Capítulo Sete: Reações
Damien recusara-se a dormir. Tivera uma briga com o seu pai no momento em que não quis ir para cama e desistir da procura por Harry. Foi então que, o adolescente revoltado, relutantemente voltou para a torre da Grifinória, mas não parou a sua busca.
No momento todos tinham ido dormir, exceto por Damien, Ginny, Ron e Hermione. Os quatro Grifinórios estavam debruçados em volta do mapa de Hogwarts, observando-o bem próximos, procurando qualquer sinal do nome de Harry.
Damien nunca havia ficado tão furioso com o irmão. Não porque Harry tinha desaparecido no dia de seu aniversário, isso nem passava por sua cabeça, o que o irritava era o fato do garoto ter deixado Hogwarts sem avisá-lo. Damien estava certo de que Harry deixara a escola por vontade própria, já que os escudos do castelo continuavam funcionando. Damien não havia esquecido do dia em que o irmão havia partido de Godric's Hollow em direção à Mansão Riddle para salvar Ginny e Nigel. Ele nunca quis sentir o que Harry sentira naquele dia. O pensamente de que o garoto havia partido e nunca mais voltaria era horrível demais para ser até mesmo cogitado.
O silencio no salão comunal era mortal. Ele nunca havia pensado que encontraria aquele lugar tão quieto. Os quatro estavam completamente concentrados no mapa. De repente, Hermione deixou escapar um 'oh!' e Damien rapidamente virou a cabeça para o lugar. Duas pessoas haviam aparecido, Sirius Black e Harry Potter. Damien quase pulou da cadeira e saiu correndo para encontrá-los, mas foi impedido por Ron.
Enquanto os quatro observavam, os dois pontos começaram a andar em direção ao quarto de James e Lily. Damien pôde ver que já havia um pequeno grupo de pessoas no quarto. Assim que eles saíram, ficou apenas Harry, Sirius, seus pais e Remus. Damien queria deixar o quarto e se juntar a eles também. Ele queria ir lá embaixo e ter certeza de que seu irmão e o seu padrinho estavam bem. Parecia que nada era mais importante que isso no momento. Brigaria com eles mais tarde por terem estragado a festa daquela noite.
Assim que Damien pensou que tudo havia acabado, viu o pontinho com o nome de Harry mover-se para fora do quarto, indo na direção oposta do mesmo. Ele assistiu Harry subir em direção às escadarias. O menino se preparou. Pensava que Harry vinha em direção à torre da Grifinória, mas ao invés disso ele rumou em direção ao sétimo andar e os quatro Grifinórios observaram confusos, enquanto Harry desaparecia novamente.
"Mas que…" Ron exclamou ao se afastar do mapa.
"Aonde, pra onde ele foi?" Hermione perguntou enquanto suas sombracelhas franziam-se em confusão.
"Você não pode aparatar nos terrenos de Hogwarts, as defesas não deixam! O que está acontecendo?" Ela continuou com pânico na voz.
Ginny estava sem palavras e apenas olhava a parte do mapa que Harry havia estado segundos atrás.
Hermione observou por alguns instantes o local em que o nome de Harry parecia ter desaparecido sem deixar vestígios e suspirou aliviada.
"Eu sei o que aconteceu! Ele não deixou Hogwarts. Harry está na Sala Precisa. A sala provavelmente não mostra no mapa algo que esteja supostamente um segredo!" Ela revelou orgulhosa por ter decifrado o que tinha acontecido.
Damien decidiu que já havia tido o bastante. Ele levantou-se abruptamente e foi em direção a porta. Vestiu a sua capa da invisibilidade por cima das suas vestes e saiu do salão comunal. Ignorou o grito dos seus amigos enquanto disparava pelas escadas. Ele iria descobrir o que havia acontecido com Harry de uma vez por todas.
Contudo, antes que ele pudesse chegar ao sétimo andar, Damien avistou uma figura alta indo em direção às portas principais. Damien parou ao reconhecer a figura. Era o seu padrinho Sirius.
Damien rapidamente desceu as escadas encaminhando-se até o homem. Antes que Damien conseguisse tirar a capa e pudesse confrontar Sirius, um grito foi ouvido atrás dele. O menino virou-se, permanecendo escondido embaixo de sua capa e viu sua mãe, seu pai e Remus andando apressados em direção a Sirius.
Foi só então que Damien percebeu o olhar zangado no rosto do seu padrinho. Ele se moveu para que não fosse nocauteado acidentalmente já que sua mãe, pai e tio Remus estavam tentando se aproximar de Sirius.
"Sirius, espere! Você não pode sair desse jeito! Você tem que contar o que aconteceu pra gente!" Lily disse a ele numa voz tensa.
Damien percebeu que sua mãe queria gritar com ele, mas ela tentava controlar sua voz já que não queria acordar o castelo inteiro.
Sirius virou-se para encará-la.
"Eu te disse o que aconteceu. Harry e eu fomos ao funeral de Bella. Por isso é que estávamos ausentes." Sirius explicou num tom controlado.
Damien sentiu seu coração bater forte. Então era por isso que Harry havia partido tão repentinamente. Ele devia ter sido informado da morte de Bella. O menino sentiu seu coração pesar por Harry. Ele sabia o quão próximo o seu irmão e Bella eram. Isso sem mencionar que ela era como uma mãe para ele.
"Mas como? Eu quero dizer…ela... ela já havia recebido o Beijo. Como ela…" Lily viu que não conseguiria terminar sua frase. O olhar severo de Sirius fez com que ela parasse no meio da frase.
"Algumas vezes é normal que a vítima do Beijo morra repentinamente. Ela morreu na noite passada enquanto dormia." Sirius respondeu.
Damien prendeu a respiração. Aquilo era horrível. Ele não queria pensar no que a família dela deve ter sentido ao perceber que a mulher morrera na cama pela manhã.
"Sirius, eu sinto muito. Eu... eu não sei o que dizer, eu... eu agi como um idiota. Eu sinto muito." James se aproximou e tentou encarar seu amigo nos olhos mas não conseguiu.
"Não é a mim que você deve se desculpar. Você não pulou na minha garganta assim que entrei no quarto. Depois de uma noite como essa, o que Harry realmente precisava era de alguém que estivesse lá para ele e não de alguém o acusando de ser egoísta e insensível ." Sirius disse nervoso.
Damien olhou para o rosto completamente vermelho de vergonha do seu pai. James estava horrorizado consigo mesmo. Damien sabia como seu pai ficava quando estava zangado. O homem sempre dizia coisas que não queria e depois tentava se desculpar. De algum modo, porém, o menino não achava que Harry estaria disposto a aceitar as desculpas do pai naquele momento.
Damien separou-se do grupo e começou a andar em direção ao sétimo andar. Ele definitivamente tinha que ver Harry agora. Damien estava grato por saber onde o irmão havia ido, antes de se encontrar com ele. Não queria cometer o mesmo erro que seu pai.
O menino chegou no sétimo andar e moveu-se até o ponto em que a Sala Precisa ficava escondida. Damien viu que a porta já estava lá e aproximou-se apressado. Ele tirou sua capa, embolando-a por entre suas vestes. Sabia que teria grandes problemas se fosse pego. Ninguém podia andar pelos corredores àquela hora da noite. Porém Damien não se importava muito com as regras. Algumas delas tinham que ser quebradas de vez em quando.
Damien segurou a maçaneta e abriu a porta gentilmente. Ele adentrou o cômodo e viu Harry logo de cara. A sala estava completamente vazia. Não havia nenhum móvel, nem mesmo uma cadeira. Hermione dissera uma vez que a Sala Precisa adaptava-se para atender as necessidades dos usuários. Aparentemente o que Harry realmente queria era um lugar para ficar sozinho. O moreno de olhos esmeralda estava parado na ponta do quarto. Havia uma única janela na sala, que Damien pressupôs que mostrasse magicamente os terrenos de Hogwarts. Harry olhava para a janela parado e não se moveu nem mesmo ao ouvir o irmão entrando.
Damien fechou a porta gentilmente atrás de si. Porém, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Harry falou sem se virar.
"Se você veio gritar comigo Damien, agora não é um bom momento. Você pode gritar pela manhã."
Ao ouvir aquelas palavras o grifinório sentiu o quanto Harry estava ferido.
"Eu não vim pra gritar com você." O menino assegurou.
Harry virou-se para encarar o irmão caçula. Sua expressão era neutra e seus olhos esmeralda estavam estranhamente vazios. Damien lembrou-se de quando havia conversado com ele em seu telefone, no dia em que Bella havia sido beijada. Ouvir a voz de Harry, magoada daquele jeito, mexera com Damien. Ele esperou que o irmão estivesse sentindo-se do mesmo modo agora, mas este parecia ainda estar em choque.
Damien andou em direção a Harry e parou ao seu lado.
"Eu ouvi o que aconteceu com Bella. Eu realmente sinto muito, Harry."
A única resposta do garoto foi balançar a cabeça antes de olhar para o horizonte novamente. Damien sentiu-se perdido. Ele não sabia o que mais poderia dizer. Perguntar se Harry estava bem parecia algo ridículo e sem sentido, já que era óbvio que este não estava.
"Harry, você não quer voltar para a Torre da Grifinória? Já está tarde, você devia descansar." Damien disse se sentindo estranho. Ele esperava que depois que Harry descansasse seria mais fácil conversar.
O moreno olhou para a porta, seus olhos pousaram nela por um momento antes de encontrarem os olhos de Damien. Ele balançou a cabeça.
"Tudo o que eu preciso é ficar sozinho. Eu não quero ir pra lugar nenhum agora." Harry respondeu.
Damien balançou a cabeça em entendimento. Se era assim que Harry iria lidar com isso, ele estava bem com isso também.
"Ok, eu vou agora. Se você precisar de mim é só me procurar no meu quarto, ok." Damien disse, sentindo-se impotente por não poder fazer mais nada por Harry.
Ele andou em direção a porta e partiu silenciosamente, ao olhar para atrás viu que Harry ainda olhava para a janela.
xXx
James não conseguiu dormir naquela noite. Depois que Sirius partiu, ele rumou em direção a Torre da Grifinória apenas para ser informado por Damien que Harry não estava disposto a falar com ninguém. O homem deixou a torre sentindo-se terrível. Ele havia gritado com Harry quando o garoto já estava se sentindo tão vulnerável. Devia ter estado lá para ajudá-lo e não para tornar as coisas piores do que estavam.
James ficou revirando-se na cama a noite inteira pensando nas coisas que havia dito e no que poderia fazer para se desculpar com o filho.
Quando amanheceu, James logo se levantou da cama. Ele se vestiu e estava prestes a sair em direção a Torre da Grifinória, quando Lily o impediu.
"Pelo menos deixa o Harry dormir decentemente! É cedo demais. Você pode falar com ele depois do café da manhã." Ela disse severa.
Então, James se segurou e encaminhou-se ao Salão Principal com Lily. Foi bem difícil comer alguma coisa com aquele sentimento de culpa que o dominava, fazendo com que fosse bastante difícil digerir qualquer coisa. Ele observava as portas do salão com bastante atenção, esperando ver Harry entrando acompanhado de Ron e Damien.
O café da manhã não estava indo bem, até que Ron e Damien entraram no salão seguidos por Hermione e Ginny. James esticou seu pescoço para ver se Harry estava junto a eles, mas ficou desapontado ao perceber que ele não estava lá. Os quatro grifinórios sentaram-se a mesa e começaram a comer. Damien olhou para o pai e lançou-lhe um olhar estranho antes de desviar a sua atenção para os seus amigos.
James levantou-se da mesa e foi em direção ao filho.
"Hey, Damien. Onde está o Harry?" Perguntou rapidamente.
"Ele ainda está no quarto. Disse que não está com fome e não quer tomar café da manhã." Damien respondeu.
James olhou preocupado para as portas de entrada. Não sabia ao certo como lidar com isso. Deveria ir ver Harry ou deveria esperar até o garoto estar pronto para falar com ele? O homem decidiu que iria ir ver o filho. Sabia que não seria capaz de descansar antes de pedir desculpas pela noite passada. Também iria dizer para que Harry tirasse o dia de folga. James já havia conversado com Dumbledore mais cedo naquela manhã e explicado o que acontecera com Bella. O diretor havia dado permissão para Harry ter aquele dia livre, para que assim pudesse se recuperar. Não era como se o garoto estivesse prestando muita atenção nas aulas de qualquer modo.
Ele se afastou da mesa da grifinória em direção ao salão comunal da mesma. Andou em direção ao dormitório de Harry e encontrou o filho sentado na cama. O garoto tinha acabado de vestir o uniforme.
Harry olhou para ver o seu pai parado na porta. James havia tentado o seu máximo para parecer confortável, mas as palavras pesadas que havia disparado na noite passada ainda ecoavam dentro de si, fazendo com que ele se encolhesse .
"Bom dia, Harry." James disse com esforço para parecer normal.
Harry levantou-se da cama e respondeu com uma expressão vazia.
"Bom dia, pai."
James sentiu-se ainda pior com o tom sem emoção da voz do filho ecoando no quarto.
Ele balançou as pernas desconfortavelmente antes de falar.
"Harry, veja bem, sobre a noite passada, eu realmente pisei na bola. Não devia ter gritado com você daquele jeito. Eu fiquei tão preocupado que acabei jogando as minhas frustrações em cima de você. Eu realmente sinto muito." Ele disse, conseguindo manter contato visual com o garoto.
Harry pegou sua mochila que contia os seus livros e colocou-a nas costas.
"Tudo bem." Respondeu.
James sabia que Harry estava longe de estar bem. Ele estava chateado e triste com o pai e não iria aceitar as suas desculpas facilmente.
"Harry, eu agi como um completo idiota! Eu não sei porque disse todas aquelas coisas horríveis pra você. Eu realmente sinto muito." James tentou novamente.
Harry balançou a cabeça e disse "tudo bem" novamente, no mesmo tom sem emoção.
James estava começando a ficar nervoso de novo. Por que é que o garoto estava sendo tão frio com ele? O homem teria preferido que Harry gritasse e brigasse ou dissesse o quanto ele era terrível no papel de pai. Mesmo isso seria melhor do que essa reação indiferente e distante que estava recebendo.
"Sirius me disse o que aconteceu. Eu realmente sinto muito sobre…"
"Não diga isso." James foi cortado pelo filho.
O homem olhou para Harry com surpresa.
"O quê?" Perguntou confuso.
"Não diga que você sente muito pela morte dela quando você claramente não sente." Harry disse.
James viu o olhar machucado por dentro daqueles olhos verdes. Aquela era a primeira reação que ele havia visto em Harry desde a noite passada.
James sabia que Harry estava certo. Ele não sentia nenhuma compaixão por Bellatrix Lestrange. Para ele, Bella era uma bruxa cruel e malvada que havia matado centenas de inocentes. Ela era tão culpada quanto Voldemort por tirar Harry de sua família e maltratá-lo enquanto o garoto era apenas uma criança. O homem a culpava do mesmo modo que culpava Voldemort. Por isso ele realmente não sentia tristeza pelo o que tinha acontecido com ela. Isso era apenas justiça pelo sofrimento que a comensal havia feito ele e Lily passarem.
"Eu não vou menir, eu não sinto compaixão pelo o que aconteceu com ela." James disse num tom de voz controlado.
"Mas eu sinto muito por isso te afetar. A morte dela afetou as pessoas que eu amo, você e Sirius. E eu realmente sinto muito por vocês dois estarem tristes." James disse, dando um passo em direção ao filho.
Harry olhou para o pai. Ele segurou o olhar por um momento ou dois antes de desviá-lo.
"Sim, bem, melhor eu ir, ou vou me atrasar para aula." Disse enquanto se movia em direção a porta.
"Você não precisa comparecer às aulas hoje. Dumbledore te deu o dia de folga." James disse. Ele queria conversar com Harry sobre a morte de Bella. Podia ver o quanto aquilo estava o afetando.
"Obrigado pela preocupação, mas prefiro ir para a aula hoje. Eu não quero sentar por aí sem fazer nada." Harry respondeu. James percebeu o quão frio o tom de voz do filho havia ficado.
"Harry, eu acho que nós devíamos conversar. Você tem que lidar com o que aconteceu. Você tem que entender..." Novamente James foi bruscamente interrompido por Harry.
"Pai, eu sei! Eu sei o que aconteceu. Ela morreu! Pessoas morrem o tempo todo, certo! Eu não tenho que pensar sobre isso. Eu não quero pensar nisso! Eu prefiro agir como se hoje fosse um dia como outro qualquer. Eu não quero conversar sohre isso nunca." Harry gritou cheio de ira e mágoa que eram claramente demonstradas em seu rosto. Sua respiração tinha acelerado como se estivesse correndo.
James aproximou-se para confortá-lo, mas Harry se afastou.
"Harry, eu só estou tentando ajudar." Tentou.
O garoto olhou para seu pai e forçou uma voz calma antes de falar.
"Você quer ajudar? Então me prometa que você nunca irá trazer a morte de Bella a tona. Eu não quero nunca ter que conversar sobre isso. Ok?" Harry disse num tom sério.
James sabia que o filho precisava conversar sobre Bella e sobre a morte dela, mas percebeu que não conseguiria discutir isso naquele momento. Harry estava muito imerso em emoções para ouvir qualquer um naquele momento. Então, o homem relutantemente concordou em nunca mais conversar sobre Bella.
James moveu-se em direção a Harry e deu-lhe um abraço discreto para tentar acalmá-lo. O moreno esperou um ou dois segundos antes de afastá-lo gentilmente.
"Eu estou bem, pai. Eu só quero que você pare de me dar toda essa atenção. Sei que você não gosta disso." Harry disse rapidamente.
"Estou perdoado por ontem?" James perguntou enquanto segurava o filho pelos ombros.
"Você não sabia o que tinha acontecido, não tem problema. Só não pule no meu pescoço na próxima vez." Harry respondeu ajeitando seu uniforme.
"Próxima vez?" O homem perguntou com um olhar maroto.
"Agora, ouça aqui jovenzinho. Não deve haver próxima vez. Eu quero sempre saber onde você está, entendido?" James disse, mantendo o tom de brincadeira para que Harry soubesse que ele não estava realmente o repreendendo.
Harry apenas virou seus olhos em resposta.
"Falando nisso, como é que você saiu na noite passada? Dumbledore disse que as defesas continuam intactas. Como é que você saiu de Hogwarts?" James perguntou quando esse detalhe importante passou por sua mente.
Harry deu de ombros.
"Eu não sei. Eu só queria sair, então eu usei o pó de flu no seu quarto." Respondeu sem parecer preocupado por ter quebrado as barreiras de segurança de Hogwarts.
James não o pressionou mais. Sabia que teria que dizer isso para Dumbledore. Talvez houvesse algo de errado com aquela lareira ou talvez os poderes de Harry ainda não haviam sido completamente compreendidos.
xXx
O dia de Harry transcorreu vagarosamente. No final do dia, o garoto desejou que o tivesse tirado de folga. Nada nas aulas prendia a sua atenção e, com isso, viu seus pensamentos serem voltados todos para Bella. Ele varria com força essas idéias de sua mente. Sabia o que iria acontecer com ele se continuasse desse jeito.
Damien e seus amigos conseguiram manter Bella e os acontecimentos da noite passada fora das conversas. Ginny havia silenciosamente escorregado a sua mão para cima das de Harry na hora do almoço e havia tentado oferecer o máximo de conforto que podia. Era difícil julgar o que o moreno estava sentindo, já que ele determinou-se a não falar nada a ninguém.
Lily o encurralou após a aula de poção. Ela tentou oferecer as suas condolências, mas Harry a afastou do mesmo modo que havia feito com James. Ele não queria que os pais mentissem sobre sentirem muito. Era insultante. Lily disse ao filho que iria vê-lo no final do dia. Ela estava preocupada com ele. Sabia que o garoto precisava desabafar sobre o que tinha acontecido. Ele ainda não havia se recuperado completamente da morte de Voldemort e agora teria que lidar com a perda de Bella também. Harry, porém, disse a ela que tinha muito trabalho para fazer e que não estava no clima para passar um tempo com eles. Antes que a mulher pudesse discutir, Harry deixou a classe de poções, deixando-a ainda mais preocupada com o seu filho.
Assim que Harry se aproximou do Salão Principal para o jantar, sentiu-se subtamente exausto pelas atividades do dia. Ele disse calmamente para o irmão que não estava com fome e não queria jantar, também disse que iria para fora tomar um pouco de ar fresco. Damien estava prestes a discutir, pois Harry não comera nada desde o dia anterior, mas o moreno de olhos verdes não deu chance a ele e saiu rapidamente pelos portões principais.
Harry andou em direção ao lago e caiu próximo a ele. Ele estava exausto. Não havia dormido a ultima noite inteira e gastara todos os segundos desde aquele momento pensando na morte de Bella. O que ninguém entendia era a culpa que Harry estava sentindo. Ninguém sabia que Bella havia sido morta porque falhara em proteger o anel da família Black, que continha uma parte da alma de Voldemort. Havia sido a perda da Horcrux que resultou na morte dela. Harry esfregou seus olhos privados de sono para varrer as imagens que não paravam de vir a sua mente. Ele lembrava exatamente o que tinha acontecido naquela noite. Foi a primeira e única vez que ele havia experienciado uma visão. Ouvira o que Voldemort tinha dito a ela. Ele sabia sem sombra de dúvidas que se Bella tivesse retornado com o anel de Voldemort, estaria viva hoje.
O garoto se lembrou de como Bella havia ficado quando ele mentiu dizendo que a Horcrux havia sido destruida pelo Ministério. Ela sabia que seria punida pela perda da Horcrux. Até mesmo Harry sabia que ela seria punida por isso, mas mesmo assim não devolveu o anel para ela. Ao invés disso, ele o destruiu mesmo sabendo que a mulher iria sofrer por isso. Mas nunca pensou que ela seria punida tão severamente a ponto de receber o beijo do Dementador. Na cabeça do moreno ele era o responsável pelo destino de Bella.
Harry desviou sua mente desses pensamentos depressivos ao sentir que alguém sentara-se silenciosamente ao seu lado. Ele sentiu a mão quente de Ginny tocar a sua e não queria virar-se para vê-la. Ele permaneceu olhando para frente, encarando a superficie do lago que cintilava com a luz da noite.
"Harry, você quer conversar?" A voz suave de Ginny perguntou.
Harry não respondeu. Ele sabia que não seria capaz de explicar o que sentia. Ninguém iria entender. Como é que poderiam? Eles não conheciam Bella como ele conhecia. Para eles, Bella era uma Comensal da Morte e merecia tudo o que aconteceu. Ninguém iria entender que ela havia sido traída por ele e havia sido mandada para morte por isso. Ele possuía o anel, ele o tinha e não o devolveu. Ninguém conseguiria entender isso.
Harry sabia que eles iriam discutir dizendo que ele não tinha outra escolha senão destruí-lo. Aquilo era uma Horcrux e tinha que ser destruída. Uma pequena parte de Harry acreditava naquilo também, mas a culpa no interior de sua mente se recusava a admitir isso e o garoto continuava sentindo-se responsável pelo destino de Bella.
Ginny tentou conversar com Harry novamente, já que ele havia ficado quieto e distante o dia todo. A ruiva sabia que o moreno precisava de alguém para estar ao lado dele, mesmo que agisse de modo contrário. Ela tentou perguntar se estava tudo bem ou se ele queria ir para dentro. Depois de receber um não em resposta, Ginny resolveu voltar para o castelo, desanimada. Ela sentia uma enorme vontade de ficar lá com Harry, para poder oferecer algum conforto, porém o garoto não demonstrava nenhum sinal de reconhecimento. Por fim, ela decidiu que era melhor deixá-lo em paz.
Assim que a menina fez menção de se levantar, Harry agarrou seu pulso com força, fazendo-a se virar para encará-lo. Harry, entretanto, continuava observando o lago, sem olhá-la nos olhos. Ginny viu o desespero camuflado no silêncio, implorando para que ela ficasse. A ruiva sentou-se novamente ao lado do garoto e se moveu mais próxima a ele, que sentiu um confortável peso nos ombros e agradaceu mentalmente. Ginny o envolveu em seus braços, mantendo-o mais perto ainda. Ela sabia que Harry precisava de alguém, não para conversar, mas apenas para estar ao seu lado. Se ela pudessa dar esse conforto a ele, então ficaria ali a noite inteira com prazer.
