- Sensei... te amo - disse sorrindo.
Ele ficou surpreso. Então, colocou a mão sobre a minha cabeça e afagou-me como costuma fazer, sorrindo.
- Então, vista-se logo. Vamos sair - ainda sorrindo.
- Mas, e o curry? E pra que devo me vestir?
- Não é nada demais, mas, não acho que este seja o melhor modo de sair por aí, não acha? Eu posso não ver nenhum problema mas... - Apontou pra mim - Se andar sem camisa e com essa calça baixa assim durante a noite, vão confundí-lo com um tarado - ri divertindo-se, imaginando a cena.
Tinha até esquecido. Era um pouco embaraçante mostrar meu corpo daquele jeito pra ele. Mesmo que já tenha me tocado... Naquele lugar. "Por que lembrei disso agora?"
- E..Eu posso tomar um banho agora? - embaraçado.
- Tudo bem. Vou depois de você - sorriu.
- C-como assim?
"Que história é essa de ir comigo??"
- Depois que acabar, quero tomar banho também. O trabalho me deixou desgastado - suspirou.
- Aaah, tudo bem.
"Por que vi segundo sentido naquilo? Era óbvio que ele não iria entrar comigo"
Depois do banho fui procurar minhas roupas e não encontrei. Fiquei preocupado. "O que ele pretende?" Esperei que ele terminasse o banho para perguntar sobre as roupas.
E lá vinha ele... Com uma toalha envolvendo parte do corpo e a menor, secando os cabelos negros. Não pude deixar de ficar encantado com aquela visão. Não que eu não tivesse visto uma outra vez, mas, eu devia estar preocupado demais com meus sentimentos para notar o quão belo era aquilo. Deixei meus pensamentos de lado e interroguei-o:
- Não consigo encontrar minhas roupas. Você sabe onde estão?
- Ah, tinha esquecido de dizer - sorri desajeitado - elas não podiam ficar em sacolas pra sempre, não é? Arranjei um espaço pra elas no meu guarda-roupa - sorri. Venha, vou mostrar - pegou minha mão, me levando até o quarto.
"Seria isso uma desculpa? Ou estava mesmo falando a verdade? Ou os dois?"
- Veja.
Abriu a porta do guarda roupa, mostrando a separação.
- E essa gaveta aqui é sua. Se precisar de mais espaço, é só dizer que eu arranjo - sorri.
Aquilo me deixou feliz. Eu me sentia como um morador e não um hóspede.
- Sensei, obrigado. Me acolheu aqui e faz tanto por mim... Eu, vou procurar emprego amanhã e pode deixar que vou conseguir meu apartamento de volta! - determinado, mesmo que não quisesse sair do apartamento dele.
- Não. Não quero que volte pro seu apartamento, Hikaru-kun.
Fiquei vermelho. Ele queria que eu ficasse.
- Por favor, fique.
Ele queria que eu ficasse!!
- T-tudo bem. Mas mesmo assim, vou arranjar um emprego e ajudar com o orçamento da casa. O que acha?
- Acho... Que está crescendo - sorri com orgulho.
Por mais que existam coisas que nos afastem, sempre acabamos assim, como se nada disso importasse. Aqueles momentos em que falamos de coisas triviais, são os que fazem a diferença pra mim, me fazem ver o quanto ele é especial... Esse cara... Eu definitivamente o amo.
Tomei posição ofensiva. Sem pensar muito no que estava fazendo, levei-o até a cama, mirando aqueles olhos azuis com intensidade. Ele obedeceu, deixando-se deitar. Sim, minha vez de agir por instinto. Beijei-o lascivamente. Quando nos separamos, o vi corado, tentando recuperar o fôlego. Aquilo era a prova de que ele queria à mim, talvez este desejo fosse maior que o meu e pensar nisso me excitava. Dei-lhe mais um beijo.
- Parece... Que não vamos sair hoje - sorriu.
Não pude deixar de sorrir.
- Hikaru-kun? Tem certeza que quer isso? - falou com expressão séria.
Hesitei um pouco.
- Sim.
Sorriu com malícia.
- Então... - segurou meus braços e trocou de posição comigo, deitando-me na cama.
Aquilo foi inesperado, mas, não perdi a empolgação. Ele me beijava com a mesma intensidade. Largou minha boca pra beijar meu corpo, começando pelo pescoço e descendo até ser impedido pela toalha.
Desta vez, não pediu meu aval, apenas se livrou dela, jogando-a para longe.
Não era bem esse tipo de comemoração que eu tinha pensado, mas...
- Não - ele disse.
Fiquei confuso.
- Não?
Pegou a toalha menor e me cobriu. Levantando da cama.
- Ainda não é a hora.
- Quê?Mas, por quê? - Enrolei-me com a toalha maior e fui até ele.
- Hikaru-kun, você confia em mim?
Silêncio.
- Viu?! Ainda não é a hora. Vista-se e vamos dar uma volta pelo parque - deu um sorriso forçado.
- Como posso confiar em você... Se está sempre me dando motivos pra desconfiar?
O silêncio invadiu o quarto novamente.
- Já chega. Vá embora. Não volte nunca mais! - me contorcendo por dentro.
- Esse é meu apartamento.
Realmente...
- Então, eu vou! - segui até a porta, fui impedido.
- Pretende ir assim?
- Depois... De trocar de roupa!
- E onde vai ficar?
- Em qualquer lugar, desde que seja longe de você.
E lá iam minhas roupas de volta às sacolas... Na saída, ele tentou me impedir novamente, me abraçando, como se eu fosse mudar de idéia... Fui frio e esperei que ele desistisse. Aos poucos foi afrouxando os braços, nossos olhares se cruzaram dispensando palavras. Ele se afastou, deu um sorriso fraco e saiu do caminho.
Fui até a casa do Akira e toquei a campainha. Ele mesmo abriu a porta.
- Hikaru?
- Posso dormir aqui esta noite?
A mãe dele me recebeu muito bem, até disse que prepararia alguma especialidade dela para que eu jantasse. Enquanto isso, Hikaru falava com o pai na cozinha. No fim, acabei me instalando no quarto dele.
- Então, brigou com "aquela pessoa"?
- Sim. E quero que ele se dane! Aquele idiota!!Eu viro gay, me esforço pra agradar, tento ser paciente, compreensível, mas não adianta... Ele parece que é tapado!!
- Er... Hikaru... Acho que você tá falando um pouco alto, sabe...
- Ah, desculpe.
- Tudo bem, tudo bem. Mas o que aconteceu?
Fiquei vermelho.
- Quer saber dos fatos?
- Hunrum.
- Tipo... O que aconteceu essa noite, não é?
- Isso.
- Exatamente como foi?
- É. Algum problema? Se sente mal em falar?
- Er... Digamos que sim... Mas o fato é que eu não acredito naquele cara! Tem como morar com uma pessoa e conhecê-la cada vez menos?? Ele é todo cheio de charme, faz eu me aproximar pra me dar uma patada depois! É, mas isso não vai acontecer de novo. Ah, não vai! Porque eu não vou mais vê-lo. Ele que arranje um novo brinquedinho pra ele!
A porta se abre.
- Aquele sensei maldito... Não deveria nem me considerar como namorado, mas como... Algo como... Escravo do amor! É isso!!
"Escravo do amor" que ridículo...
- Eu ouvi bem?
Era ela, a líder de torcida, Mika-chan. Eu e Akira ficamos atônitos.
- Shinji-kun, você e o sensei...
Fechei a porta e tapei a boca dela.
- Shiii, fica quietinha e não sofrerá conseqüências graves.
- Hikaru, solta ela - falava Akira.
- Não, ela vai revelar meu segredo.
- Hikaru, você tava falando coisas comprometedoras desde o começo em voz alta... Não vai adiantar de nada isso.
- Não, ela veio aqui só pra descobrir sobre isso!
- Hikaru, eu acho que...
- E vai contar pra todo mundo amanhã!
- A garota tá ficando sem ar.
- Beleza! Aí ela fica inconsciente e a gente a leva pra casa, quando acordar amanhã vai pensar que isso tudo foi um sonho e estaremos salvos.
- Não viaja.
- É um plano perfeito!
- Hikaru, ela é minha irmã.
Silêncio. Soltei a garota na hora.
Depois que me dei conta de que a Mika-chan era mesmo a irmã mais nova do Akira, ela explicou que tinha ido levar doces da Tomoe-san pra mim.
- Desculpa, assustei você.
- Tudo bem, eu não deveria ouvir a conversa dos outros, né?!
Então quer dizer que foi de propósito??
- Mas, já que aconteceu... Você e o seu sensei... eram namorados??
Silêncio. Olhei pro Akira e ele pra mim.
- Então quer dizer... Que você é gay?
Silêncio. Olhei pro Akira de novo e ele pra mim.
- YAOI!!Ah... Me conta isso direito vai!
- Ya...Oya?[1] - fiquei confuso.
- Vai me contar ou não? Aki-chan, você também é gay?
- Mika!!
- Você é???Por que não me contou? Seu malvado!!
Tentei conter meu riso.
- Eu não sou e já terminou o que tinha que fazer aqui, se não se importa... - apontou para a porta.
- Malvado! Shinji-kun, agora que não está mais com seu sensei, vai namorar o Aki-chan?
A quanto tempo ela estava nos ouvindo??
- Mika!!
- O Aki-chan é meu amante - perverso.
- Hikaru!!Você também... Já chega - levou Mika até a porta e fechou.
Do lado de fora ela ainda disse:
- Yaoi!!Ai! - provavelmente babando.
Do lado de dentro:
- Aolia?[2]
- Tá querendo levar um murro do outro lado pra ficar igual é?
- Hohoho. Imagina... Foi só uma brincadeira inocente. Não fica bravo não, Aki-chan - sorri.
- "Shinji-kun" Shinji, Ah, é esse o seu nome não é?
- Qual o problema? - encarei-o.
- Hum, quem sabe, eu deva te chamar de Shin-chan.[3]
- É pra zoar? Eu ainda nem comecei!
- Tem o tempo que quiser, Hikaru - sorri.
- Hã?
- Pode ficar aqui até se decidir.
- Mas eu já decidi. Não vou voltar pra casa dele.
Ele colocou a mão sobre a minha cabeça, como o sensei costumava fazer, meu coração bateu mais forte.
- Sem problemas.
Dois dias depois, arranjei um emprego em uma livraria e ajudava na biblioteca da escola depois das aulas. Eu não era fanático por livros, mas, aquilo fazia com que eu me sentisse bem. Era como se eu pudesse vê-lo lendo quando chego em casa. Sentia que a qualquer momento ele olharia pra mim com um sorriso no rosto e diria "Okaerinasai."[4]
Nas aulas de japonês eu era indiferente. Tentava ter o mínimo de contato possível com ele e assim os dias iam passando.
[1] Yaoya: Lugar onde se vende verduras.
[2] Aolia: Personagem do anime "Cavaleiros do Zodíaco", um dos cavaleiros de ouro, saga G
precisa de mais detalhes?XD
[3] Shin-chan: anime japonês de um baixinho cabeçudo que fazia coisas sem noção.
[4] Okaerinasai: expressão japonesa dita quando alguém retorna a casa. Significa "Tenha um bom retorno" ou "Seja bem vindo de volta"
