AMANHÃ
por Nina Neviani
Capítulo VII – Nascimento
20 de julho de 2007
– Papai? Tem certeza que tudo vai ficar pronto?
Aiolia olhou para o salão onde, em poucas horas, seria realizada a festa de aniversário da sua filha. Ele suspeitava de que só conseguiria arrumar tudo a tempo se a festa fosse dali a uma semana, já que a mulher responsável por arrumar o salão tinha ficado doente e, desculpando-se muito, disse que não poderia comparecer. Em cima da hora, Aiolia não encontrou ninguém disponível. Nem mesmo seu irmão. Se bem que conhecendo o irmão como conhecia, Aiolia desconfiava que a ajuda que o irmão poderia dar naquela situação seria mínima.
Apesar da gravidade da situação, ele sorriu para a filha e disse:
– Tenho sim.
– Que vai ficar tudo pronto antes da festa?
– Claro, querida. Por que você não ajuda trazendo aquele enfeite ali?
Aiolia apontou para um dos intermináveis enfeites. Athina foi rapidamente pegá-lo, quando o entregou ao pai, disse:
– Eu queria que a Marin estivesse aqui nos ajudando.
Aiolia nada falou, mas, no fundo, desejava o mesmo que a filha.
Marin já estava pronta. E ainda faltavam algumas horas para o aniversário da Athina. Marin olhou novamente para o urso roxo embolado em papel de presente transparente. Ela não sabia explicar, mas algo lhe dizia que ela deveria estar lá com a Athina e... com o Aiolia.
Sem pensar mais, ela ligou para a menina.
– Alô?
Marin sorriu ao ouvir a voz da menina.
– Parabéns, Athina! Sou eu, Marin.
– Marin!!! Eu tinha acabado de falar de você!
– É mesmo?
– Sim. Eu e o papai estamos arrumando aqui o lugar – a menina falou mais baixo a frase seguinte –, mas eu acho que não vai ficar pronto a tempo.
– Vocês precisam de ajuda?
– Você pode ajudar?
– Claro. Já estou indo.
Pouco tempo depois...
– Cadê a aniversariante?
– Marin!
Athina abraçou forte a mais nova amiga. Marin, por sua vez, tentava abraçá-la e segurar o grande urso ao mesmo tempo.
– Acho que esse pequeno urso é pra você.
– Oh! Ele é lindo. Eu ia pedir pro papai comprar no dia que a gente se conheceu no shopping, mas...
– Agora ele é seu, querida.
– Obrigada, Marin.
Só então Marin olhou para Aiolia, que estava em cima de uma cadeira colocando um arranjo de bexigas no teto do salão. Ele disse.
– Olá, Marin.
– Olá, Aiolia. Aonde eu posso ajudar?
Aiolia não se lembrava de quando tinha visto a sua filha tão sorridente. A festa já estava quase acabando, mas mesmo assim Athina estava cheia de energia e continuava a brincar com as colegas. Aiolia viu que Marin estava sentada numa mesa sozinha. Foi até ela. Tinha que admitir que apesar de tudo o que tiveram no passado, Marin fora incrível. Sem a ajuda dela, ele jamais teria conseguido arrumar tudo a tempo.
– Eu não sei como agradecer, Marin.
– Eu não o fiz por você.
O tom áspero o surpreendeu.
– Eu sei. Mas mesmo assim acho que não me custa agradecer.
– Tem razão, Aiolia. E não precisa agradecer, eu fiquei feliz em poder ajudar.
Ficaram em silêncio por algum tempo até que Marin que olhava para Athina, disse:
– Ela é linda, não é?
Aiolos que tinha chegado há pouco, se intrometeu na conversa.
– É verdade. Eu sempre digo para o meu irmãozinho que ele vai ter muito trabalho para afastar os pretendentes da Athina.
– Aiolos, essa é Marin. Uma... amiga. E Marin, esse é o meu irmão, e como você já pode perceber, um intrometido.
– Olá, Aiolos.
– Olá, Marin.
Nesse momento, Athina se jogou nos braços do tio.
– Tio Aiolos!!!
Aiolos depois de abraçá-la forte, brincou.
– Athina? Athina é você?
– Claro que sou eu, tio!
– Não... a minha sobrinha é uma menininha. Você é uma mocinha.
Ela riu e disse.
– Eu disse pro papai que quando eu fizesse seis anos eu já seria uma mocinha.
– Sim, querida. A mais linda de toda a Grécia. Eu já estou ficando velho, pois lembro daquela bebê prematura que eu peguei no colo como se tivesse sido ontem.
– Prematura? – Foi Marin quem perguntou.
Athina concordou com a cabeça e explicou.
– Eu nasci dois meses antes "da hora".
Marin não disse mais nada e Aiolia indagou:
– Marin? Tudo bem?
– Sim. – Entretanto, os gestos dela diziam o contrário – Eu preciso ir embora.
– Mas você tem que levar os docinhos. E um pedaço do bolo! – Athina lembrou.
– Não se preocupe, querida. Amanhã nós levamos para a Marin. Tudo bem, Marin?
Aiolia propôs. Marin concordou, despediu-se e se foi.
Athina voltou a brincar com as colegas, deixando o pai e o tio na mesa conversando.
– Por um acaso, essa sua amiga Marin é a aquela Marin?
– Sim. Essa Marin é a minha ex-aluna e ex-namorada Marin.
– Ela é muito bonita. Ela não tinha ido para o Japão?
Aiolia explicou todos os acontecimentos dos últimos dias para o irmão.
– Sim, eu entendi. Só não entendi porque ela saiu desse jeito.
– Eu acho que sei por quê.
– E não vai me contar?
– Eu acho que a Marin acreditava que eu tivesse sido infiel enquanto nós namorávamos.
Marin chegou em casa, porém não se lembrava de como tinha chegado até ali. Desde que descobrira que Athina fora um bebê prematuro.
Dois meses.
Então... Aiolia não tinha traído. Talvez até tivesse, mas ela já não tinha mais certeza.
E provavelmente não tinha traído. Por isso que ele aparentava estar tão irritado com ela. Para ele, ela tinha voltado para o Japão sem um motivo.
Marin olhou-se no espelho, e respirou fundo.
Quando pensava que Aiolia tinha sido infiel, ela tinha conseguido resistir aos encantos dele.
Agosto de 2003
Aiolia, depois de dar várias aulas naquele dia, chegou cansado em casa. Quando voltava para casa ficava feliz, mas também irritado. Irritado porque teria que ouvir as intermináveis reclamações da Thalassa. E feliz porque estaria com a sua filha. E o tempo que passava com Athina compensava qualquer coisa. Aiolia se encantava com cada descoberta da filha, com cada sorriso e queria sempre estar do lado dela para secar qualquer lágrima que, por ventura, ela pudesse chorar.
Ele estranhou a casa estar tão silenciosa, normalmente ele mal entrava e já escuta os risos ou gritinhos da Athina.
Logo percebeu que a casa estava vazia, olhou no relógio e viu que já eram oito horas da noite. No quarto, um envelope em cima da cama chamou-lhe a atenção. Abriu-o e cada palavra que lia, ficava mais chocado.
"Aiolia,
Estamos casados há quase três anos e eu, finalmente, percebo que você estava com a razão quando disse que o nosso casamento não daria certo. Ainda penso que faltou emprenho da sua parte para fazê-lo ser realmente um casamento de verdade. Contudo, compreendo que você jamais conseguirá amar outra mulher como ama a japonesa.
Por isso, antes de rompermos oficialmente o nosso casamento, eu estou fazendo uma viagem para pôr a minha vida em ordem e pensar na melhora maneira de como dizer para os meus pais que o nosso casamento acabou.
Eu sei que você vai sentir muita falta da Athina nesse tempo, mas eu não tive alternativa, a não ser levá-la comigo. Posso não ser um exemplo de mulher, mas amo a minha filha mais do que a mim mesma.
Espero em breve voltar.
Não me procure.
E mesmo não querendo, eu te amo.
Thalassa."
Aiolia começou a andar pela casa sem saber o que fazer. Provavelmente poderia ir até a polícia, mas sem dúvida causaria um escândalo. E a conservadora família da Thalassa ficaria sabendo, da maneira errada, que eles nunca tiveram um bom casamento como procuravam mostrar. E a Thalassa jamais o perdoaria.
Por um acaso, Aiolia notou que estava faltando uma garrafa de conhaque no bar da sala. Ele voltou a olhar a carta, e notou que letra, sempre impecável, da Thalassa estava irregular e sem a firmeza de sempre. Aiolia não precisou de muito para deduzir que Thalassa estava bêbada. Bêbada e dirigindo o carro que levaria a filha deles para algum lugar que ele desconhecia.
Meia hora mais tarde, o telefone tocou. Aiolia o atendeu rapidamente.
– Professor Aiolia Priamos?
– Sou eu.
– Professor, eu sou a Shina, sua ex-aluna.
– Olá, Shina.
– Professor... Eu sou oficial da polícia, e...
– E?
– A sua esposa e a sua filha sofreram um acidente, o hospital onde elas estão é...
– Como está a Athina?
– Ela está bem.
– E a Thalassa?
– O senhor pode anotar o endereço do hospital?
Minutos depois, Aiolia chegou ao hospital e recebeu a notícia de que a sua mulher tinha falecido. Ele passou mais uma noite no hospital junto com a sua filha, da mesma maneira que tinha feito quando ela nascera, jurou que não deixaria que nada de ruim acontecesse a sua pequena Athina.
Continua...
N/A: Demorou, mas saiu... Agora eu já estou de férias e as atualizações serão mais freqüentes (pelo menos é o que eu pretendo)
Agradeço a todo mundo que comentou no capítulo passado.
Faz tempinho que eu escrevi, mas pra quem gosta do casal AioliaxMarin, tem uma short-fic (realmente short!) chamada "Depois da Guerra". Quem quiser ler...
Beijos!
Até o próximo capítulo!
Nina Neviani.
