Um lugar de muitos e poucos.

Anoitecia em Onogoro e a cidade começava a cobrar vida dos amantes, boêmios e desiludidos em geral. Uma metrópole

como era essa cidade tinha esse efeito nas pessoas, sempre faziam com que elas esticassem um pouco mais o seu dia, por

isso ela funcionava 24 horas por dia sete dias por semana. Eram como dois mundos distintos, porém complementares e,

nem sempre, as regras que valiam em um mundo, valeriam no outro. Por isso, muitas pessoas se dividiam entre essas

regras, pois sabê-las seria a diferença entre sorte e azar, guerra e paz, vida e morte

Contudo havia pessoas que só participavam de um desses mundos por opção. Não conseguindo o molejo para fazer a

transição de regras optou apenas por uma das sociedades de castas que oneram a cidade. E esse era o tipo de gente que

apinhava o Spartan's. Esse tipo de gente eram os alvos de Tyller Dayspring, que viu neles um modo de fazer sua vida voltar

a ter brilho. Mesmo que não fosse o brilho de antes, onde era um famoso empresário de lutas e ex-combatente militar,

viveria como viveu durante toda sua vida.

Shinn Asuka chegou no bar por volta da meia noite. Teve que suportar uma tediosa introdução nas atividades do C.I.R.O.

(Centro de Integração de Refugiados de Orb), no qual foi apresentado a uma infinidade de pessoas e suas respectivas

áreas de atuação, fez reuniões obrigatórias e oficinas de controle de raiva descritos no seu prontuário, cortesia de Stwart.

Chegou e foi direto ao balcão onde havia um lugar vago em meio a tantos outros. Sentou-se e pediu uma cerveja; deu o

primeiro gole, sentindo o amargo da bebida lavar-lhe o estomago... fazia meses que não tomava nada alcoólico. E sabia que

teria que controlar o corpo que começaria a tender ao descontrole, mas esse era um rito de aceitação para aquele lugar.

Ninguém jamais o levaria a sério se pedisse uma limonada.

- Sai daí, nanico! Esse lugar é meu – disse o dono de uma voz grave, enquanto segurava seu ombro com firmeza. Só pelo

tamanho da mão, percebia-se que o dono dela era realmente enorme. Mas isso não intimidara Shinn Asuka.

- Não vi seu nome escrito nele – respondeu virando-se para o desconhecido. Não se importou ao ter que elevar a cabeça

para olhar nos olhos do homem. Mesmo de pé, teria que fazê-lo.

Todo o bar parou e olhou divertido para a movimentação entre os homens. Isso não era nada novo no Spartan's. Sempre

haveria uma briga na noite, era regra implícita do lugar. Mas a diferença entre os oponentes chamava a atenção dos

espectadores. Um deles aproveitou a confusão para tomar a cerveja de uma das outras mesas.

- Eu sou Aldebaran e mandei você sair do meu lugar – disse o homem tirando o menor do banco. Este não se deu por

rogado e socou o antebraço do homem com as mãos nuas e conseguindo assim um grito de dor do semigigante.

- Desgraçado! Você quebrou meu braço! – toda a platéia observou aterrada como o homem maior segurava o braço morto,

enquanto o outro voltava para seu lugar. Logo o homem partiu pra cima dele com violência derrubando uma mesa no

caminho. Todos os freqüentadores do lugar sabiam o que viria a seguir.

Quando os dois homens encontravam-se ao poucos centímetros de distância foram ouvidos dois "clicks" metálicos de armas

sendo engatilhadas. A seguir os dois homens tinham, cada um, uma arma apontada para a cabeça. Cortesia do barman e

dono do lugar.

- Muito bem novato, bem vindo ao Spartan's. eu sou o barman e dono do lugar, Tyller Dayspring e apesar do significado do

meu nome, nada nesse lugar cheira a primavera! Temos algumas regras aqui: O que pedir paga! Suas brigas são suas

brigas, mas se quebrar alguma coisa da casa passa a ser minha briga. Tudo nesse bar é conquistado através do esforço, se

quer respeito terá que lutar por ele. Caso não concorde saia e não volte mais, não precisamos do seu dinheiro, mas se der

bobeira aqui, vou lhe apresentar minhas amiguinhas aqui – diz sinalizando para as pistolas.

- E quanto à você, grandão – retomou olhando para o gigante – conhece as regras. Solte a grana ou vá direto para o

necrotério – disse o barman apontando as duas pistolas trabalhadas para o homem.

Enquanto o homem pagava e se dirigia ao hospital mais próximo com uma blusa como tala improvisada, Shinn voltou a tomar

sua cerveja e Tyller voltou para seu balcão, não sem antes, quebrar o nariz do engraçadinho que aproveitou da confusão

para tomar a cerveja de outra mesa.

- Há quanto tempo está em Onogoro, garoto? – perguntou Dayspring.

- Cheguei ontem – respondeu tranqüilamente.

- Então está no C.I.R.O.?

- Sim, mas isso é temporário. Vou arrumar um emprego e dentro de um mês alugo um quarto para mim.

- Ambicioso você, hein? – ironizou o dono do lugar.

- Por que diz isso? – retornou o jovem entre goles de cerveja.

- A maioria de nós sonhou com isso, mas acabou aqui. Às vezes a realidade é dura, filho. O quê sabe fazer?

- Um pouco de tudo... de mecânica básica e trabalho do campo à defesa pessoal e aula de idiomas para estrangeiros.

- Vida agitada, não? Quantos idiomas sabe?

- Nenhum – respondeu o garoto em um meio sorriso – mas os estrangeiros não sabem disso.

- Hahahaha – riu gostosamente o homem – garoto, você é dos meus.

- Você é um sobrevivente nato, pelo visto – disse outro homem, recém chegado ao bar, durante a confusão.

- Você sabe que não é bem vindo aqui, Phisto – disse Tyller em tom de desgosto.

- No entanto não tem poder suficiente para me impedir, certo Dayspring.

- Não quero descer no seu nível. Além do mais, você não conquistou nada aqui.

Sem se importar, o homem vira-se para Shinn e apresenta-se:

- Mellon Phistopollis, presidente da organização de auxilio à refugiados Mão Invisível. Pode me chamar apenas de Mel –

apertou a mão do homem mais jovem com convicção.

- Você já ouviu todas as piadas sobre isso, não é? – perguntou o jovem – Shinn Asuka.

- Ah sim... desde criança, Senhor Asuka. Depois que as pessoas descobriram esse pequeno anagrama no meu nome,

digamos apenas que minha vida não foi muito glamurosa. – disse despreocupadamente.

- O senhor deve guardar lembranças interessantes dessas histórias – comentou Asuka – A maioria das pessoas tem o

costume de olhar para o passado com nostalgia. Mas será que sobra algo para pessoas que perderam tudo nesse bar, além

de nostalgia?

- O senhor é diferente dos outros refugiados, Senhor Asuka.

- Só Shinn está bom.

- De acordo, Shinn. Você possui inteligência e habilidade. Pode se dizer que o senhor é incomum.

- Não sei qual a surpresa... metade do planeta se ferrou com a queda da colônia. Outra metade foi arrasada na guerra

depois. Todo tipo de gente foi atingida. Quantas pessoas foram da riqueza à pobreza com a passagem de um Ginn, Dinn,

Bacue, ou pior, daquele Destroy enorme que matou 7 da população da Europa?

- É verdade, mas você está na vida de refugiado desde um pouco antes, não é mesmo?

- Como você sabe disso? – disse, assumindo uma postura defensiva.

- Shinno Asuka era meu amigo. Trabalhávamos para a Inntech por vários anos. Eu vi você nascer garoto – respondeu o

homem contemplativamente – Eu tenho um projeto, Shinn. Uma visão. Eu gostaria imensamente que o filho de meu amigo

estivesse aqui para compartilhar algo que também foi o sonho de seu pai: a paz. Virá você comigo nessa jornada, Shinn

Asuka? – concluiu o homem.

Alguma coisa não batia nessa história e Shinn sabia disso. Do nada, um homem que conhecia seu pai e que o vira nascer?

Isso podia funcionar para seduzir recém-chegados desesperados por um laço emocional. Era só colher informações no

C.I.R.O. e pronto... parentesco instantâneo. Por outro lado, não tinha uma pista melhor para seguí-la e essa poderia lhe

permitir contato. Ia responder quando uma voz soou próxima deles.

- Ele não irá com você. Não enquanto eu puder impedir!

Sem ao menos virar para vê-la ele já sabia quem era a dona dessa voz. Isso só podia ser uma piada cruel do destino. Ela

não poderia estar seguindo ele, poderia?

- Kyla, ele é seu novo projeto? – perguntou Tyller.

- Isso mesmo T-Money. E eu não vou deixá-lo ser enganado por um farsante como Phisto!

- A decisão não é sua, Stwart. – disse Mell.

- Pode não ser, mas tem algo de podre nessa sua organização e eu vou descobrir! – disse a garota empurrando um copo

em direção ao balcão que quase caiu, sendo salvo pela rapidez de Shinn.

- Acho que não é legal quebrar nada nesse bar, Kyla.

- Ela é uma exceção – informou Dayspring – ela me ajudou a conseguir o alvará de funcionamento e ajudou metade das

pessoas dessa espelunca, quando chegaram. Todos devemos alguma coisa à ela.

- Só cumpria meu dever. Vocês não me devem nada – respondeu sorrindo, e voltando-se para seu novo caso – Você, do

contrário, virá comigo porque nossa conversa ainda não acabou!

E saiu do bar carregando o garoto, entre protestos e risos dos outros freqüentadores. Quando chegou do lado de fora, ele

pediu para que ela esperasse um minuto. Voltou pra dentro pagou a cerveja e voltou para o lado de fora.

- Muito bem, te escuto.

- O quê está fazendo aqui?

- Tomando uma cerveja. Qual o problema, mamãe? Já sou de maior! – ironizou o homem, recebendo uma mirada gélida de

sua acompanhante.

- Você chega a dois dias e já tem duas brigas no currículo. Um delas é em um dos bares mais barra-pesada de Onogoro,

senão de toda Orb. Você não percebe que está se afundando, Shinn?

- Como você sabe que eu briguei aqui?

- Você não teria um tratamento como esse agora, se não tivesse feito algo. E duvido que tenha entrado no bar e recitado

poesia, estou certa?

- Na verdade, acho que um homem de ação como eu estará sempre onde algo de ação estiver. Qual é o seu problema? Eu

deveria ser só um número para você, não é? Eu chego, passo por você, falo algo, você escreve no seu relatório e no C.I.R.O.

Eles me mandam para oficinas de controle de raiva, não é mesmo? Aí eu finjo que freqüento, eles fingem que ensinam e

pronto, livramos a cara de todo mundo, eu já sou novamente responsável pelo que acontece na minha vida e tudo bem,

certo?

- Imbecil! – disse a garota, franzindo o cenho e desferindo um tapa especialmente forte – Se você fosse só um número,

não teria feito a metade das coisas que fiz por você!

- Repete isso, por favor – pediu Shinn, surpreso não pelo tapa, mas por um gesto que a garota fez com as sobrancelhas que

lhe parecera estranhamente familiar. Não é preciso dizer que ele levou outro tapa – Não isso, o lance das sobrancelhas.

- Do que você está falando? – desconversou a psicóloga.

- Esquece – suspirou o soldado – Afinal de contas como você me achou?

- Uma das minhas habilidades é rastreamento de pessoas. Posso avaliar suas possíveis decisões pessoais de acordo com o

perfil psicológico.

- Me plantou um rastreador, não foi? Não ache que eu engulo toda essa sua baboseira psicológica. Pois deixe-me dizer uma

coisa, a decisão final do que fazer da minha vida é isso: minha!

- E o que fará então? Cair nesse conto de fadas que Phisto te contou?

- E você acha que eu cairia num truque barato desse. Mesmo que ele tenha trabalhado com meu pai, quais as chances dele

se lembrar de uma pessoa depois de duas guerras. Se eu não tivesse fotos deles, me pergunto se os lembraria! Mas você

não pode tomar essa decisão e... – Shinn Asuka pára instantaneamente de falar, enquanto pensa algo que deveria ter

passado em sua cabeça há dias atrás. Isso fez com que um estranho sorriso surgisse em seu rosto – tenho que ir. Kyla,

você é estranha, inteligente e cabeça dura, mas me deu uma idéia genial. Nos vemos!

Enquanto a jovem permanecia parada vendo seu companheiro se afastar, pensou na incrível habilidade que ele tinha em

escapar entre seus dedos. No fundo, ele era um refugiado. E isso realmente a incomodava: mesmo igual, ele ainda soava

diferente dos outros? Ele era ou era ela que queria que ele fosse?

Dentro do bar, Phisto chegara em uma mesa afastada do balcão, onde estavam mais dois homens.

- E então, o que achou do garoto? – perguntou Said.

- Tem algo nele que me cheira a encrenca – comentou Pichard.

- Ele é diferente dos outros refugiados. Não é como essa massa de músculos sem cérebro que recrutamos todos os dias. Ele

esconde alguma coisa. Revisem sua historia. Se queremos que ele apóie a causa, não podemos deixar um furo sequer na

história.


De volta ao trabalho! Agora que a fic já está quase terminada no Word, esperem atualizações mais constantes... mas nem

tanto assim, rs.

Oi, Danizinha, valeu a leitura e se prepare... logo as coisas podem ficar intensas por aqui! :)

Nos Lemos,

Fan Surfer