritado porque o Kai e Uke-san não permitem que eu faça nada. Eu vou realmente surtar se ficar mais tempo longe de minhas flores.
Engraçado como não havia dado falta desses objetos até agora. E olha que eles me são muito caros. Mas, eu arrisco um palpite: Yuu está a minha procura. Eu sei que está. Mas por que eu não consigo resistir a essas lembranças? Por que tenho que desmaiar sempre? E os sonhos que ando tendo? Sempre o nosso campo de flores, quando chego registro a passagem de Yuu por ali. Ele não está, mas posso jurar que esteve! Tudo isso quer dizer o que?
São muitas perguntas e pouquíssimas respostas, ou devo dizer, nenhuma? Eu preciso de respostas aqui! Enquanto isso os caras não me dão sossego. Perceberam que eu estou irritado e parecem querer me enlouquecer antes do tempo. Mas, eles querem me ajudar e até me encobertam em algumas coisas com o Kai e a senhora Uke. O Ruki sempre dá um jeito de me levar para a Sayuri. Ele é mesmo um grande cara. E merece estar aqui nesse diário.
Ele é o mais baixo de nós. Além de cantar ele era uma promessa na bateria, violão e piano, se tivéssemos continuado a tocar. Odeia morango, adora o Sabu-chan seu cachorrinho, que nos acompanhou pela nossa turnê pelo mundo. Foi um caos quando resolvemos ter gatos na fazenda, mas depois de um tempo Sabu-chan aceitou.
Ruki é extremamente tímido com quem não conhece agitado com os amigos e alguém que dizem ser muito agradável de conversar, além de um grande amigo. É o típico aquariano, está sempre transformando tudo a sua volta quando tudo está parado demais, a alma da festa. É ele que não deixa o clima de velório perpetuar entre nós. Está sempre aprontando conosco. Tem manias bem estranhas às vezes. Passou um tempo chamando a si mesmo em terceira pessoa e outro chamando todo mundo de criança. Tem 5 graus de miopia, vive dando a desculpa que precisa de mim na Sayuri porque esqueceu os óculos ou perdeu a lente. Nessa hora Akira some, e realmente ele não sabe distinguir uma margarida de um gerânio. É um péssimo florista, mas um excelente amigo.
Voltando aos meus desmaios... Se eu estiver certo, minha próxima lembrança será de Ankara então tenho que tentar resistir em pé. E tentar me interar com a experiência. Não entendendo por que o contato com Yuu me faria mal. Eu o amo e nunca tive duvidas do amor dele por mim.
Eu escrevo... E te amo cada vez mais Yuu...
oOo
Eu e Cass nos divertimos pra valer. Nunca pensei que pudesse ser tão feliz novamente. Eu realmente estava em paz, é claro: não via a hora de encontrar meu chibi novamente. Mas eu sabia que eu iria encontrar. Ele havia traçado um caminho invisível para eu seguir.
O ritual foi feito novamente em um bosque perto de Beijing. O espelho nos mostrou um pequeno restaurante ao lado de um parque, em Ankara, capital da Turquia. O que em nome de Buda vocês foram fazer lá? Já sei: vender comida japonesa acho. Preparamos nossas malas e passaportes. Tínhamos mais algumas horas e quase sete mil kilometros para percorrer. Nós não conhecíamos a Turquia. Então Cass me mostrou algumas imagens de Ankara. E claro uma historia rápida da cidade.
- Ancara é a capital da Turquia e a segunda maior cidade do país, atrás de Istambul. A cidade tem uma população de 4.140.890 habitantes (estimativa de 2007), e uma elevação de 850 m de altitude. É ao mesmo tempo a capital de Ancara, província de mesmo nome. Ancara (em turco Ankara, pronunciado "âncara") é uma importante cidade comercial, industrial e cultural. Também serve como centro de comércio para a zona agrícola que a rodeia. Antes de converter-se a capital do país, a cidade foi famosa pela lã das suas cabras (lã de Ancara). Na atualidade é a sede do Parlamento Turco, os ministérios e demais instituições governamentais turcas assim como as embaixadas diplomáticas estrangeiras. Localizada no centro da Anatólia, é uma importante encruzilhada tanto em sentido figurativo, pelo comércio, como literalmente por ser o centro das redes auto-estradas e ferrovias do país. Aloja várias universidades, a Biblioteca Nacional, o Museu Arqueológico, o Museu Etnográfico e o Museu das Civilizações da Anatólia. O Mausoléu de Kemal Atatürk – Antkabir, a figura mais importante da Turquia do século XX, também está localizado em Ancara.
- É muito bonita né? – Ela faz um sinal afirmativo. – Já viu onde quer passear?
- Cara, ainda não me acostumei com o novo irmão, me dê um tempo. Mas, claro vou fazer um roteiro legal para nós.
Fecho os olhos para sonhar mais uma vez com o mesmo campo de flores, esse sonho recorrente me dá animo e forças mesmo não vendo meu chibi lá. Eu o sinto em cada flor que toco.
