Kurama olhava pensativo para a pasta que Hiei havia lhe entregado. Descartou entregar os documentos à polícia humana. Se haviam demônios poderosos envolvidos, não tinha nada que eles poderiam fazer. Estava inclinado à sugerir Koenma acionar o Esquadrão de Defesa do Mundo Espiritual para o caso, e pensou em comunicar sua decisão à Botan. Algo, no entanto, o dizia para esperar. "Talvez seja melhor colher mais informações antes de reportar as novidades à Botan", ele pensou, tentando se justificar. A gravidade do conteúdo encontrado pedia urgência, mas ainda assim ele sentia necessidade de adiar a entrega do caso.

Estava decidido a ir no bar a procura do homem da noite anterior, de qualquer maneira. Com sorte, conseguiria alguma informação nova. E ainda havia a jovem morena, que ele pretendia dissuadir a perseguir o sujeito. "Nem que precise apagar sua memória".

(...)

Kurama já estava no bar quando Kiki chegou. Ela logo o viu sentado em uma das mesas do canto, seus longos cabelos ruivos contrastando com a atmosfera obscura do lugar. Vestia uma camisa de malha cinza, um casaco marrom e tinha um copo de gim-tônica à frente. Ela andou apressada até ele, usando o mesmo casaco de moletom da noite anterior, dessa vez com uma jaqueta de couro preta por cima, e o gorro sobre a cabeça, escondendo parte do rosto.

- Pode trazer uma cerveja? - Ela pediu à garçonete que passava por eles. Sentou-se de frente para Kurama, olhando para baixo - E aí?

- Tudo bem?

A garçonete voltou, trazendo uma garrafa de cerveja e um copo de vidro. Kiki se serviu, bebendo um copo inteiro de uma só vez, antes de se servir de novo.

- Ah, eu estava precisando disso!

- Eu me dei conta de que ainda não sei seu nome - ele disse, olhando com curiosidade para ela.

- Faz diferença?

- Pra mim faz - ele respondeu de maneira gentil, o olhar fixo nela.

Ela hesitou, virando o rosto.

- Kiki. E o seu? - disse por fim, incomodada com aquele olhar que parecia estar enxergando até sua alma.

- Prazer Kiki. Sou Shuichi Minamino - ele respondeu, sorrindo. Já tinha pensado de antemão se se apresentaria com seu nome youko ou humano. Optou pela segunda opção, que considerou mais segura.

- Achei que fosse Kurama... - e bebeu mais um pouco da cerveja, despreocupada. O rosto de Kurama endureceu na mesma hora, enquanto ele olhava espantado para ela tentando esboçar alguma reação.

- Como você...

- Além de manipular dados, eu também leio pensamentos, sabia?

"Não é possível...". Kurama continuava encarando a jovem, o sorriso tendo desaparecido do seu rosto. "Teria sido enganado de novo? Sua energia não era tão forte assim, como poderia ter tantos poderes?" Ele tentava organizar os pensamentos rapidamente quando ela explodiu em uma gargalhada.

- Relaxa, cara, estou brincando! Hahahaha, você devia ter visto a sua cara!

- Não estou entendendo.

- Antes de seguir você depois da escola, tentei ouvir a conversa do Urameshi. Ouvi esse nome e achei que estavam se referindo à você. Só joguei um verde. Não é que deu certo?

- Você é mesmo esperta... - ele admitiu.

- Qual é do seu nome então? Estava me dando um nome falso ou é só um apelido?

- É uma longa história, deixa pra lá. Pode me chamar como quiser.

Ele não estava interessado em entrar nesses detalhes àquela altura. Apesar da evidente energia espiritual dela, ele queria evitar a apresentação dos fatos e achava que quanto menos ela se envolvesse em tudo aquilo, melhor para todos.

Ela ainda ria com o canto da boca enquanto terminava o último gole de cerveja. Jogou o corpo para trás, se apoiando no encosto da cadeira. Distraidamente, abaixou o gorro do casaco, tentando procurar a garçonete. Kurama se assustou com o que viu: o olho esquerdo dela estava com um hematoma arroxeado em volta, o rosto inchado de um machucado ainda recente.

- O que aconteceu com você?

Ela se deu conta de que havia esquecido do machucado que tentava esconder sob o gorro e virou o rosto.

- Nada, só uma briga!

- Você está bem?

- É só um machucado a toa, esquece.

"Bem, não ia conseguir esconder a noite toda mesmo...".

- Bem, e então, cadê aquele sujeito, já pintou por aqui? - Ela tentava mudar de assunto e desviar o foco do seu olho roxo.

- Ele está ali - respondeu tranquilamente, acenando com a cabeça.

- O que? Ele está aqui esse tempo todo e a gente perdendo tempo com papo furado?

- Não grite! Você vai chamar muita atenção - ele a censurou - Eu estou o observando desde que ele chegou. Por enquanto, não temos o que fazer.

- Como assim, não temos o que fazer? Eu vou lá resolver essa porra! - E ela se levantou de um pulo.

- Sente-se. Você não vai resolver nada agindo assim. Temos que ser pacientes.

- Caralho! - ela gritou, se jogando de volta na cadeira e cruzando os braços em um gesto infantil - Eu não vim até aqui pra ficar só olhando!

- Pode ir pra casa, se preferir, mas não vou deixar que uma atitude precipitada estrague os planos - ele falou calmamente, alheio ao brusco lampejo de raiva dela.

- Que merda você está falando? Que planos?

- Apenas confie em mim.

Ela resmungou, pegando a garrafa de cerveja vazia e xingando baixinho. Acenou pra garçonete, apontando para a garrafa. Estava começando a se arrepender daquela história e cogitou seriamente ignorar o conselho de Kurama e ir até o homem, que bebia animadamente no balcão do bar.

A nova garrafa de cerveja chegou na mesa e Kiki bebeu com raiva quase metade, direto do gargalo.

Kurama ignorava a atitude infantil da menina a sua frente. Ele não queria arriscar perder o homem de vista novamente e por isso sabia que um confronto direto àquela hora não era a melhor estratégia.

- Diga, desde quando você tem habilidade para mover objetos? - ele perguntou, tentando puxar assunto para amenizar a situação. Temia que ela acabasse chamando a atenção dos demais ocupantes do lugar e colocasse tudo a perder.

- Ah, não enche!

- Você pode continuar emburrada como uma menina mimada ou conversar comigo para passar o tempo. Eu sugiro...

- Vai à merda! Não me diga o que eu tenho que fazer!

Ele suspirou. A garota era impulsiva e claramente não era do tipo que esperava a hora certa de agir. "Não me admira que tenha ganhado um olho roxo...".

Kiki bufava, dividida entre ir pra casa, acertar um soco bem nos olhos verdes do ruivo a sua frente, ou ir tomar satisfação com o homem que levara seu dinheiro na noite anterior. Sabia que essa história de ajuda não daria certo. Ela só sabia resolver seus problemas sozinha.

- Kiki, eu entendo que esteja com raiva. Por favor, é importante que sejamos pacientes agora. Esse homem... Talvez esteja envolvido em algo grande, algo perigoso, e não quero perder a chance de descobrir alguma informação.

- Do que você está falando? Que coisa perigosa é essa?

- Eu não posso falar agora. Por favor, confie em mim - Ele olhou fundo em seus olhos castanhos. Ela estava agitada, mas sustentou o olhar dele por alguns segundos, desafiadora. Apesar dos modos gentis, o olhar de Kurama transmitiam uma frieza que ela teve dificuldade de compreender. "O que diabos está acontecendo aqui afinal?".

- Ok! - ela disse, exasperada. Não queria dar o braço a torcer, mas por alguma razão achou que deveria acreditar nele. Sua voz era confiante e lhe passava segurança, por mais que não gostasse de admitir.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, antes que ela falasse novamente:

- Desde pequena... 5 ou 6 anos, por aí.

Ele olhou com um olhar intrigado, sem entender.

- Você perguntou desde quando eu faço aquele... lance com objetos - ela respondeu ligeiramente impaciente.

- Ah sim - Kurama notou a inabilidade social da menina, que parecia sempre estar na defensiva. "Do que ela tem medo?", ele se perguntava. -Você deve praticar bastante... demorei a perceber que estava mexendo com os dados.

- É, até que sim - disse, com um sorriso maroto. Realmente se orgulhava de ter aprimorado especificamente sua habilidade com objetos pequenos.

- Pena que não da maneira correta.

- O que? Como assim?

- Eu notei que teve dificuldade com as tampas da lixeira ontem a noite... pelo visto você não consegue manipular coisas mais pesadas ou muito grandes. Estou certo?

- É porque eu nunca precisei! - Kiki ficou sem graça com a observação certeira dele.

Kurama mudou seu semblante repentinamente. O homem que ele observava acabava de levantar e ir de encontro a um jovem que entrava pelo bar, com uma mochila nas costas. O menino, com no máximo 8 ou 9 anos, parecia intimidado pela atmosfera do ambiente e completamente assustado. Kiki se virou na mesma hora para ver o que tinha chamado a atenção de Kurama e, juntos, observaram a cena.

Eles viram quando o homem acompanhou o menino até uma mesa próxima e ofereceu uma bebida. O garoto, ainda com um olhar amedrontado, recusou, inseguro. Os dois começaram a conversar, o homem sorrindo e tocando as mãos do garoto tímido, tentando acalma-lo. Aos poucos, ele relaxou a postura e compartilhou uma risada com o homem à sua frente.

Kurama encara os dois, estudando cada um minuciosamente. As imagens da pasta vermelha voltaram à sua mente quase instantaneamente, por mais que ele tentasse afastá-las. Ele não consegue evitar pensar que o que acontecia bem à sua frente estava intimamente ligado àqueles documentos monstruosos encontrados por Hiei.

Kiki acompanhava o olhar de Kurama, mas não entendia o que aquilo significava. Chegou a abrir a boca para fazer uma pergunta, mas o ruivo olhava a cena com tanta intensidade que ela mudou de ideia e decidiu ficar calada, esperando alguma reação dele.

Quando o homem e o menino se levantaram, ela imediatamente olhou na direção de Kurama, como se esperasse ouvir alguma ordem.

- Vamos - ele se limitou a dizer, jogando umas notas em cima da mesa para pagar as bebidas. Levantou e saiu apressado, Kiki seguindo atrás, ainda sem compreender. A essa altura do campeonato ela já nem se preocupava mais em reaver o dinheiro. Quem ela queria enganar? Estava curiosa e adorava uma boa briga - e tudo ali indicava que ela estava prestes a ver uma.

A dupla não saiu pela porta principal do bar; em vez disso, se dirigiu para os fundos, usando uma saída escondida, através de uma porta de madeira escura que se mesclava com parede, sumindo nas sombras. Não fosse a projeção da luz quando ele abriu a porta, eles nem teriam notado aquela passagem.

Kurama seguia os dois de perto e saiu pelo mesmo lugar segundos depois. A porta dava para uma área externa, espécie de pátio localizado na parte de trás do estabelecimento. O ar frio da noite chegou aos pulmões de Kiki, que correu para alcançá-los.

- Solte a criança - ordenou Kurama, com uma voz firme.

O homem se vira, procurando a origem daquelas palavras.

- Você de novo? - Ele ri.

- Eu não vou permitir que leve esse garoto. Vamos, solte-o!

- E como planeja me impedir, moleque?

O Rose Whip de Kurama já estava pronto nas mãos do youko. Num gesto rápido, ele lança seu chicote à frente. O homem rapidamente se teleporta alguns metros para trás, escapando da arma.

- É o melhor que pode fazer?

Kurama, no entando, não responde, o chicote ainda vibrando no ar. O rosto do homem se enfurece ao perceber o erro que cometeu: de maneira precisa e suave, o Rose Whip envolve a criança que acompanhava a cena aterrorrizada, e a puxa para perto da porta, caindo nos pés de Kiki.

- Tire ele daqui! - Ele grita para a garota às suas costas - Rápido!

Ela não teve tempo de raciocinar; apenas pegou o menino pelo braço e correu pela mesma passagem de antes, voltando para o bar. Tentou evitar o olhar dos clientes que viraram o rosto diante da correria da dupla e saiu pela porta principal, de frente para a rua.

- Você está bem? - Ela perguntou quando enfim alcançaram a calçada da frente do bar, a mão ainda fechada nos pulsos da criança.

- Que-quem é-é você? - O garoto olhava amedrontado para a Kiki, tentando se afastar o máximo possível.

- Eu estou só te ajudando - ela disse, no fundo ainda incerta do que estava acontecendo - Você não é muito novo para estar aqui não, pirralho?

- Não me chame de pirralho! Eu-eu fugi de casa! Cansei dos adultos acharem que mandam em mim!

Kiki se surpreendeu com a abrupta coragem que surgiu no menino ao falar essas palavras. Não pode deixar de sentir uma certa empatia: ela também já tinha passado por essa fase e as consequências não tinham sido nada boas. Entendia muito bem esse sentimento de revolta juvenil, da mesma maneira que sabia que uma criança de 9 anos não tem um discernimento muito bom sobre as coisas da vida e tendia a cometer más escolhas - principalmente quando influenciada pelos outros.

- Olha aqui, cara, eu não sei quem é você ou por quem quer fugir de casa. Tenho certeza de que tem seus motivos, mas deixa eu te falar uma coisa: tudo que você acha que sabe hoje, amanhã vai perceber que estava errado. Você vai levar muita porrada nessa vida, mas ainda tá novo demais pra isso. Aproveita que você é criança e vai curtir sua infância, vai brincar com seus amigos e estudar, porque depois que você jogar isso fora, não volta mais, entendeu?

O garoto olhou assustado diante do desabafo da desconhecida e balançou a cabeça, em sinal de concordância. No fundo, estava aterrorizado com os acontecimentos da noite e desejou poder voltar para casa o mais cedo possível. Queria pedir para que a moça o soltasse, que o deixasse ir embora, iria prometer nunca mais fugir de casa, mas estava mudo de pavor.

Ao mesmo tempo, Kiki voltava a pensar no duelo que estaria acontecendo no pátio. Não iria embora até que seu par reaparecesse - e por via das dúvidas, iria manter o menino com ela. Estava assustada também, mas ao mesmo tempo ansiosa e - ela custou a admitir - preocupada com Kurama. "Ai, ruivo...vê se volta logo!".

A luta ganhava fôlego entre os dois combatentes. O cenário deixou o youko mais confiante: o terreno era cercado por uma vegetação rasteira e algumas folhagens que subiam nos muros ao redor, e ele sabia que poderia usar aquilo em seu favor. Enquanto se movia rapidamente pelo espaço, tentando confundir o inimigo, ele buscava localizar seus pontos fracos. A inteligência - ele logo percebeu - não era seu forte na batalha, e escondia isso através de golpes vigorosos, mas previsíveis.

Não demorou para Kurama traçar sua estratégia, e, com sua energia, conseguiu manipular as folhagens longas e espessas que adornavam o lugar. Elas começaram a se locomover, enroscando-se e crescendo a medida que avançavam no terreno. Logo, estavam formando lanças pontiagudas que subiam verticalmente do chão em direção ao inimigo. Com um gesto, Kurama ordenou o primeiro ataque, facilmente evitado pelo oponente. O segundo e terceiro ataques vieram e novamente erraram o alvo.

A ação deixou o homem ainda mais confiante, e ele riu ao perceber a facilidade com que escapava das investidas de Kurama. Este, por sua vez, mantinha-se impassível, olhos fixos no oponente e concentração absoluta. Ignorava as provocações proferidas pelo adversário e mais uma vez se preparou para atacar. Ainda com um largo sorriso de vitória no rosto, o rival de Kurama mais uma vez se teleporta, escapando por pouco do golpe, para logo em seguida ser acertado em cheio. Ele urra de dor, sem entender.

Uma haste formada pelas folhagens se erguia por baixo dele, cravando sua ponta fina e afiada em seu ombro direito. O sangue escorre pelo braço, enquanto ele ainda grita, atordoado.

- Não foi difícil perceber que você seguia um padrão - Kurama justificou, andando na direção do homem, que o olha com raiva - é rápido nos movimentos, mas não no raciocínio. O tipo mais fácil de vencer.

O homem luta para se libertar da arma de Kurama, e antes que ele consiga novamente fugir, as plantas novamente o atacam, ferindo o ombro esquerdo. A dor é forte demais para que seu oponente consiga usar seus poderes espirituais e se teleportar para longe.

- Quem é você e o que iria fazer com aquele menino?

Mesmo em aflição com os ferimentos, o homem esboça um sorriso.

- Não devia se preocupar tanto... ele estava em boas mãos.

- Canalha! - Kurama grita, as folhagens ao redor se movendo ameaçadoramente na direção do rival. Elas param a centímetros do seu rosto.

- Vai me matar? Se eu fosse você, mudava de ideia... temos pessoas poderosas do nosso lado.

- Eu não preciso te matar... posso aumentar sua dor sem acabar com a sua vida - As plantas, sob comando de Kurama, se aproximaram ainda mais do homem, arranhando de leve sua testa - De quem você está falando? Quem está envolvido nisso?

- Idiota... você está comprando uma briga que não é sua. Nunca vai conseguir interrompê-los, eles estão espalhados por toda a parte. Temos humanos, demônios e seres espirituais do nosso lado. Acha que me derrotar vai detê-los? Você não sabe nada sobre eles...

- Quem são eles?

Ele ri mais uma vez.

- Vai... à... merda...

Com um gesto, Kurama coordena o ataque simultâneo de vários braços da vegetação que o circundava. Em sincronia, as plantas atingem o corpo do homem, perfurando vários pontos vitais e o matando instantaneamente. Ele anda até o corpo sem vida à sua frente e vasculha seu bolso, retirando uma carteira. Saca um maço de dinheiro, que guarda consigo, e joga o objeto vazio no chão.

- Acabem com ele - ele ordena, enquanto se vira para sair de pátio de volta ao bar. As plantas cobrem o corpo do homem, o soterrando em meio às folhagens.