- VI -

Harry acordou sentindo um perfume particular em sua cama. Abriu os olhos devagar, e deu de cara com os olhos cinzentos de Draco, observando-o dormir. Numa atitude defensiva, se lançou para trás, quase caindo da cama.

- É, bom dia para você também – Draco cumprimentou, segurando-o pelo braço, para evitar a queda.

- Desculpe, eu... não estou acostumado a acordar acompanhado. - Harry explicou, voltando a posição inicial.

Draco ergueu uma sobrancelha, fazendo-o corar. – Poupe-me dos detalhes sobre sua vida sexual inativa, Potter.

- Não que seja do seu interesse--

- E eu posso garantir que não é...

- Eu tenho uma vida sexual saudável. – Harry terminou, irritado. – Mas eu não me sinto confortável com todo a intimidade e cumplicidade na manhã seguinte.

- E isso é bem saudável, claro. Eu disse, poupe-me dos detalhes. – Draco avisou. – Já é quase hora do almoço.

- Draco... você dormiu? - Harry perguntou, lembrando da noite anterior.

- Dormi – ele respondeu, já levantando-se. – Estarei na cozinha se precisar de alguma coisa.

Harry se espreguiçou, sentindo-se muito melhor e descansado do que nos últimos dois dias. Olhou para a perna, não havia sequer cicatriz da mordida da fada dormente. Muito bom. Tentou lembrar-se de tudo da noite anterior, mas o que imediatamente lhe veio na mente foi ter combinado de viajar para Hogwarts com Draco no dia seguinte. E iriam na Mansão hoje à noite.

- Draco, o que acha que vai encontrar hoje à noite? – perguntou, entrando na cozinha, para ajudar com o almoço. Abriu uma garrafa de vinho, servindo-os.

- Não sei, mas tenho certeza de que lá há muita coisa sobre meu passado. Eu sei muito pouco sobre o meu pai, e sei que ele era um Comensal. E eu era um comensal. Então, talvez haja alguma coisa relacionada a ele que me ajude. – o loiro contou.

- E Pansy, quando vai visitá-la? – Harry continuou.

- Quando voltarmos de Hogwarts. – o Draco explicou. – Podemos não falar sobre isso agora?

Harry estranhou as atitudes do loiro. Ele parecia cansado, é verdade. Talvez fosse apenas isso.

- A propósito, obrigado – o moreno agradeceu. O amigo ergueu a sobrancelha, indicando não saber do que ele estava falando. – Por cuidar de mim, foi gentil da sua parte.

- Se você morresse, eu seria acusado de mais um homicídio. E minha ficha não anda tão limpa quanto a sua, São Potter.

Harry riu, decidindo não se perguntar nada sobre o estado estranho do loiro. Provavelmente, era ansiedade. De fato, ele ficou calado por muito tempo, durante a tarde. Harry queria ter feito alguma coisa para ajudá-lo a distrair um pouco a mente, mas não obteve muito sucesso nas primeiras tentativas, e acabou por desistir. As respostas curtas e risos superficiais de Draco deixavam claro que o moreno não estava ajudando em nada.

Harry arrumou ambas as malas e chamou um táxi cujo o motorista ele já conhecia bem, enquanto Draco tomava banho. Harry já tinha se acostumado ao fato do loiro demorar em baixo do chuveiro. Quando estavam a caminho da mansão, finalmente Draco voltou a falar normalmente.

- Eu não estou certo de que quero encontrar com Pansy, entende? - ele desabafou, surpreendendo Harry.

- Porque? – o moreno perguntou, curioso.

Draco hesitou. – Não sei. Apenas quero pensar melhor sobre ir vê-la.

Quase vinte minutos depois, eles chegaram à mansão. Harry pediu que Marcus esperasse eles voltarem, pois não deviam demorar mais do que uma hora. Correndo o taxímetro, Marcus pegou uma revista e avisou que esperaria.

Harry jogou uma pedrinha nas grades da mansão, mas dessa vez, ela não ricocheteou, quicando no jardim como uma pedra normal. Eles entraram afastando magicamente as grades do portão e arrombaram a porta de madeira nobre com muita dificuldade. Muitas teias de aranha e barulho de ratos se escondendo pelos ninhos.

- Lumos!

Por dentro, a casa ainda parecia muito maior. Harry buscou o olhar de Draco e pareceu-lhe que este estava quase emocionado. Seguiram em silêncio sala adentro, os móveis cobertos por panos brancos já meio roídos. Harry, ignorando o incômodo da poeira em seu nariz, puxou o pano de algums quadros, e de uma enorme cômoda, onde várias fotografias estavam depositadas.

Draco se aproximou, espirrando e passou muito tempo calado, apenas observando as fotografias. Depois de quase dois minutos, ele se manifestou.

- Eu jamais vinha para casa, se não tivesse nenhuma opção. Lucius costumava fazer reuniões em datas comemorativas. Minha mãe também não gostava muito disso, por isso, fazia o possível pra inviabilizar minhas férias em casa. Sempre dava um jeito de me manter afastado de tudo isso – ele contou, como se sempre soubesse disso. – Nas raras vezes em que vim para as férias, elas quase sempre terminavam com uma discussão séria e com Lucius me torturando como castigo por algum comentário indevido à mesa.

Harry pensou em perguntar o que era considerado um comentário indevido, mas se calou, visto que o loiro ainda não tinha terminado.

- Eu quase nunca vinha para meu aniversário, também. Essa foto aqui – ele apontou para uma das fotografias, onde ele estava abraçado a mãe e recebendo um presente do pai – foi do meu aniversário de dez anos. Foi a última vez que passei um aniversário com meus pais. Nos anos seguintes, eu fiquei em Hogwarts... Ás vezes conversava com eles por uma lareira. Geralmente, recebia carta.

- Eles pareciam ser muito ausentes em sua vida – Harry comentou, sem poder se conter.

- Eles eram. Minha mãe tentava ser mais presente, principalmente nas férias de verão. Ela passava horas conversando comigo no quarto, perguntando sobre minha vida em Hogwarts e falando de como as coisas aqui estavam correndo. Ela sempre dizia que tinha medo de que eu crescesse e não tivesse coragem de enfrentar meu pai. Ela sabia que eu acabaria me tornando um comensal.

- Acho que você não tinha muita opção.

Draco não respondeu ao comentário. Cobriu as fotografias e respirou fundo, se preparando para subir a escada que estalava sob seus pés. Chegando ao andar superior, Draco atravessou o corredor cheios de quarto. Finalmente, ele parou diante de um.

- Harry, eu vivia aqui – ele apontou para o quarto diante de si.

Harry nunca tinha o visto tão frágil quanto agora. Nem mesmo quando ele estava dormindo. Colocou a mão sobre o ombro dele. – Se você não estiver pronto, nós podemos voltar aqui quando chegarmos de Hogwarts.

Draco tirou a mão do moreno do seu ombro com educação. - Não, eu estou pronto. É só que... Eu nunca pensei que essa casa perderia tanto o significado dela para mim, sem meus pais aqui – ele explicou, já começando a girar a maçaneta.

Draco sentiu o corpo pesado e dolorido. O chão estava tremendo. Tentou se mover, com dificuldade, e abriu os olhos. Estava na cabine do trem.

- Como é que eu vim parar aqui? - perguntou a Harry, que o olhava com curiosidade do outro lado da cabine.

- Você está bem? – Harry perguntou, e Draco assentiu. – Anh... Você começou a dizer muitas coisas, muito rápido. Acho que você se lembrou de mais coisa do que podia controlar. Seu nariz começou a sangrar e você desmaiou. Eu e Marcus tivemos muita dificuldade pra por você dentro do expresso sem chamar muita atenção. Tivemos de cobrir você com minha capa da invisibilidade.

Draco sentou-se, e tentou recordar de alguma coisa importante que possa ter se lembrado dentro do quarto.

- Harry, pergunte-me alguma coisa do que eu disse dentro do quarto. – Pediu, sem cortesia.

- Conte-me como foi que seu pai reagiu quando soube que você não queria ir para Drummstrang - Harry propôs.

- Ele... – Draco olhou pela janela, deixando a mente vagar – ele disse que eu era mesmo um imbecil, me torturou e disse que eu jamais seria um homem honrado como ele. E que se eu um dia resolvesse seguir um caminho diferente do que a minha família tinha para mim, que eu fugisse e me escondesse bem. Porque se ele me encontrasse, me mataria com todo o prazer.

- Você lembra de quando seu pai entrou em seu quarto nas suas primeiras férias de verão? Vocês falaram sobre mim. – Harry continuou indicando uma linha de raciocínio para Draco.

- Eu disse a ele que você era paparicado por todos do colégio, e que andava com os Weasleys e com os Sangue-Ruins e que era um grifinório. Ele disse que eu deveria saber de todos os seus passos e te atrapalhar sempre, e deixá-lo informado sobre sua vida, para que ele pudesse acabar com sua vida e nós dois, eu e ele, receberíamos todas as glórias de Lord Voldemort. - Draco sentiu-se enojado por seu pai e cansou de falar. – Eu não quero mais pensar em nada disso, Harry, obrigado.

- Tem certeza?

- Tenho. Eu já sei que fui altamente manipulado por meu pai. Me resta saber se eu tinha mesmo uma visão igual à dele. E isso vou saber quando chegar em Hogwarts - ele explicou.

Na verdade, estava se sentindo cansado. Queria alguma coisa que provasse de vez que era inocente, que ele não tinha matado aquele velho. Aquelas lembranças só o faziam ter mais certeza de que ele nunca fora uma pessoa má de verdade.

Ele se sentia examinando a vida de uma outra pessoa. Como se o Draco que ele pesquisava estivesse ligado a ele por um fio muito fino e sensível, um Draco parecido com ele, mas ao mesmo tempo, muito diferente e distante. Eles não tinham mais o mesmo rosto nem as mesmas atitudes. Mas ainda possuiam um passado em comum e algumas manias e pensamentos.

Um deles não admitiria jamais ser ajudado por Harry Potter, e faria de tudo para ter uma oportunidade de tirá-lo do sério. Jamais conseguiria aceitar o fato de ter de morar na mesma casa que o moreno. Jamais trabalharia num orfanato, nem gostaria de nenhuma criança, nem se derreteria com o abraço da pequena Violet.

O outro, não só pedira por ajuda e ajudava-o, como também tentava agradá-lo. Tinha se acostumado à companhia do moreno com rapidez e apreciava a atenção que recebia do amigo. Não se incomodava tanto com as crianças do orfanato, e tinha um grande carinho por Violet.

E ambos eram orgulhosos demais pra assumir essa diferença. Por isso, Draco manteve sua postura. Às vezes, quando revia sua situação, ainda se sentia meio incomodado por estar sendo ajudado de forma tão intensa por Harry, e pensava que alguma coisa não estava em seu lugar naquela história toda. Mas logo imaginava o que ele faria se não fosse pela ajuda do Ministro e a consequente ajuda do moreno, e tratava de não se fixar nessa fenda por muito tempo.

Já era muito tarde quando finalmente se alojaram em um albergue em Hogsmeade. Acabaram por dividir um mesmo quarto, por falta de opção. O albergue era mesmo muito pequeno. Cansados demais para fazer qualquer outra coisa, foram direto para o quarto. Draco não estava tão cansado, já que havia descansado bastante na viagem. Mas estava entediado e pensou em fazer da sua noite algo mais divertido.

- Tem certeza de que não quer jogar uma partida de xadrez-bruxo, Harry? – propôs.

- Uhm... Talvez amanhã, Draco – o moreno recusou, já trocando de roupa

Sem se importar muito com a presença do loiro, Harry já havia tirado a camisa e começava a tirar a calça, quando Draco resolveu buscar o que comer. Voltou para o quarto com uma bandeja com café e biscoitos, para desgosto do próprio loiro.

- Achei que você não gostasse de café – Harry comentou, enquanto o loiro os servia.

- Nada melhor que um incremento às receitas que não nos agradam – Draco sorriu quase inocente, enquanto bebia um pouco do seu café.

Harry imitou-o, e logo que pôs o primeiro gole na boca, reagiu – Café com Firewhisky? Não sabia que você era um alcoolatra em potencial, Malfoy.

- Aposto um galeão que você não é tão bom quanto eu no xadrez. – Draco insistiu, percebendo que o amigo já estava mais acordado.

- Draco... Você não tem um galeão. – Harry ergueu uma sobrancelha.

- Esse é um detalhe, assim que eu conseguir provar minha inocência eu terei milhões. E te pagarei. – Draco brincou.

O moreno respirou. – Tá. Você venceu, Draco. Mas será apenas uma partida.

Começaram, enquanto conversavam muitas bobagens. Após algumas xicaras de café, Draco e Harry estavam rindo à toa.

- Gina Weasley não parece mais tão apaixonada por você. O que aconteceu com os olhos de sapinho cozido? – perguntou, enquanto seu peão arremessava o bispo do moreno para longe.

- Nossa, isso foi a tanto tempo! A gente chegou a ficar juntos, mas acabou. - Harry explicou. - Era coisa de criança. Fale a verdade, você teve algo a ver com aquele cartão?

- Claro que não! Eu só segurei o cupido tempo o suficiente pra que ele te encontrasse no corredor cheio. Ver você corar sempre foi uma das minhas diversões favoritas. – o loiro avisou, fazendo-o corar. – Exatamente como agora.

- Será que é porque você nunca teve sangue o suficiente para corar? – Harry incomodou-se diante a excessiva atenção que estava recebendo do outro agora. – Porque você não fala do seu relacionamento com Pansy, para variar?

- Até onde eu me lembro, eu nunca tive nenhum relacionamento com Pansy. Nós dormimos juntos apenas uma vez, e foi nossa primeira vez. Desde então, não me lembro de ter nada com ela. Xeque.

- Draco Malfoy, você foi uma criança precoce – Harry comentou, tentando livrar seu rei, sem sucesso.

- Eu, precoce? Você que é um retardatário, Potter. Eu sou normal, obrigado. – Xeque-Mate. – ele comemorou. - Agora posso dormir em paz. Você guarda tudo, e me deve um galeão.

Tirou os sapatos e a roupa, colocando sua calça de dormir, e enfiou-se embaixo dos lençóis, enquanto Harry guardava o tabuleiro e as xícaras. Por um momento, uma imagem quase poética do moreno passou pela sua mente, mas ele afastou-a com vigor, culpando o Firewhisk pelo pensamento.

- E nem pense em me chutar essa noite, Potter. - Draco avisou, virando-se para o lado.

- Eu te chutei ontem à noite? – Harry perguntou, corando, para a satisfação de Draco.

- Mesmo que eu quisesse, não teria conseguido dormir – o loiro contou. – Essa história de "não me sinto confortável com todo a intimidade e cumplicidade na manhã seguinte" e blá blá blá... Aposto que nenhuma mulher queria dormir com você mais de uma vez.

Harry corou mais ainda, para alegria de Draco. – Nós não dormíamos, Malfoy, haviam coisas mais interessantes a serem feitas, sabia?

- Eu já disse, poupe-me dos detalhes enfadonhos da sua vida sexual, Potter... – Draco reclamou.

- Foi você quem co—

- Boa noite, Potter.

Draco ainda ouviu o moreno soltar um muxoxo antes de desligar as luzes com um gesto da varinha.

N/A: Estou viva. O sétimo livro saiu, mas minha história vai continuar até que eu termine.  Desculpem, desculpem mesmo pela demora absurda, mas é que pré-vestibular é fogo. Um beijo enorme pra todo mundo. Não prometo nada para o próximo capítulo. Senão posso acabar descumprindo, sei lá.