CAPÍTULO 6 – QUEM TEM UM AMIGO, TEM UM EXÉRCITO

Kyoko não podia negar que olhar para Ren fazia seu peito doer.

Sentia falta do mundo exclusivo que ele criava e das doces mentiras que ele contara. Como Setsu certamente diria que sentia falta de Cain, ela sentia falta de Ren e de Corn. Somente a escolha de não querer mais ser uma garotinha perdida no mundo da fantasia conseguira convence-la a não buscar por ele nos últimos dois anos, mas não mentiria a si mesma dizendo que fora fácil.

Não, desde o início fora muito difícil. Fizera companhia a Akemi-san todas as noites dos primeiros meses, e a septuagenária era fã assumida de Tsuruga Ren. Para desespero de Kyoko, a vigorosa idosa não se furtava aos comentários escandalosos sempre que o via em tela, e mostrava a Kyoko quase diariamente a sua coleção de imagens do ator, uma mais provocante que a outra.

"Se existissem homens assim na minha época, eu teria fugido daqui só para ve-los de perto!"

"Se meu finado marido tivesse esse aparência, eu não teria tido apenas quatro filhos!"

"Não sei como a mãe o alimentou, mas faria um favor à humanidade se divulgasse a receita!"

"Dá para ter uma aula de anatomia com esse corpo!"

"Eu estou velha, minha filha, mas não estou cega nem morta!"

Não era de se estranhar que a família saísse de perto sempre que Akemi-san se sentava diante da televisão, deixando Kyoko absolutamente sozinha e com a árdua tarefa de fazer companhia à mulher. A educação que recebera a impossibilitava de sair dali, por isso aguentava bravamente cada observação escandalosa que lhe provocava um intenso rubor, palpitações em mais de um lugar e uma pequena voz interior que concordava com cada frase.

Saíra de Yamadera com a promessa de que retornaria um dia para visita-los e levaria consigo uma foto de Tsuruga Ren autografada, e como o pedido viera de Akemi-san, Kyoko entendia perfeitamente que a idosa esperava uma foto bem sensual. O brilho malicioso no olhar da senhora quando fizera o pedido deixava isso bem claro.

"Talvez eu devesse pedir a foto a Ootomo-san", pensou sarcasticamente.

Por mais que tentasse não se colocar em tal posição, Kyoko não conseguia deixar de se perguntar a respeito das preferências de Ren quanto a mulheres. Primeiro, exibira um olhar tão doloroso por conta de Morizumi Kimiko; agora, Ootomo Honoka. Não que ela tivesse algum direito de avaliar em quem ele depositava seu afeto, mas as duas simplesmente não se encaixavam na imagem que ela fazia dele.

"Exato, Kyoko. Não é essa a questão?", perguntou a si mesma. Sim, Kyoko não poderia fazer afirmações acerca das preferências daquele homem se sequer sabia onde ele estava no emaranhado de personagens que criou. Ren, Corn, Kuon: o quanto das interações que tivera com ele eram reais, o quanto eram criações, esta foi a pergunta que ela o desafiara a responder antes de partir, mas depois que partira, perguntava-se diariamente se ele teria levado seu desafio em consideração, ou se ele simplesmente se esquecera dela.

Havia muito que ela não sabia. Passara os últimos dois anos evitando ao máximo pensar no que ela deixara para trás, pois somente poderia fazer algum uso das respostas que procurava quando ele se mostrasse de verdade a ela, e quando ela soubesse realmente quem era. Hoje, voltava a Tóquio, para perto dele, com muitas questões pendentes e as primeiras eram: queria ele algum contato pessoal com ela? Ou nos últimos anos ele a apagara completamente da memória? Teriam os dois alguma chance de contato pessoal, agora que haveria os sentimentos de Ootomo a considerar?

Pisou em Tóquio e foi recepcionada por sua agente temporária, Fang. Sabia que 'Fang' era um apelido que funcionava como nome artístico, dado graças à pesonalidade da mulher, uma coreógrafa de pavio curto, mas Fang nunca lhe contara seu passado, muito menos seu nome verdadeiro, e Kyoko jamais seria intrusiva perguntando. Podia apenas prever muito sofrimento, já que Fang era uma dançarina promissora até perder uma das pernas, e mesmo com uma prótese ela somente conseguia dançar o suficiente para transmitir as coreografias que criava.

"KIKI! Você não vai acreditar! A internet está surtando! Shinobu está histérico, acho que pirou de vez!"

O humor de Kyoko melhorou rapidamente ao ver a exuberante jovem tatuada de cabelos trançados; era impossível ficar triste perto dela.

"Fui designada como sua agente hoje, dá para acreditar? Vou acabar com a sua reputação logo no primeiro dia!"

Foram-se rindo para enfrentar mais um dia de muito trabalho, enquanto longe dali um trio se contorcia na LME para sair de uma situação inesperada.

"Fui avisada há poucos minutos que você terá uma entrevista ao vivo hoje à noite. Parece que você entrou na lista de mulheres mais cobiçadas do país ou sei lá o quê!"

"Espera... o quê?"

"E você me pergunta, mulher? Este é o seu país, Kiki! Eu nem entendo japonês! Foi o Tadeo quem me falou que o Louis falou com ele que o Ruto ligou no Hideout avisando que o Cid recebeu uma ligação mais cedo dizendo que a companhia que faz a enquete de mulher-mais-alguma-coisa-do-Japão precisou recalcular os votos. Como liberamos há poucas horas que você era a atriz misteriosa do Stray Sheep, somaram todos os votos que você recebeu e eles pensaram pertencer a várias mulheres, e com isso você entrou para a lista. Em nono lugar, mas ei, o importante é entrar, certo?"

"O...kay?" Como sempre Fang disparava a falar, o que já era difícil para um ser humano normal acompanhar, ainda mais quando falava em inglês com um forte sotaque australiano. Checando no celular, Kyoko observou estarrecida que realmente ela estava na lista de solteiras mais cobiçadas do país, quem diria! "Então será um programa ao vivo para entrevistar as dez mulheres da lista?"

"Não, as dez, não! Já pensou se colocassem dez mulheres em um único programa de entrevistas? Duraria dias! Não, parece que desde o início eles queriam entrevistar apenas as três primeiras, mas aí você chegou com um 'bang!' e eles simplesmente precisavam colocar você lá, certo? Kiki, você sabe mesmo fazer uma entrada!"

Enquanto as duas riam, não escapava à percepção de Kyoko como a vida era irônica: lá estava ela, antigo 'patinho feio', na lista das solteiras mais cobiçadas do país justamente quando tal título perdia totalmente a relevância para ela. Dois anos antes ela estaria absolutamente deslumbrada, vendo a si mesma como uma Cinderela da vida real; hoje, ela apenas comemorava intimamente que tal título traria ainda mais visibilidade a seu trabalho e a seus caros amigos. E pensando em amigos, pensou em Ren e no que ele diria a ela agora, vendo-a na lista. Demonstraria surpresa? Ou diria algo cavalheiresco? Seria sincero?

Percebendo que o sorriso enigmático no rosto da amiga trazia uma dose de dúvida, Fang não perdeu tempo em tranquiliza-la. "Ei! Nada de desânimo hoje! Somos piratas, certo? Tomamos o mundo de assalto, e agora ele nos pertence, certo? Não deixaremos um único coração sem ser saqueado, ok?"

"Ok!", concordou mais animada. E com a voz séria e a mão em seu ombro, Fang completou: "eu sempre lhe disse que você era um cisne, garota; os idiotas só estão reconhecendo isso agora".

Eram as palavras que Kyoko precisava ouvir para recobrar o ânimo. Tinha uma missão a cumprir e não poderia se deixar abater por incertezas. Falaria com Ren, sim, mas agora precisava se concentrar na tarefa à frente.

No escritório do presidente, três mentes procuravam freneticamente uma solução ao que prometia ser o escândalo do ano. Ruto havia saído sem que os presentes sequer se dessem conta, enquanto Yashiro cancelava todos os compromissos de Ren para o dia, já que seria um inferno enfrentar o público sem uma resposta para uma foto tão supostamente escandalosa.

"Eu preciso agradecer à nossa boa sorte por essa bomba ter estourado hoje, Ren. Não fosse o furor que a revelação do projeto Stray está causando, toda a mídia estaria concentrada em você e Ootomo-san!", falou o presidente.

"Eu fico até com pena de Kyoko-chan, afinal, querendo ou não esse escândalo está tomando parte dos holofotes que deveriam estar sobre ela", piorou Yashiro.

"Ótimo! Como se eu precisasse de mais um motivo para me sentir em dívida com ela!". "Pessoal, eu... eu realmente... eu sinto muito!"

"Ren, já ouvimos seus pedidos de desculpas. Agora precisamos saber como sairemos dessa enrascada. Tem algo que você possa nos contar sobre ontem à noite, algo que tenha lhe escapado?"

"Não, eu já lhes contei tudo que aconteceu naquele dia"

A verdade é que havia uma hipótese, uma bastante conhecida e da qual ele sempre fora bem-sucedido em fugir, mas que a cada momento se tornava mais difícil de ignorar não importava o quanto ele se esforçasse para não reconhecer. Talvez ele tivesse caído no bom e velho golpe da foto comprometedora.

Yashiro e Lory se entreolhavam preocupados, esperando que o outro fizesse referência ao elefante na sala. Decidiram tacitamente compartilhar a responsabilidade.

"Ren, vocês estavam em um restaurante cinco estrelas"

"Dentro de um hotel cinco estrelas que ela escolheu"

"E certamente ocuparam uma mesa reclusa, reservada a clientes especiais"

"E mesmo que não houvesse mesas ocupadas próximas a vocês, estamos diante de uma foto de incrível nitidez, que capturou um momento preciso em que a linguagem corporal de ambos insinua intimidade"

"Qualquer pessoa que veja a foto pensará que vocês são um casal, Ren"

"Não somos um casal!" A cada vez que diziam isso a ele, mais Ren sentia como se Kyoko estivesse escorrendo feito água de suas mãos.

"Ótimo, então vamos dizer isso à mídia!"

"Não!", praticamente gritou.

"Por que não, Ren? Por que você quer protege-la?". Yashiro estava rapidamente perdendo a paciência com seu amigo, enquanto Lory apenas os observava.

"Vocês não entendem? Se eu disser ao público que não somos um casal, sempre haverá a foto para nos comprometer! As pessoas pensarão que eu sou um playboy que apenas se aproveitou de Ootomo-san, e ainda assim relevariam em pouco tempo! Ao invés de me culparem por me aproveitar da moça, passariam a julga-la por conta de suas roupas e de sua postura e talvez até digam que eu a rejeitei após ter relações com ela! Ela seria motivo de escárnio de toda a sociedade, a imagem dela ficaria arruinada e tudo por que eu aceitei o convite dela para um drink após o trabalho!"

"Eu entendo tudo que você está dizendo, Ren. Mas e se ela não for tão inocente assim? E se ela plantou um paparazzi exatamente na janela que melhor visibilidade tinha da mesa de vocês, forjando toda a situação em benefício próprio? Afinal, ela colocou a chave do hotel próxima a sua mão; exatamente a mão que o ângulo da câmera captaria, e como modelo profissional ela tem experiência suficiente para saber desses detalhes".

"Sim, eu pensei sobre isso", admitiu cansado. "Mas ainda que conseguíssemos provar, demoraria um tempo do qual não dispomos. E enquanto houver a ligeira possibilidade dela ser inocente, não vou submete-la a pagar sozinha o preço".

"Então, parece que só temos uma saída, não é mesmo?", dissera Lory com tom pesaroso.

Yashiro também captava qual seria a solução dada pela expressão transtornada de Ren: confirmariam publicamente o relacionamento, para provável deleite da modelo.

"Mas... e Kyoko-chan?", perguntou aturdido.

"Yuki, agora não", pediu Ren com a voz trêmula e sofrida.

"Mas, Ren! Isso vai..." Esta foi a última gota. Descontrolando-se completamente, Ren levantou-se de ímpeto, segurou Yashiro pelas lapelas de seu terno e o ergueu, passando a gritar com o rosto muito próximo ao dele.

"Vai o quê, Yuki? Hum? Afastá-la por completo? Magoá-la? Inferno, eu nem sei se ela se lembra de mim! Claro que eu não queria correr outro risco, mas parece que eu estou fadado a perde-la por conta da minha estupidez! "

E descendo o agente ao chão, começou a soluçar em seu ombro.

"Eu vou perde-la, Yuki... eu vou perde-la e nem tive a chance de mostrar a ela!"

Ainda abalado pelo desabafo do cliente e amigo, Yashiro o abraça sem jeito. Neste momento, Ruto retorna ao escritório com um disco nas mãos. Sem dizer uma palavra, coloca o disco para reproduzir. Lory e Yashiro acompanham as imagens, enquanto Ren permanece chorando no ombro do amigo, de costas para o monitor. Quando Ren se acalma o suficiente, o agente o afasta de si.

"Ren... você precisa ver isso!"

No primeiro disco, a clara imagem de um fotógrafo se posicionando sorrateiramente sob uma janela, minutos antes de Ootomo chegar. No horário combinado para o encontro, aparece Ren entrando no hotel.

Não havia necessidade do vídeo, retirado de uma câmera de segurança da rua, mostrar nada mais aos presentes. Estava claro que o paparazzi sabia exatamente onde ficar, o que só poderia significar que o suposto flagrante fora armado.

Ren sentia o sangue ferver nas veias. Havia dado a Ootomo o benefício da dúvida, tentara proteger os sentimentos dela quando encerrara o encontro, apenas para descobrir que era o alvo de uma armadilha. Ao fundo, Lory pedia a Ruto que convocasse imediatamente o advogado do hotel enquanto ele mesmo contatava a agência de Ootomo.

Lory Takarada agradecia a Deus por ter colocado Ruto em sua vida, pois graças à agilidade do assistente em obter informações de maneiras que escapavam à compreensão humana, conseguia formular um plano. Ninguém magoava o seu casal favorito e saía impune.

N/A – Pois é... acho que estou aprendendo algumas coisinhas com Nakamura-sensei! XD O próximo capítulo será o momento de Lory Takarada brilhar! E muitas emoções aguardam Kyoko na entrevista ao vivo que fará!