Capítulo 7 – Baile de Halloween

-Estás linda, filha – disse Joana a Teresa enquanto via a filha a olhar-se ao espelho, alisando o vestido.

-É, realmente estou.

-Uma perfeita Cinderella. Só te falta o Príncipe Encantado.

Teresa revirou os olhos.

-Mãe, sabes que esse não é o meu foco agora.

-Eu sei, eu sei, mas tenho a certeza que assim que chegares á escola todos os rapazes vão desejar poder ter sido o teu par esta noite.

-A Maria é um ótimo par – confirmou Teresa, erguendo o queixo e Joana ergueu o sobrolho. – Eu sei o que queres dizer, e o que eu quero dizer é que ir com amigas também é ótimo. Pelo menos temos a certeza que não saímos de lá com o coração partido.

-Sabes que não gosto da tua perspetiva em relação aos relacionamentos. Nem tudo tem que acabar em lágrimas e corações partidos.

Teresa suspirou e olhou para o chão.

-Só gostava que o pai aqui estivesse. Que me visse agora, que visse no que eu me tornei e que me dissesse que estou linda. Que me acompanhasse ao Baile, me deixasse lá e quando acabasse ele estaria com um sorriso nos lábios e entregaria as minhas amigas às suas respetivas casas.

-Mas ele está a ver-te. Tenho a certeza que sim – murmurou Joana, erguendo o queixo da filha.

A campainha tocou e Teresa pigarreou, controlando o acesso que lágrimas que ameaçava vir.

– Vou abrir a porta. Leva um casaco quente.

Teresa acenou e a mãe saiu do quarto. Ela dirigiu-se à mesa-de-cabeceira onde tinha a foto dos pais com ela e tocou com o polegar no rosto do pai.

-Gostava mesmo que estivesses aqui.

Respirou fundo a abraçou a fotografia com força, deixando toda a melancolia vir. Quando ela chegou, ela recebeu-a, e deixou-a ir embora, como sempre fazia. Ela acreditava que superar a perda era lidar com o sentimento e depois mandá-lo embora porque a vida precisava de continuar. Tinha que continuar.

Teresa desceu as escadas e Maria estava com um cardigan que mostrava apenas os folhos do seu vestido branco. Ela sorriu mal viu a amiga e abraçou-a.

-Estás tão linda. Hoje não há ninguém que não nos resista!

Teresa forçou um sorriso e despediu-se da mãe. Maria e ela seguiram para o Baile com os pais de Maria que eram os representantes da Associação de Pais da escola, e quando chegaram ao local, já estava tudo ao rubro.

As músicas iam alternando entre lentas e mexidas, fazendo as delícias de todos os alunos que se divertiam. Teresa começou a percorrer o ginásio, sempre atenta a tudo, afinal ela era parte da organização e não queria reclamações do seu trabalho.

-Está tudo perfeito – disse uma voz masculina atrás dela e ela virou-se assustada. Era o seu professor de Português.

Ele era jovem. Bastante jovem até, e sempre tinha tido uma queda por ela, todos sabiam disso, incluindo ela, mas sabia que não iria acontecer nada entre eles. Teresa era muito responsável e sabia os limites entre professor-aluno. Eduardo, o professor, também conhecia bem isso e ele não sabia bem o que o atraía tanto para ela. Se era a sua inteligência, a sua bondade, a sua vitalidade ou a maneira como ela era excelente em tudo. Pelo menos, no que ele tinha visto.

-Obrigada, professor – falou ela, olhando para o fato dele. – Jack Sparrow, hum?

-Todos amam Os Piratas das Caraíbas – afirmou ele, encolhendo os ombros. – E aposto que está vestida de Cinderella.

-Com este vestido azul não é difícil adivinhar – Teresa corou levemente e baixou o olhar.

-Bem, não quero prendê-la. Divirta-se – disse ele e saiu do campo de visão dela.

-Ele é um gato. Ainda bem que este é o meu último ano aqui – falou Liliana aproximando-se de Teresa por trás e olhando para as costas do professor como se ele fosse a última bolacha do pacote.

-Nem acredito que acabaste de dizer isso.

Liliana enrijeceu o olhar e comentou:

-Olha quem se aproxima.

Teresa suspendeu a respiração. Vestido à Década 20 em direção a elas, vinha Klaus. Tinha um fato branco, com uma camisa branca e uma gravata às riscas azuis claras e brancas. Ele estava lindo.

-Boa noite, minhas lindas – disse ele com as mãos atrás das costas. – Devo dizer que as duas estão lindíssimas.

-Vou… ter com Carlos – gaguejou Liliana, que trajava um vestido de Julieta.

-Boa noite – disse Teresa. Uma música começou a tocar. Era lenta e suave e linda. Enchanted, de Taylor Swift.

-Desculpa, mas não resisti a pedir esta música. Vi os CDs dela em tua casa.

Teresa sorriu e aceitou a mão que Klaus lhe ofereceu. Os dois dirigiram-se para a pista de dança e ficaram de frente um para o outro. Klaus colocou delicadamente a sua mão na cintura e Teresa colocou a sua mão no ombro de Klaus. Taylor Swift começou a cantar num sussurro.

-És a mais bonita do Baile – murmurou em inglês ao seu ouvido. – Uma beleza que causa inveja e desejo.

-Muito obrigada pelo elogio – respondeu ela, em inglês.

-Vejo que trazes a pulseira que te ofereci.

-Sim. Muito obrigada, fica perfeita no vestido.

-Eu sabia que ias gostar.

-Como é que sabias que eu vinha de Cinderella?

-A tua amiga Liliana é uma boa informadora – respondeu ele, docemente.

-Andas a pedir-lhe para te informar das minhas ações?

-Sim – disse Klaus no mesmo tom. – Não te preocupes, ela só me diz o que eu quero que ela diga. Os teus segredos estão bem guardados com ela.

Teresa começou a ficar nervosa e com as pernas bambas. Ao fundo do ginásio avistou o professor Eduardo a olhar para eles com inveja.

-Talvez devamos acabar a dança por aqui – sugeriu ela, mas Klaus prendeu-a mais a si.

-Não até a música acabar.

-Gostas muito de mandar, não é?

-Maior parte do tempo. Mas não te preocupes, vou dar-te toda a liberdade que precisares para teres uma vida relaxada em Cambridge.

Teresa suspirou e apoiou a sua cabeça no peito de Klaus, o que o surpreendeu.

-Nem sei como te agradecer. Quero dizer, sei que me vais matar assim que receber o diploma, mas fico feliz por morrer realizando o sonho.

-Os sonhos são para se concretizar. E não é como se fosses fugir de mim.

-Hum – disse Teresa e afastou a cabeça dele. – Estou tentada.

Klaus enrijeceu e ela sorriu.

-Estava a brincar! Credo, tens que relaxar um pouco mais quando estás comigo! Essa pose de Macho Alfa não te fica bem.

-Mas eu sou o Macho Alfa, não preciso de disfarçar.

-Eu não disse para disfarçares, disse para relaxares. São duas coisas diferentes.

Klaus pareceu confuso e divertido com o rumo que a conversa estava a tomar.

-Ai sim? Explica-me, por favor.

-Bem, o Macho Alfa tem que estar sempre alerta a qualquer coisa, certo? – Klaus acenou que sim. – Comigo não tens que estar sempre alerta. Não é como se fosse arrancar-te a carótida a qualquer momento.

-Mas és uma arma que a minha mãe está desejosa de usar.

Teresa riu nervosa e abanou nervosa.

-Eu sei muito bem o porquê de ela me querer usar. Basta estar cinco minutos contigo para perceber o quão horrível consegues ser.

Klaus sorriu ao lembrar-se do que ela mencionava: a primeira vez que eles se encontraram oficialmente.

-Mas nunca te magoei.

-Não fisicamente e também não duvido que me magoarias se eu fizesse algo que tu não gostasses. Estou certa?

Ele já não estava a gostar nada do rumo da conversa. Teresa era demasiado perspicaz para ele, mas isso era também uma das qualidades que ele gostava nela.

-Nem por um segundo duvides que não consigo acabar contigo.

-Esther sabe disso – afirmou Teresa, mas Klaus confirmou.

-Sim, ela sabe. É por isso que eu sei que vai apanhar-te desprevenida.

Teresa tremeu nos seus braços com medo. Klaus era assustador, mas e Esther? Se ela achava que conseguia acabar com Klaus, então era igualmente ou mais poderosa do que ele.

-Não te preocupes, love. Eu vou estar preparado.

-E quando isso acontecer?

Klaus suspirou enquanto Teresa dava um giro agarrada à mão dele e voltavam à posição inicial.

-Nesse altura tudo irá acabar para ti.

-É bom que Esther compreenda que eu preciso de tirar o meu diploma.

Ele riu e isso fez cócegas no pescoço dela, arrepiando-a ainda mais.

-Um dia explicas-me essa necessidade de tirar um diploma?

-Claro que sim. Um dia.

Teresa deu mais um giro e os dois continuaram a dançar pelo ginásio. Liliana, que dançava com Carlos piscou-lhe o olho e ela revirou os olhos. Maria apontou para Klaus e disse sem som "ele é giro!". Teresa tentou esconder a risada, mas não conseguiu.

-O que foi? – indagou Klaus.

-As minhas amigas estão mais do que felizes por eu estar a dançar com alguém do sexo oposto.

-Então não tens namorado?

-A Liliana não te disse?

-A Liliana só fala o que eu quero que fale. Não quero saber da tua vida amorosa desde que não complique os meus planos – respondeu Klaus com o tom de voz frio. Teresa suspirou de confusa. Ele tanto podia estar a rir-se, como no momento seguinte tornar-se no ser mais frio e calculista que existia.

-Bem, ela não vai interferir porque não há nenhuma.

-Não acredito muito nisso. E quanto àquele que está há horas a olhar para nós?

Klaus mudou de lugar e Teresa viu por trás do ombro dele o professor Eduardo com uma cerveja na mão a olhar para os dois.

-Credo, não! – exclamou Teresa, olhando para Klaus. – Ele é o meu professor de Português.

-Que parece gostar mais de ti do que uma simples aluna.

-Isso já não é da minha conta.

-Desde que ele não te magoe, por mim tudo bem.

-Ele não é meu namorado, está bem? – disse Teresa, parando de dançar e olhando-o com fúria. – Não duvides dos meus valores morais, porque então vamos dar-nos muito mal!

Klaus olhou-a com surpresa no olhar. A explosão dela apanhou-o fora de guarda e ele não soube muito bem como reagir áquilo.

-Isso é uma ameaça?

-É um aviso.

-É o teu ponto fraco.

-Então não toques nele! – disse ela e virou-se para sair da pista de dança, mas ele segurou-a no pulso.

-A música ainda não acabou.

-Quero lá saber da música.

Klaus não gostou do tom de voz dela e puxou-a para os seus braços.

-"Como lidar com o Klaus", aula básica: não lhe vires as costas nem respondas mal, ou então as consequências podem ser… cruéis.

Teresa enrijeceu. Fitou-o nos olhos sem nenhum medo, mas por fim respirou fundo e acalmou-se.

-Desculpa – pediu ela. Havia demasiado em jogo para ela e sabia que Klaus podia matá-la naquele preciso momento. – Prometo que me vou controlar.

-E eu prometo que não subestimar os teus valores morais. Assim, teremos uma convivência minimamente saudável.

-Parece-me justo – concordou ela e continuou a dançar com ele.

©AnaTheresaC