Ela não sabia exatamente o que iria fazer naquele momento. Em termos concretos, ainda eram duas da madrugada e somente na parte da manhã alguém do serviço de assistência viria para levar a menina. Não tinha sono para dormir, mas também seria um tanto desconfortável permanecer por mais, no mínimo, seis horas ali. Poderia simplesmente chamar Meechum. Porém, era algo fora de cogitação no momento. Ela sabia que em algum momento precisaria fazer outras coisas, como trocar fraldas sujas da criança...
Três horas haviam se passado. Já eram quase cinco da madrugada. O bebê permanecia imóvel em seus braços. Nada de choro, nada de manha, nem mesmo fome ou fralda suja. A qualquer momento Frank levantaria. Mesmo em dias de frio ele costumava acordar cedo. Normalmente para se exercitar ou ler o jornal, assim como ela. Claire já estava ficando incomodada de ficar ali sentada. Precisava de algum local para se acomodar melhor. Seria um total despropósito levar a criança para o andar superior, Frank odiaria e reviraria os olhos só de ver algo do tipo. Mas ela estava desconfortável. Para reduzir qualquer tipo de problema envolvendo Frank, ela decidiu ir até o quarto de hóspedes para descansar. Nem que fossem por alguns minutos.
Olhar para ela e ver que respirava tão suave enchia seu coração. Os olhos abertos, mesmo que por pouco tempo, explicitaram a doçura e o brilho que um misto entre azul e verde podem apresentar. Aquele sorriso desdentado, rápido, fora um dos mais alegres e sinceros que recebera em toda a sua vida. Como poderia alguém, com aquele tamanho, sorrir daquele jeito?
Claire: Prometa-me que não vai chorar?! Por favor. Fique quietinha. Vou te colocar na cama bem aqui ao lado e vou descansar um pouco. Logo mais alguém virá te buscar.
Ela organiza a cama e coloca o bebê ao seu lado. Tranquilidade como aquela, jamais havia visto em lugar algum. Uma menina que quase havia morrido na noite passada, estava dormindo em paz como se nada tivesse acontecido. Ela não podia negar que tudo aquilo mexeu com ela, mas preferia esquecer-se do que passou para que logo o sol nascesse e viessem buscá-la.
Não, por favor. Larguem ela. Larguem. Eu não vou deixar que você leve, não vou deixar. Onde você está? Para onde você foi? Por favor, apareça! Não consigo mais te enxergar. Não suma, por favor. Nuvens negras se espalham com rapidez e fazem com que tudo desapareça em questão de segundos. Ela fecha os olhos e abre novamente. Não conseguia ver nada por alguns instantes. Quando pisca novamente, vê tudo em branco. Nada mais, apenas uma imensidão branca que tornava o horizonte impossível de enxergar. Ela olhava para frente e para os lados, não havia nada. Imaginava que estivesse presa em uma caixa. Tentou gritar por diversas vezes, mas parecia estar sufocada pelo ar puro demais. Insistia em pedir para sair, mas não conseguia ouvir nem mesmo sua própria voz. Cansada de gritar, ela resolve sentar. Põe-se a chorar como jamais imaginou alguma vez na vida. Soluçava. Olhava agora somente para as mãos, escondidas entre as pernas. Encolhida, se mexia como se estivesse sentada em um balanço. Ao levantar a cabeça, ela encontrou a menina sorrindo para ela. Aquele sorriso contagiante de olhos claros irradiava luz e uma alegria quase inimaginável. O bebê estava sentado há uma boa distância dela. Vestindo roupa branca, quase desaparecia naquela imensidão monótona. Tentando manter-se sentada, a criança se mexia com firmeza, parecia que algo tentava derrubá-la. Quando Claire tenta se aproximar, uma nuvem escura reaparece e envolve a menina. Ela tenta ultrapassar a nuvem, mas não consegue. Parecia impedida. Até que resolve soprar com toda a força que tem dentro de si. Assim, consegue novamente obter o sorriso desdentado. Ela corre e segura a menina com alento, prometendo não largá-la mais. Até que...
